{"id":630870,"date":"2026-08-09T13:00:00","date_gmt":"2026-08-09T17:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=630870"},"modified":"2026-08-09T13:00:00","modified_gmt":"2026-08-09T17:00:00","slug":"contra-a-ansiedade-ou-o-burnout-busque-saude-e-salvacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=630870","title":{"rendered":"Contra a ansiedade ou o \u201cburnout\u201d, busque sa\u00fade e salva\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody-module-scss-module__8_WGKG__postBodyContainer\">\n<p>\u201cN\u00e3o, as coisas n\u00e3o v\u00e3o bem l\u00e1 em casa&#8230;\u201d Ou\u00e7amos a voz de uma pessoa comum, de qualquer um de n\u00f3s, ou de um dos nossos amigos e conhecidos.<\/p>\n<p>\u201cPois \u00e9, meu chapa. Eu tenho me sentido extremamente cansado, exausto mesmo, de um cansa\u00e7o que nem mesmo uma longa noite de sono \u00e9 capaz de curar. N\u00e3o importa quanto eu durma! E olha que j\u00e1 tem um tempo que eu venho caindo pelas tabelas, me recostando em qualquer canto, sempre com vontade de deitar e pronto a tirar um cochilo.\u201d<\/p>\n<p>E, embora algumas pessoas n\u00e3o sejam capazes de se expressar com muita precis\u00e3o, se pudessem, diriam tamb\u00e9m algo como: \u201cO que eu vivo \u00e9, na verdade, uma exaust\u00e3o emocional profunda. Eu me sinto sempre julgada, perseguida, criticada. Sinto uma tristeza difusa, como se, em qualquer momento do dia, eu estivesse no lugar errado ou fazendo algo de errado. Ent\u00e3o, para me defender, come\u00e7o a tratar as pessoas e as minhas pr\u00f3prias tarefas, dom\u00e9sticas e profissionais, com um certo cinismo, descontando nelas uma vingan\u00e7a por ser t\u00e3o pressionada. Afinal, no fim das contas, nada basta mesmo. N\u00e3o me realizo mais nem sou eficaz no meu desempenho\u201d.<\/p>\n<p>Outras pessoas, homens ou mulheres, poderiam expressar-se assim: \u201cEu olho para a minha vida e parece que n\u00e3o consigo me encaixar nela. Parece que sou um personagem na pe\u00e7a errada, que essa vida n\u00e3o \u00e9 ou n\u00e3o deveria ser minha: essa rotina, essa casa, esse emprego, essa esposa ou esse marido, esses filhos! De repente, eu me vejo aqui em meio a tudo isso, mas ontem mesmo eu&#8230; eu n\u00e3o sei como eu vim parar aqui\u201d.<\/p>\n<p>E tamb\u00e9m: \u201cEstou sempre irritada. A press\u00e3o \u00e9 muito grande, eu n\u00e3o aguento, n\u00e3o aguento n\u00e3o poder parar um segundo sequer. Meus filhos parecem estar sempre dificultando o andamento das coisas, n\u00e3o me obedecem, se dispersam, desfazem o que eu havia acabado de fazer&#8230; Eu sinto uma desconex\u00e3o emocional completa, e isso me faz sentir sozinha, sem quem me ou\u00e7a, sem quem me compreenda, sem quem me ajude \u2013 talvez eu devesse voltar para a terapia? talvez iniciar o tratamento com o rem\u00e9dio? \u2013, e isso me leva \u00e0s vezes at\u00e9 a pensar, meu Deus!, meu Deus!, que a minha vida n\u00e3o vale nada, que era deveria acabar logo. Eu n\u00e3o vejo mais nenhuma luz, nenhum caminho aberto para melhora, eu n\u00e3o tenho mais&#8230; esperan\u00e7a\u201d.<\/p>\n<blockquote>\n<p>O Brasil tornou-se um caso curios\u00edssimo de uma grande epidemia de <em>burnout<\/em> e ansiedade<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Grave. Preocupante. E pensar que isso est\u00e1 acontecendo ao nosso redor, com pessoas que n\u00f3s amamos, e que, na verdade, quero dizer, objetivamente, s\u00e3o repletas de b\u00ean\u00e7\u00e3os dos C\u00e9us, vivem uma vida materialmente confort\u00e1vel e est\u00e1vel&#8230; N\u00e3o deveriam, em tese, estar sofrendo tanto. Ou pensar que isso esteja acontecendo conosco mesmos, e talvez estejamos demorando a nos dar conta do problema, ou a compreender sua anatomia.