{"id":640620,"date":"2026-08-12T19:45:11","date_gmt":"2026-08-12T23:45:11","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=640620"},"modified":"2026-08-12T19:45:11","modified_gmt":"2026-08-12T23:45:11","slug":"quem-sao-os-pesquisadores-de-esquerda-que-querem-formar-a-bancada-da-ciencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=640620","title":{"rendered":"Quem s\u00e3o os pesquisadores (de esquerda) que querem formar a \u201cBancada da Ci\u00eancia\u201d"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody-module-scss-module__8_WGKG__postBodyContainer\">\n<p>Em julho de 2019, o ex-presidente Jair Bolsonaro bateu de frente com o f\u00edsico Ricardo Galv\u00e3o, ent\u00e3o diretor do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). A briga come\u00e7ou por causa da divulga\u00e7\u00e3o de dados sobre o desmatamento na Amaz\u00f4nia: os n\u00fameros indicavam uma alta de quase 90% em rela\u00e7\u00e3o ao mesmo per\u00edodo de 2018, o primeiro ano do governo de Bolsonaro.<\/p>\n<p>O presidente n\u00e3o engoliu. Chamou os \u00edndices de \u201cmentirosos\u201d e questionou se Galv\u00e3o n\u00e3o estava \u201ca servi\u00e7o de alguma ONG\u201d. Em resposta, o f\u00edsico afirmou que Bolsonaro falava como se estivesse numa \u201cconversa de botequim\u201d e classificou suas acusa\u00e7\u00f5es de \u201ccovardes\u201d. Ele foi exonerado semanas depois.<\/p>\n<p>Fora do governo, Ricardo Galv\u00e3o voltou a lecionar na USP e virou uma esp\u00e9cie de her\u00f3i da resist\u00eancia para boa parte da comunidade cient\u00edfica. Mas hoje ele \u00e9 mais do que isso: seu nome puxa uma renca de candidatos que tentam formar uma autointitulada \u201cBancada da Ci\u00eancia\u201d no Congresso a partir do pr\u00f3ximo ano.<\/p>\n<p>Junto com Galv\u00e3o est\u00e3o figuras como N\u00edsia Trindade (ex-ministra da Sa\u00fade de Lula), M\u00e1rcia Abrah\u00e3o (ex-reitora da UnB), Tatiana Roque (matem\u00e1tica da UFRJ). Wilson Cabral de Sousa J\u00fanior (engenheiro do ITA) e Luciana Gatti (climatologista do Inpe).<\/p>\n<p>N\u00edsia e M\u00e1rcia est\u00e3o no PT, Tatiana no PSB, Wilson no PDT, Gatti no PSOL. E o pr\u00f3prio Ricardo Galv\u00e3o tamb\u00e9m faz parte da base de apoio de Lula.<\/p>\n<p>O f\u00edsico foi um filiado discreto do PSDB durante 29 anos. Em 2022, a convite de Marina Silva, migrou para a Rede, tentou uma vaga na C\u00e2mara e ficou na supl\u00eancia. No ano seguinte, j\u00e1 no governo Lula 3, ele assumiu a presid\u00eancia do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Cient\u00edfico e Tecnol\u00f3gico).<\/p>\n<p>Em 2025, Galv\u00e3o ficou com a cadeira de Guilherme Boulos no Congresso. E, no \u00faltimo m\u00eas de mar\u00e7o, foi para o PSB, com a b\u00ean\u00e7\u00e3o do vice-presidente Geraldo Alckmin.<\/p>\n<p>Ou seja: a tal \u201cBancada da Ci\u00eancia\u201d \u00e9, na pr\u00e1tica, um grupo de esquerda.<\/p>\n<h2>Tudo \u00e9 \u201cnegacionismo\u201d<\/h2>\n<p>Todos esses pesquisadores t\u00eam uma forte atua\u00e7\u00e3o em temas como sa\u00fade e clima e transitam no ambiente universit\u00e1rio \u2014 justamente os setores mais diretamente envolvidos nas disputas por or\u00e7amento e pol\u00edticas de Estado. Isso ajuda a entender a composi\u00e7\u00e3o do movimento, que tem numa \u00fanica palavra sua principal muni\u00e7\u00e3o: &#8220;negacionismo&#8221;.<\/p>\n<p>O termo virou uma esp\u00e9cie de guarda-chuva conceitual para o grupo: serve tanto para quem rejeita evid\u00eancias cient\u00edficas quanto para aqueles que questionam as decis\u00f5es tomadas a partir delas. O PL da Devasta\u00e7\u00e3o, que facilita o licenciamento ambiental para obras e atividades econ\u00f4micas, ilustra bem essa armadilha.