O ex-deputado federal Alexandre Ramagem, em foto de abril de 2025. (Foto: Bruno Spada/Câmara dos Deputados)
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Estou prestes a lançar meu curso de Jornalismo, no qual venho trabalhando há pelo menos seis anos e que resume a minha experiência profissional, que reúne um pouco de tudo o que vivi e testemunhei ao longo de 38 anos de carreira. Quando comecei, em 1988, o jornalismo ainda não tinha sido completamente invertido, pervertido, subvertido, corrompido. O módulo que fecha o curso vai justamente mostrar exemplos de como esse triste processo se deu, pelo menos nos últimos sete anos… São matérias, artigos, editoriais e notas absolutamente enviesados, enganadores, ou mentirosos mesmo, tirados de jornais que já foram importantes e dos portais de notícias mais acessados do país.
Infelizmente, eu poderia produzir mais alguns módulos sobre esse tema – “O Jornalista e a Verdade” –, talvez indefinidamente, já que a imprensa que desistiu de ser imprensa vive apenas de lapsos, breves momentos em que tende a respeitar seus princípios fundamentais. Normalmente, há um criminoso desapego aos fatos, ao mundo real e um descompromisso com a busca pela verdade, com a apuração das informações. Exemplo mais recente vem de uma matéria publicada na versão digital do Washington Post em 13 de abril, sobre a detenção na Flórida do ex-deputado federal Alexandre Ramagem. É assinada pela brasileira Marina Dias, cujo pai, José Américo Dias, filiado ao Partido dos Trabalhadores desde sua fundação, foi deputado estadual pela legenda e presidente do PT de São Paulo entre 2008 e 2009.
Ninguém precisa ser um jurista como Luiz Fux para destruir a historinha de que o 8 de Janeiro foi uma tentativa de golpe de Estado
Marina embarca, feliz, na farsa sobre o 8 de Janeiro. E, claro, esquece, ardilosamente, as manifestações organizadas pela turma do pai dela – centrais sindicais, MST, partidos de esquerda – em 2006, 2013, 2014 e 2017, que terminaram em depredação de prédios públicos de Brasília muito pior… Golpe, golpe mesmo, só o quebra-quebra promovido por apoiadores de Bolsonaro (e alguns infiltrados). E ela escreveu assim, no Washington Post: “A campanha para deslegitimar o sistema eleitoral do país e planejar um golpe militar começou em 2021 e culminou nos ataques violentos a prédios públicos em 8 de janeiro de 2023, uma semana após a posse de Lula”.
Ela esclarece que essa narrativa é a de “autoridades brasileiras”, mas não se sente obrigada a confrontá-la com fatos. Poderia ter citado, por exemplo, alguns trechos do voto do ministro Luiz Fux no “julgamento” do tal “núcleo crucial”… Todos os lados da história? Para quê? Marina preferiu trabalhar pela aliança STF-PT, e rabiscou assim: “Bolsonaro, Ramagem e outros altos funcionários foram condenados no ano passado por tentarem realizar um golpe militar para manter Bolsonaro no poder após a derrota eleitoral de 2022. O plano incluía assassinar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o vencedor, e outros altos oficiais”.
Onde estão as provas dessa trama para assassinar autoridades que a jornalista cita? Na cabeça de Alexandre de Moraes? Marina Dias evita relatar que não havia militares envolvidos diretamente nos protestos do 8 de Janeiro, que nenhuma arma – exceto um bodoque, um estilingue – foi encontrada entre os manifestantes. Não questiona um “golpe de Estado” tentado num domingo, quando praticamente não há autoridades em Brasília. Não fala nada sobre os prédios públicos desguarnecidos como nunca tinha se visto, nem das tropas da Guarda Nacional que não saíram do Ministério da Justiça.
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Ninguém precisa ser um jurista como Luiz Fux para destruir a historinha de que o 8 de Janeiro foi uma tentativa de golpe de Estado. Basta ter olhos que vejam, ouvidos que ouçam e um mínimo de senso crítico, de apego à realidade. E é destruidor ver uma jornalista militante respaldando uma narrativa desengonçada, arquitetada pela aliança tirânica entre ministros do Supremo e o partido que ocupa o Palácio do Planalto. Quebra-quebra promovido por comunistas e socialistas é apenas quebra-quebra. O mensalão e o petrolão talvez nem tenham existido. Só assim se explicaria mais esse trecho do artigo do Washington Post: “O plano para reverter o resultado das eleições de 2022 foi a maior ameaça à democracia no país desde o fim da ditadura militar, em 1985”.
Marina Dias é reincidente. Durante a campanha de 2018, ela foi a responsável por uma matéria da Folha de S.Paulo que relatava uma suposta ameaça de morte feita pelo então candidato a presidente Jair Bolsonaro a sua ex-mulher Ana Cristina Valle. Em 2025, foi coautora de uma entrevista com Alexandre de Moraes publicada pelo Washington Post. Não fez nenhuma pergunta incômoda, sobre abusos, arbítrios e ilegalidades praticados pelo ministro desde a abertura do Inquérito do Fim do Mundo… Moraes foi retratado de forma amigável porque Marina Dias é muito seletiva nas “apurações” e nos “questionamentos” que faz e claramente procura acreditar que o magistrado é mesmo “a muralha em defesa da democracia”.
No curso que lançarei em breve me senti obrigado a explicar o que é um jornalista de verdade, pelos exemplos positivos e negativos – mais abundantes nos últimos anos, infelizmente. Assim, uma jornalista incapaz de admitir que Alexandre de Moraes promove uma implacável perseguição a seus críticos, a um grupo político, rasgando as leis, não é jornalista. Uma jornalista que abre mão da desconfiança, que age de forma enviesada não é jornalista. Uma jornalista que tem Daniela Lima como musa não é jornalista… Os desavisados podem até ver “jornalista do Washington Post” e achar que é uma profissional séria… Não é, é uma petista que usa identidade de jornalista. E, cá entre nós, o jornal americano, comprado em 2013 pelo fundador da Amazon, Jeff Bezos, é do jeitinho da Marina Dias. Seriedade? Não tem nenhuma.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos
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