<\/p>\n<p>Esta \u00e9, ali\u00e1s, <em>a primeira ilus\u00e3o<\/em> a ser desfeita, o primeiro engodo que precisa ser decifrado para que alguma coisa possa ser feita a essa situa\u00e7\u00e3o. Admitir esse quadro, aceitar a sua exist\u00eancia, para assim podermos olh\u00e1-lo de frente, analis\u00e1-lo, buscar suas causas e seus rem\u00e9dios, este \u00e9 o primeir\u00edssimo passo. E isso exige driblar, muitas vezes, o pr\u00f3prio sentimento de culpa e de autocobran\u00e7a excessiva que ele mesmo traz em seu bojo \u2013 e por isso \u00e9 tantas vezes necess\u00e1ria a ajuda de um observador externo, de uma pessoa que nos ajude a enxergar, seja o c\u00f4njuge, uma amiga ou um profissional. Olhar de frente e admitir que uma tal situa\u00e7\u00e3o se instaurou significa, muitas vezes, como eu disse, compreender que isso <em>n\u00e3o \u00e9 sin\u00f4nimo de ingratid\u00e3o<\/em>.<\/p>\n<p>\u201cEu n\u00e3o deveria me sentir assim, j\u00e1 que eu tenho um esposo maravilhoso, que \u00e9 trabalhador e carinhoso comigo, e t\u00e3o companheiro e compreensivo etc., e filhos lindos e perfeitos, saud\u00e1veis, inteligentes, e que levo uma vida confort\u00e1vel, nesta casa boa, comendo boa comida, numa cama quente pr\u00f3xima a um chuveiro quente, ao passo que tanta gente enfrenta tantas dificuldades maiores, e doen\u00e7as, e a pobreza, e a solid\u00e3o, e&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Bem, pois ent\u00e3o, esta \u00e9 a primeira saud\u00e1vel constata\u00e7\u00e3o: este \u00e9 o problema que voc\u00ea enfrenta, e voc\u00ea pode cham\u00e1-lo de \u201csua doen\u00e7a\u201d, se preferir (n\u00e3o entro aqui em dificuldades profissionais desnecess\u00e1rias, fa\u00e7o uma generaliza\u00e7\u00e3o). Dentro da <em>sua<\/em> circunst\u00e2ncia, \u00e9 isso o que <em>voc\u00ea<\/em> precisa enfrentar, resolver, deslindar, sanar. Diz o velho ditado que \u201ccada um sabe onde seu calo aperta\u201d. Isso n\u00e3o \u00e9 ingratid\u00e3o ou capricho com rela\u00e7\u00e3o ao que h\u00e1 de bom em sua vida, ao contr\u00e1rio: \u00e9 um modo objetivo de olhar para ela e de bem viv\u00ea-la. Ignorar o problema \u00e9 faz\u00ea-lo perdurar mais no tempo \u2013 nada bom.<\/p>\n<p>Ora, o Brasil tornou-se mesmo um caso curios\u00edssimo de uma grande epidemia de <em>burnout<\/em> e <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/ansiedade\/\">ansiedade<\/a>. Segundo os \u00f3rg\u00e3os de pesquisa, o Brasil \u00e9 o pa\u00eds mais ansioso do mundo, o segundo no n\u00famero de casos de <em>burnout<\/em> (perdemos para o Jap\u00e3o) e o quarto pa\u00eds mais estressado do mundo. Por qu\u00ea? Bem, h\u00e1 uma por\u00e7\u00e3o de teorias e hip\u00f3teses, advindas de observa\u00e7\u00f5es recortadas desde os mais variados pontos de vista: condi\u00e7\u00f5es de trabalho adversas ou prec\u00e1rias, a pobreza e as dificuldades sociais, a press\u00e3o da economia inst\u00e1vel e dos impostos, os h\u00e1bitos sedent\u00e1rios e o consumo excessivo de a\u00e7\u00facares e gorduras, tens\u00e3o gerada pelo crime e pela viol\u00eancia urbana, desestrutura\u00e7\u00e3o social e emocional, a dilui\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es familiares e relacionamentos duradouros, exposi\u00e7\u00e3o massiva \u00e0 propaganda e aos algoritmos das <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/redes-sociais\/\">redes sociais<\/a>.