{"id":650150,"date":"2026-08-15T13:00:00","date_gmt":"2026-08-15T17:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=650150"},"modified":"2026-08-15T13:00:00","modified_gmt":"2026-08-15T17:00:00","slug":"o-brasil-e-a-nova-cuba-so-que-maior","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=650150","title":{"rendered":"O Brasil \u00e9 a nova Cuba \u2013 s\u00f3 que maior"},"content":{"rendered":"<div class=\"postLayout-module-scss-module__08MJ-a__postContent\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/media.gazetadopovo.com.br\/2026\/08\/14192117\/lula-xi-jinping-960x540.jpg.webp\" \/><span>Lula e Xi Jinping se encontram em Pequim, em maio de 2025. (Foto: Tingshu Wang\/EFE\/EPA\/Pool)<\/span>\n<p>Ou\u00e7a este conte\u00fado<\/p>\n<div class=\"postBody-module-scss-module__8_WGKG__postBodyContainer\">\n<p class=\"postParagraph-module-scss-module__Tp8H3W__postParagraph postParagraph-module-scss-module__Tp8H3W__postParagraphInnerHtml\"><em>\u201cDepois de anos de neglig\u00eancia, os <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/estados-unidos\/\">Estados Unidos<\/a> reafirmar\u00e3o e far\u00e3o valer a Doutrina Monroe para restaurar a preemin\u00eancia americana no Hemisf\u00e9rio Ocidental, e para proteger nossa p\u00e1tria e nosso acesso a geografias-chave em toda a regi\u00e3o.\u201d<\/em> (National Security Strategy of the United States of America, Casa Branca, dezembro de 2025)<\/p>\n<p>Corria o ano 1960 quando Nikita Kruschev, em Nova York, abra\u00e7ou um barbudo de trinta e poucos anos rec\u00e9m-chegado ao poder em Havana, e o fez com o entusiasmo desajeitado do vetusto burocrata que parecia reencontrar a pr\u00f3pria juventude revolucion\u00e1ria. Fidel Castro n\u00e3o era, \u00e0quela altura, o idealista marxista-leninista convicto que a hagiografia posterior fabricaria; era um nacionalista de origem latifundi\u00e1ria que descobriu, na alian\u00e7a com Moscou, o instrumento perfeito para consolidar poder pessoal e projetar-se para al\u00e9m da ilha. Foi a <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/cuba\/\">Cuba <\/a>de Castro, e n\u00e3o a vontade sovi\u00e9tica, que tomou a iniciativa de bater \u00e0 porta do Kremlin. Mas, uma vez aberta essa porta, o servi\u00e7o de intelig\u00eancia sovi\u00e9tico n\u00e3o perdeu tempo: reconheceu na ilha caribenha, muito antes do Minist\u00e9rio das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores ou do pr\u00f3prio Partido, aquilo que os documentos internos j\u00e1 chamavam, sem eufemismo, de <a href=\"https:\/\/www.amazon.com.br\/World-Was-Going-Our-Way\/dp\/0465003133\">\u201ccabe\u00e7a-de-ponte\u201d<\/a> \u2013 a plataforma a partir da qual se exportaria a subvers\u00e3o comunista para o resto da <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/america-latina\/\">Am\u00e9rica Latina<\/a>, da Nicar\u00e1gua sandinista aos focos guerrilheiros da Venezuela, do Peru e da Guatemala.<\/p>\n<blockquote>\n<p>A China n\u00e3o manda instrutores para treinar guerrilhas, como faziam os sovi\u00e9ticos; ela manda engenheiros da Huawei, linhas de cr\u00e9dito estatal, portos, ferrovias e data centers<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>N\u00e3o \u00e9 acidente que essa hist\u00f3ria volte \u00e0 mem\u00f3ria exatamente quando o Brasil se prepara para uma elei\u00e7\u00e3o presidencial que, gostemos ou n\u00e3o, est\u00e1 mergulhada at\u00e9 o pesco\u00e7o naquilo que venho chamado de \u201c<a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/guerra-fria\/\">Guerra Fria<\/a> 2.0\u201d. A tenta\u00e7\u00e3o de tratar 2026 como um pleito essencialmente dom\u00e9stico, envolvendo lulopetismo contra bolsonarismo, \u00e9 a mesma miopia que, ao longo do s\u00e9culo 20, levou tantas elites latino-americanas a subestimar o que estava em jogo quando um vizinho se tornava pe\u00e7a importante de um tabuleiro maior. A diferen\u00e7a, hoje, \u00e9 que a pe\u00e7a central desse tabuleiro na Am\u00e9rica do Sul n\u00e3o \u00e9 mais uma ilha de 11 milh\u00f5es de habitantes viciada em a\u00e7\u00facar subsidiado sovi\u00e9tico. \u00c9 a maior economia da Am\u00e9rica Latina, e fornece exatamente aquilo de que o programa tecnol\u00f3gico chin\u00eas precisa: terras raras, min\u00e9rio de ferro, soja e energia \u2013 os insumos brutos sem os quais nenhum data center, nenhuma bateria e nenhum chip chin\u00eas sai do papel.