{"id":638964,"date":"2026-08-12T09:37:19","date_gmt":"2026-08-12T13:37:19","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=638964"},"modified":"2026-08-12T09:37:19","modified_gmt":"2026-08-12T13:37:19","slug":"o-que-nunca-te-contaram-sobre-ser-mulher-fora-do-ocidente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=638964","title":{"rendered":"O que nunca te contaram sobre ser mulher fora do Ocidente"},"content":{"rendered":"<div class=\"postLayout-module-scss-module__08MJ-a__postContent\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/media.gazetadopovo.com.br\/2026\/08\/12103238\/sylvester-dsouza-LAprsXXH-Nc-unsplash-960x540.jpg.webp\" \/><span>Em partes do mundo, nascer menina \u00e9 risco: h\u00e1 abandono, abuso e sil\u00eancio. A liberdade feminina pode ser arrancada ou corro\u00edda aos poucos. (Foto: Sylvester DSouza\/Unsplash)<\/span>\n<p>Ou\u00e7a este conte\u00fado<\/p>\n<div class=\"postBody-module-scss-module__8_WGKG__postBodyContainer\">\n<p>\u201c\u00c9 menino ou menina?\u201d<\/p>\n<p>Foi uma das primeiras coisas que perguntei a Lyba quando finalmente a encontrei pessoalmente no Nepal. J\u00e1 \u00e9ramos amigas havia anos por fazermos parte da mesma organiza\u00e7\u00e3o, o LOLA (<em>Ladies of Liberty Alliance<\/em>), mas s\u00f3 nos conhec\u00edamos por chamadas de v\u00eddeo. Agora ela estava diante de mim, gr\u00e1vida de oito meses.<\/p>\n<p>\u201cEu n\u00e3o sei.\u201d<\/p>\n<p>N\u00e3o porque ela n\u00e3o queira saber.<\/p>\n<p>Na \u00cdndia, \u00e9 proibido revelar o sexo do beb\u00ea durante a gesta\u00e7\u00e3o. Quando perguntei o motivo, Lyba me contou uma hist\u00f3ria assustadora.<\/p>\n<p>No ano passado, o pai dela encontrou um saco de lixo abandonado perto de um hospital. Dentro, havia uma beb\u00ea rec\u00e9m-nascida. Uma menina.<\/p>\n<p>Ela havia sido jogada fora por ser menina.<\/p>\n<p>Lyba me contou que h\u00e1 fam\u00edlias que, ao descobrirem que esperam uma menina, tentam mat\u00e1-la ainda no ventre, chegando a colocar a pr\u00f3pria vida da m\u00e3e em risco para impedir que uma filha nas\u00e7a.<\/p>\n<p>\u00c9 para tentar salvar outras meninas desse destino que a \u00cdndia pro\u00edbe revelar o sexo do beb\u00ea durante a gesta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E foi para encontrar mulheres como Lyba que eu vim parar no Nepal.<\/p>\n<p>Estou participando de um retiro de lideran\u00e7as do <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/ideias\/mulheres-libertarias-rejeitam-o-feminismo-de-esquerda-e-garantem-as-solucoes-nao-virao-do-estado\/\">LOLA,<\/a> uma rede global de mulheres que defendem a liberdade ao redor do mundo. Fui convidada como palestrante para um treinamento com l\u00edderes da organiza\u00e7\u00e3o na \u00c1sia.<\/p>\n<p>E algumas das hist\u00f3rias que ouvi aqui ajudam a entender, de forma muito concreta, o que ainda significa lutar por liberdade.<\/p>\n<p>Em algumas regi\u00f5es do Nepal, mulheres ainda s\u00e3o expulsas de casa durante o per\u00edodo de menstrua\u00e7\u00e3o e obrigadas a dormir sozinhas em abrigos prec\u00e1rios, vulner\u00e1veis at\u00e9 a ataques de animais. Foi Prasidika, l\u00edder do LOLA no pa\u00eds, quem me contou.<\/p>\n<p>Ainda mais chocante \u00e9 a tradi\u00e7\u00e3o das Kumaris. Meninas escolhidas como deusas vivas perdem parte da inf\u00e2ncia: n\u00e3o brincam livremente, n\u00e3o frequentam a escola normalmente e at\u00e9 rir ou chorar pode ser visto como mau press\u00e1gio.<\/p>\n<p>Em Bangladesh, Nafisa e Effat me mostraram um cen\u00e1rio ainda mais assustador.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Meninas s\u00e3o abandonadas por terem nascido meninas, mulheres sofrem ataques com \u00e1cido e, em algumas comunidades, homens de mais de quarenta anos se casam com adolescentes de quinze ou dezesseis<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Nos assentamentos de Daca, Effat encontrou mulheres sem nenhuma no\u00e7\u00e3o b\u00e1sica sobre sa\u00fade sexual e reprodutiva. Sem escola que ensine isso, a informa\u00e7\u00e3o que sobra vem da pornografia.