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>\u00c9 f\u00e1cil admitir que todos esses fatores s\u00e3o verdadeiros, e pior, que eles se entrela\u00e7am e se articulam, \u00e0s vezes um sendo causa do outro, e alimentando-se retroativamente, formando um quadro geral da vida comum brasileira que n\u00e3o \u00e9 nada bonito.<\/p>\n<p>E algum deles \u00e9 causa primeira, o foco n\u00famero um, gerador dos demais, o vil\u00e3o inconteste do estresse, do esgotamento e da ansiedade? O Brasil tem, no fundo, um problema s\u00f3? N\u00e3o sei. Creio que n\u00e3o, visto ser geralmente ing\u00eanua e redutora essa busca por um simples culpado. Seja como for, o objetivo deste artigo n\u00e3o \u00e9 investigar nem muito menos concluir qual seja a causa fundamental. O que desejo, digo desde logo, \u00e9 observar <em>dois caminhos<\/em> que geralmente se toma, e que s\u00e3o tamb\u00e9m redutores e ineficazes para uma melhora na nossa situa\u00e7\u00e3o particular, concreta, de falta de esperan\u00e7a e ang\u00fastia dessa ordem de coisas.<\/p>\n<p>H\u00e1 dois extremos, duas concep\u00e7\u00f5es ou vis\u00f5es de mundo que n\u00e3o me parece incorreto chamar de fundamentalistas, se entendermos esta palavra como a atitude de quem toma algumas proposi\u00e7\u00f5es e as assume como absolutas; proposi\u00e7\u00f5es que, embora possam ser verdadeiras em si mesmas, precisariam ser amparadas por um contexto mais amplo, e matizadas, entendidas no contato com cada situa\u00e7\u00e3o particular e concreta \u2013 o que n\u00e3o as torna menos verdadeiras, ao contr\u00e1rio, permite captar a sua verdade. E quais seriam essas duas concep\u00e7\u00f5es?<\/p>\n<p>A primeira, a de que todos os nossos problemas s\u00e3o corporais e qu\u00edmicos. Essa concep\u00e7\u00e3o adv\u00e9m de algo chamado, em outros cen\u00e1rios, de cientificismo. Essa concep\u00e7\u00e3o aproxima o ser humano dos animais e, como afirmava, por exemplo, Freud, seus desejos seriam puls\u00f5es animais sofisticadas, quase nada al\u00e9m disso. Para quem enxerga o ser humano dessa forma, a resposta imediata a uma m\u00e3e ou pai de fam\u00edlia que esteja vivendo uma situa\u00e7\u00e3o parecida com aquela que descrevi no in\u00edcio \u00e9, em suma: \u201c\u00c9 claro que voc\u00ea est\u00e1 assim, n\u00e3o est\u00e1 tendo prazer\u201d. \u201cCorra imediatamente ao psiquiatra para que ele lhe receite um bom rem\u00e9dio, sem muita prosa. Tem que tomar, todo mundo toma!\u201d Ou: \u201cRealmente \u00e9 uma tolice ter tantos filhos, ningu\u00e9m te avisou? Nossa, e com tantos m\u00e9todos hoje em dia&#8230; \u00c9 preciso terceirizar. D\u00ea-se alguns luxos, \u00e9 preciso ter prazer. Se sua mulher, seu esposo, n\u00e3o te compreende e n\u00e3o te valoriza assim, talvez seu relacionamento tenha acabado mesmo. N\u00e3o \u00e9 errado partir para outra&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Essa resposta f\u00e1cil \u2013 <em>o problema \u00e9 o corpo, \u00e9 preciso ter sa\u00fade e prazer<\/em> \u2013 desconsidera inteiramente aspectos e camadas mais elevadas e, ao mesmo tempo, mais profundas do ser humano. Somos animais, mas <em>n\u00e3o apenas<\/em> animais: somos um animal distinto entre todos, um que tem um esp\u00edrito imortal, como o t\u00eam os anjos.