{"id":85833,"date":"2026-01-01T14:00:00","date_gmt":"2026-01-01T18:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=85833"},"modified":"2026-01-01T14:00:00","modified_gmt":"2026-01-01T18:00:00","slug":"um-avivamento-cristao-tambem-esta-em-curso-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=85833","title":{"rendered":"Um avivamento crist\u00e3o tamb\u00e9m est\u00e1 em curso no Brasil?"},"content":{"rendered":"<div class=\"postLayout_post-content__gsXFz\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/media.gazetadopovo.com.br\/2025\/03\/12095242\/Formato-Gazeta-3-3.jpg.webp\" \/><span>Frei Gilson tem sido um dos fen\u00f4menos do recente avivamento crist\u00e3o no Brasil. (Foto: Daniel Xavier\/Can\u00e7\u00e3o Nova)<\/span>\n<p>Ou\u00e7a este conte\u00fado<\/p>\n<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\"><em>\u201cH\u00e1 no homem um abismo infinito que s\u00f3 pode ser preenchido por Deus.\u201d<\/em> (Blaise Pascal,<em> Pens\u00e9es<\/em>)<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">Esta \u00e9 ao mesmo tempo a minha primeira e a minha \u00faltima coluna. Mas o leitor n\u00e3o carece de ficar alarmado. \u00c9 a primeira de 2026, que come\u00e7a precisamente hoje, e a \u00faltima deste primeiro m\u00eas do novo ano, pois entro em f\u00e9rias agora no pr\u00f3ximo dia 5 \u2013 um descanso mais que necess\u00e1rio, depois de um ano muito intenso, tanto do ponto de vista pessoal quanto pol\u00edtico. Retomo a coluna em fevereiro e, nesse meio tempo, deixo-os com a presente reflex\u00e3o sobre um fen\u00f4meno que, j\u00e1 detectado por intelectuais e formadores de opini\u00e3o no exterior, parece ainda fora do radar da <em>intelligentsia<\/em> brasileira, embora a sua manifesta\u00e7\u00e3o local seja particularmente digna de nota.<\/p>\n<p>Refiro-me \u00e0quilo que Ayaan Hirsi Ali \u2013 intelectual nascida numa fam\u00edlia mu\u00e7ulmana da Som\u00e1lia, depois convertida ao neoate\u00edsmo e, hoje, ao <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/cristianismo\/\">cristianismo <\/a>\u2013 chamou de \u201cavivamento crist\u00e3o\u201d em artigo para o <em>The Spectator<\/em> intitulado <a href=\"https:\/\/spectator.com\/article\/a-christian-revival-is-under-way\/\">\u201cEst\u00e1 em curso um avivamento crist\u00e3o\u201d<\/a>, no qual celebrava o seu segundo Natal como crist\u00e3. O t\u00edtulo desta coluna \u00e9, portanto, inspirado no de Hirsi Ali.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">No artigo da <em>The Spectator<\/em>, Hirsi Ali descreve um movimento crescente de retorno \u00e0 <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/religiao\/\">religi\u00e3o <\/a>crist\u00e3 no Ocidente, especialmente entre jovens, intelectuais e figuras p\u00fablicas que antes se identificavam com o secularismo. Ap\u00f3s d\u00e9cadas de decl\u00ednio da pr\u00e1tica religiosa e de confian\u00e7a quase exclusiva em solu\u00e7\u00f5es pretensamente racionais, terap\u00eauticas ou pol\u00edticas, muitos passaram a reconhecer os limites do secularismo para oferecer sentido, coes\u00e3o social e fundamentos morais duradouros. Ela observa que crises como o enfraquecimento da fam\u00edlia, a solid\u00e3o, o aumento da ansiedade e a radicaliza\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica criaram um terreno prop\u00edcio para essa reaproxima\u00e7\u00e3o com a f\u00e9.