Os advogados Adriana Marra e João Alberto da Cunha Filho renunciaram ao processo relacionado às crianças de dois e quatro anos retiradas dos pais em Arroio Grande, Rio Grande do Sul. Depois de acompanharem o caso voluntariamente por meses, os profissionais decidiram se afastar por motivos pessoais. À Gazeta do Povo, os profissionais garantiram que Douglas e Paola são bons pais e afirmaram torcer para que o casal recupere, em breve, a guarda dos filhos. As crianças foram retiradas do lar em novembro de 2025 após a família apresentar atestado contraindicando vacinas.
“Eu não entraria nesse processo se não acreditasse, de verdade, que eles são pais zelosos”, afirmou a advogada Adriana Marra, ao ressaltar que a defesa trabalhou muito para que o casal retomasse o contato com as crianças, mas o Poder Judiciário segue mantendo a família separada por quase cinco meses.
Segundo Adriana, foram apresentadas “dezenas de petições, inclusive complexos recursos”, todos dentro do prazo e de forma “muito combativa”. Em uma das últimas ações, por exemplo, a defesa chegou a entrar com mandado de segurança contra o juiz da 2ª Vara Judicial de Canguçu/RS, responsável atualmente pelo caso.
No documento encaminhado ao Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul (TJRS), os advogados informaram que o magistrado seguiria desde janeiro sem se manifestar no processo, apesar da gravidade da situação. A ação deixou a Comarca de Arroio Grande após a retirada das crianças do abrigo municipal e encaminhamento à residência dos avós maternos, em Canguçu.
Segundo Adriana, a defesa conseguiu conversar com o juiz, conforme é direito dos advogados, e o magistrado apontou que existiria intenção de retomar as visitas dos pais, de forma progressiva. Essa reunião ocorreu no último dia 8 de abril mas, até a manhã desta sexta-feira (16), não existiria essa determinação do juiz no processo. Os pais seguem sem contato com os filhos há 75 dias.
Adriana informa que a defesa segue atuando oficialmente no caso até domingo, 19 de abril.
Eu não entraria nesse processo se não acreditasse, de verdade, que eles são pais zelosos
Adriana Marra, advogada que atuou na defesa do casal que teve filhos retirados de casa após apresentação de atestado contraindicando vacinas
Pais se manifestam a respeito do caso: “dias difíceis”
À Gazeta do Povo, os pais informam que estão buscando um novo advogado, que deve auxiliar no caso nos próximos dias. Eles também relatam que suas contas bancárias foram bloqueadas recentemente devido a multas recebidas no decorrer do processo e que, desde que os filhos foram levados, o casal enfrenta “dias difíceis”.
“Não vemos e nem temos notícias dos nossos filhos há mais de dois meses”, dizem, ao pedir que o novo juiz devolva as crianças. “Soubemos por outras pessoas que nosso filho mais velho está vivo e triste, mas a nossa filha ninguém viu”, continuam.
De acordo com o casal, o ambiente com os avós maternos não é ideal para as crianças e traz lembranças que Paola, mãe dos pequenos, faz de tudo para esquecer. “Não foram boas pessoas para mim enquanto morei com eles, e tive que sair de casa com 16 anos de tanto medo que eu tinha dos meus pais”, relata a mulher, que teme pela segurança dos filhos.
Relembre o caso das crianças de Arroio Grande/RS
As crianças de dois e quatro anos foram retiradas dos pais no dia 18 de novembro de 2025 após o casal apresentar atestado contraindicando vacinas do Programa Nacional de Imunizações (PNI) para os menores. Os genitores também tentaram filmar uma consulta médica exigida pelo juiz, mas a profissional não teria aceitado, e a consulta não foi realizada. Após esse fato, o juiz decidiu encaminhar as crianças para um abrigo da cidade.
Segundo a família, os filhos foram retirados de casa às pressas, por volta das 22h, embora a decisão do juiz tenha sido publicada dois dias depois. A menina mais nova ainda não tinha completado dois anos e mamava no peito.
Os pais visitaram os pequenos nos dias seguintes, mas foram proibidos pelo juiz de ver seus filhos por quase 40 dias. As visitas foram retomadas no início de janeiro com duração de meia hora, uma vez por semana, mas foram suspensas a partir de 30 de janeiro, data do aniversário de dois anos da caçula.
Os pais intensificaram a divulgação do caso nas redes sociais para pedir ajuda, mas uma ordem judicial da Vara de Arroio Grande proibiu que eles e os advogados do processo falassem sobre o tema, sob pena de multa. Juristas questionados pela Gazeta do Povo apontaram abuso nessa decisão e prática de censura. A OAB-RS pediu que o antigo juiz reconsiderasse a decisão.
Um dos advogados da família se retirou do processo após essa proibição e denunciou inúmeros abusos do Estado no caso. Vídeos de excessos dos conselheiros tutelares que atenderam o casal também foram divulgados.
“Tu não tem necessidade nenhuma de gravar os profissionais, tanto nós como os da delegacia, porque nós temos fé pública”, disse uma das conselheiras de Arroio Grande, ao criticar os pais Douglas e Paola por filmarem as visitas.
Após repercussão nacional do caso, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) recebeu mais de 60 denúncias contra o juiz da Vara de Arroio Grande, e o magistrado determinou que o menino de quatro anos e a bebê de dois deixassem o abrigo municipal onde estavam recolhidos e fossem entregues, por ordem judicial, aos avós maternos, na cidade gaúcha de Canguçu. Desde então, as crianças seguem sem contato com os pais.
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