VILLA NEWS

Quatro razões para dizer que o governo Lula já acabou

Manobra de Lula para dar tempo a Messias acabou ampliando o desgaste com Alcolumbre, contribuindo para a rejeição da indicação. (Foto: Andre Borges/EFE)

Ouça este conteúdo

No folclore político americano, pato manco é o presidente que ainda ocupa o cargo, mas já perdeu autoridade, capacidade de articulação e até respeito nos bastidores. Ele apenas cumpre os meses restantes do seu mandato sabendo que não seguirá no próximo. É a expectativa de poder que manda.

A metáfora usada no Brasil é a do presidente que toma café frio no gabinete. A dúvida que ronda Brasília, após derrotas históricas de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no Congresso na semana passada, é se ele já começou a grasnar e mancar ou se o garçom já o despreza, antes da campanha oficial de 2026.

A percepção de “fim do governo” – alardeada pela oposição após a rejeição de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal (STF) e pela derrubada do veto presidencial à Lei da Dosimetria para presos do 8 de janeiro – tem respaldo na absoluta falta de sustentação parlamentar e no que isso sugere.

Além da inepta coordenação política do Palácio do Planalto, os episódios indicam que Davi Alcolumbre (União-AP), presidente do Senado, assumiu o posto de inibidor-mor da atuação do chefe do Executivo, antes exercido pelos presidentes da Câmara. Governabilidade e presidencialismo colapsaram.

Falta de apoio parlamentar, avanço da direita, crise com o STF e inflação

A rejeição histórica de Messias ao STF simbolizou o rompimento da coalizão no Senado que sustentava o governo no Congresso, baseada em partidos de centro. O Lula 3 está, então, politicamente liquidado, o que dificulta a reeleição. Mas há ainda outras três razões para dizer “o governo acabou”.

A primeira é o desgaste da parceria entre Lula e o STF. O escândalo do Banco Master expôs tensões internas, suspeitas e desconfortos na Corte, o que contaminou o alinhamento entre Executivo e Judiciário. Diante disso, Lula tenta se afastar de aliados de toga e até adota discurso de outsider político.

Outro motivo está na consolidação da candidatura oposicionista de Flávio Bolsonaro (PL). Cresce entre governistas o temor real de derrota em 2026, e os apoios de conveniência enxergam alternância e atuam em função de um novo cenário à direita. A oposição já usa o “fim de governo” como fator mobilizador.

Por fim, persiste o cotidiano do brasileiro marcado por uma carga negativa: inflação percebida, elevado endividamento das famílias, violência urbana e o desconforto com sucessivos casos de corrupção e má gestão. A política perde espaço para a vida real e o governo paga esse preço nas ruas e nas urnas.

Governo aposta em máquina estatal e base social para ressuscitar nas urnas

Apesar do clima de “já ganhou” na oposição, a história brasileira recomenda cautela com diagnósticos definitivos. Presidentes já sobreviveram a crises profundas e reverteram cenários considerados irreversíveis. O próprio Lula acumulou episódios de ressurreição política ao longo de sua trajetória.

Um dos principais trunfos de Lula continua sendo a máquina pública. O governo ainda dispõe de orçamento, programas sociais, publicidade e capilaridade administrativa. Em ambiente pré-eleitoral, essa estrutura pode reordenar alianças, forçar entregas e reduzir parte do desgaste acumulado.

Outro fator relevante é a resiliência eleitoral de Lula. Mesmo enfrentando queda de popularidade, o presidente preserva um piso consistente de apoio popular, mesmo com recuos relevantes na juventude e no Nordeste. O representante da esquerda no segundo turno, se houver, pode sonhar com reviravoltas.

Há que se considerar ainda que o establishment sempre reage a cenários de instabilidade. Agentes públicos e privados privilegiados e setores do Judiciário que se veem ameaçados podem agir para conter o risco de ruptura. Entre o “fim de governo” e a recuperação eleitoral, tudo segue em aberto.

VEJA TAMBÉM:

Você pode se interessar

Encontrou algo errado na matéria?

Comunique erros

Use este espaço apenas para a comunicação de erros

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *