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Companhia mineira vale R$ 10 bilhões e virou a maior briga do saneamento brasileiro

A privatização da Copasa, companhia de saneamento de Minas Gerais, entrou na reta final após a renovação do contrato com Belo Horizonte, principal entrave para o avanço da oferta de ações, e mobiliza grandes grupos privados do setor.

Avaliada em até R$ 10 bilhões, a estatal mineira teve o contrato com a capital mineira renovado no último dia 25, um passo considerado decisivo para a desestatização. A renovação selou um acordo que vinha sendo negociado há meses.

“Em torno de R$ 1,8 bilhão de outorga livre deve cair na conta da prefeitura”, afirmou à Itatiaia o secretário de governo de Belo Horizonte, Guilherme Daltro, presente à cerimônia ao lado do governador Mateus Simões (PSD) e da presidente da Copasa, Marília Melo.

Dias antes, o prefeito da capital, Álvaro Damião (União Brasil), antecipava o desfecho. “O contrato vai ser renovado com certeza absoluta, vai ser muito importante e bom para Belo Horizonte e para a empresa também”, disse em conversa com jornalistas.

“Nós não temos intenção nenhuma de trocar a fornecedora, nós só não podemos aceitar da forma como estava, com ruas remendadas, conta de água cara”, complementou Damião. Com o contrato assinado, o próximo passo é a publicação do prospecto da oferta, o que é determinante para que os interessados definam se entram na disputa.

O governador Mateus Simões indicou um cronograma apertado para a operação. Em entrevista ao jornal O Tempo, afirmou que espera concluir a privatização em até dois meses, com publicação do edital nas próximas semanas e leilão na sequência.

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Aegea e grupo formado por Sabesp e Equatorial estariam de olho na Copasa

A empresa Aegea — a maior do segmento privado no país — e a recentemente privatizada Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo) são apontadas como favoritas para assumir o posto de acionista de referência da Copasa.

A perspectiva é de que a companhia paulista entre na disputa ao lado da Equatorial Energia, seu acionista de referência — parceria que funcionou na privatização da própria Sabesp, há dois anos. O diretor-executivo da Sabesp, Carlos Piani, tem respondido que não descarta o negócio.

“Quando olhamos oportunidades inorgânicas, tentamos focar em grandes negócios. Tamanho importa para nós”, afirmou Piani em teleconferência de resultados.

Já a Aegea atende cerca de 39 milhões de pessoas em mais de 800 municípios, com receita bilionária. A empresa tem no capital nomes de peso: a Itaúsa, braço de investimentos do grupo Itaú, e o GIC, fundo soberano de Singapura, o que lhe confere capacidade financeira para movimentos de vulto.

Para a Aegea, a Copasa tem uma função estratégica além do saneamento: a empresa vê a estatal mineira como uma alavanca para aumentar o seu valor de mercado e viabilizar a abertura de capital. Uma das possibilidades estudadas internamente é usar a Copasa como veículo para ir à Bolsa de Valores, em um modelo de “IPO reverso”, em que a Aegea seria fundida com a Copasa já listada.

A Equatorial, por sua vez, já foi a acionista de referência da Sabesp na privatização de dois anos atrás e deve repetir o papel, desta vez ao lado da própria Sabesp, em uma parceria que reúne operadora e investidor estratégico no mesmo time.

Pessoas ligadas do setor não descartam que as duas empresas proponham a fusão das operações mineira e paulista, uma consolidação que reuniria as duas maiores companhias de saneamento da Região Sudeste do país sob o mesmo guarda-chuva.

A Sabesp tem a favor um balanço pouco alavancado financeiramente, o que lhe proporciona capacidade de tomar dívida para financiar a compra. Contra ela pesa o desafio de cumprir metas agressivas de universalização dentro de São Paulo, estado no qual o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) antecipou para 2029 o atingimento de metas nacionais previstas para o ano de 2033 e a companhia entregou sua meta de 2026 antes do prazo, o que sinaliza fôlego operacional.

A própria Sabesp admitia, antes da assinatura do contrato de Belo Horizonte, que ainda não tinha visibilidade suficiente para decidir. “A Sabesp está em compasso de espera porque está sem visibilidade de informações-chave para a tomada de decisão”, afirmou o diretor-executivo de Novos Negócios da companhia, Rafael Strauch, em nota à Gazeta do Povo.

“Não temos os contratos atuais nem sabemos o que está sendo negociado com Belo Horizonte, o mais relevante”, complementou Strauch. Com o contrato assinado, um dos principais entraves citados pela empresa foi removido.

