{"id":638497,"date":"2026-08-12T06:00:00","date_gmt":"2026-08-12T10:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=638497"},"modified":"2026-08-12T06:00:00","modified_gmt":"2026-08-12T10:00:00","slug":"o-amor-e-a-memoria-em-estado-de-graca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=638497","title":{"rendered":"O amor \u00e9 a mem\u00f3ria em estado de gra\u00e7a"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody-module-scss-module__8_WGKG__postBodyContainer\">\n<p>H\u00e1 um cap\u00edtulo das <em>Confiss\u00f5es<\/em> em que Agostinho, depois de procurar Deus pelo mundo inteiro, nas coisas belas e nas doutrinas dos homens, volta-se para dentro e O encontra onde menos esperava: nos pal\u00e1cios da pr\u00f3pria mem\u00f3ria. &#8220;Tarde te amei, beleza t\u00e3o antiga e t\u00e3o nova.&#8221; O achado \u00e9 vertiginoso e costuma passar despercebido: se Deus se deixa encontrar na mem\u00f3ria, ent\u00e3o a mem\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 um dep\u00f3sito, \u00e9 um santu\u00e1rio. E, se \u00e9 um santu\u00e1rio, talvez a rela\u00e7\u00e3o entre amor e mem\u00f3ria seja mais \u00edntima do que sup\u00f5e a psicologia de manual. Esta \u00e9 a tese deste ensaio: o amor n\u00e3o \u00e9 uma paix\u00e3o que a mem\u00f3ria registra, mas a pr\u00f3pria mem\u00f3ria em opera\u00e7\u00e3o, escolhendo, entre os escombros do vivido, aquilo que merece ser eterno.<\/p>\n<p>Machado de Assis intuiu essa cumplicidade melhor que ningu\u00e9m. Bentinho, ao construir a casa do Engenho Novo \u00e0 imagem da casa da inf\u00e2ncia, queria &#8220;atar as duas pontas da vida&#8221;, queria que a mem\u00f3ria fizesse o que o tempo desfez. Que a empreitada tenha fracassado n\u00e3o desmente a intui\u00e7\u00e3o, apenas a torna tr\u00e1gica. Porque a mem\u00f3ria \u00e9 uma editora incorrig\u00edvel: corta, retoca e ilumina, como aqueles restauradores que devolvem ao afresco cores que ele talvez jamais tenha tido. A quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 se ela mente, mas a servi\u00e7o de qu\u00ea mente. Quando mente a servi\u00e7o do ci\u00fame, produz um <em>Dom Casmurro<\/em>. Quando mente a servi\u00e7o do Amor, produz aquilo a que chamamos, sem ironia, uma vida.<\/p>\n<p>Sirva de fio condutor a figura de um diplomata brasileiro, hoje servindo \u00e0 beira do B\u00e1ltico, com uma mulher amada, duas filhas pequenas e uma B\u00edblia anotada na cabeceira. A profiss\u00e3o vem ao caso: um diplomata \u00e9 um funcion\u00e1rio da mem\u00f3ria alheia. Passa a vida redigindo telegramas, isto \u00e9, decidindo o que, de cada dia, merece sobreviver ao dia. Viena, Caracas, Mascate, Jacarta, Talin: cinco cidades, cinco arquivos, e, em cada um deles, a mesma descoberta discreta e humilhante, a de que o essencial nunca estava nos telegramas.<\/p>\n<p>O essencial era a mulher rindo dele numa esquina da L\u00f6welstra\u00dfe com a Schenkenstra\u00dfe porque ele insistia em pronunciar uma palavra alem\u00e3 com um sotaque engra\u00e7ado. Isso n\u00e3o foi expedido para Bras\u00edlia, mas, sim, para uma eternidade particular.<\/p>\n<p>Borges imaginou o caso-limite que ilumina todos os outros: Funes, o memorioso, o homem que se lembrava de tudo, de cada folha de cada \u00e1rvore de cada monte e de cada uma das vezes que a havia percebido ou imaginado. Funes era um monstro, e era um monstro precisamente porque n\u00e3o podia amar: quem lembra tudo n\u00e3o escolhe nada, e amar \u00e9 escolher. A mem\u00f3ria total \u00e9 o inferno; o para\u00edso \u00e9 feito de esquecimentos bem administrados. O amor exige o que Funes n\u00e3o tinha: o direito de esquecer o acess\u00f3rio para que o essencial tenha onde morar.<\/p>\n<p>Adolfo Bioy Casares, mais elegante que Borges e talvez por isso menos citado, escreveu a advert\u00eancia complementar. Em <em>A inven\u00e7\u00e3o de Morel<\/em>, um fugitivo apaixona-se, numa ilha deserta, por uma mulher que afinal n\u00e3o existe: \u00e9 uma proje\u00e7\u00e3o, uma grava\u00e7\u00e3o tridimensional repetindo para sempre a mesma semana. E o fugitivo, em vez de desesperar, grava a si mesmo dentro da semana dela, para coincidir com ela eternamente, ainda que a m\u00e1quina o mate, e ela ir\u00e1 mat\u00e1-lo. Seria c\u00f4modo sorrir do n\u00e1ufrago, n\u00e3o fosse ele o retrato antecipado de uma \u00e9poca inteira.