{"id":626804,"date":"2026-08-08T09:00:47","date_gmt":"2026-08-08T13:00:47","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=626804"},"modified":"2026-08-08T09:00:47","modified_gmt":"2026-08-08T13:00:47","slug":"como-os-grupos-terroristas-estao-usando-a-inteligencia-artificial-a-seu-favor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=626804","title":{"rendered":"Como os grupos terroristas est\u00e3o usando a Intelig\u00eancia Artificial a seu favor"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody-module-scss-module__8_WGKG__postBodyContainer\">\n<p>O Vale do Sil\u00edcio sabe que colocou instrumentos de destrui\u00e7\u00e3o em massa nas m\u00e3os de grupos terroristas isl\u00e2micos? A pergunta, que at\u00e9 poucos anos atr\u00e1s soaria como fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, encontra hoje uma resposta documentada em uma pesquisa conduzida pela Universidade de Cambridge. O estudo relata como a intelig\u00eancia artificial deixou de ser, para certas organiza\u00e7\u00f5es jihadistas, um simples megafone de propaganda para se transformar em um verdadeiro assistente capaz de organizar atentados, ensinar t\u00e9cnicas de combate e construir bombas.<\/p>\n<p>Entre 2022 e 2025, Antonia Juelich, especialista em terrorismo e novas tecnologias, conduziu para o <em>Cambridge Programme on AI Science &amp; Policy<\/em> \u2014 do qual \u00e9 respons\u00e1vel \u2014 57 entrevistas, cada uma com uma hora e meia de dura\u00e7\u00e3o, com 27 ex-membros do Boko Haram, grupo jihadista do norte da Nig\u00e9ria. O resultado foi um relat\u00f3rio de 93 p\u00e1ginas \u2014 o primeiro estudo do g\u00eanero \u2014, publicado h\u00e1 poucos dias, que traz um quadro muito mais inquietante do que as an\u00e1lises anteriores deixavam supor sobre o uso da intelig\u00eancia artificial pelo terrorismo isl\u00e2mico.<\/p>\n<p>Os entrevistados, em sua maioria ex-comandantes ou &#8220;especialistas t\u00e9cnicos&#8221;, demonstraram conhecer bem os seis principais provedores de IA dispon\u00edveis no mercado e saber como utiliz\u00e1-los para suporte b\u00e9lico, planejamento t\u00e1tico, seguran\u00e7a operacional e revis\u00e3o p\u00f3s-miss\u00e3o.<\/p>\n<p>A reviravolta ocorreu entre 2023 e 2025, quando o Estado Isl\u00e2mico \u2014 tido por muitos como enfraquecido, se n\u00e3o extinto \u2014 revelou ter constru\u00eddo uma rede inteira de instrutores especializados em intelig\u00eancia artificial, ativos entre seus seguidores na Nig\u00e9ria e em Camar\u00f5es. O relat\u00f3rio destaca que os jihadistas n\u00e3o aprenderam a usar a IA de forma aut\u00f4noma, mas foram treinados. Homens da L\u00edbia, Fran\u00e7a e Iraque, descritos pelos ex-militantes simplesmente como &#8220;brancos que vieram nos treinar&#8221;, organizaram visitas ao Estado de Borno, no nordeste da Nig\u00e9ria, com grupos que contavam com at\u00e9 vinte instrutores \u2014 alguns especializados em drones e artefatos explosivos, outros inteiramente dedicados \u00e0 IA. &#8220;Tamb\u00e9m havia muitos \u00e1rabes vindos do Afeganist\u00e3o e do Iraque que nos deram treinamento. Essa \u00e9 a raz\u00e3o principal pela qual fizemos progresso&#8221;, relata um dos entrevistados. E foi justamente ap\u00f3s essas sess\u00f5es de forma\u00e7\u00e3o que um novo mantra come\u00e7ou a circular entre as fileiras do Boko Haram: &#8220;Al\u00e1 nos ajudou, e a IA tamb\u00e9m ajudar\u00e1&#8221;.<\/p>\n<p>A organiza\u00e7\u00e3o terrorista isl\u00e2mica preocupou-se, ainda, em se coordenar no plano log\u00edstico, evitando deixar rastros que pudessem ser vinculados a ela. &#8220;Temos pessoas em diferentes localidades que criam contas que n\u00e3o podem ser rastreadas at\u00e9 n\u00f3s. S\u00e3o elas que pagam as assinaturas&#8221;, explicou um ex-estrategista do grupo. Trata-se, portanto, de uma rede de laranjas digitais. O acesso \u00e9 estritamente controlado: os combatentes de patentes inferiores n\u00e3o podem utilizar as ferramentas diretamente. As perguntas s\u00e3o encaminhadas aos comandantes das unidades de intelig\u00eancia artificial, que operam os sistemas e repassam as respostas aos n\u00edveis inferiores.<\/p>\n<p>Esse mecanismo revela muito mais do que parece: a intelig\u00eancia artificial n\u00e3o \u00e9 uma arma ocasional nas m\u00e3os de algum militante mais esperto, mas uma engrenagem j\u00e1 incorporada \u00e0 estrutura das fac\u00e7\u00f5es \u2014 composta por homens, dispositivos, pagamentos e regras de acesso constru\u00eddos ao seu redor. Uma capacidade, em suma, destinada a sobreviver muito al\u00e9m da compet\u00eancia de um \u00fanico combatente. Quanto \u00e0s unidades especializadas, o objetivo \u00e9 oferecer suporte direto aos combatentes em campo por meio de c\u00e2meras corporais que transmitem as imagens dos atentados em tempo real.