<\/p>\n<p>Nem contraceptivo elas decidem sozinhas: se o marido n\u00e3o providencia, a mulher raramente vai atr\u00e1s por conta pr\u00f3pria, porque isso ainda \u00e9 visto como coisa que mulher n\u00e3o deveria fazer.<\/p>\n<p>E \u00e9 claro que essa falta de autonomia n\u00e3o termina nas fronteiras de Bangladesh e Nepal.<\/p>\n<p>No Sri Lanka, Zeenath mostrou outra face desse mesmo problema: o sil\u00eancio.<\/p>\n<p>Ela falou sobre meninas muito jovens v\u00edtimas de estupros coletivos, muitas vezes envolvendo o pr\u00f3prio namorado e seus amigos, e sobre casos de abuso dentro de institui\u00e7\u00f5es religiosas. Em um deles, uma menina foi abusada durante anos por um l\u00edder religioso. A pr\u00f3pria m\u00e3e sabia, mas permaneceu em sil\u00eancio por causa do dinheiro que recebia.<\/p>\n<p>E esse sil\u00eancio come\u00e7a muito antes. Em partes do pa\u00eds, menstruar ainda \u00e9 motivo de vergonha. Zeenath contou que, ao comprar absorventes, eles s\u00e3o embrulhados em v\u00e1rias camadas de papel para que ningu\u00e9m veja o que a mulher est\u00e1 carregando.<\/p>\n<p>Quando at\u00e9 um absorvente precisa ser escondido, n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil entender por que tantas outras coisas tamb\u00e9m permanecem em sil\u00eancio.<\/p>\n<p>Na Arm\u00eania, Hamest me contou que muitas mulheres ainda perdem liberdade depois do casamento, seja na forma de se vestir, nas amizades que mant\u00eam ou at\u00e9 na pr\u00f3pria seguran\u00e7a dentro de casa. Nas Filipinas, Angela mostrou que essa perda pode ser ainda mais literal: o div\u00f3rcio simplesmente n\u00e3o existe. Ao lado do Vaticano, \u00e9 o \u00fanico pa\u00eds que ainda mant\u00e9m a proibi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Talvez, para n\u00f3s brasileiros, muitas dessas hist\u00f3rias pare\u00e7am pertencer a um mundo muito distante. E justamente por isso elas servem como um lembrete inc\u00f4modo: liberdade nunca deve ser tratada como algo garantido.<\/p>\n<p>Ela pode ser arrancada de forma brutal, como nos casos que ouvi aqui, mas tamb\u00e9m pode ser corro\u00edda aos poucos, quando aceitamos que o Estado, a cultura, a fam\u00edlia ou at\u00e9 a religi\u00e3o decidam cada vez mais sobre a vida do indiv\u00edduo.<\/p>\n<p>Por isso, diante de qualquer escolha coletiva, existe uma pergunta que deveria vir antes de todas as outras: isso nos torna mais livres ou menos livres? Liberdade n\u00e3o \u00e9 uma palavra bonita para colocar em campanha pol\u00edtica. \u00c9 o espa\u00e7o que cada pessoa tem para ser dona da pr\u00f3pria vida. E esse espa\u00e7o nunca deveria diminuir.<\/p>\n<p>E sobre a pergunta que abriu este texto, Lyba ainda n\u00e3o sabe a resposta. Mas me contou que sente que carrega uma menina no ventre: a Yana. Essa tamb\u00e9m \u00e9 a torcida do marido. Em um mundo onde tantas meninas ainda precisam lutar pelo direito de simplesmente existir, criar uma filha livre \u00e9 uma das formas mais bonitas de ajudar a mudar essa hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>E, se voc\u00ea \u00e9 mulher e se interessou pelo trabalho do LOLA, essa rede tamb\u00e9m est\u00e1 aberta para voc\u00ea. O Brasil tem hoje um dos n\u00facleos mais ativos da organiza\u00e7\u00e3o, presente em mais de 30 cidades. Tenho certeza de que voc\u00ea ser\u00e1 muito bem-vinda por aqui.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<\/div>\n<p>Encontrou algo errado na mat\u00e9ria?<\/p>\n<p>Comunique erros<\/p>\n<p>Use este espa\u00e7o apenas para a comunica\u00e7\u00e3o de erros<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em partes do mundo, nascer menina \u00e9 risco: h\u00e1 abandono, abuso e sil\u00eancio. 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