<\/p>\n<p>Esse diagn\u00f3stico, longe de se restringir a impress\u00f5es subjetivas, encontra eco em uma s\u00e9rie de trajet\u00f3rias intelectuais e existenciais recentes, mapeadas por Peter Savodnik em um longo ensaio publicado uma semana depois no <em>The Free Press<\/em>, com o t\u00edtulo <a href=\"https:\/\/www.thefp.com\/p\/how-intellectuals-found-god-ayaan-hirsi-ali-peter-thiel-jordan-peterson\">\u201cComo intelectuais encontraram Deus\u201d<\/a>. O que emerge desse levantamento passa longe de um simples modismo espiritual ou nostalgia rom\u00e2ntica. Trata-se do reconhecimento tardio de que o projeto secular moderno, ao tentar erradicar o cristianismo da vida p\u00fablica e da imagina\u00e7\u00e3o moral do Ocidente, acabou por gerar uma sucess\u00e3o de substitutos espirituais muito mais agressivos, dogm\u00e1ticos e desumanizadores, precisamente por se apresentarem como n\u00e3o religiosos.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">Savodnik abre o texto falando do escritor Matthew Crawford, cujo percurso intelectual \u00e9 bastante ilustrativo. Formado no cora\u00e7\u00e3o da academia secular, seduzido em juventude pela cr\u00edtica nietzschiana ao cristianismo e perfeitamente integrado ao <em>ethos<\/em> intelectual moderno, Crawford acabou descobrindo \u2013 n\u00e3o por via de argumentos abstratos, mas por meio de uma experi\u00eancia concreta de comunidade, amor (sua esposa foi fundamental em sua convers\u00e3o) e beleza \u2013 tudo aquilo que a modernidade lhe negara: a percep\u00e7\u00e3o de uma ordem moral objetiva que precede e julga o indiv\u00edduo. Ao contr\u00e1rio do que sugere o secularismo militante, sua convers\u00e3o ao anglicanismo n\u00e3o representa uma capitula\u00e7\u00e3o da raz\u00e3o, mas o reconhecimento de seus limites.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Onde o cristianismo recua, n\u00e3o se instala o vazio, mas outras formas de religiosidade \u2013 mais ilus\u00f3rias, mais violentas e menos conscientes de si mesmas<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Esse padr\u00e3o se repete, com varia\u00e7\u00f5es, em outras figuras analisadas por Savodnik. O escritor irland\u00eas Paul Kingsnorth, ap\u00f3s transitar pelo ambientalismo radical, pelo budismo zen e pelo neopaganismo, encontrou na Ortodoxia crist\u00e3 aquilo que nenhuma espiritualidade alternativa lhe oferecera: uma s\u00edntese entre cria\u00e7\u00e3o, transcend\u00eancia e sacrif\u00edcio. Sua cr\u00edtica \u00e0 modernidade n\u00e3o \u00e9 meramente pol\u00edtica ou est\u00e9tica, mas ontol\u00f3gica. O mundo t\u00e9cnico, privado de refer\u00eancia ao Criador, torna-se incapaz de reconhecer o valor intr\u00ednseco do criado \u2013 e, em \u00faltima inst\u00e2ncia, do pr\u00f3prio homem.<\/p>\n<p>Aqui conv\u00e9m recordar algo que venho sustentando h\u00e1 anos: o problema do secularismo n\u00e3o \u00e9 a suposta neutralidade religiosa, mas o fato de que, justamente, <em>ele nunca \u00e9 neutro<\/em>. Onde o cristianismo recua, n\u00e3o se instala o vazio, mas outras formas de religiosidade \u2013 mais ilus\u00f3rias, mais violentas e menos conscientes de si mesmas. O chamado \u201cneoate\u00edsmo\u201d, <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/vozes\/flavio-gordon\/neoateismo-e-gnosticismo-richard-dawkins\/\">como argumentei em outra ocasi\u00e3o<\/a>, funcionou menos como supera\u00e7\u00e3o da religi\u00e3o do que como sua deforma\u00e7\u00e3o gn\u00f3stica: a promessa de salva\u00e7\u00e3o pelo conhecimento, pela t\u00e9cnica e pela ci\u00eancia.