{"id":643914,"date":"2026-08-13T13:41:08","date_gmt":"2026-08-13T17:41:08","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=643914"},"modified":"2026-08-13T13:41:08","modified_gmt":"2026-08-13T17:41:08","slug":"o-brasil-subsidiou-o-carro-eletrico-chines-enquanto-tinha-a-resposta-em-casa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=643914","title":{"rendered":"O Brasil subsidiou o carro el\u00e9trico chin\u00eas enquanto tinha a resposta em casa"},"content":{"rendered":"<div class=\"postLayout-module-scss-module__08MJ-a__postContent\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/media.gazetadopovo.com.br\/2026\/06\/25213724\/lula-byd-1-960x540.jpg\" \/><span>Presidente Lula durante cerim\u00f4nia de inaugura\u00e7\u00e3o da f\u00e1brica da BYD na Bahia em 2025. (Foto: Ricardo Stuckert\/Presid\u00eancia da Rep\u00fablica)<\/span>\n<p>Ou\u00e7a este conte\u00fado<\/p>\n<div class=\"postBody-module-scss-module__8_WGKG__postBodyContainer\">\n<p>Nos Estados Unidos, as vendas de carros el\u00e9tricos ca\u00edram fortemente entre janeiro e maio de 2026, na compara\u00e7\u00e3o com 2025: de 102 mil para 66 mil em janeiro e de 103 mil para menos de 85 mil em maio. A retra\u00e7\u00e3o foi expressiva em todos os cinco primeiros meses do ano.<\/p>\n<p>O motivo n\u00e3o pode ser atribu\u00eddo a uma \u00fanica causa, mas a mudan\u00e7a de pol\u00edtica teve peso importante. O governo Trump encerrou o cr\u00e9dito fiscal federal de US$ 7.500 por ve\u00edculo el\u00e9trico sete anos antes do previsto, afrouxou regras de economia de combust\u00edvel e reduziu o apoio federal \u00e0 infraestrutura de recarga. Quando o incentivo p\u00fablico diminui, o mercado passa a revelar com mais clareza quanto da demanda existia por m\u00e9rito pr\u00f3prio e quanto dependia da pol\u00edtica p\u00fablica.<\/p>\n<p>No Brasil, talvez a nossa hist\u00f3ria seja ainda mais contradit\u00f3ria.<\/p>\n<p>O carro el\u00e9trico chegou aqui isento de imposto. At\u00e9 o fim de 2023, el\u00e9tricos importados pagavam zero de imposto de importa\u00e7\u00e3o, enquanto autom\u00f3veis convencionais estavam sujeitos \u00e0 tarifa cheia. Quando o governo decidiu recompor a tributa\u00e7\u00e3o, fez isso gradualmente: 10% em janeiro de 2024, 18% em julho de 2024, 25% em julho de 2025, chegando posteriormente \u00e0 al\u00edquota cheia. Foi uma transi\u00e7\u00e3o longa para um setor que j\u00e1 havia recebido anos de prote\u00e7\u00e3o tribut\u00e1ria.<\/p>\n<p>E n\u00e3o parou a\u00ed. Enquanto a tarifa subia no papel, o governo manteve cotas de importa\u00e7\u00e3o com al\u00edquota zero, no valor de centenas de milh\u00f5es de d\u00f3lares, e criou tratamento favorecido para kits desmontados e semidesmontados (CKD e SKD), destinados \u00e0 montagem local. Na pr\u00e1tica, abriu-se uma porta para trazer grande parte do valor agregado de fora e realizar aqui apenas a etapa final de montagem.<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio governo reconheceu, em nota t\u00e9cnica, que a tarifa zero acabou beneficiando tamb\u00e9m ve\u00edculos de alto valor. Entre os eletrificados mais vendidos estavam modelos como o Porsche Cayenne, na faixa de R$ 630 mil, e o Volvo XC60, pr\u00f3ximo de R$ 420 mil, ao lado de modelos como o BYD Song. Em alguns casos, a ren\u00fancia potencial de imposto de importa\u00e7\u00e3o chegava a cerca de R$ 138 mil por ve\u00edculo. Ou seja, n\u00e3o se tratava apenas de incentivar uma tecnologia nascente. Parte do benef\u00edcio tribut\u00e1rio tamb\u00e9m alcan\u00e7ava consumidores de autom\u00f3veis de luxo.<\/p>\n<p>E h\u00e1 uma segunda camada de incentivos: os estados. A Bahia, justamente onde est\u00e1 instalada a f\u00e1brica da BYD, concede isen\u00e7\u00e3o de IPVA para ve\u00edculos el\u00e9tricos de at\u00e9 R$ 300 mil. Assim, o mesmo carro que durante anos entrou no Brasil com imposto de importa\u00e7\u00e3o reduzido ou zerado ainda pode receber um novo benef\u00edcio tribut\u00e1rio depois de emplacado. A Bahia n\u00e3o est\u00e1 sozinha. Diversos estados brasileiros oferecem isen\u00e7\u00e3o total, parcial ou al\u00edquotas reduzidas de IPVA para ve\u00edculos el\u00e9tricos e h\u00edbridos.<\/p>\n<p>N\u00e3o discuto o m\u00e9rito do carro el\u00e9trico. \u00c9 uma tecnologia importante e continuar\u00e1 conquistando consumidores.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 outro.<\/p>\n<p>Por que um governo decide favorecer uma tecnologia em detrimento de outra justamente no pa\u00eds que j\u00e1 possui uma solu\u00e7\u00e3o renov\u00e1vel, nacional e madura?