Eduardo Bolsonaro manifestou seu apoio a André do Prado, criticado por Ricardo Salles: “pupilo do Valdemar”. (Foto: Matheus Batista/Agência Alesp / Erik S. Lesser/EFE / Vinícius Loures/Câmara dos Deputados)Ouça este conteúdo
O apoio de Eduardo Bolsonaro a André do Prado (PL), presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), para a disputa ao Senado por São Paulo em 2026 reacendeu nas redes sociais uma discussão recorrente da direita brasileira: até que ponto alianças com políticos do Centrão são válidas para atingir objetivos?
“A candidatura do pupilo do Valdemar é mais uma manobra do Centrão corrupto para usar a direita para se eleger e depois jogar o jogo da velha política”, diz à Gazeta do Povo o deputado federal Ricardo Salles (Novo-SP), ex-ministro do Meio Ambiente de Jair Bolsonaro. Ele também é candidato ao Senado, mas não recebeu o apoio de Eduardo.
Em 2024, quando ainda era deputado do PL, Salles ficou próximo de disputar a Prefeitura de São Paulo, mas sua pré-candidatura foi deixada de lado depois do apoio do ex-presidente Jair Bolsonaro à reeleição de Ricardo Nunes (MDB).
Prado, que preside a Alesp desde 2023, tem relação próxima com o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, e se consolidou como um articulador do Centrão na política paulista. Em março de 2025, sua reeleição à Presidência da Alesp teve apoio de vários partidos, inclusive do PT, em uma composição que entregou ao petista Maurici a 1ª secretaria da Casa, estrutura considerada uma das mais relevantes da Assembleia.
O pré-candidato ao Senado iniciou sua trajetória política em Guararema, no interior de São Paulo, onde foi vereador, vice-prefeito e prefeito antes de chegar à Alesp em 2011. Desde então, foi reeleito para quatro mandatos consecutivos como deputado estadual e passou a ocupar cargos de comando na Casa, até chegar à presidência da Alesp, posto que o colocou no centro das negociações entre o governo Tarcísio e diferentes partidos.
Ele é visto como um operador político capaz de transitar entre governo, oposição e Centrão, sem uma trajetória marcada pela defesa pública de causas ou posições políticas claras. Esse perfil é justamente o que provoca desconfiança em parte da direita.
Antes do apoio de Eduardo a Prado, a direita paulista mostrava pretensão de voto principalmente em nomes como Guilherme Derrite (PP) e do próprio Salles, além de alternativas cogitadas pelo PL, como Mario Frias, Gil Diniz e o vice-prefeito Mello Araújo. Com André do Prado na disputa, o cenário mudou.
No X e no Instagram, a decisão de Eduardo recebeu comentário negativo até de pessoas que o apoiam. “Gosto muito do Eduardo, mas o meu voto eu não rifo, vou de Derrite e Salles”, afirmou um usuário. Muitos também recordaram que a direita já apostou em arranjos semelhantes em outros momentos, e acabou vendo políticos eleitos com apoio conservador se distanciarem depois das pautas que os colocaram no poder.
Como mostrou reportagem recente da Gazeta do Povo, nomes eleitos ou fortalecidos com apoio da direita romperam com Bolsonaro, migraram para partidos de esquerda, assumiram cargos no governo Lula e até chegaram a barrar pautas importantes para os conservadores. Os presidentes do Senado Rodrigo Pacheco (PSB-MG) e Davi Alcolumbre (União-AP), apoiados em certo momento pela direita, travaram depois pedidos de impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e a pauta da anistia do 8 de janeiro.
Suplência de Eduardo é justificativa para quem defende apoio a André do Prado
Exilado nos Estados Unidos e com dificuldades políticas e jurídicas para disputar diretamente uma eleição no Brasil, Eduardo Bolsonaro anunciou que entrará na chapa como primeiro suplente de André do Prado. Isso se tornou o principal argumento de quem defende o apoio de Eduardo ao deputado estadual – a suplência poderia ser sua porta de entrada ao Senado.
Em entrevista à Rádio Auriverde nesta quarta-feira (6), Eduardo sugeriu justamente isso ao tratar a suplência como uma forma de contornar sua situação atual. “A gente teve que entrar por esse caminho do André Do Prado, que é uma excelente pessoa, é uma pessoa que transmite, sim, uma verdade. É uma pessoa que está com toda a energia para rodar o Estado de São Paulo. E eu tenho certeza de que, eu sendo suplente, eu vou ser o seguro dele. Eu mato o problema do meu exílio e da minha impossibilidade de retornar ao Brasil, porque eu sou suplente”, afirmou.
A fala reforça a leitura de que o apoio dado nesta semana é visto como uma saída política por Eduardo. Em um eventual governo Flávio Bolsonaro, por exemplo, uma nomeação de Prado para um cargo no governo abriria caminho para que Eduardo herdasse a cadeira. Aliados de Eduardo argumentam que a decisão é pragmática: Prado preside a Alesp, tem força no interior de São Paulo e capacidade de articulação.
A eleição ao Senado tem uma complicação matemática para a direita: como só duas vagas estarão em disputa, a fragmentação do eleitorado entre mais de dois nomes pode abrir espaço para um candidato de esquerda que talvez não tivesse votos suficientes para se eleger em um cenário com apenas duas candidaturas fortes apoiadas por direitistas.
Essa é mais uma crítica de parte da direita em relação ao apoio de Eduardo a Prado: Salles e Derrite perderiam votos para um político centrista e poderiam, com isso, ceder espaço para um dos nomes da esquerda, como Simone Tebet ou Marina Silva.
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