{"id":96285,"date":"2025-12-31T18:12:23","date_gmt":"2025-12-31T22:12:23","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=96285"},"modified":"2025-12-31T18:12:23","modified_gmt":"2025-12-31T22:12:23","slug":"economia-brasileira-deve-ter-dois-semestres-bem-distintos-em-2026-e-uma-escolha-decisiva","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=96285","title":{"rendered":"Economia brasileira deve ter dois semestres bem distintos em 2026 \u2013 e uma escolha decisiva"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>A campanha eleitoral far\u00e1 da economia em 2026 um ano de contrastes no Brasil. No primeiro semestre, devem se abrir janelas de oportunidade com o in\u00edcio de um ciclo moderado de cortes nos juros que, na avalia\u00e7\u00e3o de especialistas ouvidos pela <strong>Gazeta do Povo<\/strong>, deve come\u00e7ar no mais tardar em mar\u00e7o. No segundo semestre, por\u00e9m, as incertezas tomam conta: a disputa eleitoral e a press\u00e3o fiscal retomam o centro do palco.<\/p>\n<p>A principal caracter\u00edstica do ano ser\u00e1 a alta volatilidade \u2014 ou seja, oscila\u00e7\u00f5es bruscas nos pre\u00e7os de ativos e no humor dos investidores. Essa instabilidade ser\u00e1 ditada pelo conflito entre for\u00e7as externas favor\u00e1veis e vulnerabilidades fiscais internas em pleno ciclo eleitoral.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/economia\/divida-publica-eleicoes-2026-choque-fiscal-ubs\/\">Analistas do UBS <\/a>destacam que o ano ser\u00e1 &#8220;bin\u00e1rio&#8221;: o primeiro semestre ser\u00e1 impulsionado por ventos globais e pela expectativa de queda dos juros dom\u00e9sticos; o segundo semestre estar\u00e1 sob o dom\u00ednio da incerteza pol\u00edtica e do risco de instabilidade, caso o pr\u00f3ximo governo n\u00e3o sinalize um plano cr\u00edvel de ajuste das contas p\u00fablicas para 2027.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>A escolha nas urnas de 2026 n\u00e3o determinar\u00e1 apenas quem governa, mas se o pa\u00eds enfrentar\u00e1 a inadi\u00e1vel agenda de ajuste fiscal ou prolongar\u00e1 o caminho da domin\u00e2ncia fiscal \u2014 situa\u00e7\u00e3o em que a d\u00edvida p\u00fablica elevada compromete a efic\u00e1cia da pol\u00edtica de juros, for\u00e7ando o Banco Central a manter taxas cronicamente altas para compensar o descontrole das contas p\u00fablicas.<\/p>\n<p>Mesmo diante desse cen\u00e1rio mais vol\u00e1til, o mercado financeiro projeta a continuidade do crescimento da economia, por\u00e9m em ritmo inferior ao verificado neste ano. A mediana das proje\u00e7\u00f5es de crescimento est\u00e1 em 2,3% para 2025 e em 1,8% para 2026, segundo o boletim Focus.<\/p>\n<p>Duas for\u00e7as antag\u00f4nicas v\u00e3o movimentar a economia brasileira ao longo de 2026. De um lado, a din\u00e2mica global mostra resili\u00eancia e favorece investimentos em ativos de risco, como a\u00e7\u00f5es e moedas de pa\u00edses emergentes. Do outro, a <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/economia\/selic-2026-kit-reeleicao-lula-juros-altos-projecao\/\">crescente vulnerabilidade fiscal interna<\/a> amea\u00e7a a estabilidade macroecon\u00f4mica.<\/p>\n<h2>Cen\u00e1rio externo: ventos globais favorecem o Brasil no 1.