{"id":628453,"date":"2026-08-08T19:22:43","date_gmt":"2026-08-08T23:22:43","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=628453"},"modified":"2026-08-08T19:22:43","modified_gmt":"2026-08-08T23:22:43","slug":"qual-e-o-melhor-livro-brasileiro-de-ficcao-a-redacao-gazeta-do-povo-decide","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=628453","title":{"rendered":"Qual\u00a0\u00e9\u00a0o melhor livro brasileiro de fic\u00e7\u00e3o? A reda\u00e7\u00e3o Gazeta do Povo decide"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody-module-scss-module__8_WGKG__postBodyContainer\">\n<p>H\u00e1 perguntas que parecem simples at\u00e9 o momento em que algu\u00e9m precisa respond\u00ea-las. Qual \u00e9 o melhor livro brasileiro de fic\u00e7\u00e3o? N\u00e3o o mais vendido, n\u00e3o o mais conhecido, n\u00e3o necessariamente aquele que aparece primeiro nas listas de vestibular ou nas vitrines das livrarias. O melhor, de todos os tempos.\u00a0<\/p>\n<p>A pergunta foi feita \u00e0 reda\u00e7\u00e3o\u00a0da <strong>Gazeta do Povo<\/strong>. Cada jornalista p\u00f4de recorrer \u00e0 pr\u00f3pria mem\u00f3ria, \u00e0s prefer\u00eancias pessoais e, sobretudo, \u00e0s leituras que deixaram alguma marca. N\u00e3o havia f\u00f3rmula, crit\u00e9rio objetivo ou comiss\u00e3o de especialistas para desempatar os votos.\u00a0Apenas uma escolha diante de uma das literaturas mais vastas do mundo.\u00a0<\/p>\n<p>Os resultados, como seria de esperar, n\u00e3o foram un\u00e2nimes. Machado de Assis apareceu.\u00a0Jorge Amado\u00a0tamb\u00e9m. Outros autores e outros livros tamb\u00e9m receberam votos. Houve espa\u00e7o para diferentes \u00e9pocas, estilos e maneiras de contar o Brasil \u2014 literatura regionalista, realismo\u00a0e\u00a0experimenta\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/p>\n<p>Mas um livro se destacou dos demais.\u00a0<\/p>\n<p>Publicado em 1956, \u201cGrande Sert\u00e3o: Veredas\u201d, de Jo\u00e3o Guimar\u00e3es Rosa, foi a obra mais citada pelos jornalistas. Mais de sete d\u00e9cadas depois de seu nascimento, o romance continua ocupando um lugar peculiar na literatura brasileira: \u00e9 ao mesmo tempo uma hist\u00f3ria de jagun\u00e7os, uma investiga\u00e7\u00e3o sobre o bem e o mal, um romance de amor e uma experi\u00eancia radical com a linguagem.\u00a0<\/p>\n<p>Seu protagonista, Riobaldo, passa boa parte das mais de 600 p\u00e1ginas tentando entender aquilo que viveu. Entre guerras, pactos, trai\u00e7\u00f5es, paisagens e sentimentos que n\u00e3o cabem facilmente em palavras, ele conta sua hist\u00f3ria a um interlocutor que quase n\u00e3o fala. O resultado \u00e9 um livro que pode parecer impenetr\u00e1vel em algumas p\u00e1ginas e absolutamente preciso em outras.\u00a0<\/p>\n<p>Talvez esteja a\u00ed uma das raz\u00f5es para sua perman\u00eancia. \u201cGrande Sert\u00e3o: Veredas\u201d n\u00e3o \u00e9 um livro que se deixa resumir com facilidade \u2014 e\u00a0nem\u00a0parece interessado\u00a0nisso. Seu sert\u00e3o \u00e9 geogr\u00e1fico, mas tamb\u00e9m moral, psicol\u00f3gico e lingu\u00edstico. \u201cO sert\u00e3o est\u00e1 em toda parte\u201d, escreve Rosa. E talvez esteja tamb\u00e9m no leitor, que precisa atravess\u00e1-lo por conta pr\u00f3pria.