<\/p>\n<blockquote>\n<p>O extremo cientificista julga que todos os nossos problemas s\u00e3o corporais e qu\u00edmicos, e que a resposta para eles \u00e9 buscar o prazer<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Nossa dignidade \u00e9 inteiramente superior, e isso nos coloca em situa\u00e7\u00f5es em que, embora a cultura moderna e contempor\u00e2nea o tenham esquecido, podemos escolher livremente ir contra o nosso prazer, o nosso desejo, a nossa alegria mais imediata, podemos negar a sacrificar a nossa pr\u00f3pria sa\u00fade (e em \u00faltima inst\u00e2ncia nossa vida mesma) em prol de um objetivo mais elevado \u2013 no contexto de um caminho espiritual de viv\u00eancia intensa, como sempre fizeram os religiosos, ou no contexto de um servi\u00e7o e de um sacrif\u00edcio pelo bem do pr\u00f3ximo, como vivem muitos sacerdotes e como vivemos, neste contexto t\u00e3o conhecido de todos n\u00f3s, <em>os pais e m\u00e3es de fam\u00edlia<\/em>. N\u00e3o, nem sempre a resposta \u00e9 que precisamos atender a algum desejo do nosso corpo, e mesmo um justo e sensato apelo da sa\u00fade. Em alguns casos, considerando os nossos prop\u00f3sitos e objetivos que transcendem o corpo e este mundo, aquilo de que n\u00f3s precisamos \u00e9 de mais <em>ora\u00e7\u00e3o<\/em>, de mais medita\u00e7\u00e3o, de mais luz sobrenatural que nos fa\u00e7a enxergar o que \u00e9 invis\u00edvel e nos d\u00ea consolo e for\u00e7a para enfrentar os desafios.<\/p>\n<p>Muito bonito. E tudo isso \u00e9 verdadeiro, \u00e9 mesmo. Mas, ai!&#8230; N\u00e3o \u00e9 justamente essa resposta que encerra, em si, o germe da outra concep\u00e7\u00e3o, do outro fundamentalismo? N\u00e3o \u00e9 novidade o que vou dizer em seguida; mas talvez seja urgente chamar a aten\u00e7\u00e3o para este ponto, para aliviar a carga de muitas fam\u00edlias.<\/p>\n<p>O outro fundamentalismo simplista que responde a essa nossa angustiante situa\u00e7\u00e3o de hoje em dia \u00e9 uma esp\u00e9cie de \u201cangelismo\u201d, de ignor\u00e2ncia do corpo, de pouco caso para com as limita\u00e7\u00f5es dos pobres mortais, e um achatamento de todos os suportes intermedi\u00e1rios para o nosso sucesso, mesmo como pessoas de ora\u00e7\u00e3o. A pessoa est\u00e1 comendo mal, dormindo muito mal ou quase nada, sobrecarregada de tarefas dom\u00e9sticas e profissionais, isso j\u00e1 prejudicou a tal ponto seu humor que ela n\u00e3o consegue mais se conectar consigo mesma, com seu companheiro ou companheira, nem mesmo com amigas ou amigos \u2013 que dir\u00e1 com Deus? Ela est\u00e1 <em>esgotada<\/em>, quem sabe esteja de fato desregulada quimicamente, e ocorre que seu esp\u00edrito imortal n\u00e3o existe sem o corpo, porque <em>n\u00e3o somos<\/em> anjos, somos <em>tamb\u00e9m<\/em> animais.<\/p>\n<p>Entretanto, a resposta que muita gente d\u00e1 a essa situa\u00e7\u00e3o (e por vezes com boa inten\u00e7\u00e3o, de modo algum o rejeito) \u00e9 t\u00e3o somente: \u201cReze mais. Tenha confian\u00e7a. Sacrifique-se. Tem recitado o ter\u00e7o todos os dias?\u201d N\u00e3o, a pessoa est\u00e1 num ponto em que \u00e9 incapaz de simplesmente convencer-se de que deve tomar o ter\u00e7o ou a B\u00edblia na m\u00e3o. Aos seus olhos, j\u00e1 nada faz sentido. Como dizia o teatr\u00f3logo franc\u00eas Jacques Copeau, \u201cpara o ator, doar-se \u00e9 tudo. Mas, para doar-se, \u00e9 preciso primeiro possuir-se\u201d \u2013 e aqui podemos simplesmente trocar <em>ator<\/em> por <em>ser humano<\/em>, com proveito.