{"id":634854,"date":"2026-08-10T19:45:13","date_gmt":"2026-08-10T23:45:13","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=634854"},"modified":"2026-08-10T19:45:13","modified_gmt":"2026-08-10T23:45:13","slug":"ataques-a-escolas-sao-precedidos-por-sinais-de-alerta-e-pacto-de-silencio-entre-alunos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=634854","title":{"rendered":"Ataques a escolas s\u00e3o precedidos por sinais de alerta e pacto de sil\u00eancio entre alunos"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody-module-scss-module__8_WGKG__postBodyContainer\">\n<p>Ataques realizados por adolescentes em escolas deixaram de ser uma exclusividade dos Estados Unidos. Aos poucos, essa realidade se tornou cada vez mais comum no Brasil. Desde 2011, o pa\u00eds j\u00e1 registrou pelo menos 20 epis\u00f3dios desse tipo e a frequ\u00eancia est\u00e1 aumentando.<\/p>\n<p>Casos marcantes como o de <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/vida-e-cidadania\/computador-de-autor-do-massacre-em-escola-no-rio-e-achado-queimado-4fifnhvw7n4psio1uqpv02uku\/\">Realengo\/RJ<\/a>, em 2011, quando 12 estudantes foram mortos; <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/politica\/republica\/atiradores-invadem-escola-e-matam-estudantes-na-grande-sp-7zlh8io4loox5ts9m8estl7f1\/\">Suzano\/SP<\/a>, em 2019, com sete mortes; <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/republica\/blumenau-ataque-em-creche-deixa-4-mortos-e-4-feridos\/\">Blumenau\/SC<\/a> com quatro crian\u00e7as mortas em uma creche, em 2023; e agora em 2026, na cidade de Rio Branco\/AC, quando duas funcion\u00e1rias morreram ap\u00f3s um ataque, alertam que esse tipo de viol\u00eancia extrema n\u00e3o \u00e9 algo isolado. A boa not\u00edcia \u00e9 que existem formas de identificar sinais de alerta e evitar muitas dessas ocorr\u00eancias.<\/p>\n<p>Bianca Machado, tenente-coronel da Pol\u00edcia Militar do Rio de Janeiro, psicanalista e especialista em intelig\u00eancia emocional, explica que em todos os casos brasileiros citados j\u00e1 existiam ind\u00edcios antes dos ataques.<\/p>\n<p>\u201cA pergunta a ser feita \u00e9: como a pol\u00edcia pode atuar antes, durante e depois do ato? Precisamos avaliar os sinais de alerta, perceber como \u00e9 a comunica\u00e7\u00e3o da comunidade escolar com a pol\u00edcia e seguir padr\u00f5es internacionais de avalia\u00e7\u00e3o dos casos\u201d, explicou, durante sua palestra no F\u00f3rum Internacional de Ci\u00eancias Policiais, realizado em Curitiba (PR), em julho.<\/p>\n<p>Uma das mudan\u00e7as de paradigma na preven\u00e7\u00e3o de ataques a escolas, segundo a tenente-coronel, est\u00e1 na forma de identificar potenciais agressores. Durante anos, a resposta a essas trag\u00e9dias concentrou-se na busca por um suposto perfil biol\u00f3gico do autor. Essa abordagem, por\u00e9m, foi superada e, de acordo com a literatura criminol\u00f3gica internacional mais recente, a recomenda\u00e7\u00e3o passou a ser outra: observar o comportamento, o contexto e os ind\u00edcios de inten\u00e7\u00e3o do suspeito, em vez de recorrer a estere\u00f3tipos.<\/p>\n<p>\u201cDepois do massacre de Columbine, nos Estados Unidos, em 1999, o FBI desenvolveu a Avalia\u00e7\u00e3o e Gerenciamento de Amea\u00e7as Comportamentais (<em>Behavioral Threat Assessment and Management<\/em>) e mudou a estrat\u00e9gia de preven\u00e7\u00e3o. Deixou-se de investigar quem \u00e9 o prov\u00e1vel atirador para analisar quais comportamentos e atitudes indicam a evolu\u00e7\u00e3o de uma pessoa para a viol\u00eancia.\u201d<\/p>\n<p>Sob essa perspectiva biopsicossocial, entende-se que fatores biol\u00f3gicos, traumas da inf\u00e2ncia e o ambiente social e socioecon\u00f4mico interagem entre si, podendo favorecer o isolamento, a agressividade acumulada e, em casos extremos, a evolu\u00e7\u00e3o para comportamentos violentos.