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Empresas podem ficar à margem da disputa por restrições financeiras ou estratégicas

Outras empresas cogitadas pelo mercado têm chances menores, de acordo com pessoas ligadas ao setor e ouvidas pela reportagem da Gazeta do Povo. A Perfin, gestora com participação minoritária do BTG Pactual e já acionista minoritária da Copasa, também está olhando o negócio, mas separadamente da Aegea, com quem se associou em outros leilões.

A BRK Ambiental, controlada pela canadense Brookfield e pelo Fundo de Investimento do FGTS, está muito alavancada financeiramente e acabou de absorver concessões grandes, a região metropolitana de Recife, o interior de Pernambuco e Maceió. O foco no momento seria, portanto, interno.

Por sua vez, a Veolia, gigante francesa do saneamento, manifestou interesse, mas é vista como menos engajada no processo. Historicamente, a atuação da empresa no Brasil se concentrou em aterros sanitários e a Copasa seria um cheque muito grande para seu padrão de operação no país, dizem pessoas ligadas ao mercado.

A Aegea e a Equatorial enviaram notas à Gazeta do Povo com declarações genéricas sobre acompanhamento de oportunidades no setor, sem confirmar interesse direto na Copasa. A Copasa, por sua vez, informou estar em período de silêncio, conforme exigido pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

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O mecanismo que pode afastar os interessados

Há uma questão técnica que pode mudar tudo na disputa pelo ativo da Copasa: o desenho do processo de privatização. O modelo em discussão prevê a entrada de um investidor de referência, que pode adquirir cerca de 30% da companhia, além da venda de uma parcela das ações ao mercado como parte da oferta de privatização.

O problema está na transição entre as duas fases. Se o mercado, na segunda etapa, topar pagar mais pelas ações do que o preço acordado na primeira, o governo teria a prerrogativa de tirar o acionista de referência da jogada e vender tudo para o mercado.

Para os interessados, o risco é claro: entrar na primeira fase, precificar a empresa, animar o mercado. Porém, acabar excluído da estrutura acionária por consequência do próprio sucesso.

“Se for assim, eu não tenho nenhum estímulo para colocar minha oferta na primeira fase do leilão”, resumiu Márcio Santiago, sócio da Araújo Fontes, especialista em fusões e aquisições nos setores de energia e infraestrutura. “O acionista de referência pode precificar e dar um tiro no próprio pé”, complementou Santiago.

Privatização da Copasa foi uma das bandeiras do ex-governador de Minas Gerais, Romeu Zema.

A saída que os candidatos estão pedindo ao governo é a inclusão de um mecanismo chamado “right to match”, que se refere à possibilidade de igualar o preço que o mercado oferecer na segunda fase. Assim, mesmo que as ações valorizem após o anúncio de um comprador estratégico robusto, esse comprador teria a chance de cobrir o preço e manter sua posição.

O edital final, aguardado a qualquer momento, ainda não tem confirmação de que essa cláusula seja incluída. O modelo foi desenhado justamente para corrigir uma crítica que o governo de São Paulo sofreu na privatização da Sabesp. No processo, a Equatorial comprou 15% das ações a R$ 67 por ação.

O mercado foi tão bem que, quando o governo foi vender os outros 17%, a ação já estava a R$ 75, mas o estado foi obrigado a vender ao mesmo preço de R$ 67. “O governo Tarcísio foi criticado por ter deixado dinheiro na mesa”, lembrou Santiago.

O governo de Minas Gerais quer evitar a mesma crítica, mas o desafio é encontrar um formato que proteja o caixa do estado sem espantar os compradores. Há um parâmetro claro de que o negócio vale a pena: a ação da Copasa estava a R$ 23,42 há um ano e no último dia 23, era negociada a R$ 55,48, praticamente o dobro.

A valorização reflete o anúncio da privatização, melhorias no marco regulatório estadual e mudanças recentes na metodologia de cálculo tarifário e no reconhecimento de investimentos pela Agência Reguladora de Serviços de Abastecimento de Água e de Esgotamento Sanitário do Estado de Minas Gerais (Arsae-MG).

O governo mineiro confirmou, em resposta enviada à Gazeta do Povo, que os recursos obtidos com a privatização serão destinados ao pagamento da dívida do estado com a União, no âmbito do Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados (Propag).

A privatização da Copasa é uma promessa de campanha de duas eleições seguidas do ex-governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), que deixou o cargo para disputar a Presidência da República. A conclusão do processo em ano eleitoral reforça o peso político da medida.

A BRK Ambiental e a Veolia não responderam aos contatos da Gazeta do Povo até a publicação desta reportagem. O espaço segue aberto para manifestação das empresas.

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