{"id":626791,"date":"2026-08-08T08:41:11","date_gmt":"2026-08-08T12:41:11","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=626791"},"modified":"2026-08-08T08:41:11","modified_gmt":"2026-08-08T12:41:11","slug":"de-colonia-de-imigrantes-a-potencia-industrial-os-500-anos-que-transformaram-a-economia-de-santa-catarina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=626791","title":{"rendered":"De col\u00f4nia de imigrantes a pot\u00eancia industrial: os 500 anos que transformaram a economia de Santa Catarina"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody-module-scss-module__8_WGKG__postBodyContainer\">\n<p>Colonos a\u00e7orianos chegaram ao litoral catarinense h\u00e1 quase 500 anos para pescar e plantar mandioca de subsist\u00eancia. Cinco s\u00e9culos depois, a mesma faixa de terra concentra f\u00e1bricas centen\u00e1rias, portos com rota direta \u00e0 Europa e uma das economias mais competitivas do pa\u00eds \u2014 um resultado que nenhuma daquelas primeiras vilas foi fundada para produzir.<\/p>\n<p>Em junho deste ano, uma decis\u00e3o un\u00e2nime da 2\u00aa C\u00e2mara de Direito Comercial do Tribunal de Justi\u00e7a de Santa Catarina afastou a fal\u00eancia da Teka, ind\u00fastria t\u00eaxtil centen\u00e1ria de Blumenau (SC), e garantiu a continuidade das opera\u00e7\u00f5es da empresa em regime de <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/santa-catarina\/teka-industria-textil-projecao-faturamento-2026\/\">recupera\u00e7\u00e3o judicial<\/a>. A companhia, que chegou a acumular d\u00edvidas de bilh\u00f5es de reais e passou mais de uma d\u00e9cada sob interven\u00e7\u00e3o judicial, projeta faturar cerca de R$ 550 milh\u00f5es em 2026, um valor que h\u00e1 poucos anos parecia fora de alcance.<\/p>\n<p>Em meio a esses n\u00fameros est\u00e1 uma f\u00e1brica que nunca parou de produzir e um esfor\u00e7o de reorganiza\u00e7\u00e3o que inclui acordo trabalhista de cerca de R$ 70 milh\u00f5es com mais de 2,3 mil trabalhadores e ex-trabalhadores, al\u00e9m da venda de im\u00f3veis e unidades desativadas para quitar d\u00edvidas acumuladas desde o in\u00edcio da recupera\u00e7\u00e3o judicial em 2012.<\/p>\n<p>\u201cA for\u00e7a da marca se provou muito resiliente, uma empresa que sobreviveu 100 anos, pelos menos 20 anos passando por dificuldades\u201d, resume o diretor-executivo da Teka, Rog\u00e9rio Marques, ao lembrar que quase mil pessoas trabalham na companhia, mais de 600 delas que l\u00e1 est\u00e3o h\u00e1 mais de duas d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>O caminho percorrido pela tecelagem, que quase fechou as portas e hoje tenta voltar a liderar o mercado de cama, mesa e banho, ajuda a ilustrar um quadro mais amplo. Santa Catarina chega aos seus 500 anos sob o t\u00edtulo de segundo estado mais competitivo do Brasil, l\u00edder em capital humano e seguran\u00e7a p\u00fablica e em ascens\u00e3o nos pilares de potencial de mercado e inova\u00e7\u00e3o, segundo o Ranking de Competitividade dos Estados 2025.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, estudos da Federa\u00e7\u00e3o das Ind\u00fastrias do Estado de Santa Catarina (Fiesc) e a opini\u00e3o de economistas que analisam a agenda de infraestrutura e transporte apontam que o crescimento da ind\u00fastria corre \u00e0 frente da capacidade das rodovias e acessos portu\u00e1rios, em um estado que precisar\u00e1 investir cerca de R$ 57 bilh\u00f5es at\u00e9 2029 para <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/santa-catarina\/estado-precisa-bilhoes-infraestrutura-para-evitar-apagao-logistico\/\">evitar um apag\u00e3o log\u00edstico<\/a>.