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Texto-base da Campanha da Fraternidade: fique com a doutrina, esqueça a política

Favelas do Complexo do Alemão, no Rio: texto-base da Campanha da Fraternidade omite reinado de terror do crime organizado sobre favelas. (Foto: Tânia Rego/Agência Brasil)

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Amanhã é Quarta-Feira de Cinzas, início da Quaresma e também da Campanha da Fraternidade, cujo tema neste ano é “fraternidade e moradia”, com o lema “Ele veio morar entre nós”, tirado do prólogo do Evangelho de São João. O leitor da coluna já sabe que não gosto nada de fazer coincidir a Campanha da Fraternidade com a Quaresma, mas sabe também que, em outra época e depurada do viés político, ela poderia, sim, ser útil para os católicos brasileiros.

Justamente por causa dessa coincidência temporal, há locais onde quase não se faz menção à Campanha da Fraternidade porque os padres e bispos preferem ressaltar o caráter penitencial da Quaresma. Mas, onde a CF é um momento importante, o texto-base publicado pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil é o documento que norteia as reflexões. Por isso, eu li para você não precisar ler, e posso dizer que tem coisa boa e coisa ruim.

Mas, antes, um aviso: não ligue para as “nuvens de palavras” que se publicam às vezes, mostrando, sei lá, que “Eucaristia”, “conversão” ou “Nossa Senhora” aparecem raramente, enquanto “moradia” ou “economia” têm dezenas de menções. Isso é rage bait. O texto-base da Campanha da Fraternidade – desta e das outras – é um texto social, não é teologia sacramental nem mariologia. É perfeitamente natural que alguns termos apareçam mais que outros; se bobear, até as encíclicas sociais de João Paulo II teriam “nuvens de palavras” semelhantes.

Por mais que no Brasil atual seja importante combater os erros da esquerda, a situação de tantos brasileiros sem um teto é uma violação da dignidade humana e uma ofensa a Deus

Padres da Igreja e Doutrina Social são as melhores partes do texto-base

A segunda parte, intitulada “Ele veio morar entre nós”, é a que tem os melhores trechos, que poderiam iluminar uma reflexão realmente católica sobre o tema da moradia. É nela que estão os trechos bíblicos que tratam da importância da casa e dos meios para que cada família possa providenciar o seu sustento, e que condenam a acumulação de riquezas – especialmente a acumulação conseguida à custa dos pobres, e/ou aquela que envolve a conivência das autoridades. No Antigo Testamento, “casa” não é apenas o teto ou a terra, mas tem um sentido mais amplo, como o grupo a que se pertencia (lembremos do famoso “eu e minha casa serviremos ao Senhor”). No início do cristianismo, era nas casas que as primeiras comunidades se reuniam.

Em seguida, o texto-base parte para os Padres da Igreja e para a Doutrina Social, que também defende o direito à moradia como essencial para a dignidade humana, com citações de São João XXIII, São Paulo VI, São João Paulo II e Francisco. A Doutrina Social da Igreja, aliás, contém a chave para uma reflexão verdadeiramente católica sobre o tema da moradia e do acesso à terra e ao teto, pois ela rejeita ambos os excessos: ao afirmar que “a propriedade particular é de direito natural para o homem”, ela recusa o coletivismo socialista; ao insistir no bem comum e na destinação universal dos bens, rejeita seu oposto, um “absolutismo liberal” que deixa tudo nas mãos do mercado.

Aqui, eu tenho de insistir. Por mais que no Brasil atual seja importante combater os erros da esquerda, a situação de tantos brasileiros sem um teto é uma violação da dignidade humana e uma ofensa a Deus. Os prédios abandonados nas regiões centrais das grandes cidades e as enormes extensões de terra sem nenhum tipo de uso, mantidos assim única e exclusivamente para fins de especulação imobiliária, são um abuso do direito à propriedade, que é um direito natural, como diz Leão XIII, mas não é absoluto, como disseram vários outros papas, inclusive alguns com zero simpatia pela esquerda, como João Paulo II. O católico não pode ignorar o drama de quem não tem onde morar ou vive precariamente, alegando que essas pessoas só vivem assim porque escolheram, ou porque não se esforçaram o suficiente. Bispos e padres que souberem aproveitar plenamente o que diz a Doutrina Social da Igreja farão um grande serviço nesse campo.

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(Mesmo nessa segunda parte, entretanto, há alguns problemas, como o trecho segundo o qual Jesus “é encarcerado, torturado e assassinado, como alguém difamado e perigoso para os poderes constituídos”, um reducionismo grotesco da obra redentora de Jesus, transformada em ato de dissidência política.)

