O papa Leão XIV na sua primeira saudação aos fiéis, em 8 de maio de 2025. (Foto: Ettore Ferrari/EFE/EPA)
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Nesta sexta-feira, o papa Leão XIV vai a Nápoles e Pompeia, e celebra missa no santuário de Nossa Senhora do Rosário, construído por iniciativa de Bartolo Longo, que o pontífice canonizou em outubro do ano passado. É com essa visita que Leão XIV vai comemorar o primeiro aniversário do dia em que o cardeal protodiácono, Dominique Mamberti, apareceu na loggia da Basílica de São Pedro e anunciou ao mundo que os cardeais haviam escolhido Robert Prevost para comandar a Igreja Católica (o Lucas Saba e eu estávamos lá na praça; você acompanhou a cobertura da Gazeta do Povo?). Um ano depois, o que podemos dizer sobre este início de pontificado?
Ao longo dos primeiros sete meses, Leão cumpriu uma série de compromissos que Francisco havia assumido, especialmente a condução do ano jubilar. Participou dos eventos marcados, e garantiu a publicação dos documentos mais importantes que estavam em fase de elaboração quando seu antecessor faleceu. A declaração do Dicastério para a Doutrina da Fé sobre títulos marianos causou controvérsia, mas por outro lado a exortação apostólica Dilexi te, iniciada por Francisco e terminada por Leão, é um texto muito bom. E para quem achava que, terminado o Jubileu, o papa finalmente botaria o pé na porta e começaria a fazer as coisas “do seu jeito”, o fato é que o jeito de Leão é tranquilo e discreto, oposto à montanha-russa que às vezes Francisco nos proporcionava. Até na sua grande entrevista, concedida à jornalista Elise Ann Allen, Leão XIV não disse nada de bombástico – só se escandalizaram os que têm as próprias agendas, e que não são exatamente o bem da Igreja.
A difícil busca da unidade na Igreja
De tudo o que sabemos sobre as congregações gerais que antecederam o conclave, o tema da unidade dentro da Igreja foi uma preocupação forte, e aparentemente os cardeais teriam visto em Prevost alguém capaz de cumprir a tarefa – até seu lema episcopal, in Illo uno unum (“no único [Cristo] somos um”), parecia indicá-lo para o posto. E ninguém pode reclamar, pois ao longo deste ano ele recebeu e conversou com bispos, padres e leigos de todas as orientações, do padre James Martin a defensores da missa tridentina. Alguns saem dessas audiências tentando “puxar” o papa para o seu lado; o Vaticano nunca responde, nem confirma nem desmente, mas basta observarmos o que Leão XIV diz e faz para ver quem está sendo honesto e quem está querendo apenas “sequestrar” o papa em nome da própria agenda ideológica.
Leão XIV tem um em estilo “desarmante”, como ele disse em sua primeira saudação. Passa o recado sem ouriçar, com sutileza, mas também com firmeza
E o problema não termina aí, naqueles que tentam convencer todo mundo de que “o papa é um dos nossos”; há os que rasgam vestes gritando “o papa é um dos deles!”, explorando e exagerando qualquer nomeação, qualquer audiência, qualquer coisinha que o papa diga para acirrar os ânimos daqueles já meio dispostos a enxergar Leão XIV com desconfiança depois do pontificado de Francisco. É o caso, por exemplo, do LifeSite News e de suas mídias parceiras, que já vieram até com insinuações de que tanto o atual papa quanto o seu predecessor seriam antipapas! Eu tenho para mim que esse povo terá muitas contas a prestar em termos de almas escandalizadas sem razão; posso ter muitos pecados, mas acho que por isso não terei de responder diante de Deus.
Leão XIV começa “ano II” do pontificado com desafios vindos dos dois extremos
No voo de volta da Guiné Equatorial para Roma, uma jornalista alemã perguntou ao papa sobre a decisão do cardeal Reinhard Marx, arcebispo de Munique, de implantar na sua arquidiocese o formulário para bênção de pares homossexuais aprovado pelo “caminho sinodal alemão”. Leão XIV respondeu: “a Santa Sé falou já com os bispos alemães. A Santa Sé deixou claro que não concordamos com as bênçãos formais de casais, neste caso, casais homossexuais, como perguntou, ou casais em situações irregulares, para além do que foi especificamente, se assim se pode dizer, permitido pelo papa Francisco ao afirmar que todas as pessoas recebem a bênção”.