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<h2>O caminho das col\u00f4nias at\u00e9 os polos industriais<\/h2>\n<p>Especialista em desenvolvimento regional e urbano, globaliza\u00e7\u00e3o e cadeias globais de valor, o professor Hoy\u00eado Nunes Lins aponta que, para falar da economia catarinense atual, \u00e9 preciso remontar at\u00e9 o s\u00e9culo XIX. \u201cA configura\u00e7\u00e3o industrial catarinense, no modo como se definiu e que permanece em seus principais tra\u00e7os, \u00e9 indissoci\u00e1vel do longo processo de ocupa\u00e7\u00e3o e coloniza\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio estadual\u201d, diz o professor aposentado da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), ao lembrar que sucessivas levas de imigrantes germ\u00e2nicos e italianos formaram n\u00facleos de coloniza\u00e7\u00e3o que se tornaram a base da estrutura urbana e produtiva do estado.<\/p>\n<p>Esses n\u00facleos, explica Lins, ganharam fun\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas muito claras ao longo do tempo. Joinville, no nordeste catarinense, se consolidou como \u201cbasti\u00e3o do complexo eletro\u2011metal\u2011mec\u00e2nico\u201d, puxado por oficinas e f\u00e1bricas que nasceram para atender demandas locais e depois se integraram ao mercado nacional.<\/p>\n<p>Blumenau e o M\u00e9dio Vale do Itaja\u00ed, onde a Teka foi fundada em 1926, se tornaram o centro de um \u201ccomplexo t\u00eaxtil\u2011vestu\u00e1rio\u201d que come\u00e7ou com iniciativas como a Companhia Hering, em 1880, e se expandiu por meio de uma rede de empresas familiares e cooperativas. No sul do estado, Crici\u00fama ficou associada \u00e0 \u201csocioeconomia do carv\u00e3o\u201d, fornecendo carv\u00e3o energ\u00e9tico e sider\u00fargico para usinas como a Companhia Sider\u00fargica Nacional e, mais tarde, diversificando para cer\u00e2mica de revestimento.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/media.gazetadopovo.com.br\/2026\/08\/07025916\/karsten1882.jpg.webp\" \/><i>Nos ano 1880 s\u00e3o criadas as primeiras ind\u00fastrias de Santa Catarina pelos imigrantes alem\u00e3es e italianos. (Foto: Divulga\u00e7\u00e3o\/Fiesc)<\/i><\/p>\n<p>A pesquisa do economista Alcides Goularti Filho aponta que a virada de Santa Catarina de economia de subsist\u00eancia para parque industrial diversificado aconteceu em poucas d\u00e9cadas. No artigo \u201cA forma\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica de Santa Catarina p\u00f3s\u20111880\u201d, ele descreve o per\u00edodo entre 1880 e 1945 como a fase em que nascem e ganham escala as ind\u00fastrias madeireira, alimentar, carbon\u00edfera e t\u00eaxtil.<\/p>\n<p>A metal\u2011mec\u00e2nica e a moveleira entram nesse mesmo intervalo e aceleram a expans\u00e3o a partir da segunda metade dos anos 1940, preparando o terreno para, nos anos 1960, planos estaduais de desenvolvimento e bancos de fomento impulsionarem grupos como Tupy, Hering, Teka, Sadia, Perdig\u00e3o e WEG \u2013 empresas que hoje sintetizam a passagem de pequenas manufaturas coloniais a refer\u00eancias nacionais.