Politicagem de DCE e negacionismo econômico

O problema é que, antes de chegar à parte boa, o texto-base afunda no partidarismo político e na ignorância econômica e social. Da primeira parte, “A realidade da moradia no Brasil”, aproveitam-se os números, que dão uma ideia do tamanho do drama habitacional brasileiro. Mas a análise… é tudo culpa do “neoliberalismo”, dos juros da dívida – pelo jeito os autores não sabem a relação direta entre governo gastador e juros altos –, das reformas trabalhista e da Previdência (ao menos a crítica ao nosso sistema tributário é correta, pois ele de fato pune mais o pobre); vemos ali o maniqueísmo Fernando Henrique/Temer/Bolsonaro maus, Lula/Dilma bons (quando os petistas são criticados, é porque não foram suficientemente à esquerda; Lula 3 apanha por causa do arcabouço fiscal). Temos até fake news sobre o teto de gastos – ao contrário do que diz o texto-base, não havia limite para a elevação de rubricas orçamentárias específicas, apenas para o gasto total do governo. Fora os elogios escancarados a movimentos sociais que são satélites do petismo, como o MTST e o MST, e até alguns investigados pelo roubo dos aposentados do INSS, como a Contag.

Aliás, já que o texto da Campanha da Fraternidade compara governos e menciona também a questão agrária, é notável que o texto-base não mencione que, em quatro anos, o governo Bolsonaro tenha entregue mais títulos definitivos de posse de terra que os quatro governos petistas anteriores somados. Notável, mas não incompreensível, pois o MST e os governos de esquerda preferem uma outra modalidade, que estabelece um tipo de “posse coletiva” da terra e mantém as pessoas na coleira dos movimentos sociais.

Em outro trecho, sobre as favelas, outra ausência notável: nada se fala sobre o regime de terror imposto pelo crime organizado em várias favelas brasileiras – um regime que ficou escancarado com as investigações que levaram à Operação Contenção, em outubro do ano passado, no Rio de Janeiro. A violência mencionada é apenas aquela cometida pela polícia. É o caso típico em que a ideologia se sobrepõe à realidade, já que a aprovação da operação foi maior entre os moradores de favelas (e maior ainda entre os moradores de favelas cariocas) que entre a população em geral.

Antes de chegar à parte boa, o texto-base da Campanha da Fraternidade afunda no partidarismo político e na ignorância econômica e social

Por fim, a terceira parte do texto-base, “Construirão casas e nelas habitarão”, também é ligeiramente enviesada (não tanto quanto a primeira parte) ao sugerir ações que os católicos e as Igrejas particulares podem colocar em prática para remediar o problema da falta de moradia e da precarização. Ao lado de sugestões que de fato manifestam a necessária solidariedade cristã, há o estímulo ao apoio a movimentos populares com evidente posicionamento político e algumas ideias questionáveis por sua vagueza, como a de “valorizar a arte e a cultura da periferia com seus atores, símbolos e hábitos” – o que pode significar a perpetuação da “cultura da pobreza”. Enquanto isso, não há uma palavra sequer sobre o papel da Igreja na prevenção e no combate ao vício em drogas, uma das causas que levam tanta gente para a rua, como o próprio texto-base afirma.

CNBB, me ajuda a te ajudar

Estamos em ano eleitoral, e a imagem da CNBB já não é das melhores entre aquela metade do eleitorado que tende mais para a direita e a centro-direita. Em breve, veremos bispos e padres “da caminhada” sem a menor vergonha de “fazer o L” enquanto outros, mais cientes de sua missão de pastores, guardarão suas opiniões políticas para si mesmos, limitando-se a fazer aquilo que Bento XVI pediu em seu discurso aos bispos do Maranhão, em 2010: posicionar-se publicamente em matéria política “quando os direitos fundamentais da pessoa ou a salvação das almas o exigirem”. Isso vai apenas reforçar a percepção de que o episcopado brasileiro como um todo tem o mesmo viés político (não tem), e que a entidade que congrega os bispos já escolheu um lado em 2026.

Até por isso, eu esperaria muito mais cuidado na elaboração do texto-base da Campanha da Fraternidade, de forma que ele refletisse apenas a Doutrina Social da Igreja, sem o tom abertamente político da primeira parte. Não aconteceu, e com esse tipo de documento a CNBB acaba reforçando a percepção (justa ou injusta, não importa) que se criou a seu respeito entre uma parcela significativa de católicos, o que coloca em xeque a sua credibilidade.

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