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A vida só é um interminável vale de lágrimas porque a gente quer

A aurora. (Foto: Daniele Siqueira)

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Acordei com raiva. Uma raiva difusa, fruto de umas ansiedades tolas e uns arrependimentos nada-a-ver. Como, aliás, são todas as ansiedades e arrependimentos. Na saída do banho, porém, minha mulher me mostrou a foto que ilustra este texto. É o sol nascendo por trás da Serra do Mar. Um dia novo que se anuncia, cheio de oportunidades para fazer o bem. Mas que muitos (inclusive eu) talvez desperdiçarão fazendo o mal.

Não necessariamente o mal ativo, aquele de destruir o outro. Me refiro mais ao mal que se comete por omissão. Afinal, estamos todos distraídos demais com as tretas nas redes sociais ou com o noticiário escandaloso. Ou, por outra, estamos todos ocupados demais salvando o Brasil ou a Civilização Ocidental, quando não a Humanidade. E em meio a esse frenesi ignoramos que todo dia é uma oportunidade de lançar ao menos um olhar para o nosso semelhante. É, esse aí ao seu lado.

Manco da alma

Um olhar que pode ser apenas um bom dia ou até mesmo um como vai, precisa de alguma coisa, em que posso te ajudar? Por falar nisso, estou aqui escrevendo e pensando em como se tornou raro isto: um simples bom dia. E mais raro ainda é nos darmos conta de que o outro existe e às vezes precisa de um segundinho da nossa atenção. Fazer uma boa ação não é apenas ajudar o cego a atravessar a rua; às vezes é ajudar o manco da alma a atravessar o dia.

A raiva se dissipou, substituída pela doce melancolia de ser incapaz, de não conseguir (por mais que eu tente, me esforce, grite, me jogue no chão e me descabele) fazer o leitor perceber que uma aurora dessas, bicho, quando admirada assim, à toa, nem que seja por uns segundinhos apenas, nos une a Deus e nos faz entender, nem que seja para esquecer no instante seguinte, que a vida só é esse interminável vale de lágrimas porque a gente quer.

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