\u00a0<\/p>\n<p>O editor de Ideias Omar Godoy reconhece essa aparente dificuldade de aproxima\u00e7\u00e3o da obra, mas aponta que basta entrar no ritmo da escrita de Guimar\u00e3es Rosa para que \u201cGrande Sert\u00e3o: Veredas\u201d ganhe uma musicalidade quase hipn\u00f3tica.\u00a0<\/p>\n<p>\u201cO sert\u00e3o deixa de ser apenas uma paisagem e vira um cen\u00e1rio para discutir o mal, a d\u00favida, a liberdade e o destino. E ainda h\u00e1 a intensidade do personagem Riobaldo, um narrador que afirma uma coisa, volta atr\u00e1s, corrige o pr\u00f3prio racioc\u00ednio, muda de ideia. Poucos romances conseguem reunir filosofia, poesia e humanidade sem perder a for\u00e7a narrativa\u201d, ponderou.\u00a0<\/p>\n<p>Para o colunista Paulo\u00a0Polzonoff\u00a0Jr, que tamb\u00e9m indicou a obra de Guimar\u00e3es Rosa, a justificativa \u00e9 curta e com uma pitada de\u00a0humor. \u201c[Grande Sert\u00e3o: Veredas\u00a0\u00e9 uma] mistura perfeita de estilo inventivo, prosa cativadora e um subtexto extremamente profundo. N\u00e3o tem igual,\u00a0e quem disser o contr\u00e1rio est\u00e1\u00a0errado\u201d,\u00a0decretou.\u00a0<\/p>\n<h2>\u201cCapit\u00e3es da Areia\u201d, de Jorge Amado\u00a0<\/h2>\n<p>O regionalismo tamb\u00e9m recebeu indica\u00e7\u00f5es de jornalistas da <strong>Gazeta do Povo<\/strong>. \u201cCapit\u00e3es da Areia\u201d, de Jorge Amado, foi outra obra citada nas respostas.\u00a0Publicado\u00a0em 1937,\u00a0o livro\u00a0conta uma hist\u00f3ria passada em\u00a0uma regi\u00e3o pobre da Salvador da \u00e9poca. Nas ruas, becos e casar\u00f5es abandonados,\u00a0um grupo de meninos sobrevive sem fam\u00edlia, dinheiro ou qualquer perspectiva de futuro.<\/p>\n<p>S\u00e3o crian\u00e7as que roubam, brigam e desafiam a pol\u00edcia \u2014 mas que, antes de qualquer coisa, aprenderam cedo demais que a inf\u00e2ncia tamb\u00e9m pode ser um privil\u00e9gio.\u00a0Elas n\u00e3o s\u00e3o retratadas como santos ou simples delinquentes.\u00a0Pedro\u00a0Bala, Professor, Sem-Pernas, Gato e os demais integrantes do bando carregam brutalidade, solidariedade, medo, desejo e sonhos.\u00a0<\/p>\n<p>O romance acompanha esses meninos com uma proximidade que torna dif\u00edcil enxerg\u00e1-los apenas como uma amea\u00e7a \u00e0 ordem. Por tr\u00e1s dos furtos e das fugas, h\u00e1 uma pergunta\u00a0importante: o que uma sociedade faz com aqueles a quem ela pr\u00f3pria abandonou?\u00a0<\/p>\n<p>Hermano Freitas, editor da <strong>Gazeta do Povo<\/strong>, lembrou que \u201cCapit\u00e3es da Areia\u201d chegou a ser censurado na Era Vargas, com direito a apreens\u00e3o de mais de 800 exemplares, que foram queimados em pra\u00e7a p\u00fablica na capital baiana. \u201cUma cena que parece\u00a0sa\u00edda\u00a0de um filme sobre os anos do nazismo\u201d, citou o jornalista.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 um livro\u00a0que traz\u00a0ao mesmo tempo uma hist\u00f3ria\u00a0de\u00a0romance adolescente e den\u00fancia social do menor abandonado, um problema atual at\u00e9 os dias de hoje. Pedro Bala \u00e9 o primeiro protagonista delinquente infantil da fic\u00e7\u00e3o. N\u00e3o\u00a0se passa pano\u00a0\u00e0s\u00a0suas\u00a0atitudes, ele faz\u00a0e\u00a0paga,\u00a0sem julgamentos morais excessivos.