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">E o neoate\u00edsmo n\u00e3o foi a \u00fanica <em>Ersatzreligion<\/em> surgida no s\u00e9culo 21, o s\u00e9culo que, de acordo com as previs\u00f5es dos te\u00f3ricos da seculariza\u00e7\u00e3o, deveria ser definitivamente livre de toda cren\u00e7a religiosa. Como t\u00eam sugerido autores como James Lindsay, Jean-Fran\u00e7ois Braunstein e John McWhorter, entre outros, o wokismo, com seu moralismo manique\u00edsta, seus rituais de confiss\u00e3o p\u00fablica, sua obsess\u00e3o com pureza identit\u00e1ria e seu impulso punitivo, tem todo o aspecto de uma seita secular. Sua l\u00f3gica \u00e9 sacrificial, e seus bodes expiat\u00f3rios s\u00e3o escolhidos segundo crit\u00e9rios sempre mut\u00e1veis, definidos por comiss\u00e1rios ideol\u00f3gicos investidos de uma autoridade moral autoconcedida. Que Osama bin Laden tenha sido o primeiro terrorista <em>woke<\/em> chegou a ser sugerido pelo jornalista brit\u00e2nico <a href=\"https:\/\/www.spiked-online.com\/2021\/09\/10\/when-the-politics-of-victimhood-turned-violent\/\">Brendan O\u2019Neill<\/a>.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m Peter Thiel, leitor atento de Ren\u00e9 Girard, percebeu com clareza esse mecanismo. Nos \u00faltimos anos, Thiel tem defendido fortemente o cristianismo, n\u00e3o tanto em termos culturalistas (como come\u00e7ou a fazer, por exemplo, o pr\u00f3prio Richard Dawkins), mas como quem reconhece no Evangelho a \u00fanica revela\u00e7\u00e3o capaz de desarmar a viol\u00eancia mim\u00e9tica que estrutura tanto as sociedades arcaicas quanto os totalitarismos modernos. O cristianismo revela a inoc\u00eancia da v\u00edtima e, ao faz\u00ea-lo, torna ileg\u00edtima toda pol\u00edtica fundada no sacrif\u00edcio ritual de grupos inteiros.<\/p>\n<p>\u201cDeus tem algum tipo de plano para a hist\u00f3ria\u201d, disse Thiel em maio de 2024, <a href=\"https:\/\/medium.com\/@bonniekavoussi\/peter-thiel-returns-to-san-francisco-to-make-the-intellectual-case-for-christianity-9f90da7b7e8d\">em entrevista a um pastor em uma antiga igreja<\/a>. \u201cTalvez seja um plano oculto; um plano secreto. Ele tem um plano para a sua vida.\u201d Nas palavras de Savodnik:<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\"><em>\u201cFoi um momento not\u00e1vel: um dos deuses do Vale do Sil\u00edcio, que durante muito tempo argumentou que a tecnologia poderia curar a morte, agora dizia que havia um \u00fanico Deus verdadeiro \u2013 e que os seres humanos eram humanos: limitados, mortais, \u00e0 merc\u00ea de for\u00e7as maiores.\u201d<\/em><\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">Mesmo figuras menos teologicamente informadas, como Elon Musk, parecem intuir esse problema. Sua cr\u00edtica recorrente ao que tamb\u00e9m chama de \u201creligi\u00e3o <em>woke<\/em>\u201d e sua defesa cada vez mais expl\u00edcita de princ\u00edpios crist\u00e3os n\u00e3o decorrem, por \u00f3bvio, de um tradicionalismo nost\u00e1lgico, mas da constata\u00e7\u00e3o emp\u00edrica de que o secularismo progressista degenerou numa pseudo-ortodoxia, coercitiva, moralista e puritana. Ao tentar impor uma moral absoluta sem Deus, o wokismo acaba por absolutizar o poder humano \u2013 exatamente aquilo que o cristianismo sempre recusou.<\/p>\n<p>\u201cNa verdade, sou um grande defensor dos princ\u00edpios do cristianismo\u201d, disse Musk a Jordan Peterson, <a href=\"https:\/\/x.com\/i\/broadcasts\/1LyGBgPvoDjJN\">em entrevista realizada em julho de 2024<\/a>. Dias depois, ele ainda <a href=\"https:\/\/x.com\/elonmusk\/status\/1817273263761817710\">publicaria no X<\/a> o seguinte coment\u00e1rio: \u201cA menos que haja mais coragem para defender o que \u00e9 justo e correto, o cristianismo perecer\u00e1\u201d.