<\/p>\n<p>Para fazer sacrif\u00edcios e doa\u00e7\u00f5es no nosso estado de vida, \u00e9 preciso possuir-se, \u00e9 preciso estar capaz de, por assim dizer, interagir com nossa dimens\u00e3o corporal. E para algumas pessoas exaustas, estressadas, em situa\u00e7\u00e3o de <em>burnout<\/em> ou extremamente ansiosas, deprimidas, ou para alguns que talvez estejam realmente depressivas, digo clinicamente <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/depressao\/\">depressivas<\/a>, nada vai funcionar enquanto ela n\u00e3o sanar as necessidades b\u00e1sicas do seu corpo. Do contr\u00e1rio, ser\u00e1 como ensinar latim a quem est\u00e1 faminto e gravemente desnutrido.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>Alguns, inclusive, sup\u00f5em causas sobrenaturais mais graves, como ataques demon\u00edacos, obsess\u00f5es e infesta\u00e7\u00f5es. O cientificista vai rir dessas coisas, como absolutamente inexistentes, fruto da fantasia religiosa. O outro fundamentalista, por\u00e9m, o desse \u201cangelismo\u201d contempor\u00e2neo, vai desde logo estar muito certo do pior, e conectar toda depress\u00e3o a uma opress\u00e3o diab\u00f3lica. O bom senso, este que estou propondo aqui, \u00e9 a pondera\u00e7\u00e3o da situa\u00e7\u00e3o particular.<\/p>\n<p>Para n\u00f3s, crist\u00e3os (amparados, diga-se de passagem, numa massa de fatos e evid\u00eancias quase imposs\u00edveis de contestar), o Diabo existe? Sim, existe. E existem, segundo nos ensina a teologia, essas formas de a\u00e7\u00e3o demon\u00edaca: a opress\u00e3o, a obsess\u00e3o, a infesta\u00e7\u00e3o, e at\u00e9 mesmo a possess\u00e3o? Sim, existem. \u201cOh, mas \u00e9 verdade?!\u201d Lamento, sim, elas de fato existem. Mas s\u00e3o comuns, acontecem todos os dias, em toda parte, com todo mundo? N\u00e3o. \u00c9 a pr\u00f3pria teologia, e \u00e9 a mesma experi\u00eancia dos padres exorcistas que nos informam do contr\u00e1rio: essas a\u00e7\u00f5es s\u00e3o raras, especialmente porque colocam o agente maligno em evid\u00eancia, e d\u00e3o certeza da sua exist\u00eancia. O medo pode fazer as pessoas se converterem e correrem para o socorro do Salvador. O melhor embuste do dem\u00f4nio \u00e9 deixar crer que ele n\u00e3o existe.<\/p>\n<p>A a\u00e7\u00e3o ordin\u00e1ria dos agentes demon\u00edacos \u00e9 sutil e insistente: \u00e9 a tenta\u00e7\u00e3o, \u00e9 a manipula\u00e7\u00e3o que visa a nos conduzir ao orgulho, ao ego\u00edsmo, e tamb\u00e9m ao t\u00e9dio, ao desgosto, \u00e0 tristeza. N\u00e3o devemos excluir essa a\u00e7\u00e3o, e \u00e9 verdade que devemos estar sempre em guarda espiritualmente, e rezar com f\u00e9 firme para que esses inimigos se afastem de n\u00f3s e de nossa fam\u00edlia. Mas devemos lutar contra o mal com <em>todas<\/em> as armas de que dispomos, e n\u00e3o dar sopa para o advers\u00e1rio. Quero dizer, <em>\u00e9 preciso cuidar da sa\u00fade e do corpo<\/em>, e de disposi\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas que, se negligenciadas, nos fragilizam tamb\u00e9m espiritualmente.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso ter em conta, como pano de fundo, que o ser humano \u00e9 essa criatura intermedi\u00e1ria, o centro da Cria\u00e7\u00e3o, e que, como um microcosmo, ampara em si mesmo pelo menos esses tr\u00eas grandes n\u00edveis ou patamares de exist\u00eancia: o corporal, o ps\u00edquico e o espiritual. E que, verdade seja dita, esse equil\u00edbrio \u00e9 muito dif\u00edcil. N\u00e3o \u00e0 toa diz a tradi\u00e7\u00e3o que, aos nossos primeiros pais, Ad\u00e3o e Eva, o Senhor Deus havia dado dons preternaturais, de <em>integridade<\/em>, para que esses n\u00edveis fossem neles ordenados; e pela mesma raz\u00e3o devemos n\u00f3s, crist\u00e3os, viver sob os influxos da <em>gra\u00e7a habitual<\/em>.