<\/p>\n<p>Para Lins, essa trajet\u00f3ria se diferencia do padr\u00e3o brasileiro tradicional, concentrado em poucas metr\u00f3poles. \u201cTomou forma, desse modo, um <em>cluster<\/em>, isto \u00e9, basicamente, um aglomerado produtivo especializado dotado de institui\u00e7\u00f5es relacionadas, de apoio, incluindo as de forma\u00e7\u00e3o e capacita\u00e7\u00e3o profissional\u201d, descreve, ao falar do entorno industrial de Joinville e Blumenau.<\/p>\n<p>Na leitura do economista, \u00e9 justamente nesse tipo de <em>cluster<\/em> que se encaixam casos como Tupy e Teka, empresas que ajudam a sustentar a ind\u00fastria catarinense contempor\u00e2nea e ilustram como <strong>a hist\u00f3ria de coloniza\u00e7\u00e3o e coopera\u00e7\u00e3o moldou o mapa produtivo do estado<\/strong>.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<h2>Empresas centen\u00e1rias em meio \u00e0 economia diversificada e descentralizada<\/h2>\n<p>Enquanto os <em>clusters<\/em> ajudam a entender a industrializa\u00e7\u00e3o, indicadores recentes mostram o que isso significa para a competitividade. No Ranking de Competitividade dos Estados 2025, elaborado pelo Centro de Lideran\u00e7a P\u00fablica em parceria com a Tend\u00eancias Consultoria, Santa Catarina aparece pela 14\u00aa edi\u00e7\u00e3o consecutiva entre os mais bem colocados e mant\u00e9m a 2\u00aa posi\u00e7\u00e3o geral, atr\u00e1s apenas de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>O estado catarinense lidera nacionalmente os pilares de seguran\u00e7a p\u00fablica e capital humano, e ganhou posi\u00e7\u00f5es em potencial de mercado, sustentabilidade ambiental e inova\u00e7\u00e3o, ampliando o espa\u00e7o em \u00e1reas ligadas \u00e0 qualifica\u00e7\u00e3o da m\u00e3o de obra, ambiente de neg\u00f3cios e tecnologia.<\/p>\n<p>Dentro desse quadro, a leitura do Observat\u00f3rio da Fiesc chama aten\u00e7\u00e3o para um dado que conecta passado e presente: o levantamento mais recente sobre ind\u00fastrias centen\u00e1rias identificou 12 empresas ou grupos com mais de 100 anos de atividades no estado e outras quatro com mais de 90 anos.<\/p>\n<p>O setor t\u00eaxtil e de confec\u00e7\u00e3o lidera essa lista, respondendo por 58% das centen\u00e1rias mapeadas, com concentra\u00e7\u00e3o especialmente nos vales do Itaja\u00ed e Itaja\u00ed Mirim. Na mesma base de dados, a Demografia das Empresas do IBGE mostra <strong>Santa Catarina com a maior taxa de sobreviv\u00eancia empresarial do pa\u00eds<\/strong> ap\u00f3s cinco anos de vida: 49,3% das empresas abertas continuam ativas nesse prazo, \u00e0 frente da m\u00e9dia nacional.<\/p>\n<p>Para o economista Alexandre Lamas Pena, isso se explica pela combina\u00e7\u00e3o entre uma economia \u201cdiversificada e descentralizada, com uma base industrial consolidada e a presen\u00e7a de polos produtivos especializados em diferentes regi\u00f5es\u201d. Ele explica que esses polos formam redes de fornecedores, clientes, trabalhadores qualificados, institui\u00e7\u00f5es de ensino e servi\u00e7os t\u00e9cnicos, facilitando a circula\u00e7\u00e3o de conhecimento e a adapta\u00e7\u00e3o das empresas \u00e0s mudan\u00e7as do mercado, al\u00e9m de pr\u00e1ticas internas como planejamento, controle financeiro, qualifica\u00e7\u00e3o profissional, inova\u00e7\u00e3o, profissionaliza\u00e7\u00e3o da gest\u00e3o e vis\u00e3o de longo prazo.