<\/p>\n<p>Creio que um elemento importante de geopol\u00edtica contempor\u00e2nea influencia nessa avalia\u00e7\u00e3o de figuras como Thiel, Musk, Hirsi Ali e o pr\u00f3prio Dawkins, fundador do neoate\u00edsmo e hoje autoproclamado <a href=\"https:\/\/x.com\/LBC\/status\/1774510715975368778\">\u201cum crist\u00e3o cultural\u201d<\/a>, a saber: o contraste entre o cristianismo e o islamismo jihadista. Assim como o wokismo, o islamismo \u00e9 uma religi\u00e3o pol\u00edtica por excel\u00eancia, que n\u00e3o reconhece distin\u00e7\u00e3o entre esfera espiritual e poder temporal, exigindo submiss\u00e3o integral e legitimando a viol\u00eancia em nome de uma causa supostamente redentora. O cristianismo, ao contr\u00e1rio, funda-se na distin\u00e7\u00e3o radical entre Deus e C\u00e9sar \u2013 distin\u00e7\u00e3o que, <a href=\"https:\/\/www.lanacion.com.ar\/cultura\/seguimos-viviendo-en-la-edad-media-dice-jacques-le-goff-nid746748\/\">como admitiu o historiador ateu Jacques Le Goff<\/a>, est\u00e1 na origem do laicismo ocidental, e sem a qual n\u00e3o h\u00e1 liberdade de consci\u00eancia, nem limita\u00e7\u00e3o do poder, nem a possibilidade de uma pol\u00edtica que n\u00e3o seja totalit\u00e1ria.<\/p>\n<p>Nesse sentido, o retorno ao cristianismo observado por Savodnik deve ser compreendido como um movimento de lucidez civilizacional. Depois de experimentar as promessas do progresso ilimitado, da engenharia social e da autodiviniza\u00e7\u00e3o do homem, muitos come\u00e7am a reconhecer que a tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3 n\u00e3o era o obst\u00e1culo ao florescimento humano, mas a sua condi\u00e7\u00e3o de possibilidade. N\u00e3o porque ofere\u00e7a solu\u00e7\u00f5es f\u00e1ceis, mas porque apresenta uma antropologia realista: o homem \u00e9 digno, por\u00e9m ferido. \u00c9 livre, mas dependente da gra\u00e7a. Foi chamado \u00e0 verdade, mas se mostrou incapaz de alcan\u00e7\u00e1-la por esfor\u00e7os pr\u00f3prios.<\/p>\n<p>No Brasil, esse movimento de retorno assume uma forma ainda mais eloquente, justamente porque ocorre \u00e0 revelia \u2013 e muitas vezes contra a hostilidade aberta \u2013 das ditas \u201celites\u201d culturais, acad\u00eamicas e midi\u00e1ticas. <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/vozes\/flavio-gordon\/estado-laaaico-estado-laaaico\/\">Enquanto a <em>intelligentsia<\/em> nacional permanece fixada em categorias envelhecidas<\/a>, tratando o cristianismo como res\u00edduo folcl\u00f3rico ou instrumento de domina\u00e7\u00e3o, cresce fora de seus sal\u00f5es um interesse real, visceral e nada extempor\u00e2neo pela f\u00e9 crist\u00e3, especialmente entre jovens. N\u00e3o se trata de um cristianismo dilu\u00eddo, terap\u00eautico ou \u201cprogressista\u201d, moldado para agradar sensibilidades contempor\u00e2neas, mas de uma busca deliberada por doutrina, ascese, liturgia e autoridade espiritual.<\/p>\n<blockquote class=\"postQuote_post-quote-container__KXTpH\">\n<p>O cristianismo retorna n\u00e3o como rel\u00edquia do passado, mas como tradi\u00e7\u00e3o viva, capaz de lembrar, com sobriedade e firmeza, que a liberdade humana s\u00f3 sobrevive quando o absoluto n\u00e3o \u00e9 sequestrado pelo misticismo pol\u00edtico e\/ou cient\u00edfico<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>O caso de <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/gazeta-revista\/fenomeno-como-frei-gilson-se-tornou-o-religioso-mais-popular-do-brasil\/\">frei Gilson<\/a> \u00e9 emblem\u00e1tico