<\/p>\n<p>Essa compreens\u00e3o de que o ser humano vive simultaneamente nesses tr\u00eas planos \u00e9 muito antiga, e remonta particularmente ao fil\u00f3sofo grego Arist\u00f3teles e, depois, ao seu grande disc\u00edpulo e continuador, o s\u00e1bio Tom\u00e1s de Aquino. O estudo da f\u00edsica, da psicologia e da teologia, para esses fil\u00f3sofos, era uma esp\u00e9cie de mapeamento profundo, de descri\u00e7\u00e3o dos limites e intera\u00e7\u00f5es entre esses planos. E, hoje, os avan\u00e7os cient\u00edficos e a massa de informa\u00e7\u00f5es que esses estudos nos trazem ajudam ainda mais a corroborar e a explorar essas rela\u00e7\u00f5es (e n\u00e3o \u00e0 toa h\u00e1 toda uma corrente de pensamento neoaristot\u00e9lica-tomista que d\u00e1 muito fruto dentro da ci\u00eancia, e praticamente salva a pr\u00f3pria ci\u00eancia de desentender-se de si mesma).<\/p>\n<blockquote>\n<p>\u00c9 muito curioso que as nossas palavras <em>sa\u00fade<\/em> e <em>salva\u00e7\u00e3o<\/em> tenham uma profunda liga\u00e7\u00e3o etimol\u00f3gica entre si, numa origem latina comum. Salvar \u00e9 \u201ctornar s\u00e3o, preservar\u201d<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Reparem que o ser humano carrega em si a vida mineral, a vida animal (que busca o prazer e foge da dor, que quer perpetuar a esp\u00e9cie etc.), mas tamb\u00e9m a vida espiritual partilhada com os anjos, dotados como somos de uma intelig\u00eancia capaz de captar as ess\u00eancias imateriais das coisas e de uma vontade livre capaz de agir para o bem o para o mal, capaz de amar e odiar. S\u00f3 que, em n\u00f3s, e somente em n\u00f3s, humanos!, esses n\u00edveis se interpenetram. H\u00e1 uma zona intermedi\u00e1ria dif\u00edcil de definir, em que os humores e impulsos do corpo alteram nossos pensamentos, \u00e0s vezes nossos sonhos. O nosso c\u00e9rebro \u00e9 como um limite do corpo, em que a qu\u00edmica influencia a alma, mas tamb\u00e9m a alma influencia a qu\u00edmica retroativamente, e nossas atitudes mentais podem amoldar o corpo. Nossas escolhas espirituais francamente rebatem-se em nossa psique, plasmando sentimentos e emo\u00e7\u00f5es. E os sentimentos e emo\u00e7\u00f5es, provocados por meio do corpo (com a m\u00fasica, por exemplo), nos predisp\u00f5em a a\u00e7\u00f5es espirituais, da intelig\u00eancia ou da vontade, para o bem ou para o mal. As redes sociais, por exemplo, afetam nossa qu\u00edmica cerebral ativando mecanismos animais de ca\u00e7a e recompensa, mas fisgam-nos com interesses culturais, de gostos, h\u00e1bitos, e \u00e0s vezes com temas pretensamente espirituais e, enfim, t\u00eam consequ\u00eancias em todos os \u00e2mbitos. \u00c9 um jogo complexo e din\u00e2mico, a vida humana, que uma vis\u00e3o ingenuamente \u201chol\u00edstica\u201d, incapaz de distinguir a natureza de cada patamar, tamb\u00e9m s\u00f3 torna mais confuso. Jogo complexo e din\u00e2mico, a vida humana!<\/p>\n<p>\u00c9 muito curioso que as nossas palavras <em>sa\u00fade<\/em> e <em>salva\u00e7\u00e3o<\/em> tenham uma profunda liga\u00e7\u00e3o etimol\u00f3gica entre si, numa origem latina comum. Salvar \u00e9 \u201ctornar s\u00e3o, preservar\u201d, e a tradi\u00e7\u00e3o chama Jesus Cristo, de fato, de \u201cm\u00e9dico da alma\u201d. Lembra-nos tamb\u00e9m o velho prov\u00e9rbio latino, segundo o qual \u201cmente s\u00e3 em corpo s\u00e3o\u201d. E \u00e9 curioso como S\u00e3o Paulo distingue, mais de uma vez em suas cartas, a <em>carne<\/em> do <em>corpo<\/em>. \u201cAs obras da carne s\u00e3o manifestas: fornica\u00e7\u00e3o, impureza, libertinagem, idolatria, feiti\u00e7aria, inimizades, contendas, ci\u00fames, iras, rivalidades, dissens\u00f5es, fac\u00e7\u00f5es, invejas, bebedeiras, orgias&#8230;\u201d (Gl 5, 19-21). Mas o <em>corpo<\/em>, \u201cn\u00e3o sabeis que \u00e9 templo do Esp\u00edrito Santo, que habita em v\u00f3s, que recebestes de Deus? [&#8230;] Glorificai, pois, a Deus no vosso corpo\u201d (Cf. 1Cor 6, 19-20).