\u00ba semestre<\/h2>\n<p>A perspectiva favor\u00e1vel para o in\u00edcio de 2026 reside, em grande parte, na din\u00e2mica global. O cen\u00e1rio internacional \u00e9 resiliente e favor\u00e1vel a ativos de risco. Os Estados Unidos n\u00e3o devem ter recess\u00e3o, sustentando o crescimento global em torno de 3%, segundo o Fundo Monet\u00e1rio Internacional (FMI).<\/p>\n<h3>IA e tecnologia como motores do crescimento da economia em 2026<\/h3>\n<p>O crescimento \u00e9 impulsionado pelos investimentos maci\u00e7os em tecnologia e intelig\u00eancia artificial (IA), que continuam a ser um motor de expans\u00e3o, aponta o J.P. Morgan Private Bank. O banco destaca que o impulso de crescimento proveniente dos gastos com IA ser\u00e1 uma fonte relevante de ganhos do Produto Interno Bruto (PIB) em 2026.<\/p>\n<p>Nos Estados Unidos, o investimento relacionado \u00e0 IA j\u00e1 contribuiu mais para o crescimento do PIB do que o consumo em 2025. O avan\u00e7o da IA tem impulsionado um aumento expressivo nos investimentos em infraestrutura, com as grandes empresas de tecnologia dos EUA triplicando seus gastos anuais de capital nos \u00faltimos anos.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, o pacote de corte de impostos do governo Trump deve injetar US$ 240 bilh\u00f5es na economia americana entre 2025 e 2026, sustentando o consumo e a atividade, ressalta William Castro Alves, estrategista-chefe da corretora Avenue, especializada em ativos internacionais.<\/p>\n<h3>Cortes do Fed beneficiam mercados emergentes<\/h3>\n<p>O fator mais importante para o Brasil \u00e9 o esperado ciclo de queda dos juros do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), que deve continuar ao longo do ano. Dois fatores contribuem para essa expectativa: a infla\u00e7\u00e3o moderada e o desaquecimento do mercado de trabalho. Apesar da expectativa de cortes, o cen\u00e1rio ainda ser\u00e1 de juros reais elevados.<\/p>\n<p>Segundo especialistas do Instituto Brasileiro de Economia da Funda\u00e7\u00e3o Getulio Vargas (FGV Ibre), a pol\u00edtica do Fed, ao se mover preventivamente, \u00e9 vista como um enfoque de &#8220;administra\u00e7\u00e3o de risco&#8221;, buscando dar est\u00edmulo \u00e0 economia e evitar um risco de deteriora\u00e7\u00e3o, mesmo que os dados n\u00e3o sinalizem uma crise aguda.<\/p>\n<p>A equipe de an\u00e1lise econ\u00f4mica da Genial Investimentos avalia que o mercado de trabalho e a atividade econ\u00f4mica mais aquecidos na maior economia global, junto com as incertezas que ainda permeiam a taxa de infla\u00e7\u00e3o, devem fazer com que o Fed adote uma postura mais conservadora no primeiro trimestre de 2026 e n\u00e3o promova qualquer altera\u00e7\u00e3o na taxa de juros.<\/p>\n<p>O real brasileiro, por sua vez, se beneficia do elevado diferencial de juros dom\u00e9sticos \u2014 a diferen\u00e7a entre os juros pagos no Brasil e nos Estados Unidos. Isso oferece uma rela\u00e7\u00e3o atrativa entre retorno cambial e risco entre os mercados emergentes, o que garante sua relativa for\u00e7a no primeiro semestre.