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Fotografamos, filmamos, arquivamos; convertemos o amor em acervo<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>O diplomata guarda no telefone alguns milhares de imagens das filhas e j\u00e1 se surpreendeu contemplando as fotos na sala ao lado daquela em que elas, em carne, osso e gritaria, o chamavam para brincar. <em>A inven\u00e7\u00e3o de Morel<\/em> n\u00e3o \u00e9 uma fantasia: \u00e9 uma den\u00fancia. O perigo n\u00e3o \u00e9 esquecer quem amamos, \u00e9 preferir a grava\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nelson Rodrigues, que, sob a safadeza escandalosa, escondia um moralista rigoroso, enxergava o \u00f3bvio que os sofisticados n\u00e3o veem: ningu\u00e9m ama o presente. O presente \u00e9 inabit\u00e1vel; escorrega, n\u00e3o posa para retrato. Ama-se sempre uma criatura composta, feita da mo\u00e7a da primeira valsa e da mulher do caf\u00e9 da manh\u00e3 de hoje, sobrepostas como transpar\u00eancias.<\/p>\n<p>Um casamento longo confirma a li\u00e7\u00e3o: n\u00e3o \u00e9 a conviv\u00eancia de duas pessoas, \u00e9 a conviv\u00eancia de dois arquivos que negociam, todas as noites, uma vers\u00e3o comum do passado. Quando a mulher do homem conta uma hist\u00f3ria dos dois e ele a corrige, n\u00e3o est\u00e3o discutindo fatos: est\u00e3o disputando a reda\u00e7\u00e3o final de uma eternidade dom\u00e9stica. Vence quase sempre ela. E a Eternidade, ao que tudo indica, sai ganhando.<\/p>\n<p>Julio Cort\u00e1zar sabia que a mem\u00f3ria n\u00e3o anda em linha reta e, por isso, escreveu um romance que se pode ler fora de ordem, saltando de cap\u00edtulo em cap\u00edtulo como quem joga amarelinha. O jogo \u00e9 rigorosamente exato: ningu\u00e9m se lembra da pr\u00f3pria vida em ordem cronol\u00f3gica, e a mem\u00f3ria amorosa \u00e9 toda ela contram\u00e3o e atalho.<\/p>\n<p>Um cheiro de caf\u00e9 em Talin devolve o homem, sem escalas, a uma cozinha de Caracas em pleno desabastecimento, onde o caf\u00e9 era contrabando e felicidade; uma ladeira gelada do B\u00e1ltico entrega-lhe uma tarde \u00famida de Jacarta; as filhas dormindo arremessam-no a um hospital, anos atr\u00e1s, ao instante exato em que compreendeu que seu cora\u00e7\u00e3o passaria a circular fora do corpo, repartido em duas. Quem quiser narrar honestamente uma vida amada ter\u00e1 de seguir o m\u00e9todo de <em>O jogo da amarelinha<\/em>: do cap\u00edtulo 73 ao 1, do 1 ao 2, do 2 ao 116. Qualquer outra ordem seria mentira.<\/p>\n<p>Thomas Mann gastou mil p\u00e1ginas d\u2019<em>A montanha m\u00e1gica<\/em> para demonstrar que o tempo n\u00e3o \u00e9 grandeza f\u00edsica, e sim subst\u00e2ncia moral: dilata-se e contrai-se conforme a densidade do que se vive. Hans Castorp subiu para uma visita de tr\u00eas semanas e ficou sete anos, porque l\u00e1 em cima o tempo era outro. Toda vida de diplomata \u00e9 uma sucess\u00e3o de montanhas m\u00e1gicas: cada posto \u00e9 um sanat\u00f3rio de tr\u00eas ou quatro anos, com seus Settembrinis de recep\u00e7\u00e3o e seus invernos que n\u00e3o acabam. E, no entanto, feitas as contas, 20 anos de carreira pesam menos, na balan\u00e7a da mem\u00f3ria, que certos minutos avulsos: um sim, um primeiro choro, uma ora\u00e7\u00e3o murmurada no escuro de um quarto em Mascate.<\/p>\n<blockquote>\n<p>A mem\u00f3ria n\u00e3o mede o tempo: pesa-o. E o Amor \u00e9 o que h\u00e1 de mais pesado<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Ergue-se aqui a obje\u00e7\u00e3o inevit\u00e1vel, e ela tem um nome, Michel Houellebecq. O romancista franc\u00eas sustentaria que tudo isso \u00e9 embelezamento de cad\u00e1ver, que o amor se dissolveu na l\u00f3gica do mercado er\u00f3tico, que somos part\u00edculas elementares em colis\u00e3o e que a mem\u00f3ria amorosa \u00e9 apenas a propaganda que a esp\u00e9cie faz de si mesma. A obje\u00e7\u00e3o tem a for\u00e7a melanc\u00f3lica das coisas meio verdadeiras e merece resposta \u00e0 altura.