<\/p>\n<p>Entre os epis\u00f3dios narrados no relat\u00f3rio, um em particular ilustra com gravidade a dimens\u00e3o do fen\u00f4meno. Por anos, a Prov\u00edncia do Estado Isl\u00e2mico na \u00c1frica Ocidental tentou atacar uma base militar no leste da Nig\u00e9ria, mas esbarrava em um grande fosso que cercava o complexo. A solu\u00e7\u00e3o veio da intelig\u00eancia artificial: ap\u00f3s receber as caracter\u00edsticas das motocicletas e a dist\u00e2ncia a ser percorrida, o assistente forneceu instru\u00e7\u00f5es precisas sobre os passos a seguir. Os testes pr\u00e1ticos, contudo, custaram caro: dezoito militantes morreram tentando o salto antes que outros oito tivessem sucesso. &#8220;Gostamos especialmente de assistir a document\u00e1rios de guerra norte-americanos, como os sobre o Afeganist\u00e3o, para buscar inspira\u00e7\u00e3o e aprender novas t\u00e1ticas&#8221;, aponta o estudo de Cambridge.<\/p>\n<p>\u00c9 curiosa a rela\u00e7\u00e3o dos jihadistas com o imagin\u00e1rio ocidental: se o entretenimento permanece <em>haram<\/em> (algo proibido pelo Isl\u00e3), os filmes de guerra escapam da proibi\u00e7\u00e3o e se tornam, junto a v\u00eddeos de outras insurrei\u00e7\u00f5es isl\u00e2micas, uma fonte real de inspira\u00e7\u00e3o t\u00e1tica. O aporte da IA &#8220;nos ensinou estrat\u00e9gias de guerrilha, a coordenar melhor os atentados e a destravar armas estrangeiras&#8221;, contou outro ex-militante. Uma mudan\u00e7a organizacional m\u00ednima no papel, mas capaz \u2014 segundo as fontes \u2014 de reduzir sensivelmente as perdas nas fases mais perigosas dos confrontos e de alterar seus resultados.<\/p>\n<p>Questionado sobre os resultados do estudo, Michael Aciman, porta-voz da Anthropic \u2014 uma das empresas norte-americanas de intelig\u00eancia artificial \u2014, declarou ao <em>The New York Times<\/em> que os chatbots da empresa s\u00e3o &#8220;projetados para recusar solicita\u00e7\u00f5es perigosas, incluindo aquelas relativas \u00e0 viol\u00eancia, ao planejamento de ataques e \u00e0 fabrica\u00e7\u00e3o de explosivos&#8221;.<\/p>\n<p>O estudo de Antonia Juelich, no entanto, mostra uma realidade bem diferente. Ele \u00e9 respaldado, inclusive, por uma investiga\u00e7\u00e3o conduzida pela ONG <em>Tech Against Terrorism<\/em>, apoiada pela Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas, que submeteu mais de 2.300 solicita\u00e7\u00f5es \u2014 baseadas em &#8220;casos reais de uso por terroristas&#8221; \u2014 a 27 modelos diferentes de intelig\u00eancia artificial. O resultado: 32% dos pedidos geraram informa\u00e7\u00f5es realmente utiliz\u00e1veis. Quando a mesma pergunta era reformulada especificando uma finalidade de pesquisa, o percentual subia para 42%. Tudo concorre para demonstrar que a ado\u00e7\u00e3o da intelig\u00eancia artificial por grupos terroristas foi subestimada de forma significativa, tanto em alcance quanto em natureza. &#8220;\u00c9 hora de parar de consider\u00e1-la um risco hipot\u00e9tico para o futuro e come\u00e7ar a v\u00ea-la como uma amea\u00e7a atual e crescente para a seguran\u00e7a nacional&#8221;, conclui o estudo de Juelich.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata, afinal, de um fen\u00f4meno isolado: a <em>Jam\u0101\u2019at Ahl as-Sunnah lid-Da\u2019wah wa\u2019l-Jih\u0101d<\/em>, fac\u00e7\u00e3o hoje rival do Boko Haram e ligada ao Estado Isl\u00e2mico, tamb\u00e9m est\u00e1 recebendo treinamento semelhante. Para governos e ag\u00eancias de seguran\u00e7a, a tarefa que se apresenta n\u00e3o \u00e9 mais te\u00f3rica. O n\u00famero de grupos que receber\u00e3o esse tipo de instru\u00e7\u00e3o \u00e9 potencialmente infinito, assim como as consequ\u00eancias que podem advir da disponibilidade de modelos cada vez mais sofisticados nas m\u00e3os de organiza\u00e7\u00f5es que, como demonstra este relat\u00f3rio, j\u00e1 aprenderam a us\u00e1-los com precis\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>\u00a9 2026 La Nuova Bussola Quotidiana. Publicado com permiss\u00e3o. Original em italiano:<a href=\"https:\/\/lanuovabq.it\/it\/il-jihad-colpisce-con-lia-lo-rivela-uno-studio-di-cambridge\">Il jihad colpisce con l&#8217;IA, lo rivela uno studio di Cambridge.<\/a><\/strong><\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Vale do Sil\u00edcio sabe que colocou instrumentos de destrui\u00e7\u00e3o em massa nas m\u00e3os de grupos terroristas isl\u00e2micos? 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