<\/p>\n<h2>Taxa Selic e pol\u00edtica monet\u00e1ria: gastos limitam queda dos juros<\/h2>\n<p>Esse cen\u00e1rio externo favor\u00e1vel contrasta com os desafios dom\u00e9sticos. No plano interno, a pol\u00edtica de juros tem sido o principal fator de estabilidade. O Banco Central, sob a presid\u00eancia de Gabriel Gal\u00edpolo, manteve uma postura conservadora, sinalizando cautela com a infla\u00e7\u00e3o. Essa condu\u00e7\u00e3o foi crucial para a queda das expectativas inflacion\u00e1rias e para o fortalecimento da credibilidade institucional.<\/p>\n<p>A Selic \u2014 a taxa b\u00e1sica de juros da economia brasileira \u2014, mantida em um patamar restritivo de 15% por um per\u00edodo prolongado, atingiu seu objetivo de conter a demanda, destaca Hugo Garbe, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie.<\/p>\n<p>Com uma menor infla\u00e7\u00e3o e as expectativas recuando, o BC deve iniciar o ciclo de cortes no primeiro trimestre de 2026, dependendo da evolu\u00e7\u00e3o da infla\u00e7\u00e3o. A expectativa do mercado \u00e9 de que o ciclo seja moderado e que a Selic encerre 2026 em um n\u00edvel ainda elevado, pr\u00f3ximo de 12,25%, de acordo com as expectativas de mercado apresentadas no boletim Focus do BC.<\/p>\n<p>Solange Srour, diretora de macroeconomia para o Brasil do UBS Wealth Management, lembra que existe uma tens\u00e3o entre a pol\u00edtica de juros e a pol\u00edtica fiscal \u2014 isto \u00e9, entre o controle da infla\u00e7\u00e3o via juros altos e o aumento dos gastos p\u00fablicos.<\/p>\n<p>Essa situa\u00e7\u00e3o \u00e9 frequentemente destacada nas atas do Comit\u00ea de Pol\u00edtica Monet\u00e1ria (Copom). &#8220;E ainda h\u00e1 as elei\u00e7\u00f5es, que praticamente limitam os cortes ao primeiro semestre&#8221;, ressalta Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados.<\/p>\n<h3>Risco fiscal e a limita\u00e7\u00e3o da a\u00e7\u00e3o do Banco Central<\/h3>\n<p>Economistas alertam para o risco de domin\u00e2ncia fiscal, situa\u00e7\u00e3o em que a d\u00edvida p\u00fablica elevada e a percep\u00e7\u00e3o de descontrole dos gastos governamentais compromete a efic\u00e1cia da pol\u00edtica de juros.<\/p>\n<p>A continuidade e profundidade dos cortes na Selic, especialmente abaixo do patamar de 12,5% e em dire\u00e7\u00e3o ao juro neutro \u2014 o n\u00edvel de juros que n\u00e3o estimula nem desacelera a economia, estimado em 6% reais pelo UBS em um cen\u00e1rio fiscal sustent\u00e1vel \u2014, dependem da sinaliza\u00e7\u00e3o de um programa fiscal cr\u00edvel p\u00f3s-elei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<h4>Endividamento p\u00fablico acende alerta de sustentabilidade<\/h4>\n<p>O risco fiscal \u00e9 a principal vulnerabilidade macroecon\u00f4mica brasileira. O endividamento p\u00fablico deve atingir 83,8% do PIB em 2026, partindo de 79,6% em 2025, de acordo com o grupo financeiro su\u00ed\u00e7o.<\/p>\n<p>Esse crescimento acelerado, superior a quatro pontos percentuais do PIB, \u00e9 resultado da manuten\u00e7\u00e3o de juros reais altos e da aus\u00eancia de super\u00e1vits prim\u00e1rios consistentes \u2014 ou seja, o governo n\u00e3o consegue gastar menos do que arrecada, antes de pagar os juros da d\u00edvida.<\/p>\n<p>Excetuando um pequeno per\u00edodo entre o fim de 2021 e o in\u00edcio de 2023, as contas p\u00fablicas brasileiras est\u00e3o no vermelho desde novembro de 2014, no governo Dilma Rousseff.