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Não adiantou. O ex-presidente da conferência episcopal alemã, bispo Georg Bätzing, e a presidente do Comitê Central de Leigos Católicos, Irme Stetter-Karp, defenderam o tal texto, intitulado Segen gibt der Liebe Kraft (“Abençoar fortalece o amor”). Disseram que ele não prejudica a unidade da Igreja – o papa discorda, pois disse naquela mesma resposta que “o tema pode causar mais desunião do que unidade, e que devemos procurar formas de construir a nossa unidade com base em Jesus Cristo e no que Jesus Cristo ensina”. E também afirmaram que ele não desobedece Fiducia supplicans – o que é mentira; a declaração do Dicastério para a Doutrina da Fé tem muitos problemas, mas ela diz claramente que não deveria haver nenhum tipo de formalização das bênçãos, enquanto os alemães fizeram justamente isso, criando uma liturgia (ou, ao menos, uma paraliturgia) para esses momentos.
Na outra ponta, temos os tradicionalistas radicais da Fraternidade Sacerdotal São Pio X (SSPX), que promete seguir adiante com as ordenações episcopais sem mandato papal marcadas para julho – os nomes dos padres escolhidos para essa aventura devem ser divulgados em junho. O superior da SSPX, padre Davide Pagliarani, já se encontrou com o cardeal Victor Fernández, mas o encontro não deu em nada porque, para os lefebvristas, é my way or the highway: é Roma quem tem de se converter, não os tradicionalistas que têm de se submeter à autoridade papal. A SSPX diz que pediu uma audiência com Leão XIV, mas que o papa não respondeu. Parece uma contradição, já que o pontífice tem recebido tanta gente, mas convenhamos: o que o papa tem a conversar com quem já disse que “em uma paróquia comum, os fiéis já não encontram os meios necessários para garantir sua salvação eterna”?
O jornalista Nico Spuntoni apurou que, dentro do Dicastério para a Doutrina da Fé, já está em preparação o decreto sobre o ato cismático de ordenar bispos sem autorização do papa, e que o Vaticano também estaria planejando o acolhimento aos fiéis tradicionalistas que desejassem pular fora da canoa furada da SSPX após a desobediência de seus líderes se concretizar. Como ainda há dois meses até a data marcada para as ordenações, existe tempo para que os lefebvristas botem a cabeça no lugar – a tese de Ed Condon, do The Pillar, é de que Leão XIV não recebe o padre Pagliarani justamente para não forçar a ruptura: se houvesse a audiência, o papa teria de dizer ao superior da SSPX que não autoriza as ordenações, que a SSPX tem de aceitar a legitimidade da missa nova e do Concílio Vaticano II, e o padre Pagliarani teria de responder, ou deixando claro o espírito cismático, ou recuando. Como essa última possibilidade é, bem, uma impossibilidade, sobraria a concretização do cisma, algo que o papa quer evitar, mas seria antecipado em caso de um encontro face a face entre o pontífice e o superior da SSPX.
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Leão XIV passa o recado sem partir para o confronto
Não botar gasolina na fogueira é bem o estilo de Leão XIV – basta ver como o papa também não quis entrar no jogo de Donald Trump e suas provocações megalomaníacas. Um estilo “desarmante”, como ele disse em sua primeira saudação, naquele 8 de maio de 2025, referindo-se à paz do Cristo ressuscitado. Passa o recado sem ouriçar, com sutileza, mas também com firmeza – como quando, diante da líder da Igreja Anglicana, Sarah Mullally, disse que “novos problemas surgiram nas últimas décadas, tornando o caminho para a comunhão plena [entre anglicanos e católicos] mais difícil de discernir”, sendo que um desses “novos problemas” é justamente a “ordenação” de mulheres na Igreja da Inglaterra…
Quando Leão XIV estiver em Pompeia, nesta sexta – e a Súplica a Nossa Senhora do Rosário de Pompeia foi inclusive mencionada pelo papa no fim do seu primeiro discurso, antes que ele puxasse a Ave Maria –, agradeçamos a Deus com ele por este primeiro ano de pontificado, e peçamos que venham muitos outros, nos quais ele governe a Igreja com sabedoria e consiga essa unidade tão necessária, a unidade no Cristo que é caminho, verdade e vida, como ouvimos na missa do domingo passado.
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