{"id":623451,"date":"2026-08-07T08:40:58","date_gmt":"2026-08-07T12:40:58","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=623451"},"modified":"2026-08-07T08:40:58","modified_gmt":"2026-08-07T12:40:58","slug":"brasil-contra-os-estados-unidos-e-a-argentina-o-dia-em-que-o-pais-rompeu-com-o-hemisferio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=623451","title":{"rendered":"Brasil contra os Estados Unidos e a Argentina: o dia em que o pa\u00eds rompeu com o hemisf\u00e9rio"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody-module-scss-module__8_WGKG__postBodyContainer\">\n<p>H\u00e1 datas que os historiadores demoram d\u00e9cadas para reconhecer como pontos de inflex\u00e3o. Outras se anunciam de imediato, com a clareza brutal dos desastres. O dia 4 de agosto de 2026 pertence \u00e0 segunda categoria. Em menos de 24 horas, o governo Lula conseguiu a proeza, in\u00e9dita em mais de 200 anos de hist\u00f3ria diplom\u00e1tica, de romper simultaneamente com os seus dois parceiros mais importantes do Hemisf\u00e9rio Ocidental.\u00a0<\/p>\n<p>Mais do que contexto diplom\u00e1tico particularmente grave, trata-se da eros\u00e3o deliberada de um dos ativos estrat\u00e9gicos mais valiosos que uma na\u00e7\u00e3o pode possuir, sua credibilidade internacional.\u00a0<\/p>\n<p>Na pol\u00edtica internacional, confian\u00e7a n\u00e3o \u00e9 um atributo moral; \u00e9 ativo de poder que determina onde o capital ser\u00e1 investido, quais tecnologias ser\u00e3o compartilhadas, que alian\u00e7as sobreviver\u00e3o \u00e0s crises e quais pa\u00edses ser\u00e3o considerados parceiros em momentos de tens\u00e3o. Credibilidade leva d\u00e9cadas para ser constru\u00edda, mas pode ser destru\u00edda em poucos meses.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Credibilidade leva d\u00e9cadas para ser constru\u00edda, mas pode ser destru\u00edda em poucos meses<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Em Washington, o Departamento de Estado anunciou o cancelamento do visto da embaixadora do Brasil, Maria Luiza Viotti, epis\u00f3dio sem precedente na rela\u00e7\u00e3o bilateral desde que os Estados Unidos, em 1824, tornaram-se o primeiro pa\u00eds do mundo a reconhecer a independ\u00eancia brasileira.\u00a0<\/p>\n<p>Em Bras\u00edlia, no mesmo dia, o Itamaraty convocou o embaixador da Argentina, Daniel Raimondi, para comunicar-lhe que estava dispensado, que a rela\u00e7\u00e3o com o principal s\u00f3cio sul-americano do Brasil ficaria rebaixada ao n\u00edvel de encarregados de neg\u00f3cios e que o embaixador do Brasil em Buenos Aires, Julio Bitelli, n\u00e3o retornaria \u00e0 capital argentina.\u00a0<\/p>\n<p>Foram necess\u00e1rias oito gera\u00e7\u00f5es de diplomatas para construir esses dois pilares. Bastou um governo lulopetista para dinamitar ambos no mesmo dia.<\/p>\n<p>Conv\u00e9m medir a profundidade do buraco antes de perguntar quem cavou. A rela\u00e7\u00e3o com os Estados Unidos jamais foi uma rela\u00e7\u00e3o qualquer. Foi para Washington que o Bar\u00e3o do Rio Branco deslocou o eixo da pol\u00edtica externa brasileira em 1905, elevando ali a primeira embaixada do Brasil no mundo e nela instalando Joaquim Nabuco.<\/p>\n<p>\u00a0Foi ao lado dos americanos que a For\u00e7a Expedicion\u00e1ria Brasileira tomou Monte Castello, e foi de Natal, transformada em principal plataforma log\u00edstica dos Aliados no Atl\u00e2ntico Sul, o trampolim da vit\u00f3ria, que partiu parcela relevante do esfor\u00e7o de guerra que ajudou a derrotar o nazifascismo.<\/p>\n<p>Essa aproxima\u00e7\u00e3o nunca significou subordina\u00e7\u00e3o. Significou o reconhecimento de uma realidade elementar da geopol\u00edtica: grandes estrat\u00e9gias s\u00e3o constru\u00eddas sobre interesses permanentes, n\u00e3o sobre afinidades ideol\u00f3gicas transit\u00f3rias. Como ensinava Hans Morgenthau, o primeiro dever da pol\u00edtica externa \u00e9 preservar e ampliar o interesse nacional, jamais instrumentaliz\u00e1-lo em favor de disputas dom\u00e9sticas.<\/p>\n<p>\u00a0Apesar da hostilidade de Lula, os EUA permanecem sendo o principal destino das manufaturas brasileiras, o maior investidor estrangeiro acumulado no Pa\u00eds h\u00e1 um s\u00e9culo e a fonte de tecnologia, capital e certifica\u00e7\u00f5es de que dependem setores inteiros da economia nacional. Brasil e EUA jamais travaram guerra entre si, jamais lutaram em lados opostos, jamais se trataram como inimigos. Era, como escreveram tantos dos nossos maiores, de Rui Barbosa a Afonso Arinos, uma alian\u00e7a natural. Era.