<\/p>\n<p>O governo demonstrou prefer\u00eancia clara pela expans\u00e3o dos gastos e receitas, evitando o enfrentamento de despesas obrigat\u00f3rias. A isen\u00e7\u00e3o do Imposto de Renda para rendas at\u00e9 R$ 5 mil mensais exemplifica o dilema fiscal. Embora apresentada como neutra em termos de arrecada\u00e7\u00e3o, a medida gera impulso \u00e0 demanda de 0,1% a 0,2% do PIB.<\/p>\n<p>Por beneficiar faixas com alta propens\u00e3o a consumir \u2014 isto \u00e9, fam\u00edlias que tendem a gastar quase toda a renda adicional que recebem \u2014, a medida for\u00e7a o Banco Central a manter a Selic elevada para conter press\u00f5es inflacion\u00e1rias, elevando o custo macroecon\u00f4mico da pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a din\u00e2mica de gastos obrigat\u00f3rios j\u00e1 est\u00e1 contratada. O reajuste real do sal\u00e1rio m\u00ednimo no in\u00edcio do ano e a vincula\u00e7\u00e3o de benef\u00edcios sociais e previdenci\u00e1rios ampliam o comprometimento da renda e elevam as despesas em um ritmo superior ao limite global do arcabou\u00e7o fiscal (2,5%).<\/p>\n<h4>Risco na rolagem da d\u00edvida p\u00fablica aumenta<\/h4>\n<p>A composi\u00e7\u00e3o da D\u00edvida P\u00fablica Mobili\u00e1ria Federal (DPMFi) piorou, com aumento da participa\u00e7\u00e3o de t\u00edtulos p\u00f3s-fixados \u2014 aqueles atrelados \u00e0 Selic, que encarecem quando os juros sobem \u2014 e prazo m\u00e9dio restrito a apenas quatro anos.<\/p>\n<p>Essa estrutura, em um cen\u00e1rio de juros altos e incerteza eleitoral, aumenta a vulnerabilidade ao risco de rolagem \u2014 a dificuldade de renovar a d\u00edvida que vence \u2014 e amplifica o custo do servi\u00e7o da d\u00edvida. Essa estrutura agrava o risco de domin\u00e2ncia fiscal.<\/p>\n<h3>Proje\u00e7\u00f5es para a Selic e infla\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os: o que esperar para a economia em 2026<\/h3>\n<p>O Banco Central deve iniciar o ciclo de cortes no primeiro trimestre de 2026. A expectativa \u00e9 de que os cortes sejam graduais, com redu\u00e7\u00f5es de 0,25 a 0,50 ponto percentual por reuni\u00e3o, dependendo da evolu\u00e7\u00e3o dos dados de infla\u00e7\u00e3o e atividade.<\/p>\n<p>Contudo, o ciclo deve ser curto e de magnitude limitada. O consenso projeta a Selic terminando 2026 em torno de 12,5%, patamar ainda muito elevado para os padr\u00f5es hist\u00f3ricos. Esse juro elevado reflete uma realidade inc\u00f4moda: o Banco Central \u00e9 for\u00e7ado a compensar com juros altos aquilo que o governo n\u00e3o resolve com ajuste fiscal.<\/p>\n<h4>Desemprego baixo e infla\u00e7\u00e3o travam o BC<\/h4>\n<p>Dois fatores limitam a capacidade do BC de reduzir juros de forma mais agressiva. Primeiro, o mercado de trabalho permanece aquecido. A taxa de desemprego (5,4% em outubro) est\u00e1 muito abaixo do n\u00edvel que n\u00e3o pressiona a infla\u00e7\u00e3o (estimado em 8%). Essa rigidez, impulsionada por fatores demogr\u00e1ficos, como o envelhecimento da popula\u00e7\u00e3o, e pelo crescimento real dos sal\u00e1rios (cerca de 4%), impede a queda da infla\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os.<\/p>\n<p>A infla\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os, projetada para 5,2% em 2026, continua distante do patamar de 4,1% compat\u00edvel com a meta de infla\u00e7\u00e3o geral de 3%. O BC precisar\u00e1 ver uma desacelera\u00e7\u00e3o clara neste componente para se sentir confort\u00e1vel em aprofundar os cortes de juros.