<\/p>\n<p>Discordar do projeto por raz\u00f5es ecol\u00f3gicas \u00e9 leg\u00edtimo. Mas esse debate tamb\u00e9m inclui escolher as regras do jogo: o que precisa de licen\u00e7a, quais crit\u00e9rios valem, quanto poder vai para o Estado (e a esquerda, como se sabe, sempre quer mais poder para o Estado).<\/p>\n<p>No entanto, quem questiona essas escolhas \u00e9 tratado como herege cient\u00edfico \u2014 um jeito sempre eficiente de matar o debate antes que ele comece. No fundo, o que est\u00e1 em jogo n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 ci\u00eancia, mas tamb\u00e9m (muita) pol\u00edtica.<\/p>\n<p>De qualquer forma, h\u00e1 uma pergunta que fica no ar, principalmente para o campo conservador e liberal: por que n\u00e3o existe uma bancada da ci\u00eancia da direita?<\/p>\n<p>A resposta mais f\u00e1cil, dizer que a direita \u00e9 \u201cantici\u00eancia\u201d, n\u00e3o resiste a uma checagem r\u00e1pida. H\u00e1 pol\u00edticos conservadores que defendem mais investimentos no setor, votam a favor de bolsas de pesquisa e citam com orgulho institui\u00e7\u00f5es como a Embrapa.<\/p>\n<p>A explica\u00e7\u00e3o mais prov\u00e1vel n\u00e3o tem a ver com ideias, e sim com organiza\u00e7\u00e3o. E, nesse quesito, a esquerda saiu na frente.<\/p>\n<h2>Cientistas Engajados<\/h2>\n<p>Ainda em 2017, durante a gest\u00e3o de Michel Temer, surgiu um movimento para cobrir exatamente o espa\u00e7o que a direita deixou vazio. Nascido de uma disputa pela reitoria da USP, o grupo Cientistas Engajados foi criado pela economista (e doutora em Energia) Mariana Moura com uma proposta bem direta: os pesquisadores devem parar de s\u00f3 pedir recursos e passar a participar da formula\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas p\u00fablicas.<\/p>\n<p>As primeiras candidaturas sa\u00edram em 2018, pelo min\u00fasculo PPL (Partido P\u00e1tria Livre), fundado por ex-guerrilheiros da organiza\u00e7\u00e3o terrorista MR-8 e recentemente incorporado ao PCdoB. Mariana foi uma das candidatas, mas o grupo n\u00e3o elegeu ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>Em 2022, o Cientistas Engajados se juntou a outros coletivos semelhantes, como o Educa\u00e7\u00e3o e Ci\u00eancia para Reconstruir o Pa\u00eds, articulado pelo agr\u00f4nomo Edward Madureira Brasil, ex-reitor da Universidade Federal de Goi\u00e1s (UFG) e atualmente vereador em Goi\u00e2nia pelo PT. Essa movimenta\u00e7\u00e3o resultou em mais de cem candidaturas Brasil afora, por\u00e9m o saldo nas urnas foi modesto.<\/p>\n<p>Na C\u00e2mara, por exemplo, apenas oito conseguiram se eleger, e sete deles j\u00e1 eram deputados. Ainda assim, o nome \u201cBancada da Ci\u00eancia\u201d, usado meio de passagem em 2018, ganhou corpo em 2022 e chega \u00e0s elei\u00e7\u00f5es deste ano como um projeto pol\u00edtico bem mais organizado.<\/p>\n<h2>\u201cOgro neg\u00f3cio\u201d<\/h2>\n<p>Em entrevista \u00e0 <strong>Gazeta do Povo<\/strong>, Ricardo Galv\u00e3o comentou a concentra\u00e7\u00e3o das candidaturas de cientistas na esquerda. \u201cNo meio cient\u00edfico, tanto no Brasil quanto no exterior, h\u00e1 certa inclina\u00e7\u00e3o a posi\u00e7\u00f5es progressistas em quest\u00f5es sociais\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>Mas Galv\u00e3o vai al\u00e9m da explica\u00e7\u00e3o sociol\u00f3gica e cutuca os advers\u00e1rios. Segundo o f\u00edsico, os movimentos cient\u00edficos \u201cencontraram maior receptividade \u00e0 esquerda porque surgiram quando a extrema direita se associava fortemente ao governo Bolsonaro e ao negacionismo orientado por Olavo de Carvalho\u201d.