{"id":639554,"date":"2026-08-12T13:39:08","date_gmt":"2026-08-12T17:39:08","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=639554"},"modified":"2026-08-12T13:39:08","modified_gmt":"2026-08-12T17:39:08","slug":"identitarismo-e-fascismo-de-esquerda-como-disse-wagner-moura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=639554","title":{"rendered":"Identitarismo \u00e9 \u201cfascismo de esquerda\u201d, como disse Wagner Moura?"},"content":{"rendered":"<div class=\"postLayout-module-scss-module__08MJ-a__postContent\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/media.gazetadopovo.com.br\/2026\/08\/12143800\/wagner-moura-globo-de-ouro-960x540.jpg.webp\" \/><span>Wagner Moura comemora o Globo de Ouro de melhor ator por &#8220;O Agente Secreto&#8221;, em janeiro de 2026. (Foto: Chris Torres\/EFE\/EPA)<\/span>\n<p>Ou\u00e7a este conte\u00fado<\/p>\n<div class=\"postBody-module-scss-module__8_WGKG__postBodyContainer\">\n<p>Tenho uma exig\u00eancia de professor de Filosofia especialista em pragmatismo que me atrapalha mais do que ajuda. Antes de perguntar se uma frase \u00e9 verdadeira, quero saber o que ela autoriza a fazer em seguida. Um termo vale pelas infer\u00eancias que permite: o que se conclui dele, do que dispensa quem o usa.<\/p>\n<p>Wagner Moura disse que o <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/identitarismo\/\">identitarismo <\/a>\u00e9 um \u201c<a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/fascismo\/\">fascismo <\/a>de esquerda\u201d. Concordo com metade da frase. A outra metade vem prestando um servi\u00e7o involunt\u00e1rio a quem ele critica.<\/p>\n<p>Come\u00e7o pelo erro. \u201cFascismo\u201d \u00e9 palavra com endere\u00e7o hist\u00f3rico. Robert Paxton, que estudou o assunto a vida inteira, descreve o fen\u00f4meno melhor do que qualquer outro: uma comunidade obcecada pelo decl\u00ednio, o culto da unidade e da pureza, um movimento nacionalista de massa, paix\u00f5es mobilizadores, mil\u00edcia na rua e expurgo.<\/p>\n<p>Confira o identitarismo contra a lista. A confer\u00eancia d\u00e1 errado, mas n\u00e3o do jeito que se espera. Na\u00e7\u00e3o a renascer n\u00e3o h\u00e1: o vocabul\u00e1rio identit\u00e1rio \u00e9 hostil \u00e0 ideia. O resto n\u00e3o falta: foi substitu\u00eddo por coisa mais branda e eficiente.<\/p>\n<p>No lugar da mil\u00edcia, o conselho profissional. Em 2022, o \u00f3rg\u00e3o que regula os psic\u00f3logos de Ont\u00e1rio, no Canad\u00e1, mandou <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/jordan-peterson\/\">Jordan Peterson<\/a> fazer um curso de reeduca\u00e7\u00e3o sobre o que dizia em p\u00fablico; as cortes mantiveram a ordem. No lugar do partido \u00fanico, um clima moral de persegui\u00e7\u00e3o que atravessa siglas, empresas, universidades e editais. No lugar do culto ao l\u00edder, uma acefalia de que ningu\u00e9m consegue se desfazer: n\u00e3o existe autoridade capaz de encerrar um cancelamento e ser obedecida.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Concordo com metade da frase de Wagner Moura. A outra metade vem prestando um servi\u00e7o involunt\u00e1rio a quem ele critica<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Estado, ent\u00e3o, tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1. O identitarismo n\u00e3o precisa conquist\u00e1-lo: aluga o aparato burocr\u00e1tico policialesco que j\u00e1 est\u00e1 montado. Em 2019 o Supremo enquadrou a homofobia na Lei do Racismo sem que o Congresso legislasse. Em 2025, um humorista pegou oito anos e tr\u00eas meses de pris\u00e3o por um show.\u00a0E falta o principal, que n\u00e3o entra em lista porque n\u00e3o chega a acontecer: o roteirista que troca a cena, o professor que tira o livro da ementa, o orientando que muda de tema. Ningu\u00e9m precisou avis\u00e1-los. \u00c9 autocensura. Servilismo.<\/p>\n<p>A lista de Paxton n\u00e3o explica por que a frase de Wagner Moura incomoda. Isso quem explica \u00e9 um pressuposto. <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/george-orwell\/\">George Orwell<\/a> j\u00e1 reclamava, em 1944, no <em>Tribune<\/em>, que a palavra tinha deixado de significar coisa alguma: andavam chamando de \u201cfascista\u201d a ca\u00e7a \u00e0 raposa, a astrologia, os c\u00e3es e os porcos. Ele pedia que ela n\u00e3o fosse rebaixada a xingamento. Foi. E xingamento aponta sempre para a direita. Da\u00ed a histeria: com o autor mundialmente conhecido, o predicado atravessou a rua. Fascistas tamb\u00e9m s\u00e3o os de esquerda.<\/p>\n<p>Ainda assim recuso a palavra, e n\u00e3o por delicadeza ou gentileza. Quem mostrou que ela foi gasta n\u00e3o pode gast\u00e1-la mais, e fica sem ela no dia em que precisar.