<\/p>\n<p>Nessa nova Guerra Fria, a <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/china\/\">China <\/a>n\u00e3o repete o erro sovi\u00e9tico. Analistas que estudaram a ascens\u00e3o chinesa nos \u00faltimos 35 anos costumam notar que Pequim tirou da implos\u00e3o da URSS uma li\u00e7\u00e3o oposta \u00e0 que tirou o Ocidente \u2013 n\u00e3o a de que o <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/comunismo\/\">comunismo <\/a>havia morrido, mas a de que poder militar sem lastro econ\u00f4mico \u00e9 ilus\u00e3o. Por isso a China n\u00e3o manda hoje instrutores para treinar guerrilhas em selvas centro-americanas, como fazia o Departamento Internacional do PCUS atrav\u00e9s da DGI cubana nos anos 1960. Ela manda, em vez disso, engenheiros da Huawei, linhas de cr\u00e9dito estatal, portos, ferrovias e data centers. O m\u00e9todo mudou, mas o objetivo estrat\u00e9gico \u2013 converter um pa\u00eds-chave em plataforma de influ\u00eancia que module o comportamento de toda uma regi\u00e3o \u2013 permanece surpreendentemente parecido.<\/p>\n<p>E o Brasil ocupa hoje essa fun\u00e7\u00e3o de plataforma. A Huawei j\u00e1 controla quase metade da infraestrutura de quinta gera\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, segundo levantamentos recentes de intelig\u00eancia geopol\u00edtica; Tencent e ByteDance negociam entrada facilitada por regimes tribut\u00e1rios favor\u00e1veis; e nosso pa\u00eds desponta como o maior mercado potencial de capacidade de data centers de intelig\u00eancia artificial de todo o Hemisf\u00e9rio Ocidental fora dos Estados Unidos, um mercado da ordem de centenas de bilh\u00f5es de d\u00f3lares em investimento futuro, e cuja bacia energ\u00e9tica j\u00e1 desperta o interesse chin\u00eas por terra e eletricidade \u201cempoderada\u201d. Trata-se de uma disputa que passou longe do radar de boa parte do debate eleitoral brasileiro, mas que analistas americanos de seguran\u00e7a nacional j\u00e1 leem como o verdadeiro campo de batalha desta nova guerra fria: n\u00e3o tanques e m\u00edsseis, mas cabos de fibra, terras raras e padr\u00f5es t\u00e9cnicos que, uma vez fixados, amarram um pa\u00eds por d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 exagero, portanto, comparar o papel que Cuba desempenhou para a URSS ao papel que o Brasil ocupa hoje para a China \u2013 com a ressalva crucial de que a escala \u00e9 incomparavelmente maior, e por isso mesmo mais perigosa. Cuba era um posto avan\u00e7ado ideol\u00f3gico, valioso sobretudo como s\u00edmbolo e como base log\u00edstica para pequenos grupos guerrilheiros. O Brasil \u00e9 algo bem mais substancial: um polo econ\u00f4mico cuja captura redesenha o equil\u00edbrio de poder em toda a Am\u00e9rica do Sul, precisamente porque oferece a Pequim aquilo que nenhuma Cuba jamais poderia \u2013 escala de mercado, mat\u00e9ria-prima estrat\u00e9gica e um lugar \u00e0 mesa dos <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/brics\/\">Brics <\/a>que confere legitimidade multilateral ao projeto chin\u00eas de eros\u00e3o da ordem mundial liderada pelos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Washington, \u00e9 claro, percebeu o movimento \u2013 e reage com uma doutrina que resgata, sem pudor, a linguagem do s\u00e9culo 19. A nova Estrat\u00e9gia de Defesa Nacional americana, <a href=\"https:\/\/media.defense.gov\/2026\/Jan\/23\/2003864773\/-1\/-1\/0\/2026-national-defense-strategy.pdf\">divulgada em janeiro deste ano<\/a>, fala abertamente em