<\/p>\n<p>Ele ainda arremata: \u201c\u00c9 preciso reconhecer, contudo, que o debate brasileiro atual carece de uma direita verdadeiramente democr\u00e1tica, erudita e comprometida com o pa\u00eds\u201d.<\/p>\n<p>Questionado sobre o uso recorrente da palavra &#8220;negacionismo&#8221;, Ricardo Galv\u00e3o suaviza o discurso. &#8220;A discord\u00e2ncia sobre pol\u00edticas p\u00fablicas \u00e9 sempre leg\u00edtima se respeitar as evid\u00eancias cient\u00edficas&#8221;, diz.<\/p>\n<p>Por fim, o f\u00edsico cita a Embrapa como um bom exemplo de pol\u00edtica p\u00fablica \u201cbaseada na evolu\u00e7\u00e3o cient\u00edfica\u201d. J\u00e1 o perigo, para Galv\u00e3o, est\u00e1 no que ele chama de &#8220;ogro neg\u00f3cio&#8221; \u2014 respons\u00e1vel, segundo ele, por uma &#8220;expans\u00e3o devastadora&#8221; sobre florestas essenciais no controle das emiss\u00f5es de gases do efeito estufa.<\/p>\n<h2>Nem de direita, nem de esquerda<\/h2>\n<p>\u201cO Brasil precisa de uma bancada da ci\u00eancia, mas n\u00e3o de uma ci\u00eancia de bancada partid\u00e1ria. Ci\u00eancia n\u00e3o deveria ser de direita nem de esquerda\u201d, diz o senador Marcos Pontes (PL-SP). Astronauta, engenheiro pelo ITA, tenente-coronel aviador da reserva e ex-ministro de Ci\u00eancia e Tecnologia de Bolsonaro, ele \u00e9 a exce\u00e7\u00e3o mais conhecida entre os cientistas do campo conservador.<\/p>\n<p>Questionado se a direita investiu pouco na forma\u00e7\u00e3o de pesquisadores com atua\u00e7\u00e3o p\u00fablica \u2014 ao contr\u00e1rio do que fez em \u00e1reas como economia e direito, onde criou uma rede s\u00f3lida de institutos \u2014, Pontes faz uma ressalva. \u201cUma coisa \u00e9 formar pesquisadores, outra \u00e9 estimular pesquisadores j\u00e1 altamente qualificados a participarem do debate p\u00fablico e pol\u00edtico\u201d.<\/p>\n<p>Sobre sua passagem pelo minist\u00e9rio, o senador reconhece a tens\u00e3o que os cortes de recursos causaram no setor durante a gest\u00e3o Bolsonaro. &#8220;\u00c9 verdade que enfrentamos dificuldades or\u00e7ament\u00e1rias muito s\u00e9rias, e nunca escondi minha posi\u00e7\u00e3o sobre isso\u201d, afirma, refor\u00e7ando que defendeu publicamente o fim dos contingenciamentos.<\/p>\n<p>Quest\u00f5es fiscais \u00e0 parte, Marcos Pontes acredita que existe um caminho para a direita se aproximar da ci\u00eancia. E ele passa por um \u201ctrip\u00e9 essencial\u201d composto por tempo, participa\u00e7\u00e3o e presen\u00e7a.<\/p>\n<p>\u201cPresen\u00e7a \u00e9 o processo mais desafiante. Porque levar as nossas ideias para o ambiente acad\u00eamico e cient\u00edfico pode gerar atritos em espa\u00e7os que a esquerda acha que \u00e9 o seu territ\u00f3rio, mas n\u00e3o \u00e9\u201d, diz o senador.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em julho de 2019, o ex-presidente Jair Bolsonaro bateu de frente com o f\u00edsico Ricardo Galv\u00e3o, ent\u00e3o diretor do Inpe&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":640621,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[204],"tags":[],"class_list":["post-640620","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ultimas-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/640620","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=640620"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/640620\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/640621"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=640620"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=640620"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=640620"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}