<\/p>\n<p>A resposta tamb\u00e9m passa pela China. Um estudo do <em>Center for Strategic and International Studies<\/em> (CSIS) estimou que a ind\u00fastria chinesa de ve\u00edculos el\u00e9tricos recebeu pelo menos US$ 230,8 bilh\u00f5es em apoio estatal entre 2009 e 2023, incluindo benef\u00edcios tribut\u00e1rios, cr\u00e9dito subsidiado, infraestrutura de recarga, terrenos e outras formas de incentivo. A Uni\u00e3o Europeia investigou esses subs\u00eddios e aplicou tarifas compensat\u00f3rias espec\u00edficas por montadora. Os Estados Unidos foram al\u00e9m e elevaram sua tarifa para mais de 100%.<\/p>\n<p>Ou seja, o ve\u00edculo el\u00e9trico chin\u00eas pode chegar ao Brasil favorecido duas vezes: primeiro, por pol\u00edticas p\u00fablicas no pa\u00eds de origem; depois, por incentivos e benef\u00edcios tribut\u00e1rios concedidos aqui.<\/p>\n<p>Enquanto isso, o Brasil \u00e9 l\u00edder mundial em etanol de cana-de-a\u00e7\u00facar. Temos infraestrutura instalada h\u00e1 d\u00e9cadas, tecnologia flex desenvolvida no pa\u00eds, uma cadeia produtiva nacional e um combust\u00edvel capaz de reduzir fortemente as emiss\u00f5es sem exigir a substitui\u00e7\u00e3o imediata de toda a frota.<\/p>\n<p>Mesmo assim, a pol\u00edtica p\u00fablica muitas vezes trata o etanol como uma tecnologia do passado e o carro el\u00e9trico como um destino inevit\u00e1vel.<\/p>\n<p>Essa escolha merece ser questionada.<\/p>\n<p>Nos Estados Unidos, o ve\u00edculo el\u00e9trico substitui predominantemente um autom\u00f3vel movido a gasolina. No Brasil, ele pode substituir um ve\u00edculo flex abastecido com etanol \u2014 e isso muda completamente a compara\u00e7\u00e3o ambiental.<\/p>\n<p>Estudos brasileiros de Avalia\u00e7\u00e3o do Ciclo de Vida mostram que um h\u00edbrido flex abastecido com etanol pode emitir cerca de 29 gramas de CO\u2082 equivalente por quil\u00f4metro, um desempenho ambiental extremamente baixo. Em determinadas compara\u00e7\u00f5es, esse resultado \u00e9 inferior ao atribu\u00eddo a ve\u00edculos el\u00e9tricos quando se considera todo o ciclo de vida, incluindo a fabrica\u00e7\u00e3o das baterias e a origem da eletricidade.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o deixa de ser simplesmente &#8220;carro el\u00e9trico versus carro a combust\u00e3o&#8221;. Em muitos casos, o Brasil pode estar substituindo uma tecnologia nacional de baix\u00edssimo carbono por outra cuja vantagem ambiental depende da matriz el\u00e9trica, da produ\u00e7\u00e3o das baterias e de uma cadeia industrial fortemente concentrada na \u00c1sia.<\/p>\n<p>Enquanto o governo anuncia metas de descarboniza\u00e7\u00e3o, oferece vantagens a uma tecnologia cuja cadeia depende fortemente de componentes importados, baterias e minerais cr\u00edticos. Ao mesmo tempo, reduz a competitividade relativa de uma solu\u00e7\u00e3o baseada em agricultura, ind\u00fastria, pesquisa e energia produzida dentro do pr\u00f3prio pa\u00eds.<\/p>\n<p>O papel do Estado n\u00e3o \u00e9 escolher vencedores, mas criar regras para que as melhores tecnologias concorram em igualdade de condi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O Brasil fez exatamente o contr\u00e1rio. Favoreceu durante anos ve\u00edculos el\u00e9tricos importados, manteve incentivos para sua montagem, concedeu benef\u00edcios tribut\u00e1rios estaduais e abriu espa\u00e7o para uma ind\u00fastria fortemente subsidiada na origem, enquanto j\u00e1 possu\u00eda uma alternativa nacional, renov\u00e1vel e competitiva.<\/p>\n<p>Poucos pa\u00edses t\u00eam uma vantagem comparativa t\u00e3o clara quanto o Brasil na descarboniza\u00e7\u00e3o do transporte. Em vez de transform\u00e1-la em estrat\u00e9gia nacional, preferimos importar a estrat\u00e9gia de outros.<\/p>\n<p>Se o carro el\u00e9trico for a melhor solu\u00e7\u00e3o, que ven\u00e7a pela efici\u00eancia. Se o etanol continuar sendo mais competitivo para milh\u00f5es de brasileiros, que tenha a mesma oportunidade.<\/p>\n<p>Quando o governo escolhe antecipadamente a tecnologia vencedora, deixa de estimular a inova\u00e7\u00e3o e passa a dirigir o mercado. E, no caso brasileiro, essa escolha tem um custo adicional: enfraquece uma cadeia produtiva nacional constru\u00edda ao longo de cinco d\u00e9cadas, baseada na agricultura, na ind\u00fastria e na tecnologia desenvolvida dentro do pr\u00f3prio pa\u00eds.<\/p>\n<\/div>\n<p>Encontrou algo errado na mat\u00e9ria?<\/p>\n<p>Comunique erros<\/p>\n<p>Use este espa\u00e7o apenas para a comunica\u00e7\u00e3o de erros<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Presidente Lula durante cerim\u00f4nia de inaugura\u00e7\u00e3o da f\u00e1brica da BYD na Bahia em 2025. 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