<\/p>\n<p>O termo <em>carne<\/em> designa a <em>natureza deca\u00edda<\/em> do ser humano. E os desejos da <em>carne<\/em>, que contradizem as aspira\u00e7\u00f5es do esp\u00edrito, estes sim devem ser combatidos, transformados, regenerados em n\u00f3s. E nesse sentido entregamos a natureza corrompida em sacrif\u00edcio, fazendo mais do que gostar\u00edamos de suportar, doando-nos, ou jejuando \u2013 ou, considerando o caso extremo, entregando-nos em mart\u00edrio, se necess\u00e1rio for. E isso tem sentido. Mas o corpo, que recebemos de Deus, o corpo \u00e9 o templo do Esp\u00edrito, e ser\u00e1 tamb\u00e9m salvo e ressuscitado no \u00faltimo dia. E por isso merece respeito e cuidado \u2013 e essa sapi\u00eancia contribui com o esp\u00edrito.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso ponderar todos os fatores. \u00c9 preciso ter um grande bom senso, uma grande prud\u00eancia na ordena\u00e7\u00e3o das causas. \u00c9 preciso clem\u00eancia com nossos maridos e esposas, que n\u00e3o s\u00e3o os grandes santos das biografias e dos filmes. \u00c9 preciso considerar com muita objetividade o estado de exaust\u00e3o, de esgotamento, talvez de ansiedade, depress\u00e3o, <em>burnout<\/em>, estresse extremo. N\u00f3s ou os membros da nossa fam\u00edlia podem estar entre os que fazem do Brasil um campe\u00e3o nesses <em>rankings<\/em>, afinal. \u00c9 preciso rezar, sim, \u00e9 absolutamente necess\u00e1rio ter sentido espiritual, ter senso transcendente para qualquer coisa em nossa vida. Inclusive \u00e9 preciso compreender que, muitas vezes, a m\u00e3o salvadora de Deus ou a Sua vontade esteja justamente na humildade de pedirmos ajuda, de procurarmos um profissional competente e igualmente ponderado que nos d\u00ea suporte numa situa\u00e7\u00e3o de recupera\u00e7\u00e3o. \u00c9 preciso dormir, comer bem, exercitar-se, e se essas coisas s\u00e3o ontologicamente menos nobres do que meditar, rezar e jejuar, nem sempre s\u00e3o <em>praticamente<\/em> menos importantes, pois podem ter-se tornado condi\u00e7\u00f5es concretas para as segundas. S\u00e3o conting\u00eancias necess\u00e1rias.<\/p>\n<p>Nem cientificismo, nem angelismo: a busca prudente e serena de quem, \u201cde todas as coisas, toma o que \u00e9 bom e rejeita o que n\u00e3o presta\u201d.<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cN\u00e3o, as coisas n\u00e3o v\u00e3o bem l\u00e1 em casa&#8230;\u201d Ou\u00e7amos a voz de uma pessoa comum, de qualquer um de&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":630871,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[204],"tags":[],"class_list":["post-630870","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ultimas-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/630870","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=630870"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/630870\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/630871"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=630870"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=630870"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=630870"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}