{"id":81430,"date":"2025-12-31T09:14:26","date_gmt":"2025-12-31T13:14:26","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=81430"},"modified":"2025-12-31T09:14:26","modified_gmt":"2025-12-31T13:14:26","slug":"reflexoes-sobre-a-tempestade-uma-cronica-de-ano-novo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=81430","title":{"rendered":"Reflex\u00f5es sobre a tempestade: uma cr\u00f4nica de Ano Novo"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>H\u00e1 14 anos, minha m\u00e3e estava internada no quarto 700. Naquela tarde, fui at\u00e9 a pequena capela do hospital, ajoelhei-me diante do crucifixo e fiz uma prece sem palavras.<\/p>\n<p>Ao lado da capela ficava a ala das crian\u00e7as. Os pequenos pacientes, acompanhados de suas m\u00e3es e pais \u2014 havia av\u00f3s e irm\u00e3os tamb\u00e9m \u2014, aguardavam sess\u00f5es de quimioterapia. Nas paredes da ala infantil, vi desenhos de anjos e fadas; e uma mo\u00e7a baixinha, de cabelos curtos, que conversava com as crian\u00e7as e sorria.<\/p>\n<p>De repente, a mo\u00e7a se virou para mim:<\/p>\n<p>\u2014 Paulo!<\/p>\n<p>Ent\u00e3o eu a reconheci.<\/p>\n<p>\u2014 Ana!<\/p>\n<p>Sete anos antes, Ana e eu hav\u00edamos trabalhado juntos. Numa manh\u00e3 de s\u00e1bado, seus dois filhos, uma menina de 10 e um menino de 7 anos, sa\u00edram para comprar balas na mercearia e foram atropelados na faixa de pedestres por um motorista que avan\u00e7ou o sinal vermelho.<\/p>\n<p>Agora, Ana estava ali. Sorrindo. Conversando com as crian\u00e7as. Confortando pais e m\u00e3es. Minorando o sofrimento dos outros.<\/p>\n<p>A vis\u00e3o de Ana foi a resposta \u00e0 minha prece silenciosa e tornou meu cora\u00e7\u00e3o mais forte para suportar a dor daquele momento. Imediatamente, lembrei-me de outra Ana, a profetisa de 84 anos que recebeu Maria e Jos\u00e9 no dia da apresenta\u00e7\u00e3o no Templo. Dois mil anos depois, uma nova Ana acolhia as crian\u00e7as no hospital.<\/p>\n<p>Despedi-me afetuosamente de Ana e voltei ao quarto 700. Minha m\u00e3e dormia, sob o efeito da morfina. Ao seu lado, Ros\u00e2ngela fez-me um gesto de sil\u00eancio e apontou para a janela do quarto. Naquele exato momento, desabou uma tempestade.<\/p>\n<p>Minha m\u00e3e morreu um dia depois dessa tempestade.<\/p>\n<p>Aqui, meus sete leitores podem perguntar por que estou me lembrando dessa hist\u00f3ria justamente no \u00faltimo dia do ano. A explica\u00e7\u00e3o que lhes dou, queridos amigos, \u00e9 que tenho visto muita gente angustiada, ansiosa e desesperan\u00e7ada com as tempestades, tanto as da vida pessoal quanto as do pa\u00eds e do mundo.<\/p>\n<p>Acabo de ler o mais recente livro, ainda in\u00e9dito, do meu amigo Rodrigo Constantino, cujo t\u00edtulo \u00e9 um conselho precioso: <em>N\u00e3o Tema a Tempestade<\/em>. Nessa obra, Consta narra sua luta vitoriosa contra um c\u00e2ncer raro ao longo de 2025. N\u00e3o bastassem as persegui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas que sofreu, meu amigo teve de passar por essa tempestade pessoal \u2014 e obteve \u00eaxito.<\/p>\n<p>Ao ler a hist\u00f3ria de Consta, pensei nas tempestades que sempre aparecem em algum momento nas trag\u00e9dias de Shakespeare. Na obra do Bardo, a tempestade n\u00e3o \u00e9 um simples fen\u00f4meno meteorol\u00f3gico, mas um poderoso dispositivo dram\u00e1tico e simb\u00f3lico que reflete momentos de caos, desordem ou sofrimento na vida dos personagens ou da sociedade.<\/p>\n<p>Em <em>Rei Lear<\/em>, <em>Macbeth<\/em>, <em>J\u00falio C\u00e9sar<\/em> e <em>Otelo<\/em>, a tempestade representa alguma perturba\u00e7\u00e3o s\u00e9ria na Grande Cadeia do Ser, que interliga o C\u00e9u, a Terra e o Esp\u00edrito.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Ao mesmo tempo que simboliza esse trauma, essa dor lancinante, a tempestade traz em si o an\u00fancio da mudan\u00e7a e da restaura\u00e7\u00e3o da ordem desejada por Deus<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>N\u00e3o por acaso, a \u00faltima pe\u00e7a de Shakespeare se chama <em>A Tempestade<\/em> e fala sobre a lei do perd\u00e3o.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>Vivemos um tempo de tempestades. Tempo de injusti\u00e7as, esc\u00e2ndalos e persegui\u00e7\u00f5es. Tempo de trai\u00e7\u00f5es e mentiras p\u00e9rfidas. Tempo de inocentes presos e bandidos impunes. Tempo de invers\u00e3o ontol\u00f3gica da realidade. O Ano Novo, por\u00e9m, nos fala da possibilidade de recome\u00e7o, de um segundo nascimento, de uma vida nova, em que o Ser seja restitu\u00eddo.<\/p>\n<p>Depois da vis\u00e3o de Ana, a m\u00e3e ferida que cuidava das crian\u00e7as doentes, uma amiga procurou-me durante o vel\u00f3rio de minha m\u00e3e e disse:<\/p>\n<p>\u2014 Paulo, fique tranquilo. Sua m\u00e3e est\u00e1 cuidando das crian\u00e7as l\u00e1 no C\u00e9u, junto com Nossa Senhora, os anjos e os santos.<\/p>\n<p>Primeiro de janeiro \u00e9 o Dia da M\u00e3e de Deus. Comece 2026 lembrando que essa M\u00e3e est\u00e1 viva, que esse Filho \u00e9 a ressurrei\u00e7\u00e3o e a vida, e que, acima da tempestade, h\u00e1 um C\u00e9u esperando por voc\u00ea.<\/p>\n<p><strong>Canal Briguet Sem Medo: Acesse a comunidade no Telegram e receba conte\u00fados exclusivos. 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