restaurar a Doutrina Monroe sob uma vers\u00e3o atualizada, batizada de \u201cCorol\u00e1rio Trump\u201d: os Estados Unidos, diz o documento, n\u00e3o permitir\u00e3o que competidores de fora do hemisf\u00e9rio (e o leitor atento j\u00e1 sabe a quem os americanos se referem) posicionem for\u00e7as ou controlem ativos estrategicamente vitais nas Am\u00e9ricas. \u00c9 a mesma l\u00f3gica, atualizada, que levou Theodore Roosevelt a proclamar o direito de pol\u00edcia internacional sobre o Caribe h\u00e1 mais de 100 anos. Resta que o advers\u00e1rio de agora j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o encoura\u00e7ados europeus, mas sim cart\u00e9is armados como organiza\u00e7\u00f5es terroristas e pot\u00eancias extra-hemisf\u00e9ricas operando por meio de portos, redes 5G e infraestrutura de nuvem. Especialistas em seguran\u00e7a hemisf\u00e9rica j\u00e1 descrevem essa nova doutrina como \u201cMonroe 2.0\u201d: menos diplomacia p\u00fablica, mais coer\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e disposi\u00e7\u00e3o declarada para o uso da for\u00e7a, esta \u00faltima demonstrada nas opera\u00e7\u00f5es contra o regime de Maduro na Venezuela, citadas com orgulho pelo pr\u00f3prio documento do Pent\u00e1gono, agora rebatizado como Departamento de Guerra.<\/p>\n<blockquote>\n<p>N\u00e3o \u00e9 exagero comparar o papel que Cuba desempenhou para a URSS ao papel que o Brasil ocupa hoje para a China \u2013 com a ressalva crucial de que a escala \u00e9 incomparavelmente maior<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>O apelo americano por aquilo que especialistas t\u00eam chamado de uma <a href=\"https:\/\/www.realcleardefense.com\/articles\/2026\/03\/31\/a_monroe_doctrine_for_ai_1173653.html\">\u201cDoutrina Monroe para a intelig\u00eancia artificial\u201d<\/a> \u2013 ou seja, a exig\u00eancia de que a infraestrutura digital do hemisf\u00e9rio rode sobre padr\u00f5es e nuvens americanas, n\u00e3o chinesas \u2013 \u00e9 apenas a vers\u00e3o mais recente dessa mesma puls\u00e3o estrat\u00e9gica. E ela mira o Brasil com uma precis\u00e3o que nenhum outro pa\u00eds da regi\u00e3o desperta, porque nenhum outro oferece pr\u00eamio compar\u00e1vel.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m das quest\u00f5es dom\u00e9sticas, \u00e9 nesse contexto que o eleitor brasileiro deveria situar a escolha de outubro. Uma sociedade civil que se faz de neutra numa guerra fria que j\u00e1 elegeu seu territ\u00f3rio como pe\u00e7a central de disputa, e cujo governo j\u00e1 escolheu abertamente o lado antiamericano do conflito, n\u00e3o est\u00e1 sendo prudente: est\u00e1 sendo ing\u00eanua, exatamente como foram ing\u00eanuas as elites latino-americanas dos anos 1960 que viam em Cuba apenas um caso de pol\u00edtica interna caribenha, e n\u00e3o o pren\u00fancio de d\u00e9cadas de subvers\u00e3o continental.<\/p>\n<p>No fim das contas, a pergunta que o eleitorado nacional deve se fazer \u00e9 bem simples: de que lado desta fronteira o Brasil pretende ficar \u2013 o da col\u00f4nia amestrada pelo capital e pela tecnologia de Pequim, ou o de um parceiro hemisf\u00e9rico que negocia, com olhos abertos, sua pr\u00f3pria soberania digital e energ\u00e9tica junto a Washington? N\u00e3o escolher tamb\u00e9m \u00e9 uma escolha. E a hist\u00f3ria, sempre generosa com quem se recusa a aprender com ela, j\u00e1 cansou de mostrar as suas consequ\u00eancias.<\/p>\n<\/div>\n<p>Conte\u00fado editado por: <a title=\"Link para o perfil de Marcio Antonio Campos\" href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/autor\/marcio-antonio-campos\/\">Marcio Antonio Campos<\/a><\/p>\n<p>Encontrou algo errado na mat\u00e9ria?<\/p>\n<p>Comunique erros<\/p>\n<p>Use este espa\u00e7o apenas para a comunica\u00e7\u00e3o de erros<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lula e Xi Jinping se encontram em Pequim, em maio de 2025. 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