<\/p>\n<p>A resposta vem de um russo. Dostoi\u00e9vski p\u00f4s na boca de Aliocha Karam\u00e1zov, diante de uma pedra e de um grupo de meninos, a mais alta doutrina pedag\u00f3gica j\u00e1 formulada: uma \u00fanica lembran\u00e7a boa, guardada desde a inf\u00e2ncia, pode um dia salvar um homem. Uma \u00fanica. A mem\u00f3ria amorosa n\u00e3o \u00e9 propaganda, e sim estoque de salva\u00e7\u00e3o. E quem tem filhos passa os dias, saiba-o ou n\u00e3o, fabricando as lembran\u00e7as que um dia ter\u00e3o de salv\u00e1-los. Diante da pedra de Aliocha, o cinismo de Houellebecq n\u00e3o \u00e9 refutado, mas simplesmente deixado para tr\u00e1s, como se deixa um quarto sem janelas.<\/p>\n<p>Resta a hora contra a qual tudo isso se decide. Virgil Gheorghiu chamou de vig\u00e9sima quinta hora aquela que vem depois da \u00faltima, a hora em que todo socorro chega tarde, em que a m\u00e1quina j\u00e1 triturou o que tinha de triturar. O s\u00e9culo passado a conheceu nos campos e nos vag\u00f5es lacrados, e o nosso a conhece em vers\u00e3o dom\u00e9stica e anestesiada, pois esta \u00e9 a hora em que um homem olha a pr\u00f3pria casa e descobre que esteve ausente de todas as fotografias em que aparece.<\/p>\n<p>Contra ela, vale convocar dois brasileiros que o Brasil se deu ao luxo de esquecer. M\u00e1rio Ferreira dos Santos ensinou que tudo o que vive luta contra a dissolu\u00e7\u00e3o e que a forma \u00e9 a vit\u00f3ria provis\u00f3ria do ser sobre o caos: a mem\u00f3ria amorosa \u00e9 exatamente isso, a forma que damos ao tempo para que ele n\u00e3o nos dissolva.<\/p>\n<p>Outro Mario, o Vieira de Mello, diagnosticou que o Brasil trocou os moralistas pelos estetas, a cultura da alma pelo espet\u00e1culo da alma. Aplicada ao Amor, a lente revela o retrato: uma civiliza\u00e7\u00e3o de estetas coleciona sensa\u00e7\u00f5es e descarta lembran\u00e7as, porque a sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 consumo e a lembran\u00e7a \u00e9 compromisso. Um povo sem mem\u00f3ria amorosa n\u00e3o \u00e9 um povo jovem, \u00e9 um povo que n\u00e3o ter\u00e1 com que se salvar quando soar a vig\u00e9sima quinta hora.<\/p>\n<p>Um dia o homem ser\u00e1, para as filhas, apenas mem\u00f3ria. O invent\u00e1rio ser\u00e1 imperfeito, como s\u00e3o todos: h\u00e3o de lembrar o pai com injusti\u00e7as, lacunas e meia d\u00fazia de cenas superestimadas. N\u00e3o faz mal. Se desse arquivo desordenado sobreviver uma \u00fanica lembran\u00e7a boa, uma manh\u00e3 ensolarada em Goi\u00e2nia, uma tarde de neve em Talin, uma ora\u00e7\u00e3o em voz alta, uma gargalhada na cozinha, a doutrina de Aliocha ter\u00e1 sido cumprida, e o dever de casa estar\u00e1 feito.<\/p>\n<p>Porque a carne esquece, os imp\u00e9rios extraviam seus telegramas e as bibliotecas ardem com uma regularidade que j\u00e1 n\u00e3o escandaliza ningu\u00e9m. S\u00f3 uma mem\u00f3ria n\u00e3o falha, e \u00e9 nela que todas as outras est\u00e3o penduradas como l\u00e2mpadas numa corrente. Foi o que Santo Agostinho descobriu ao encontrar, nos por\u00f5es de si mesmo, algu\u00e9m que l\u00e1 estava desde antes dele, pois amar \u00e9 apostar que fomos lembrados antes de existir e que seremos lembrados depois de partir, que h\u00e1 uma mem\u00f3ria que n\u00e3o arquiva, n\u00e3o deleta, n\u00e3o se distrai. A morte \u00e9 o fim da percep\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 o fim da mem\u00f3ria. E a ressurrei\u00e7\u00e3o, essa apoteose que nenhum esteta ousaria encenar, n\u00e3o \u00e9 outra coisa que n\u00e3o Deus recusando-se, gloriosamente, a nos esquecer.<\/p>\n<p><strong><em>Lindolpho Cademartori<\/em><\/strong> <em>\u00e9 diplomata de carreira desde 2006 e mestre em Diplomacia pelo Instituto Rio Branco.<\/em><\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 um cap\u00edtulo das Confiss\u00f5es em que Agostinho, depois de procurar Deus pelo mundo inteiro, nas coisas belas e nas&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":638498,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[204],"tags":[],"class_list":["post-638497","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ultimas-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/638497","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=638497"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/638497\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/638498"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=638497"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=638497"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=638497"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}