\u00a0<\/p>\n<p>Diretor de Inova\u00e7\u00e3o e Competitividade da Fiesc, Jos\u00e9 Eduardo Fiates aponta que a competitividade catarinense \u00e9 menos um acaso geogr\u00e1fico e mais <strong>resultado de decis\u00f5es tomadas ao longo de d\u00e9cadas<\/strong>. \u201cVem da origem industrial ligada \u00e0 voca\u00e7\u00f5es e demandas bem expl\u00edcitas do mercado local, trazidas pela imigra\u00e7\u00e3o alem\u00e3, italiana, libanesa, aliada \u00e0 falta de facilidade para a agricultura extensiva\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Essa combina\u00e7\u00e3o, segundo ele, gerou forte orienta\u00e7\u00e3o ao mercado e customiza\u00e7\u00e3o, refor\u00e7ada por gest\u00e3o com foco na efici\u00eancia operacional, busca por mercados externos, inova\u00e7\u00e3o, novas tecnologias e inser\u00e7\u00e3o agressiva em cadeias produtivas estrat\u00e9gicas. Mas essa presen\u00e7a de empresas longevas n\u00e3o significa que o modelo esteja pronto para os pr\u00f3ximos s\u00e9culos.<\/p>\n<p>Para Fiates, a mesma cultura que criou as centen\u00e1rias n\u00e3o basta para os pr\u00f3ximos 500 anos de Santa Catarina. \u201cEmbora a cultura seja o pilar do sucesso hist\u00f3rico, \u00e9 essencial incorporar novos fatores do cen\u00e1rio contempor\u00e2neo: maior inova\u00e7\u00e3o, flexibilidade, orienta\u00e7\u00e3o a marcas fortes e atua\u00e7\u00e3o global.\u201d<\/p>\n<p>Entre as tr\u00eas maiores amea\u00e7as \u00e0 posi\u00e7\u00e3o industrial catarinense na pr\u00f3xima d\u00e9cada, ele lista \u201crecursos humanos\u201d, \u201ctecnologia\u201d e \u201cmercado\u201d. Desenvolver pessoas com vis\u00e3o hol\u00edstica e capacidade t\u00e9cnica internacional, acompanhar e aplicar tecnologias como IA e integra\u00e7\u00e3o de sistemas, e construir marcas globais de valor com estrat\u00e9gias mais agressivas e parcerias internacionais \u00e9 imprescind\u00edvel para um futuro de sucesso da ind\u00fastria catarinense, aponta ele.\u00a0<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<h2>O que segurou a ind\u00fastria dentro do estado\u00a0<\/h2>\n<p>H\u00e1 em Joinville uma empresa que trabalha essa agenda de inova\u00e7\u00e3o, qualifica\u00e7\u00e3o e atua\u00e7\u00e3o global h\u00e1 quase 90 anos \u2014 e que diz ter chegado a ela por falta de alternativa. A Tupy, no segmento da metalurgia, nasceu em 1938 sem os ativos que costumam explicar o sucesso industrial de uma regi\u00e3o: n\u00e3o tinha mat\u00e9ria-prima \u00e0 m\u00e3o nem estava perto dos grandes mercados consumidores.<\/p>\n<p>&#8220;Ao n\u00e3o dispor de vantagens comparativas na \u00e9poca, dadas pela natureza da opera\u00e7\u00e3o ou pela localiza\u00e7\u00e3o, a companhia construiu vantagens competitivas pr\u00f3prias, baseadas em conhecimento, ci\u00eancia, tecnologia, engenharia e qualifica\u00e7\u00e3o de pessoas&#8221;, afirma o gerente de Planejamento Estrat\u00e9gico, Inova\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento de Neg\u00f3cios da empresa, F\u00e1bio Caramori. Hoje, a fundi\u00e7\u00e3o \u00e9 uma multinacional presente em cerca de 40 pa\u00edses.