<\/p>\n<p>Entre os comportamentos que merecem aten\u00e7\u00e3o est\u00e3o amea\u00e7as diretas ou indiretas contra colegas e professores, manifesta\u00e7\u00f5es de inten\u00e7\u00e3o violenta, interesse obsessivo por ataques anteriores, tentativas de acesso a armas, mudan\u00e7as bruscas de comportamento ap\u00f3s perdas ou humilha\u00e7\u00f5es e mensagens de despedida ou vingan\u00e7a.<\/p>\n<h2>Ataques costumam ser anunciados entre colegas antes de acontecer<\/h2>\n<p>A identifica\u00e7\u00e3o precoce dessas quest\u00f5es comportamentais passa pela participa\u00e7\u00e3o do seu pr\u00f3prio grupo. Os adolescentes circulam a informa\u00e7\u00e3o entre si, mas esse movimento \u00e9 frequentemente negligenciado.<\/p>\n<p>\u201cSegundo um estudo do servi\u00e7o secreto norte-americano, em 80% dos ataques planejados nas escolas coment\u00e1rios sobre o assunto j\u00e1 circulavam entre os alunos. S\u00f3 que eles n\u00e3o foram levados a s\u00e9rio ou n\u00e3o havia um canal de comunica\u00e7\u00e3o para media\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>Outro estudo do FBI identificou que havia \u201cuma esp\u00e9cie de c\u00f3digo de sil\u00eancio entre os estudantes, que \u00e9 aquela ideia de que voc\u00ea denunciar uma coisa desse tipo \u00e9 rid\u00edculo. Muitos achavam que poderiam ser cobrados depois por contar\u201d, disse.<\/p>\n<p>Por isso \u00e9 importante que professores, diretores e inspetores estejam sempre atentos aos \u201cburburinhos\u201d entre os alunos. E que haja a integra\u00e7\u00e3o da comunidade escolar com a pol\u00edcia para que seja poss\u00edvel evitar os ataques. Tamb\u00e9m \u00e9 preciso estar atento, segundo Bianca, a fen\u00f4menos como o bullying e o cyberbullying, que geram mem\u00f3rias traum\u00e1ticas e um sentimento destrutivo de rejei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cO adolescente possui uma necessidade biol\u00f3gica e psicol\u00f3gica de pertencimento. Quando ele \u00e9 rejeitado e exclu\u00eddo sistematicamente, esse sofrimento n\u00e3o canalizado pode se transformar em um desejo destrutivo de retalia\u00e7\u00e3o contra a comunidade escolar.\u201d<\/p>\n<h2>Canal exclusivo para den\u00fancias facilita o trabalho de preven\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<p>A pol\u00edcia precisa deixar de atuar apenas como for\u00e7a de resposta emergencial e assumir tamb\u00e9m um papel permanente de parceria com a comunidade escolar, explica a tenente-coronel. A proximidade f\u00edsica e o di\u00e1logo constante entre policiais, diretores e alunos geram um fluxo de confian\u00e7a e informa\u00e7\u00e3o que permite interceptar amea\u00e7as antes da execu\u00e7\u00e3o do ataque.<\/p>\n<p>\u201cN\u00f3s da pol\u00edcia precisamos nos aproximar dos adolescentes, porque eles n\u00e3o sabem para quem contar sobre determinados assuntos. Eles n\u00e3o confiam em ningu\u00e9m e precisamos mostrar que somos confi\u00e1veis. Se ainda assim tiverem medo da pol\u00edcia, que tenham canal aberto dentro da escola, que \u00e9 quem vai transmitir a informa\u00e7\u00e3o a n\u00f3s\u201d, afirmou Bianca.<\/p>\n<p>Para ela, o Brasil precisa criar uma linha an\u00f4nima de comunica\u00e7\u00e3o a exemplo do que foi feito no estado do Colorado, nos Estados Unidos, para den\u00fancias de ataques. O Safe2Tell, criado ap\u00f3s o ataque de Columbine, \u00e9 uma plataforma estadual que auxilia no combate \u00e0 viol\u00eancia escolar e permite que estudantes, pais e profissionais da educa\u00e7\u00e3o relatem, anonimamente, amea\u00e7as ou comportamentos preocupantes.<\/p>\n<p>\u201cEssa linha an\u00f4nima registra cerca de 28 mil den\u00fancias por ano em todo o estado e existe uma triagem que conecta escola, assistentes etc. No Brasil, n\u00e3o temos algo semelhante ainda e o 190 recebe todo o tipo de liga\u00e7\u00e3o e den\u00fancia, o que dificulta o trabalho. Um canal semelhante ao do Colorado facilitaria a atua\u00e7\u00e3o da pol\u00edcia.\u201d<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ataques realizados por adolescentes em escolas deixaram de ser uma exclusividade dos Estados Unidos. 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