{"id":650025,"date":"2026-08-15T12:00:00","date_gmt":"2026-08-15T16:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=650025"},"modified":"2026-08-15T12:00:00","modified_gmt":"2026-08-15T16:00:00","slug":"inovacoes-do-youtube-sao-travadas-por-causa-de-leis-feitas-para-a-tv-do-seculo-xx","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=650025","title":{"rendered":"Inova\u00e7\u00f5es do Youtube s\u00e3o travadas por causa de leis feitas para a TV do s\u00e9culo XX"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody-module-scss-module__8_WGKG__postBodyContainer\">\n<p>Se um \u00f3rg\u00e3o regulador tem dificuldade para decidir se uma transmiss\u00e3o ao vivo pelo YouTube deve ser considerada \u201ctelevis\u00e3o\u201d, o problema real talvez n\u00e3o esteja na plataforma, mas nas regras e na insist\u00eancia do Estado em continuar aplicando-as.<\/p>\n<p>Na Europa, durante a Copa do Mundo da FIFA de 2026, a empresa brasileira LiveMode transmitiu gratuitamente 34 partidas pelo YouTube, incluindo todos os jogos da sele\u00e7\u00e3o portuguesa, utilizando um modelo financiado por publicidade e patroc\u00ednios. A iniciativa alcan\u00e7ou uma audi\u00eancia expressiva. Ainda assim, a empresa acabou presa \u00e0 burocracia regulat\u00f3ria.<\/p>\n<p>A Entidade Reguladora para a Comunica\u00e7\u00e3o Social (ERC), \u00f3rg\u00e3o regulador de m\u00eddia de Portugal, primeiro <a href=\"https:\/\/observador.pt\/2026\/06\/24\/erc-da-72-horas-a-livemodetv-para-se-registar-como-servico-de-streaming-apos-transmissoes-do-mundial2026\/\">classificou<\/a> o servi\u00e7o como uma web TV e, posteriormente, como um servi\u00e7o audiovisual sob demanda. O problema \u00e9 que cada classifica\u00e7\u00e3o determina o regime jur\u00eddico aplic\u00e1vel e as obriga\u00e7\u00f5es que a empresa precisa cumprir.<\/p>\n<p>Isso levanta uma quest\u00e3o mais ampla: o marco regulat\u00f3rio audiovisual europeu ainda reflete o atual cen\u00e1rio da m\u00eddia digital ou os \u00f3rg\u00e3os reguladores est\u00e3o tentando encaixar novos modelos de neg\u00f3cio em categorias jur\u00eddicas concebidas para uma era tecnol\u00f3gica completamente diferente?<\/p>\n<p>Durante a maior parte do s\u00e9culo XX, a regulamenta\u00e7\u00e3o da televis\u00e3o tinha uma justificativa relativamente s\u00f3lida. O espectro de radiofrequ\u00eancia era escasso. Em um contexto genu\u00edno de escassez, licen\u00e7as e determinadas obriga\u00e7\u00f5es podiam ser razoavelmente defendidas como uma forma de administrar um recurso limitado.<\/p>\n<p>A internet destruiu essa premissa. A distribui\u00e7\u00e3o de conte\u00fado deixou de depender de uma infraestrutura escassa, e o custo para alcan\u00e7ar o p\u00fablico despencou. A justificativa original para a interven\u00e7\u00e3o estatal desapareceu em grande medida. Em vez de reconhecer essa mudan\u00e7a e reduzir o alcance da regulamenta\u00e7\u00e3o, o Estado europeu fez o oposto.<\/p>\n<p>A <a href=\"https:\/\/digital-strategy.ec.europa.eu\/en\/policies\/audiovisual-and-media-services\">Diretiva de Servi\u00e7os de Comunica\u00e7\u00e3o Social Audiovisual (AVMSD)<\/a> e suas transposi\u00e7\u00f5es nacionais continuam operando com categorias criadas para a era da escassez. Sempre que surge um novo modelo de distribui\u00e7\u00e3o, a resposta autom\u00e1tica \u00e9 descobrir em qual categoria jur\u00eddica ele pode ser enquadrado e quais obriga\u00e7\u00f5es podem ser impostas a ele.<\/p>\n<p>O mesmo impulso aparece no Reino Unido, onde o governo <a href=\"https:\/\/deadline.com\/2026\/06\/youtube-promote-bbc-content-uk-government-proposals-1236963834\/\">prop\u00f4s<\/a> exigir que plataformas privadas como o YouTube deem maior destaque ao conte\u00fado da BBC. Trata-se de uma medida moralmente question\u00e1vel: os contribuintes s\u00e3o obrigados a financiar, por meio da taxa de televis\u00e3o, um canal p\u00fablico que o Estado, atuando simultaneamente como regulador e produtor de conte\u00fado, agora pretende impor administrativamente \u00e0s plataformas privadas.<\/p>\n<p>Nos dois casos, o Estado age como se a justificativa original para sua interven\u00e7\u00e3o \u2014 a escassez do espectro \u2014 n\u00e3o tivesse desaparecido e como se sua pretens\u00e3o de continuar organizando o mercado de conte\u00fado ainda fosse necess\u00e1ria.