4″33″, de John Cage: a versão para piano é a melhor! (Foto: Pixabay)
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Depois de me referir várias vezes à música 4’33’’, de John Cage, como uma bobagem e uma piada, quando não como uma estupidez e uma verdadeira porcaria, finalmente resolvi ouvir a música. Sim, a música. A música que muita gente vai dizer que não é música, porque a obra do compositor americano tenta o impossível, ainda mais no ruidoso tempo em que vivemos: captar o silêncio, a busca pelo silêncio e a impossibilidade do silêncio.
Para conduzir essa experiência, fiz todo um drama aqui em casa. O mais difícil foi pedir para minha mulher ficar quatro minutos e trinta e três segundos em silêncio. Mas, por milagre, deu certo. Pus os fones de ouvido, abri o Spotify, apertei o play e. Pelos quatro minutos e trinta e três segundos seguintes, fiz o maior esforço do mundo para ouvir o silêncio. Realmente ouvir o silêncio e encontrar beleza no silêncio. Se consegui? É discutível.
Clap
Porque na rua os carros passavam e o atrito da borracha dos pneus com o asfalto faz certo barulho. Sem falar no ronco das motos. Além disso, minha mulher esqueceu a máquina de lavar ligada e dava para ouvir o tambor girando com minhas cuecas a secar. Mas o pior mesmo era o zumbido no meu ouvido e o espocar, aqui e ali, de uns pensamentos indesejados. Até que, mais ou menos no minuto 3’, a surpresa: ouço uma palma. Assim, no singular. Clap.
Curioso como a palma praticamente desdiz a “letra” da música e ao mesmo tempo expõe nossa incapacidade de contemplar o silêncio. O tão belo e ao mesmo tempo tão temido silêncio. O silêncio que, diz o filósofo Byung-Chul Han ecoando Simone Weil, é condição essencial para que ouçamos Deus. Mas é isso. Ouvi, finalmente, 4’33’’ e peço desculpas por tê-la chamado um dia de bobagem, piada, estupidez ou porcaria. É uma obra-prima. Agora, voltemos à polêmica. Ao ruído da vez.
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