VILLA NEWS

O Peru e sua crise permanente

O novo presidente interino do Peru, José María Balcázar. (Foto: EFE/STR)

Ouça este conteúdo

O Peru amanheceu, mais uma vez, com outro presidente “interino”. É o segundo desde dezembro. O Congresso peruano escolheu o gerontocomunista José María Balcázar para ocupar a posição até o próximo escândalo. Balcázar ficou famoso no país por defender que adolescentes com mais de quatorze anos devem ter vida sexual liberada, citando, por exemplo, a sua visão de normalidade em relações consentidas entre professores e alunos.

Balcázar é o oitavo presidente desde 2018 e tem como missão conduzir o Peru até as eleições de 12 de abril (com provável segundo turno em junho) e entregar o cargo em 28 de julho — isso, se ele não sofrer um impeachment antes. Trocar de presidente no país sul-americano se tornou algo absolutamente banal. Mas nem sempre foi assim.

As descobertas da Operação Lava Jato, no Brasil, tiveram um impacto profundo no vizinho, fazendo com que as autoridades locais criassem a sua própria “Lava Jato”. As investigações das malversações da Odebrecht e dos políticos locais atravessaram fronteiras e implodiram a falsa estabilidade entre os grupos de poder que se sustentavam e se protegiam pela certeza de impunidade.

Com duas mazelas expostas, os políticos locais trataram de se organizar em um processo de autoproteção que tem como eixo central uma “prancha” na qual, de tempos em tempos, alguém é colocado para ser jogado aos tubarões. E, no Peru, ser presidente é praticamente um pré-requisito para ser jogado ao mar.

O histórico de eventos que antecedem a troca de presidentes ou envolvem os ex-mandatários é complexo: renúncia, destituição, prisão e até suicídio. Em 2019, Alan García se matou quando a polícia foi cumprir ordem de detenção ligada às investigações do escândalo envolvendo a brasileira Odebrecht.

Quando García se matou, quem estava no poder era Martín Vizcarra, que havia assumido no ano anterior depois que Pedro Pablo Kuczynski renunciou ao mandato, acuado por seus vínculos com a mesma Odebrecht. Vizcarra também não durou. Foi impichado em 2020 sob acusação de “incapacidade moral”. Essa, por sinal, é a figura constitucional que permite ao Congresso se livrar de qualquer presidente com um estalar de dedos.

Vizcarra foi substituído por Manuel Merino, que durou dias e pulou fora em meio a uma onda de protestos. Então apareceu Francisco Sagasti, que aguentou quietinho alguns meses até a eleição do populista de esquerda Pedro Castillo, em 2021.

Depois de dar um autogolpe, ao tentar fechar o Congresso antes que fosse afastado pela tal “incapacidade moral”, acabou enxotado e preso. Em seu lugar assumiu a vice Dina Boluarte, que, por uma espécie de milagre, durou de dezembro de 2022 a outubro de 2025, quando também sofreu impeachment. Como se não bastasse a alta rotatividade na presidência, o país tem três ex-presidentes presos e condenados por crimes de corrupção.

O mais recente a cair foi José Jerí, presidente interino desde outubro de 2025. Ele virou alvo depois que vazaram encontros fora da agenda entre ele e um empresário chinês envolvido em escândalos de suborno e crime ambiental. Embora esse motivo não tenha entrado na lista de acusações, o elo de Jerí com o empresário chinês acendeu um alerta importante.

O interlocutor que acabou por ser o motivo de sua queda possui fortes vínculos com o Partido Comunista da China e representa negócios de pelo menos treze estatais chinesas no Peru, entre as quais hidrelétricas e mineradoras.

A China é conhecida na América Latina e na África pela maneira agressiva e ilícita com que captura líderes políticos locais. A corrupção é o método mais extremo, mas não é o único.

VEJA TAMBÉM:

O Peru se converteu em uma espécie de playground chinês, onde empresas com vínculos com o PCCh não só construíram o porto de Chancay, como adquiriram empresas de mineração e vêm controlando o setor de energia

Nada disso prova, por si, uma “conspiração” comandada por Pequim. Mas há marcadores que não podem ser ignorados. Desde que a casa da Odebrecht caiu, casos de corrupção foram usados para tirar e colocar presidentes; enquanto isso, os interesses da China avançaram como nunca. Teria havido um movimento de substituição? O componente chinês não é perfeitamente claro, mas não é prudente negligenciá-lo.

O Ocidente costuma subestimar a capacidade do Partido Comunista Chinês de articular interesses no exterior via redes empresariais e associativas, sob o guarda-chuva do “Departamento de Trabalho da Frente Unida”, que nada mais é que uma espécie de “departamento de operações estruturadas” do Partido Comunista Chinês.

Para quem não se lembra desse nome “departamental”, era como a Odebrecht chamava o seu núcleo de pagamento de propina. Essa unidade do PCCh, que atua no exterior, busca acesso e influência sobre elites políticas, econômicas, acadêmicas, a mídia e, mais recentemente, influencers no ambiente digital.

Em democracias fatigadas, isso parece ser um trabalho muito fácil de fazer. No Peru, a crise sem fim pode não ser uma excepcionalidade, mas um modelo.

Encontrou algo errado na matéria?

Comunique erros

Use este espaço apenas para a comunicação de erros

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *