{"id":624774,"date":"2026-08-07T18:41:51","date_gmt":"2026-08-07T22:41:51","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=624774"},"modified":"2026-08-07T18:41:51","modified_gmt":"2026-08-07T22:41:51","slug":"por-que-uma-gigante-de-ia-esta-destruindo-livros-raros-literalmente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=624774","title":{"rendered":"Por que uma gigante de IA est\u00e1 destruindo livros raros (literalmente)"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody-module-scss-module__8_WGKG__postBodyContainer\">\n<p>Compra-se o livro, arranca-se a lombada, as folhas soltas passam por um scanner de alta velocidade e o que sobra segue para a reciclagem. Repetido alguns milh\u00f5es de vezes, o processo produz o combust\u00edvel de uma intelig\u00eancia artificial. Para ensinar as m\u00e1quinas a manejar a linguagem, a ind\u00fastria da IA passou a comprar e destruir em escala os livros que guardam essa linguagem, e um juiz federal americano decidiu que a pr\u00e1tica \u00e9 uso leg\u00edtimo, o <em>fair use<\/em> da lei de direitos autorais.<\/p>\n<p>A revela\u00e7\u00e3o veio de documentos internos da Anthropic, criadora do assistente Claude, abertos num processo por direitos autorais e noticiados pelo Washington Post. Um deles descrevia o Projeto Panam\u00e1 como o esfor\u00e7o da empresa para digitalizar destrutivamente todos os livros do mundo. Outro trazia uma frase que diz muito sobre o inc\u00f4modo da pr\u00f3pria companhia com o que fazia: &#8220;N\u00e3o queremos que se saiba que estamos trabalhando nisso.&#8221;<\/p>\n<p>A opera\u00e7\u00e3o era grande e met\u00f3dica. Sob o comando de Tom Turvey, ex-executivo do Google Books, a Anthropic comprou milh\u00f5es de livros usados no mercado comum, de prefer\u00eancia anteriores a 2022, quando ainda n\u00e3o circulava em massa texto gerado por m\u00e1quina, capaz de contaminar o treinamento. Livreiros come\u00e7aram a notar o padr\u00e3o: pedidos enormes, sobre qualquer assunto, sem a menor sensibilidade a pre\u00e7o. A destrui\u00e7\u00e3o das obras f\u00edsicas faz parte do processo de digitaliza\u00e7\u00e3o porque o m\u00e9todo tradicional era mais trabalhoso e lento.<\/p>\n<h2>A b\u00ean\u00e7\u00e3o do juiz<\/h2>\n<p>O caso judicial que exp\u00f4s tudo, Bartz contra Anthropic, terminou com uma vit\u00f3ria parcial para a empresa. Em 2025, o juiz William Alsup decidiu que comprar, escanear e destruir um livro adquirido de forma legal, para treinar um modelo, \u00e9 uso transformador e, portanto, uso leg\u00edtimo. O racioc\u00ednio foi curioso: como a c\u00f3pia digital apenas substitu\u00eda a f\u00edsica, que era destru\u00edda, n\u00e3o havia duplica\u00e7\u00e3o nem redistribui\u00e7\u00e3o, e uma coisa tomava o lugar da outra.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma ironia perversa nesse argumento, apontada por analistas de pol\u00edtica tecnol\u00f3gica. Pela l\u00f3gica do tribunal, guardar o exemplar de papel depois de escane\u00e1-lo poderia enfraquecer a defesa, o que cria o incentivo esquisito de destru\u00ed-lo. A preserva\u00e7\u00e3o vira risco jur\u00eddico.<\/p>\n<p>A parte que a Anthropic de fato perdeu foi outra. Antes de comprar livros, a empresa havia baixado cerca de sete milh\u00f5es de obras piratas de bibliotecas clandestinas para treinar o Claude. Por isso, e n\u00e3o pela tritura\u00e7\u00e3o, fechou um acordo de 1,5 bilh\u00e3o de d\u00f3lares com os autores, um dos maiores j\u00e1 vistos em disputas sobre dados de treinamento de IA.<\/p>\n<h2>O medo dos livreiros<\/h2>\n<p>A rea\u00e7\u00e3o de quem vive dos livros foi de horror. Um livreiro holand\u00eas chamou a pr\u00e1tica de &#8220;uma esp\u00e9cie de barb\u00e1rie&#8221;. Na imprensa e nas redes, choveram compara\u00e7\u00f5es com a queima da Biblioteca de Alexandria e com as fogueiras de Fahrenheit 451. Bibliotec\u00e1rios e preservacionistas lembraram que um livro n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o seu texto: primeira edi\u00e7\u00e3o, anota\u00e7\u00f5es \u00e0 m\u00e3o, dedicat\u00f3rias e encaderna\u00e7\u00e3o carregam um valor hist\u00f3rico que nenhum scanner captura. Destru\u00eddo o \u00faltimo exemplar de um t\u00edtulo esgotado, o objeto se perde para sempre, ainda que o conte\u00fado sobreviva em arquivo.