{"id":654205,"date":"2026-08-17T07:00:00","date_gmt":"2026-08-17T11:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=654205"},"modified":"2026-08-17T07:00:00","modified_gmt":"2026-08-17T11:00:00","slug":"propaganda-oficial-recorde-em-ano-eleitoral-a-maquiagem-paga-com-o-seu-bolso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=654205","title":{"rendered":"Propaganda oficial recorde em ano eleitoral: a maquiagem paga com o seu bolso"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody-module-scss-module__8_WGKG__postBodyContainer\">\n<p>O poder n\u00e3o se explica, se experimenta \u2014 e quem prova, quer mais.<\/p>\n<p>Existe um salto que todo mundo j\u00e1 viu de longe: algu\u00e9m pula de um pr\u00e9dio sabendo exatamente o tamanho do estrago, mas j\u00e1 colocou a cama el\u00e1stica embaixo antes de pular. Vai doer. N\u00e3o vai matar. A maquiagem funciona h\u00e1 tempos e, no Brasil, funciona bem.<\/p>\n<p>Foi isso que o pa\u00eds assistiu neste ano, em pleno calend\u00e1rio eleitoral: a Presid\u00eancia da Rep\u00fablica gastou R$ 255,3 milh\u00f5es em publicidade institucional s\u00f3 no primeiro semestre \u2014 o maior valor para o per\u00edodo em pelo menos dezessete anos. O caso virou alvo de apura\u00e7\u00e3o no Tribunal Superior Eleitoral: ap\u00f3s representa\u00e7\u00e3o de um partido de oposi\u00e7\u00e3o, que alega empenhos de at\u00e9 R$ 785,7 milh\u00f5es desde 2023 e poss\u00edvel excesso de R$ 167,6 milh\u00f5es sobre o teto legal, o relator do processo determinou que o governo detalhe cada empenho em dez dias. O pr\u00f3prio relator fez quest\u00e3o de dizer que os dados dispon\u00edveis ainda n\u00e3o permitem confirmar se o limite foi de fato ultrapassado \u2014 a acusa\u00e7\u00e3o existe, a prova est\u00e1 sendo reunida agora.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 preciso esperar veredito algum: independentemente do resultado da apura\u00e7\u00e3o, os R$ 255,3 milh\u00f5es j\u00e1 efetivamente gastos no primeiro semestre bastam para abrir a discuss\u00e3o. Quem paga a cama el\u00e1stica \u00e9 o mesmo contribuinte que sustenta a sa\u00fade, a seguran\u00e7a, a estrada esburacada.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Cada real destinado \u00e0 publicidade institucional \u00e9 um real que deixa de estar dispon\u00edvel para outras prioridades do Estado<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>O amortecedor da queda de quem est\u00e1 no poder \u00e9 pago por quem nunca teve rede de prote\u00e7\u00e3o nenhuma.<\/p>\n<p>O mecanismo, por\u00e9m, n\u00e3o nasceu agora nem \u00e9 exclusividade de partido ou governo. \u00c9 mais antigo e mais banal do que a pol\u00edtica oficial gosta de admitir. Basta que algu\u00e9m esteja um degrau acima do outro \u2014 no trabalho, na vizinhan\u00e7a, numa reparti\u00e7\u00e3o qualquer \u2014 para que o ego encontre motivo de aflorar. Poder n\u00e3o precisa ser grande para viciar. Precisa s\u00f3 ser provado uma vez. E, provado, gruda. O que vale, a partir da\u00ed, deixa de ser o amanh\u00e3 constru\u00eddo e passa a ser o hoje deles, garantido a qualquer custo, indiferente ao que isso custe aos outros.<\/p>\n<p>O efeito mais grave desse v\u00edcio n\u00e3o \u00e9 institucional, \u00e9 humano: quem se afunda nele perde a si pr\u00f3prio antes de perder o que quer que estivesse tentando proteger. E quem observa de fora, sem se apaixonar pela cena, enxerga o padr\u00e3o com a clareza de quem assiste a um filme e narra o que viu \u2014 n\u00e3o o que gostaria de ter visto. Essa distin\u00e7\u00e3o, t\u00e3o \u00f3bvia quanto ignorada, \u00e9 o que falta ao debate p\u00fablico hoje: gente disposta a dizer que o pr\u00e9dio \u00e9 alto e a queda \u00e9 real, mesmo sabendo que apontar a cama el\u00e1stica virou, para muitos, a \u00fanica coisa proibida de se dizer em voz alta.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o isenta quem gasta \u2014 usar dinheiro p\u00fablico para se proteger continua sendo escolha de quem est\u00e1 no poder, n\u00e3o fatalidade. Mas seria ing\u00eanuo fingir que a engrenagem funciona sozinha: ela encontra, do outro lado, uma parcela enorme do pa\u00eds a quem falta o b\u00e1sico, e quem falta o b\u00e1sico n\u00e3o tem luxo de julgar a origem da migalha que chega \u2014 aceita o hoje porque nunca teve o depois garantido. A troca se sustenta dos dois lados: de quem oferece a cama el\u00e1stica e de quem, sem alternativa, agradece o colch\u00e3o. Mas s\u00f3 um dos dois lados decide gastar.<\/p>\n<p>O curioso \u00e9 que ningu\u00e9m mais se choca \u2014 nem quem aceita a migalha por n\u00e3o ter alternativa, nem quem, tendo todas as alternativas do mundo, escolhe fechar os olhos mesmo assim. A repeti\u00e7\u00e3o virou m\u00fasica chiclete: toca tantas vezes que passa a soar familiar, e o ouvido para de perguntar por que ainda toca. Governo gasta recorde em autopromo\u00e7\u00e3o, oposi\u00e7\u00e3o registra indigna\u00e7\u00e3o de ocasi\u00e3o, o ciclo eleitoral vira e recome\u00e7a \u2014 sempre com o mesmo roteiro, trocando apenas os nomes dos personagens. N\u00e3o \u00e9 ingenuidade coletiva. H\u00e1, nessa plateia, muita gente qualificada, com diploma e leitura, que enxerga o mecanismo com perfeita nitidez e segue defendendo a vers\u00e3o que lhe conv\u00e9m, como se a verdade fosse quest\u00e3o de time, n\u00e3o de fato.<\/p>\n<p>Fica, ent\u00e3o, menos uma den\u00fancia do que um convite ao espelho: a mesma engrenagem que movimenta milh\u00f5es em publicidade institucional \u00e0s v\u00e9speras do voto \u00e9 a que se repete, em escala menor, sempre que algu\u00e9m com um pouco mais de poder decide que o hoje vale mais do que o outro. Entender isso n\u00e3o exige tese de doutorado nem estudo de gabinete. Exige s\u00f3 abrir o olho para o que j\u00e1 est\u00e1, h\u00e1 muito, diante dele.<\/p>\n<p>Nenhum esclarecimento acad\u00eamico foi capaz de lhe operar a catarata. Talvez porque a cegueira, dessa vez, n\u00e3o seja falta de informa\u00e7\u00e3o \u2014 seja escolha.<\/p>\n<p><em><strong>Iares Ibero Sombra<\/strong> \u00e9 mestre em Educa\u00e7\u00e3o, jornalista, escritor e palestrante.<\/em><\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O poder n\u00e3o se explica, se experimenta \u2014 e quem prova, quer mais. 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