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Trio de presidenciáveis de Kassab não decola nas pesquisas eleitorais

A filiação do governador goiano Ronaldo Caiado ao PSD surpreendeu o meio político e mostrou a força do cacique Gilberto Kassab nos bastidores ao aglutinar três presidenciáveis no projeto nacional da sigla. No entanto, a “terceira via” parece começar este período eleitoral repetindo pleitos anteriores no país, sem decolar na intenção de voto dos brasileiros.

A percepção é confirmada pela primeira sondagem eleitoral da Genial/Quaest divulgada após o anúncio de Kassab ao lado do trio de governadores, que, além de Caiado, conta com o paranaense Ratinho Junior e o gaúcho Eduardo Leite. O levantamento aponta para a polarização eleitoral com a consolidação da pré-candidatura de Flávio Bolsonaro (PL), repetindo os cenários das eleições presidenciais de 2018 e 2022, quando o ex-presidente Jair Bolsonaro assumiu o protagonismo do antipetismo.

Em sete cenários estimulados de primeiro turno, Lula lidera entre 35% e 39% das intenções de voto, seguido por Flávio, que tem entre 29% e 33% da preferência do eleitorado. Ratinho Junior tem o melhor desempenho entre os governadores de oposição à reeleição de Lula, mas o paranaense não chega a atingir o patamar de dois dígitos.

No primeiro cenário, ele atinge 8% de intenção de voto, seguido pelo governador mineiro Romeu Zema (Novo) com 4%. Lula tem 35% na liderança, com Flávio em segundo lugar, com 29% da intenção de votos.

No cenário sem Zema, Ratinho Junior oscila para 7% enquanto o presidente petista e Flávio polarizam a disputa com 37% e 31%, respectivamente. Quando substituído por Caiado ou Leite, os pré-candidatos do PSD não passam de 4% na preferência dos entrevistados. A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos.

A pesquisa também foi a primeira sem a presença do governador paulista Tarcísio de Freitas (Republicanos) na disputa presidencial — até o anúncio de Flávio como pré-candidato, Tarcísio era cotado por partidos de centro para encabeçar uma frente ampla de oposição a Lula. O chefe do Executivo de São Paulo tinha o apoio de Kassab, que ocupa a Secretaria de Governo na gestão estadual, mas declinou do projeto para disputar à reeleição ao governo paulista e apoiar a pré-candidatura do filho do ex-presidente Bolsonaro.

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Sem recall de Flávio e Lula, nacionalização é principal desafio de governadores

O diretor de Inteligência em Opinião e Política da Quaest, Guilherme Russo, aponta que os governadores apresentam um significativo capital político nos estados, com destaque para Ratinho Junior, que chega a 23% da preferência do eleitorado no Sul do país no primeiro cenário estimulado. No entanto, ele avalia que o paranaense, assim como os demais presidenciáveis, terá o desafio de se tornar conhecido nas regiões mais populosas do país, onde estão os maiores colégios eleitorais.

“A questão, obviamente, é conquistar o Sudeste e o Nordeste. O desafio é nacionalizar, conseguir ser reconhecido por eleitores fora dos seus estados. Combater a polarização também vai ser uma barreira, especialmente sem ter uma visibilidade, um recall tão forte como o de Lula e do [sobrenome] Bolsonaro”, comenta Russo.

Por outro lado, Russo afirma que a menor rejeição pode potencializar uma candidatura da “terceira via” no segundo turno. Flávio e Lula estão tecnicamente empatados, com 55% e 54% de rejeição, segundo a última pesquisa Genial/Quaest.

Ratinho Junior é o mais conhecido nacionalmente do grupo de governadores e, muito em decorrência disso, tem o maior índice de rejeição. Conforme o levantamento, 23% do eleitorado afirma conhecer o paranaense e diz que poderia votar no governador. Já 37% respondem que o desconhecem.

Os outros dois presidenciáveis do PSD, Caiado e Leite, são rejeitados por 35% do público, com desconhecimento acima de 50%. “Nós fazemos pesquisas mensais e eles têm dificuldade de reduzir o nível de desconhecimento. Ao mesmo tempo, tornam-se mais competitivos em simulações de segundo turno, porque, caso avancem, tendem a receber apoio significativo da direita. A força do antipetismo ainda é muito grande. Então, mesmo candidatos desconhecidos hoje podem crescer se chegarem ao segundo turno”, analisa.

Durante evento promovido pelo BTG Pactual, o presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, minimizou o resultado da pesquisa e confirmou que o partido terá um candidato à Presidência. “Se a rejeição é brutal é porque existe uma expectativa, uma vontade que surja algo diferente. E está surgindo”, acredita o cacique.