nesse sentido. Transformado em alvo de campanhas de difama\u00e7\u00e3o, acusa\u00e7\u00f5es grotescas e patrulhamento ideol\u00f3gico, o frade tornou-se, paradoxalmente, um dos principais catalisadores desse despertar religioso. Sua popularidade \u2013 sobretudo entre jovens \u2013 n\u00e3o decorre de concess\u00f5es ao esp\u00edrito do tempo, mas precisamente do contr\u00e1rio: da clareza doutrinal, da linguagem direta e da serena recusa em submeter a f\u00e9 crist\u00e3 aos filtros moralistas do progressismo identit\u00e1rio. A rea\u00e7\u00e3o hist\u00e9rica que provoca diz menos sobre ele do que sobre o desconforto profundo que o cristianismo ainda desperta quando ousa falar em voz pr\u00f3pria.<\/p>\n<p>O que est\u00e1 em jogo aqui n\u00e3o \u00e9 o <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/frei-gilson\/\">frei Gilson<\/a> enquanto indiv\u00edduo, muito embora suas qualidades e dons pessoais obviamente importem. O fato socialmente relevante \u00e9 que a sua presen\u00e7a p\u00fablica desmonta uma narrativa cuidadosamente constru\u00edda segundo a qual a religi\u00e3o s\u00f3 pode ser tolerada se permanecer confinada ao \u00e2mbito privado, domesticada e inofensiva. Quando um sacerdote cat\u00f3lico fala de pecado, convers\u00e3o, sacrif\u00edcio e verdade objetiva \u2013 e ainda por cima atrai multid\u00f5es \u2013, ele exp\u00f5e o car\u00e1ter pseudorreligioso da ortodoxia dominante, que exige submiss\u00e3o total, mas n\u00e3o oferece transcend\u00eancia, perd\u00e3o ou esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>\u00c9 justamente a\u00ed que, a despeito da incapacidade de nossas classes falantes e (supostamente) pensantes de apreender o fen\u00f4meno, o paralelo com o fen\u00f4meno internacional descrito por Savodnik se torna evidente. Assim como no caso de Peter Thiel ou Jordan Peterson, o objeto endere\u00e7ado por figuras como frei Gilson n\u00e3o est\u00e1 ligado a uma nostalgia irracional, mas \u00e0 percep\u00e7\u00e3o difusa de que algo essencial foi perdido. Num pa\u00eds corro\u00eddo por uma pedagogia do ressentimento, por uma pol\u00edtica que se alimenta do conflito permanente e por uma cultura que absolutiza desejos e identidades tribais, o cristianismo reaparece como aquilo que sempre foi: uma escola de realidade.<\/p>\n<p>Nesse sentido, o que se observa no Brasil n\u00e3o \u00e9 um simples conflito cultural epis\u00f3dico, mas um choque entre duas concep\u00e7\u00f5es de mundo incompat\u00edveis. De um lado, varia\u00e7\u00f5es de uma religi\u00e3o pol\u00edtica que promete reden\u00e7\u00e3o pela linguagem, pela t\u00e9cnica e pela vigil\u00e2ncia moral. De outro, uma tradi\u00e7\u00e3o espiritual milenar que afirma, com estonteante serenidade, que o homem n\u00e3o se salva a si mesmo \u2013 e que toda tentativa de o fazer termina em tirania.<\/p>\n<p>O historiador Niall Ferguson (ali\u00e1s, marido de Ayaan Hirsi Ali) disse certa vez que a tradi\u00e7\u00e3o religiosa crist\u00e3 <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/gazeta-revista\/fenomeno-como-frei-gilson-se-tornou-o-religioso-mais-popular-do-brasil\/\">\u201cfornece imunidade \u00e9tica contra as falsas religi\u00f5es de Lenin e Hitler\u201d<\/a>. O interesse crescente por figuras como frei Gilson sugere que muitos brasileiros, especialmente os mais jovens, come\u00e7am a intuir essa verdade fundamental.