<\/p>\n<p>Em uma sociedade livre, a interven\u00e7\u00e3o estatal na atividade econ\u00f4mica privada n\u00e3o deveria ser a regra, mas a exce\u00e7\u00e3o que precisa ser justificada. Isso n\u00e3o significa que nenhuma regulamenta\u00e7\u00e3o fa\u00e7a sentido. Regras claras sobre prote\u00e7\u00e3o de menores, transpar\u00eancia comercial ou concorr\u00eancia podem continuar sendo leg\u00edtimas.<\/p>\n<p>O problema surge quando a falha de mercado que deu origem \u00e0 regulamenta\u00e7\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o existe e, ainda assim, o alcance de regras criadas para um contexto diferente \u00e9 mantido ou automaticamente ampliado. Essas regras acabam funcionando como barreiras \u00e0 entrada de novos operadores. Elas imp\u00f5em custos de conformidade, como registro, assessoria jur\u00eddica e poss\u00edveis contribui\u00e7\u00f5es financeiras, que grandes plataformas conseguem absorver. Para pequenas empresas que est\u00e3o come\u00e7ando ou experimentando um novo modelo, esses custos pesam muito mais.<\/p>\n<p>O resultado \u00e9 menos concorr\u00eancia e menor disposi\u00e7\u00e3o para experimentar formatos diferentes. Para os consumidores, isso significa menos alternativas, especialmente op\u00e7\u00f5es gratuitas ou de menor custo, e um mercado cada vez mais dominado pelos mesmos grandes players.<\/p>\n<p>A ret\u00f3rica frequente do \u201cinteresse p\u00fablico\u201d e do \u201cpluralismo\u201d acaba, na pr\u00e1tica, protegendo aqueles que j\u00e1 est\u00e3o estabelecidos e reduzindo as op\u00e7\u00f5es dispon\u00edveis ao p\u00fablico.<\/p>\n<p>\u00c9 o que vemos tanto no caso da LiveMode quanto nas propostas brit\u00e2nicas. Em Portugal, o regulador concentrou-se em classificar e reclassificar uma transmiss\u00e3o gratuita, criando um processo que a empresa foi obrigada a aceitar e ao qual aderiu sob protesto.<\/p>\n<p>No Reino Unido, a resposta \u00e0 mudan\u00e7a tecnol\u00f3gica foi propor que plataformas privadas deem prioridade ao conte\u00fado de um canal p\u00fablico. Em nenhum dos dois casos o processo come\u00e7ou com uma demonstra\u00e7\u00e3o clara de que essas obriga\u00e7\u00f5es espec\u00edficas ainda respondem a um problema concreto e proporcional para os consumidores.<\/p>\n<p>Antes de aplicar a novos modelos de distribui\u00e7\u00e3o regras criadas para a televis\u00e3o do s\u00e9culo XX, os \u00f3rg\u00e3os reguladores deveriam ser obrigados a demonstrar que essas regras ainda atendem a um interesse p\u00fablico claro e justific\u00e1vel. Se n\u00e3o puderem faz\u00ea-lo, a presun\u00e7\u00e3o deveria favorecer a liberdade para experimentar, e n\u00e3o a expans\u00e3o autom\u00e1tica do poder regulat\u00f3rio.<\/p>\n<p><em><strong>Cl\u00e1udia Ascens\u00e3o Nunes <\/strong>\u00e9 escritora e comentarista pol\u00edtica portuguesa. Ela \u00e9 presidente da Ladies of Liberty Alliance \u2013 Portugal.<\/em><\/p>\n<p><em><strong>\u00a92026 Foudation for Economic Education. Publicado com permiss\u00e3o. Original em ingl\u00eas:<\/strong> <strong><a href=\"https:\/\/fee.org\/articles\/when-20th-century-regulations-meet-21st-century-streaming\/\">When 20th-Century Regulations Meet 21st-Century Streaming<\/a><\/strong><\/em><\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Se um \u00f3rg\u00e3o regulador tem dificuldade para decidir se uma transmiss\u00e3o ao vivo pelo YouTube deve ser considerada \u201ctelevis\u00e3o\u201d, o&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":650026,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[204],"tags":[],"class_list":["post-650025","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ultimas-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/650025","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=650025"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/650025\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/650026"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=650025"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=650025"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=650025"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}