<\/p>\n<p>Caramori conta que a escolha teve efeito pr\u00e1tico quando o c\u00e2mbio virou e os importados chegaram. Enquanto parte da ind\u00fastria catarinense transferiu linhas de produ\u00e7\u00e3o para outros estados em busca de custo menor, a Tupy diz ter competido &#8220;por tecnologia, produtividade e capacidade de engenharia&#8221;, diversificando mercados, ampliando portf\u00f3lio e investindo em moderniza\u00e7\u00e3o e automa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A base industrial permaneceu em Santa Catarina. \u00c9 a diferen\u00e7a que Fiates aponta entre repetir a f\u00f3rmula herdada e atualiz\u00e1-la: a empresa n\u00e3o defendeu a opera\u00e7\u00e3o pelo pre\u00e7o, mas pela <strong>complexidade do que fabrica<\/strong>.<\/p>\n<p>Sustentar essa aposta exigiu mexer justamente no pilar em que o estado lidera o ranking de competitividade, o capital humano. Por d\u00e9cadas, a Escola T\u00e9cnica Tupy formou profissionais que abasteceram a pr\u00f3pria empresa e o polo metalmec\u00e2nico de Joinville.<\/p>\n<p>&#8220;Investir em pessoas sempre foi um dos principais fatores de competitividade e continua sendo essencial&#8221;, afirma Caramori. Hoje o modelo saiu de cena, no lugar da escola, a companhia firmou parcerias com universidades, centros de tecnologia e Senai e criou dois canais para buscar conhecimento fora de casa: um portal de desafios aberto a terceiros e a ShiftT, aceleradora de <em>startups<\/em>.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/media.gazetadopovo.com.br\/2026\/08\/07030525\/78-1.jpg.webp\" \/><i>A empresa Tupy, fundada em Joinville em 1938, transformou conhecimento, engenharia e qualifica\u00e7\u00e3o profissional em uma opera\u00e7\u00e3o global presente em cerca de 40 pa\u00edses. (Foto: Divulga\u00e7\u00e3o\/Tupy)<\/i><\/p>\n<p>Esses mecanismos servem a uma opera\u00e7\u00e3o que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 a da fundi\u00e7\u00e3o original. Al\u00e9m dos componentes de transporte e infraestrutura que sustentam o faturamento, a Tupy desenvolve solu\u00e7\u00f5es para energia e agroneg\u00f3cio e investe em biocombust\u00edveis e economia circular.<\/p>\n<p>O centro de intelig\u00eancia artificial e automa\u00e7\u00e3o da companhia ficou em Santa Catarina, e n\u00e3o em outro pa\u00eds onde ela opera. Caramori explica a escolha pelo entorno \u2014 tradi\u00e7\u00e3o manufatureira, m\u00e3o de obra qualificada, institui\u00e7\u00f5es de ensino, fornecedores especializados \u2014, um ecossistema que, nas palavras dele, &#8220;cresceu com a empresa e tamb\u00e9m fez a empresa crescer&#8221;.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<h2>500 anos de Santa Catarina: estado que se construiu produzindo hoje fatura para deixar a carga entrar<\/h2>\n<p>Enquanto a Tupy construiu vantagem onde n\u00e3o havia nenhuma, a gera\u00e7\u00e3o mais recente de empresas catarinenses faz o contr\u00e1rio: explora uma vantagem que lhe foi dada. E ela n\u00e3o est\u00e1 no ch\u00e3o de f\u00e1brica nem no <em>cluster<\/em>, est\u00e1 na al\u00edquota.<\/p>\n<p>No primeiro semestre deste ano, o estado exportou US$ 6,13 bilh\u00f5es e importou US$ 18,15 bilh\u00f5es, segundo o Observat\u00f3rio da Fiesc. Entrou pelos portos catarinenses quase o triplo do que saiu.<\/p>\n<p>H\u00e1 um setor inteiro montado sobre esse fluxo.\u00a0A Silcor Trade, na Grande Florian\u00f3polis, opera h\u00e1 20 anos no modelo <em>door-to-door<\/em> \u2014 embarque na origem, despacho e entrega final no Brasil.<\/p>\n<p>O argumento comercial que o diretor-executivo da empresa, Wolney Andrades usa com o cliente estrangeiro \u00e9 tribut\u00e1rio antes de ser log\u00edstico: o ICMS na importa\u00e7\u00e3o \u00e9 de 4% em Santa Catarina e de 17% em S\u00e3o Paulo. &#8220;S\u00e3o 13% a menos&#8221;, resume.