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PSD pode disputar eleitorado com Flávio Bolsonaro

Especialista em opinião pública e política, a diretora-executiva do instituto de pesquisa Ideia, Cila Schulman, avalia que os nomes do PSD não podem ser comparados aos ex-presidentes da República. “Ainda é cedo. Nem sabemos qual será o candidato do PSD. O crescimento real só pode ocorrer após a desincompatibilização de cargos e o início da campanha de massa”, analisa.

Por outro lado, Schulman faz a ressalva de que o então deputado-federal Jair Bolsonaro já trabalhava para disputar a Presidência no ano que antecedeu a vitória nas urnas em 2018. “Ele [Bolsonaro] só se consolidou durante a campanha, embora já estivesse em movimento antes”, lembra ela, ao comparar com a indefinição e a espera atual do PSD.

Pela análise do último levantamento Meio/Ideia, nenhum dos pré-candidatos de Kassab ou o governador Zema ultrapassam os 10% dos votos nos cenários estimulados do primeiro turno. Entre eles, o melhor desempenho, novamente, é de Ratinho Junior, com 8,8% da intenção de votos.

A diretora-executiva do Ideia discorda da classificação da pré-candidatura do PSD como “terceira via”. Para ela, o projeto alternativo está dentro do campo da centro-direita, em oposição à tentativa de reeleição de Lula, que buscará o quarto mandato presidencial em outubro.

“A eleição será mais parecida com a do Chile, em que vários candidatos disputam no mesmo campo ideológico e um vai ao segundo turno, recebendo apoio automático dos demais. Portanto, não é terceira via. É uma disputa interna”, opina.

Ela ressalta que o fortalecimento do partido e as articulações lideradas por Kassab favorecem uma candidatura própria, enquanto o filho 01 do ex-presidente busca apoio político do centro para consolidar o legado do pai nas urnas. “Flávio Bolsonaro ainda não tem alianças consolidadas, vice definido ou coalizão fechada. Se surgir outro nome competitivo na centro-direita, haverá disputa interna”, analisa.

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Projeto de presidenciáveis de Kassab vai além da corrida pelo Planalto

O cientista político Samuel Oliveira avalia que Kassab não trabalha por uma candidatura presidencial como fim, mas como um meio, um “instrumento de engenharia política”. Para ele, a pré-candidatura do PSD não decola em razão da divisão de forças entre os cotados, o que não chega a ser um problema na ótica do cacique.

“Ele [Kassab] está ocupando o espaço do ‘centro disponível’, garantindo que, quando a eleição se afunilar, todos os caminhos passem por ele”, resume Oliveira. Na avaliação do cientista político, o presidente do PSD assume o papel de “fiel da balança” nas eleições de 2026 por oferecer aos aliados tempo de televisão, estrutura partidária, capilaridade nos estados e governabilidade futura.

“Ao lançar nomes próprios, ele protege o partido e constrói autonomia. Isso impede que o PSD seja absorvido pelo bolsonarismo ou pelo lulismo e mantém o partido como uma estrutura independente, que negocia de igual para igual”, afirma.

Com discurso alinhado, Kassab e seus presidenciáveis declararam que a decisão sobre quem deve encabeçar a chapa do PSD deve sair apenas em abril, descartando prévias no partido pelo desgaste interno que uma disputa pode gerar. Enquanto isso, segundo Oliveira, Kassab experimenta o terreno político, mede as resistências e as rejeições para calibrar o tom da campanha. “Ele sabe que as eleições presidenciais no Brasil são decididas por ondas e quer estar posicionado para surfar a onda certa quando ela surgir.”

Metodologia das pesquisas citadas: 

  • A pesquisa Quaest entrevistou 2.004 pessoas entre os dias 5 e 9 de fevereiro sobre a intenção de voto a presidente. A margem de erro é de 2 pontos percentuais, para mais ou para menos. A pesquisa foi contratada pelo Banco Genial S.A. O nível de confiança é de 95%. Registro no TSE nº BR-00249/2026.
  • O Instituto Ideia ouviu 1.500 eleitores entre 30 de janeiro e 2 de fevereiro de 2026. A pesquisa foi encomendada pelo Canal Meio S.A. A margem de erro é de 2,5 pontos percentuais, para mais ou para menos. O nível de confiança é de 95%. Devido ao arredondamento, a soma dos percentuais pode variar de 99% a 101%. O levantamento está registrado no Tribunal Superior Eleitoral sob o protocolo BR-08425/2026.

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