<\/p>\n<p>Rejeitado o nome, sobra o essencial. O identitarismo trocou o crit\u00e9rio: deixou de importar se o que foi dito se sustenta, e passou a importar quem disse. Wagner Moura resumiu o que ouve de seus cr\u00edticos: n\u00e3o \u00e9 preto e defende preto, n\u00e3o \u00e9 gay e defende gay. Nenhuma dessas obje\u00e7\u00f5es toca no que ele afirmou; todas dizem respeito ao crach\u00e1 de quem afirma.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>Esse deslocamento \u00e9 o que a defesa moderna contra o totalitarismo foi montada para impedir. Seu principal te\u00f3rico foi o mesmo J\u00fcrgen Habermas que, em 1967, num congresso estudantil em Hannover, prop\u00f4s a express\u00e3o \u201cfascismo de esquerda\u201d e depois recuou dela. O crit\u00e9rio da \u00e9tica do debate que ele passou a vida toda defendendo em milhares de p\u00e1ginas cabe em duas linhas: quem fala n\u00e3o decide se \u00e9 verdade, e s\u00f3 o argumento decide.<\/p>\n<p>O totalitarismo que Habermas viu de perto tamb\u00e9m julgava o conhecimento pela identidade de quem o produzia. N\u00e3o estou comparando regimes. A semelhan\u00e7a est\u00e1 no inimigo dos dois: um regime se derruba em 12 anos, e uma epistemologia sobrevive \u00e0 queda de qualquer regime.<\/p>\n<p>Falta batizar o que sobra, e aqui abuso da paci\u00eancia do leitor. Chamo aquilo de \u201cimagina\u00e7\u00e3o totalit\u00e1ria\u201d, t\u00edtulo de um livro que publiquei h\u00e1 dez anos. Antes do Estado, do partido e da mil\u00edcia, a imagina\u00e7\u00e3o: ela d\u00e1 unidade \u00e0s nossas expectativas e faz o mundo aparecer como um todo sem resto, no qual tudo se encaixa, nada escapa, e quem escapa \u00e9 registrado como defeito. \u00c9 preciso legitimar a viol\u00eancia redentora. Regime \u00e9 o que acontece quando essa imagina\u00e7\u00e3o consegue pol\u00edcia para chamar de sua. Aqui ela conseguiu um peda\u00e7o.<\/p>\n<p>Escrevi aquele livro sem abrir exce\u00e7\u00e3o para mim, e n\u00e3o conhe\u00e7o quem esteja fora. Trata-se de uma tenta\u00e7\u00e3o querer redimir o mundo dos meus inimigos.<\/p>\n<p>Nada disso \u00e9 descoberta da direita. <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/mark-lilla\/\">Mark Lilla <\/a>sustenta desde 2016 que a pol\u00edtica identit\u00e1ria deixou a esquerda americana sem discurso de bem comum; Yascha Mounk e Antonio Ris\u00e9rio dizem o mesmo, cada um do seu canto, e nenhum dos tr\u00eas cabe no r\u00f3tulo da \u201cdireita\u201d. S\u00e3o todos muito progressistas.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Antes do Estado, do partido e da mil\u00edcia, h\u00e1 a imagina\u00e7\u00e3o: ela d\u00e1 unidade \u00e0s nossas expectativas e faz o mundo aparecer como um todo sem resto<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>O que me interessa aqui \u00e9 o pre\u00e7o que se paga.<\/p>\n<p class=\"postParagraph-module-scss-module__Tp8H3W__postParagraph postParagraph-module-scss-module__Tp8H3W__postParagraphInnerHtml\">Jo\u00e3o Bosco, aos 80 anos, defendeu <em>Gol Anulado<\/em>, samba de 1976 com Aldir Blanc, cuja letra narra um marido que espanca a mulher de cinto ao descobri-la flamenguista. A defesa foi curta e correta: obra nenhuma existe para ser obedecida. Quem l\u00ea samba com olho de s\u00edndico da identidade vai precisar de uma fogueira grande, e pode come\u00e7ar por Machado de Assis.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Bosco estragou o argumento em seguida, ao dizer que essas pessoas precisam ser medicadas \u2013 o que n\u00e3o vou defender. Levou uma semana de execra\u00e7\u00e3o p\u00fablica.<\/p>\n<p>Em tese, a cr\u00edtica ao identitarismo custa zero: ningu\u00e9m retira nada de circula\u00e7\u00e3o e ningu\u00e9m perde contrato. Bosco tinha um objeto concreto, com uma mulher apanhando dentro da letra, e a conta chegou. N\u00e3o sei julgar inten\u00e7\u00e3o. Registro o padr\u00e3o: sem objeto, a cr\u00edtica \u00e9 de gra\u00e7a.<\/p>\n<p>Escrevo sem expectativa de que a premissa seja revista. A frase de Wagner Moura pode render tr\u00eas semanas de cita\u00e7\u00e3o e alguns artigos de opini\u00e3o. Depois, volta para a gaveta; quem tiver uma can\u00e7\u00e3o velha para defender segue pagando a conta que ele n\u00e3o pagou. Ou o processo. Eu sigo com a categoria de dez anos atr\u00e1s, que n\u00e3o impediu nada e n\u00e3o me poupou de nada. Fica dito, que \u00e9 o que se faz com o que n\u00e3o vai ser respondido.<\/p>\n<\/div>\n<p>Conte\u00fado editado por: <a title=\"Link para o perfil de Marcio Antonio Campos\" href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/autor\/marcio-antonio-campos\/\">Marcio Antonio Campos<\/a><\/p>\n<p>Encontrou algo errado na mat\u00e9ria?<\/p>\n<p>Comunique erros<\/p>\n<p>Use este espa\u00e7o apenas para a comunica\u00e7\u00e3o de erros<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Wagner Moura comemora o Globo de Ouro de melhor ator por &#8220;O Agente Secreto&#8221;, em janeiro de 2026. 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