<\/p>\n<p>Ele aponta ainda que \u00e0 al\u00edquota soma-se o tempo de libera\u00e7\u00e3o: &#8220;enquanto uma carga leva tr\u00eas dias para liberar em Santos, aqui eu libero em um.&#8221; A vantagem, nesse caso, vem de uma decis\u00e3o de pol\u00edtica tribut\u00e1ria estadual.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 a primeira vez que isso pesa na economia catarinense: Goularti Filho sustenta que a passagem das manufaturas coloniais a grupos de porte nacional, nos anos 1960, dependeu de planos estaduais de desenvolvimento e de bancos de fomento \u2014 e n\u00e3o apenas da iniciativa dos empres\u00e1rios.<\/p>\n<p>A diferen\u00e7a \u00e9 o horizonte. O pr\u00f3prio Andrade avalia que o modelo apoiado em benef\u00edcio fiscal tem prazo, e diz trabalhar para migrar de opera\u00e7\u00f5es de terceiros para neg\u00f3cios pr\u00f3prios.<\/p>\n<p>A depend\u00eancia de importa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m j\u00e1 foi testada dentro do estado. Quando a abertura comercial dos anos 1990 chegou ao Vale do Itaja\u00ed, parte do setor t\u00eaxtil trocou o tear pelo cont\u00eainer e n\u00e3o sobreviveu.<\/p>\n<p>A Teka manteve a fabrica\u00e7\u00e3o como n\u00facleo, os importados respondem hoje por 6% a 7% do que vende, restritos ao que n\u00e3o h\u00e1 tecnologia para produzir. Segundo o diretor-executivo, Rog\u00e9rio Marques, a escolha foi cobrada este ano, com o fechamento do estreito de Ormuz durante o conflito entre Estados Unidos e Ir\u00e3. &#8220;Muitas empresas que s\u00f3 importam ficaram desabastecidas, enquanto a Teka e as outras empresas industriais seguiram aceitando pedidos e operando normalmente.&#8221;<\/p>\n<p>O professor Hoy\u00eado Nunes Lins faz uma ressalva ao que a balan\u00e7a comercial sugere. &#8220;Santa Catarina importa muitos insumos industriais, e dessa forma as empresas interagem comercialmente na condi\u00e7\u00e3o de clientes de atividades em elos de cadeias globais fora do Brasil&#8221;, afirma. Inser\u00e7\u00e3o relevante nessas cadeias, na avalia\u00e7\u00e3o dele, seria produzir no estado para as empresas estrangeiras que as lideram, o que exigiria levantamento pr\u00f3prio para dimensionar.<\/p>\n<p>Apesar de f\u00e1brica e <em>trading<\/em> operarem sob l\u00f3gicas distintas, dependem da mesma condi\u00e7\u00e3o para funcionar: carga que chega e carga que sai. \u00c9 nesse ponto que as duas encontram o mesmo obst\u00e1culo.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<h2>Na vice-lideran\u00e7a no ranking de competitividade, Santa Catarina \u00e9 o 19\u00ba estado em qualidade de rodovias<\/h2>\n<p>O mesmo Ranking de Competitividade dos Estados que coloca Santa Catarina em segundo lugar no pa\u00eds, registra o outro lado da conta. No pilar de infraestrutura, o estado \u00e9 o quarto colocado, mas o resultado agregado esconde onde a estrutura cede: em qualidade das rodovias, ficando em 19\u00ba entre as 27 unidades da federa\u00e7\u00e3o, oito posi\u00e7\u00f5es abaixo do apurado na edi\u00e7\u00e3o anterior.<\/p>\n<p>A pr\u00f3pria ind\u00fastria colocou pre\u00e7o nisso. A Agenda Estrat\u00e9gica para Infraestrutura e Transporte, divulgada pela Fiesc em janeiro deste ano, estima em R$ 57 bilh\u00f5es o investimento necess\u00e1rio entre 2026 e 2029 para que a log\u00edstica catarinense atenda \u00e0 demanda do setor produtivo.