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>Se h\u00e1, portanto, um avivamento crist\u00e3o tamb\u00e9m em curso no Brasil, ele n\u00e3o se d\u00e1 com a b\u00ean\u00e7\u00e3o das elites nem sob os holofotes da grande m\u00eddia. Ele acontece nos interst\u00edcios, nas par\u00f3quias cheias, nas redes sociais, nos confession\u00e1rios e nas convers\u00f5es silenciosas. E talvez seja justamente por isso que incomode tanto: porque lembra \u2013 num pa\u00eds saturado de falsas promessas pol\u00edticas feitas por autoridades atoladas em corrup\u00e7\u00e3o e garantias meramente nominais fornidas por institui\u00e7\u00f5es pestilentas \u2013 que a verdadeira renova\u00e7\u00e3o nunca come\u00e7a pelo poder, mas pela alma.<\/p>\n<p>Se h\u00e1, realmente, um avivamento crist\u00e3o em curso, ele n\u00e3o nasce do medo, mas do reconhecimento. Reconhecimento de que nenhuma ideologia pode substituir Deus; de que nenhuma t\u00e9cnica pode redimir o homem; e de que toda tentativa de construir o para\u00edso na terra termina, invariavelmente, em coer\u00e7\u00e3o e mentira. O cristianismo retorna n\u00e3o como rel\u00edquia do passado, mas como tradi\u00e7\u00e3o viva, capaz de lembrar, com sobriedade e firmeza, que a liberdade humana s\u00f3 sobrevive quando o absoluto n\u00e3o \u00e9 sequestrado pelo misticismo pol\u00edtico e\/ou cient\u00edfico.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">Talvez seja essa lembran\u00e7a, ao mesmo tempo simples e exigente, que explique por que tantos, depois de terem acreditado em quase tudo, come\u00e7am agora a voltar-se novamente para a f\u00e9 que moldou a civiliza\u00e7\u00e3o que ainda tentamos compreender \u2013 e, quem sabe, preservar. E ningu\u00e9m descreveu t\u00e3o bem o significado desse retorno, desse avivamento, como G. K. Chesterton em <em>Ortodoxia<\/em>:<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\"><em>\u201cEu sou o homem que com a m\u00e1xima ousadia descobriu o que j\u00e1 fora descoberto antes (&#8230;) Como todos os outros menininhos pomposos, tentei colocar-me \u00e0 frente de meu tempo; e descobri que estava 1.800 anos atr\u00e1s. Forcei minha voz com penoso exagero juvenil ao proferir minhas verdades. E fui punido da maneira mais adequada e engra\u00e7ada, pois mantive as verdades: mas descobri, n\u00e3o que n\u00e3o eram verdades, mas simplesmente que n\u00e3o eram minhas. Quando imaginei que estava sozinho encontrei-me de fato na rid\u00edcula posi\u00e7\u00e3o de receber o apoio de toda a cristandade (&#8230;) Tentei fundar uma heresia s\u00f3 minha; e quando lhe dei o \u00faltimo acabamento descobri que era a ortodoxia.\u201d<\/em><\/p>\n<p>Com isso, despe\u00e7o-me temporariamente de meus leitores, desejando a todos um \u00f3timo ano novo, prenhe de realiza\u00e7\u00f5es e, sobretudo, de sentido. Que 2026 nos traga novidades, desafios, surpresas, amadurecimento, deslumbramento e tudo o mais que provenha da vontade divina. Mas que n\u00f3s o recebamos fortes e serenos, com a mente aberta \u2013 n\u00e3o a ponto de permitir a queda do c\u00e9rebro, como tamb\u00e9m diria Chesterton \u2013 e os p\u00e9s fincados na terra firma da ortodoxia.<\/p>\n<\/div>\n<p>Conte\u00fado editado por: <a title=\"Link para o perfil de Marcio Antonio Campos\" href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/autor\/marcio-antonio-campos\/\">Marcio Antonio Campos<\/a><\/p>\n<p>Encontrou algo errado na mat\u00e9ria?<\/p>\n<p>Comunique erros<\/p>\n<p>Use este espa\u00e7o apenas para a comunica\u00e7\u00e3o de erros<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Frei Gilson tem sido um dos fen\u00f4menos do recente avivamento crist\u00e3o no Brasil. 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