<\/p>\n<p>&#8220;A demanda por servi\u00e7os est\u00e1 alta. Esse \u00e9 o segmento onde os pre\u00e7os raramente cedem, visto que a oferta \u00e9 essencialmente local&#8221;, lembra Maur\u00edcio Takahashi, professor de Economia da Universidade Mackenzie no campus Alphaville.<\/p>\n<p>O segundo fator \u00e9 a trajet\u00f3ria da d\u00edvida p\u00fablica. A capacidade do BC de reduzir juros de forma mais agressiva depende de um algo que escapa ao seu controle: a sinaliza\u00e7\u00e3o de um ajuste fiscal estrutural. Sem ela, o BC manter\u00e1 a Selic em n\u00edveis restritivos para evitar o cen\u00e1rio em que a d\u00edvida comprometa a efic\u00e1cia da pol\u00edtica de juros.<\/p>\n<h2>Oportunidades na Bolsa e riscos no cr\u00e9dito<\/h2>\n<p>Apesar da Selic ainda elevada, o mercado de a\u00e7\u00f5es \u00e9 a classe de ativos mais promissora para o primeiro semestre de 2026. Dois fatores sustentam o otimismo: pre\u00e7os atrativos e crescimento robusto de lucros corporativos, estimado em 18%, de acordo com consenso de analistas compilado pela Bloomberg.<\/p>\n<p>A queda dos juros internos \u2014 mesmo que moderada \u2014 ser\u00e1 o principal catalisador para a valoriza\u00e7\u00e3o da bolsa. O fluxo estrangeiro renovado, impulsionado pelo cen\u00e1rio global favor\u00e1vel a investimentos de risco (Fed em queda de juros e d\u00f3lar fraco), deve retornar aos mercados emergentes. O Brasil, com seu diferencial de juros ainda atraente e posi\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica em commodities, tende a capturar parte significativa desse capital.<\/p>\n<h3>Inadimpl\u00eancia em alta pressiona o cr\u00e9dito<\/h3>\n<p>Apesar do otimismo com a bolsa no primeiro semestre, a pol\u00edtica de juros restritiva deixa marcas profundas em setores sens\u00edveis ao cr\u00e9dito. O mercado de cr\u00e9dito ainda contabiliza os estragos da Selic a 15%, com efeitos defasados que se manifestar\u00e3o ao longo dos primeiros meses de 2026.<\/p>\n<p>A inadimpl\u00eancia permanece elevada, especialmente no cr\u00e9dito a pessoas f\u00edsicas. O comprometimento da renda das fam\u00edlias com o pagamento de d\u00edvidas atingiu 28,5% em setembro de 2025, recorde da s\u00e9rie hist\u00f3rica iniciada em 2005, segundo o Banco Central. Esse patamar reflete o ac\u00famulo de d\u00edvidas contra\u00eddas em per\u00edodos de juros mais baixos, que agora pesam sobre o or\u00e7amento dom\u00e9stico.<\/p>\n<p>A insolv\u00eancia corporativa deve continuar em alta. &#8220;O cen\u00e1rio continua duro. A combina\u00e7\u00e3o de juros altos, cr\u00e9dito restrito e instabilidade global pressiona as empresas, que batalham para conseguir &#8216;dinheiro novo&#8217; visando \u00e0 reestrutura\u00e7\u00e3o, uma vez que as institui\u00e7\u00f5es financeiras est\u00e3o cada vez mais avessas ao risco&#8221;, diz Rodrigo Gallegos, s\u00f3cio da RGF Associados e especialista em reestrutura\u00e7\u00e3o empresarial.