<\/p>\n<p>Quase 70% do valor, R$ 40,2 bilh\u00f5es, vai para rodovias. Ferrovias ficam com R$ 9,9 bilh\u00f5es, o modal aquavi\u00e1rio com R$ 4,89 bilh\u00f5es e o aerovi\u00e1rio com R$ 991,9 milh\u00f5es.<\/p>\n<p>O desequil\u00edbrio entre os modais explica onde a carga trava. Maria Teresa Bustamante, presidente do conselho de Com\u00e9rcio Exterior da Fiesc, afirma que os terminais n\u00e3o s\u00e3o o problema.<\/p>\n<p>&#8220;Os portos exercem um papel preponderante. S\u00e3o terminais bem localizados, altamente estruturados e com padr\u00e3o internacional de gest\u00e3o e produtividade&#8221;, afirma, citando o Porto de Itapo\u00e1. Para ela, &#8220;o principal gargalo hoje n\u00e3o s\u00e3o os portos em si, mas o acesso terrestre e a infraestrutura de mobilidade f\u00edsica at\u00e9 eles.&#8221;<\/p>\n<p>\u00c9 a mesma leitura de quem opera carga. Wolney Andrade, da Silcor Trade, diz que a agilidade que o estado ganha no desembara\u00e7o aduaneiro se perde na estrada, e aponta a aus\u00eancia de alternativa ferrovi\u00e1ria para escoar mercadoria a outros mercados.\u00a0Esse acesso \u00e9 quase inteiramente rodovi\u00e1rio porque a alternativa nunca foi constru\u00edda.<\/p>\n<p><strong>Apenas cerca de 17% da malha ferrovi\u00e1ria catarinense est\u00e1 em opera\u00e7\u00e3o<\/strong>, concentrada no trecho entre Mafra e o Porto de S\u00e3o Francisco do Sul, segundo levantamento apresentado pela Fiesc em audi\u00eancia p\u00fablica da Ag\u00eancia Nacional de Transportes Terrestres realizada em Florian\u00f3polis, em julho.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 liga\u00e7\u00e3o ferrovi\u00e1ria com Itaja\u00ed, Navegantes, Itapo\u00e1 e Imbituba \u2014 os terminais que movimentam cont\u00eainer. O que sobra s\u00e3o as BRs 101, 116, 163, 280, 282 e 470. &#8220;Todos sabemos que a BR-101 est\u00e1 colapsada&#8221;, disse na audi\u00eancia o secret\u00e1rio-adjunto de Portos, Aeroportos e Ferrovias do estado, Ivan Amaral.<\/p>\n<p>O governo federal prop\u00f5e <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/brasil\/governadores-industria-rejeitam-fatiamento-da-malha-sul-exigem-ferrovia-integrada\/\">fatiar a Malha Sul<\/a>, hoje operada em bloco \u00fanico pela Rumo, em tr\u00eas corredores independentes, e representantes catarinenses calculam que o desenho atual pode reduzir em cerca de 41% a extens\u00e3o da malha concedida no estado. A deputada federal Caroline De Toni (PL) lembrou na audi\u00eancia que o Oeste catarinense produz prote\u00edna animal em escala mundial dependendo de milho que vem do Mato Grosso, sem liga\u00e7\u00e3o ferrovi\u00e1ria eficiente nas duas pontas. &#8220;Se a ferrovia Paranagu\u00e1\u2013Chapec\u00f3 n\u00e3o for contemplada, o milho mais barato vai embora pelo porto e a ind\u00fastria do Oeste catarinense fecha&#8221;, afirmou Maur\u00edcio Battistella, presidente do Conselho de Transportes da Fiesc, sobre o mesmo trecho.