<\/p>\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m o que a digitaliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o devolve. O Google Books, que nos anos 2000 tamb\u00e9m escaneou milh\u00f5es de obras, ao menos gerou um \u00edndice p\u00fablico, pesquis\u00e1vel por qualquer pessoa. O acervo que a Anthropic montou \u00e9 privado e trancado, inacess\u00edvel a leitores, bibliotecas e aos pr\u00f3prios autores.<\/p>\n<h2>A defesa da empresa de IA<\/h2>\n<p>A Anthropic contesta boa parte dessa leitura. Em nota, afirma que comprar livros para treinar modelos \u00e9 pr\u00e1tica comum em toda a ind\u00fastria e que nenhum de seus programas &#8220;compra e destr\u00f3i livros raros ou antiqu\u00e1rios&#8221;, apenas exemplares de mercados comerciais correntes. Lembra ainda que a decis\u00e3o de Alsup, que classificou o treinamento como uso leg\u00edtimo, continua de p\u00e9, e que o barulho recente confunde a tritura\u00e7\u00e3o com o acordo sobre os livros piratas, que \u00e9 outra hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>A defesa tem pontos s\u00f3lidos e um flanco. \u00c9 verdade que a digitaliza\u00e7\u00e3o destrutiva n\u00e3o nasceu com a IA, que os exemplares comprados eram comuns e que o conte\u00fado n\u00e3o desaparece. Mas documentos do processo mostram um executivo da empresa escrevendo a um vendedor que &#8220;livros menos comuns s\u00e3o um \u00f3timo ponto de partida&#8221;, e a companhia procurou tamb\u00e9m obras em outras l\u00ednguas. Entre o livro menos comum que ela admite comprar e o livro raro que jura poupar, a fronteira \u00e9 estreita, e \u00e9 justamente ela que assusta os livreiros.<\/p>\n<h2>O que fica da discuss\u00e3o<\/h2>\n<p>No fundo, a disc\u00f3rdia \u00e9 menos sobre a lei e mais sobre o que um livro \u00e9. Se for apenas um recipiente de informa\u00e7\u00e3o, escanear e triturar n\u00e3o passa de uma troca de embalagem, e o ganho de espa\u00e7o at\u00e9 compensa. Se for tamb\u00e9m um objeto, um elo material com quem o escreveu, imprimiu e leu antes, ent\u00e3o cada lombada cortada apaga um peda\u00e7o de uma heran\u00e7a que n\u00e3o se refaz.<\/p>\n<p>H\u00e1 ainda uma diferen\u00e7a que a troca do papel pelo arquivo costuma esconder, a do acesso. O que est\u00e1 impresso n\u00e3o muda e n\u00e3o depende de ningu\u00e9m para ser lido: basta abrir. O digital pode ser alterado ou tirado do ar, e o exemplar f\u00edsico que o originou j\u00e1 n\u00e3o existe para servir de reserva. No limite, a conta mais concreta de todas \u00e9 esta: um bom livro num sebo custa poucos reais e \u00e9 seu para sempre, enquanto o acesso \u00e0 intelig\u00eancia que o consumiu se paga por assinatura, m\u00eas ap\u00f3s m\u00eas.<\/p>\n<p>A ind\u00fastria que promete guardar todo o conhecimento humano est\u00e1, para isso, desmontando os volumes em que esse conhecimento foi confiado ao papel. As m\u00e1quinas aprenderam a escrever lendo tudo o que escrevemos. Falta saber o que faremos com o que elas deixaram para tr\u00e1s.<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Compra-se o livro, arranca-se a lombada, as folhas soltas passam por um scanner de alta velocidade e o que sobra&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":624775,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[204],"tags":[],"class_list":["post-624774","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ultimas-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/624774","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=624774"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/624774\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/624775"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=624774"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=624774"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=624774"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}