<\/p>\n<p>O al\u00edvio nas condi\u00e7\u00f5es de cr\u00e9dito deve ocorrer apenas no final de 2026, devido \u00e0 defasagem de seis a nove meses entre o corte da Selic e o impacto sobre inadimpl\u00eancia e recupera\u00e7\u00f5es judiciais. Setores como varejo de bens dur\u00e1veis, constru\u00e7\u00e3o civil residencial e autom\u00f3veis continuar\u00e3o sob press\u00e3o no primeiro semestre, com recupera\u00e7\u00e3o gradual apenas no fim do ano.<\/p>\n<h2>Elei\u00e7\u00f5es trazem volatilidade e incerteza fiscal \u00e0 economia em 2026<\/h2>\n<p>A partir do segundo semestre, o cen\u00e1rio muda radicalmente. A disputa eleitoral e a press\u00e3o fiscal retomam o centro do palco. As elei\u00e7\u00f5es de 2026 ser\u00e3o decisivas n\u00e3o apenas para definir quem governa, mas para determinar se o Brasil enfrentar\u00e1 a agenda de ajuste estrutural ou prolongar\u00e1 a trajet\u00f3ria de deteriora\u00e7\u00e3o fiscal.<\/p>\n<p>&#8220;O governo eleito, mesmo que seja Lula, vai ser obrigado a lidar com algumas din\u00e2micas das despesas obrigat\u00f3rias&#8221;, diz Alessandra Ribeiro, diretora de macroeconomia da Tend\u00eancias Consultoria.<\/p>\n<p>A polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica tende a se intensificar, com o debate eleitoral privilegiando narrativas de justi\u00e7a tribut\u00e1ria em detrimento de discuss\u00f5es sobre efici\u00eancia e tamanho do Estado. Em ano eleitoral, o governo deu prioridade a medidas de apelo popular. O momento da medida refor\u00e7a a percep\u00e7\u00e3o de que o ajuste fiscal estrutural foi adiado para depois das urnas.<\/p>\n<p>&#8220;O governo se apoia na ideia de que gastar mais impulsiona a atividade, mas isso s\u00f3 funciona quando os gastos s\u00e3o eficientes e geram retorno claro, como em infraestrutura, elimina\u00e7\u00e3o de atritos para os neg\u00f3cios prosperarem&#8221;, destaca Takahashi, da Mackenzie.<\/p>\n<h3>Mercado aguarda plano fiscal cr\u00edvel do pr\u00f3ximo governo<\/h3>\n<p>O risco central \u00e9 que a elei\u00e7\u00e3o n\u00e3o resolva a quest\u00e3o fiscal. Caso o pr\u00f3ximo governo n\u00e3o sinalize um plano cr\u00edvel de ajuste das contas p\u00fablicas, o mercado reagir\u00e1 com avers\u00e3o ao risco, pressionando o c\u00e2mbio e os ativos dom\u00e9sticos. A volatilidade cambial deve se intensificar no segundo semestre, com o real vulner\u00e1vel a epis\u00f3dios de fuga de capital e deteriora\u00e7\u00e3o das expectativas.<\/p>\n<p>&#8220;No segundo semestre, a perspectiva fiscal deve ser importante. O mercado vai tentar entender se a elei\u00e7\u00e3o destrava eventualmente um plano fiscal mais cr\u00edvel para o ano que vem. Se isso acontecer, o potencial de alta para a bolsa \u00e9 muito grande&#8221;, diz Telo, do UBS.<\/p>\n<p>Pesquisas de opini\u00e3o indicam que o eleitorado brasileiro favorece seguran\u00e7a p\u00fablica e sa\u00fade em detrimento de temas econ\u00f4micos. Essa prefer\u00eancia reduz a probabilidade de que candidatos com agendas reformistas ganhem for\u00e7a eleitoral, aumentando o risco de continuidade do gradualismo fiscal \u2014 ajustes lentos e insuficientes.<\/p>\n<p>O gradualismo fiscal focado em aumento de impostos tende a prolongar a incerteza, como mostram experi\u00eancias recentes na Am\u00e9rica Latina. Ajustes fiscais graduais em mercados emergentes frequentemente fracassam quando evitam reformas estruturais de gastos. O mercado teme que o pr\u00f3ximo governo repita o padr\u00e3o de ajustes cosm\u00e9ticos, baseados em aumento de receitas e adiamento de reformas estruturais.