\u00a0Tecnicamente, n\u00e3o tem o realismo m\u00e1gico que\u00a0muitos\u00a0consideram\u00a0irritante no restante da obra de Jorge Amado\u201d, completou.\u00a0<\/p>\n<h2>\u201cTudo \u00e9 Rio\u201d, de Carla Madeira\u00a0<\/h2>\n<p>A literatura contempor\u00e2nea tamb\u00e9m aparece na lista de indica\u00e7\u00f5es da reda\u00e7\u00e3o da <strong>Gazeta<\/strong>. \u201cTudo \u00e9 Rio\u201d, da escritora mineira Carla Madeira,\u00a0constr\u00f3i uma hist\u00f3ria em que amor, desejo, viol\u00eancia e culpa parecem correr pelo mesmo leito\u00a0de um rio. Publicado em 2014, o romance acompanha um tri\u00e2ngulo de rela\u00e7\u00f5es marcado por perdas e feridas que nenhum dos personagens consegue simplesmente\u00a0abandonar.<\/p>\n<p>Mais do que preto no branco, a obra \u00e9 repleta de\u00a0\u00e1reas\u00a0cinzentas.\u00a0Carla Madeira conduz a narrativa por zonas desconfort\u00e1veis, nas quais afeto e crueldade podem aparecer lado a lado, e o leitor \u00e9 obrigado a lidar com sentimentos contradit\u00f3rios em vez de receber respostas f\u00e1ceis.\u00a0<\/p>\n<p>O\u00a0romance n\u00e3o pede ao leitor que goste de seus personagens, mas que tente compreend\u00ea-los. E compreender, neste caso, significa atravessar um territ\u00f3rio moral em que ningu\u00e9m sai completamente ileso.\u00a0<\/p>\n<p>O editor da equipe de Brasil Bruno\u00a0Maffi\u00a0reconheceu essa caracter\u00edstica de \u201cTudo \u00e9 Rio\u201d, ao apontar que a obra consegue falar de emo\u00e7\u00f5es humanas profundas de uma forma \u201cavassaladora\u201d.\u00a0<\/p>\n<p>\u201cA escrita corre solta como o pr\u00f3prio rio do t\u00edtulo, puxando o leitor para dentro de uma hist\u00f3ria intensa sobre amor, dor, ci\u00fame e perd\u00e3o.\u00a0A autora\u00a0constr\u00f3i personagens t\u00e3o reais que \u00e9 imposs\u00edvel n\u00e3o se envolver com as escolhas e os dilemas de cada um. No fim, a obra n\u00e3o entrega apenas um \u00f3timo enredo, mas sim uma experi\u00eancia emocionante que marca quem l\u00ea para sempre\u201d, avaliou.\u00a0<\/p>\n<p><strong>Veja a lista de indica\u00e7\u00f5es da reda\u00e7\u00e3o da Gazeta do Povo para melhor livro brasileiro de fic\u00e7\u00e3o:\u00a0<\/strong><\/p>\n<ul>\n<li><span>\u201cGrande Sert\u00e3o: Veredas\u201d \u2013 Guimar\u00e3es Rosa\u00a0<\/span><\/li>\n<li><span>\u201cMem\u00f3rias P\u00f3stumas de Br\u00e1s Cubas\u201d \u2013 Machado de Assis\u00a0<\/span><\/li>\n<li><span>\u201cTudo \u00e9 Rio\u201d \u2013 Carla Madeira\u00a0<\/span><\/li>\n<li><span>\u201cCapit\u00e3es da Areia\u201d \u2013 Jorge Amado\u00a0<\/span><\/li>\n<li><span>\u201cAuto da Compadecida\u201d \u2013 Ariano Suassuna\u00a0<\/span><\/li>\n<li><span>\u201cMem\u00f3ria de um Sargento de Mil\u00edcias\u201d \u2013 Manuel Ant\u00f4nio de Almeida\u00a0<\/span><\/li>\n<li><span>\u201cO Tempo e o Vento\u201d \u2013 \u00c9rico Ver\u00edssimo\u00a0<\/span><\/li>\n<li><span>\u201cVidas Secas\u201d \u2013 Graciliano Ramos\u00a0<\/span><\/li>\n<li>\u201cA Grande Arte\u201d \u2013 Rubem Fonseca<\/li>\n<li><span>\u201cO Alienista\u201d \u2013 Machado de Assis\u00a0<\/span><\/li>\n<\/ul>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 perguntas que parecem simples at\u00e9 o momento em que algu\u00e9m precisa respond\u00ea-las. 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