<\/p>\n<p>O desequil\u00edbrio geogr\u00e1fico n\u00e3o \u00e9 novo, e o pesquisador e economista Lins o acompanha h\u00e1 d\u00e9cadas. Os investimentos recentes seguem se concentrando na faixa litor\u00e2nea, incluindo a montadora da BMW em Araquari, ao lado de Joinville. &#8220;Esses processos contribuem para a intensifica\u00e7\u00e3o de uma caracter\u00edstica hist\u00f3rica de Santa Catarina e que se procurou reduzir: a litoraliza\u00e7\u00e3o exacerbada&#8221;, afirma. Ele explica que o estado tentou enfrentar isso na primeira d\u00e9cada dos anos 2000, com as Secretarias de Desenvolvimento Regional, criadas para interiorizar o crescimento. Mas, em sua avalia\u00e7\u00e3o, se deu o contr\u00e1rio, e \u201ca litoraliza\u00e7\u00e3o da vida econ\u00f4mica se manteve e, parece, se acentuou.&#8221;<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<h2>Aposta para o futuro da ind\u00fastria est\u00e1 no mesmo insumo com que come\u00e7ou em 1880<\/h2>\n<p>Justamente o ranking em que Santa Catarina \u00e9 a primeira colocada, o de capital humano \u2014 o pilar que mede escolaridade, qualifica\u00e7\u00e3o e disponibilidade de m\u00e3o de obra \u2014, \u00e9 tamb\u00e9m o insumo mais antigo da economia catarinense, e o \u00fanico que aparece em todas as fases dela.<\/p>\n<p>As empresas leem esse indicador como <strong>condi\u00e7\u00e3o de opera\u00e7\u00e3o<\/strong>, n\u00e3o como elogio. &#8220;A disponibilidade de profissionais qualificados, a forte presen\u00e7a de institui\u00e7\u00f5es de ensino e pesquisa e uma cultura empreendedora consolidada favorecem o desenvolvimento de solu\u00e7\u00f5es cada vez mais eficientes&#8221;, afirma F\u00e1bio Caramori, da Tupy, ao explicar como a competitividade do estado se reflete no dia a dia da f\u00e1brica.<\/p>\n<p>Sobre as pr\u00f3ximas d\u00e9cadas, ele n\u00e3o fala em produto nem em mercado. O objetivo da companhia, diz, \u00e9 seguir como empresa global de base tecnol\u00f3gica &#8220;valorizando a hist\u00f3ria de tantas pessoas que constru\u00edram sua trajet\u00f3ria na companhia ao longo de quase 90 anos&#8221;.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/media.gazetadopovo.com.br\/2026\/08\/07031050\/ACF01623-1-800x540.jpg.webp\" \/><i>Qualifica\u00e7\u00e3o profissional e inova\u00e7\u00e3o ser\u00e3o caracter\u00edsticas decisivas para manter a for\u00e7a da ind\u00fastria catarinense nas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas. (Foto: Divulga\u00e7\u00e3o\/Fiesc)<\/i><\/p>\n<p>\u00c9 tamb\u00e9m esse ativo, e n\u00e3o um setor, que a Fiesc coloca no centro da pr\u00f3xima etapa. Perguntado sobre qual ser\u00e1 o motor econ\u00f4mico catarinense para os pr\u00f3ximos anos, Jos\u00e9 Eduardo Fiates recha\u00e7a a escolher um ramo.<\/p>\n<p>&#8220;<strong>A grande for\u00e7a do estado \u00e9 n\u00e3o depender de um \u00fanico setor<\/strong>&#8220;, afirma, ao descrever o que chama de diversifica\u00e7\u00e3o integrada: tecnologia da informa\u00e7\u00e3o com produ\u00e7\u00e3o, biotecnologia com agricultura, <em>design<\/em> e moveleiro com madeira, energia com m\u00e1quinas e equipamentos.<\/p>\n<p>Essas s\u00e3o combina\u00e7\u00f5es entre setores que hoje operam separados, e o que as torna poss\u00edveis \u00e9 a mesma circula\u00e7\u00e3o de conhecimento que Lamas Pena identifica na origem da ind\u00fastria catarinense. Cinco s\u00e9culos depois do primeiro registro europeu no litoral e quase 150 anos depois do primeiro tear em Blumenau, a resposta continua passando por quem opera a m\u00e1quina.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Colonos a\u00e7orianos chegaram ao litoral catarinense h\u00e1 quase 500 anos para pescar e plantar mandioca de subsist\u00eancia. 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