<\/p>\n<h3>Domin\u00e2ncia fiscal: o fantasma que ronda 2027<\/h3>\n<p>Caso o ajuste estrutural n\u00e3o ocorra, o risco de domin\u00e2ncia fiscal se materializa em 2027.<\/p>\n<p>Casos recentes na Turquia (2018-2023) e na Argentina (2015-2019) mostram como ajustes graduais centrados em aumento de impostos prolongaram a crise fiscal e resultaram em infla\u00e7\u00e3o persistente acima de 50% ao ano.<\/p>\n<p>Nesses pa\u00edses, a pol\u00edtica de juros perdeu sua pot\u00eancia diante da d\u00edvida insustent\u00e1vel, for\u00e7ando os bancos centrais a tolerar infla\u00e7\u00e3o elevada para evitar o colapso das contas p\u00fablicas.<\/p>\n<p>No Brasil, a agenda inadi\u00e1vel de 2027 inclui a revis\u00e3o da regra de reajuste do sal\u00e1rio m\u00ednimo, a desvincula\u00e7\u00e3o de benef\u00edcios sociais e previdenci\u00e1rios e reformas estruturais que reduzam o crescimento vegetativo das despesas obrigat\u00f3rias. O arcabou\u00e7o fiscal atual \u00e9 visto como insustent\u00e1vel diante da din\u00e2mica de gastos obrigat\u00f3rios.<\/p>\n<h4>Fim do arcabou\u00e7o fiscal exige reformas estruturais<\/h4>\n<p>Alessandra Ribeiro, da Tend\u00eancias, destaca que o arcabou\u00e7o fiscal n\u00e3o sobrevive a 2027. &#8220;Estamos tendo um esgotamento do Or\u00e7amento sob essa regra, porque as despesas obrigat\u00f3rias est\u00e3o crescendo num ritmo muito mais acelerado do que o limite global que foi estipulado na regra, de at\u00e9 2,5%.&#8221;<\/p>\n<p>Sem essas reformas, o Brasil entrar\u00e1 em um ciclo vicioso: juros reais cronicamente elevados para conter a infla\u00e7\u00e3o, agravando o custo da d\u00edvida e sufocando o crescimento. A taxa de investimento permanecer\u00e1 deprimida, com produtividade estagnada, e o pa\u00eds perder\u00e1 competitividade global. O custo de oportunidade ser\u00e1 imenso: recursos que poderiam financiar infraestrutura, educa\u00e7\u00e3o e inova\u00e7\u00e3o ser\u00e3o drenados para o pagamento de juros.<\/p>\n<p>A escolha de 2027 \u00e9 bin\u00e1ria: ajuste estrutural com reformas de gastos ou domin\u00e2ncia fiscal com juros altos permanentes. O mercado precificar\u00e1 essa escolha ao longo do segundo semestre de 2026, \u00e0 medida que as propostas dos candidatos se tornarem mais claras. A volatilidade ser\u00e1 a marca registrada desse per\u00edodo, com oscila\u00e7\u00f5es bruscas nos ativos dom\u00e9sticos conforme as pesquisas eleitorais e os sinais de compromisso fiscal dos candidatos.<\/p>\n<p>O cen\u00e1rio base \u2014 continuidade do gradualismo \u2014 j\u00e1 est\u00e1 parcialmente embutido nos pre\u00e7os dos ativos. Mas o cen\u00e1rio de ruptura fiscal (domin\u00e2ncia) ainda n\u00e3o est\u00e1 totalmente incorporado aos pre\u00e7os. Investidores prudentes devem reduzir exposi\u00e7\u00e3o a ativos de risco dom\u00e9stico no segundo semestre, dando prioridade a prote\u00e7\u00e3o cambial e ativos com menor correla\u00e7\u00e3o ao risco Brasil.<\/p>\n<\/div>\n<p>\u00a0<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A campanha eleitoral far\u00e1 da economia em 2026 um ano de contrastes no Brasil. 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