<\/p>\n<p>Os acontecimentos de Washington dispensam adjetivos, mas n\u00e3o cronologia. Em mar\u00e7o deste ano, o Conselheiro S\u00eanior de Donald Trump, Darren Beattie, teve seu visto revogado. Beattie pretendia viajar ao Brasil para participar de uma confer\u00eancia sobre minerais cr\u00edticos em S\u00e3o Paulo e visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro. O MRE alegou informa\u00e7\u00f5es falsas prestadas pelo governo americano para fundamentar sua esdr\u00faxula decis\u00e3o, a qual apenas serviu para refor\u00e7ar, no exterior, a percep\u00e7\u00e3o de que Bolsonaro estaria sendo tratado como um preso pol\u00edtico e aprofundou o desgaste da imagem internacional do Brasil.<\/p>\n<p>Em junho, o presidente Trump indicou Daniel Perez para a embaixada em Bras\u00edlia. O governo brasileiro, em manobra t\u00e3o mesquinha quanto obtusa, sentou-se sobre o <em>agr\u00e9ment<\/em>, o ato de cortesia mais elementar da gram\u00e1tica diplom\u00e1tica, calculando empurrar eventual aprova\u00e7\u00e3o para depois das elei\u00e7\u00f5es de outubro e transformando um procedimento t\u00e9cnico e rotineiro em instrumento de c\u00e1lculo pol\u00edtico dom\u00e9stico.<\/p>\n<p>\u00a0Em julho, o Itamaraty negou vistos a dois altos funcion\u00e1rios do Departamento de Estado, sob a acusa\u00e7\u00e3o irrespons\u00e1vel e grav\u00edssima de que se tratava de uma manobra norte-americana para interferir nas elei\u00e7\u00f5es brasileiras. A resposta, dura, veio na ter\u00e7a-feira 4 de agosto: a chefe da miss\u00e3o brasileira em Washington, Maria Luiza Viotti teve seu visto revogado, com o aviso p\u00fablico de que o documento ser\u00e1 restabelecido quando o <em>agr\u00e9ment<\/em> for concedido, e com o acr\u00e9scimo de que outras a\u00e7\u00f5es n\u00e3o est\u00e3o descartadas.<\/p>\n<p>Traduzindo do diplomat\u00eas: a escada da escalada est\u00e1 armada, e o Brasil insiste em, levianamente, subir os degraus. Na literatura cl\u00e1ssica das Rela\u00e7\u00f5es Internacionais existe uma premissa frequentemente ignorada por governos imprudentes e excessivamente confiantes em sua capacidade de improvisa\u00e7\u00e3o: crises diplom\u00e1ticas s\u00e3o f\u00e1ceis de iniciar, mas extremamente dif\u00edceis de controlar.<\/p>\n<p>Uma vez rompida a confian\u00e7a estrat\u00e9gica entre dois Estados, cada gesto passa a ser interpretado sob a l\u00f3gica da escalada, e cada resposta tende a produzir outra ainda mais severa. Um governo minimamente s\u00e9rio teria resolvido o impasse em uma semana, com um telefonema e uma nota. O governo Lula preferiu transformar um expediente de rotina em <em>casus belli<\/em> eleitoral, porque um conflito com Trump rende palanque, e o palanque, para o lulopetismo, sempre valeu mais do que os interesses do Brasil.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Traduzindo do diplomat\u00eas: a escada da escalada est\u00e1 armada, e o Brasil insiste em, levianamente, subir os degraus<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>O caso argentino \u00e9 ainda mais revelador, porque ali nem sequer existe a desculpa da assimetria de poder. O que est\u00e1 em jogo n\u00e3o \u00e9 uma disputa entre uma grande pot\u00eancia e um pa\u00eds emergente, mas a deteriora\u00e7\u00e3o deliberada da rela\u00e7\u00e3o entre dois pa\u00edses cuja prosperidade sempre esteve profundamente interligada.<\/p>\n<p>A Argentina \u00e9 o terceiro maior mercado das exporta\u00e7\u00f5es brasileiras e o primeiro das nossas manufaturas de maior valor agregado; \u00e9 o s\u00f3cio fundador do Mercosul, o parceiro estrat\u00e9gico de meio s\u00e9culo de integra\u00e7\u00e3o paciente, de Itaipu ao acordo nuclear, da Ag\u00eancia Brasileiro-Argentina de Contabilidade e Controle de Materiais Nucleares (ABACC), uma das mais bem-sucedidas experi\u00eancias de constru\u00e7\u00e3o de confian\u00e7a estrat\u00e9gica entre antigos rivais regionais, \u00e0s cadeias automotivas integradas.<\/p>\n<p>Nada disso surgiu por acaso. Foi resultado de uma compreens\u00e3o elementar da geopol\u00edtica, a de que pa\u00edses vizinhos podem competir, mas n\u00e3o podem se dar ao luxo de transformar diverg\u00eancias pol\u00edticas em antagonismos permanentes. Governos passam. Interesses nacionais permanecem.<\/p>\n<p>\u00a0Javier Milei simplesmente disse a verdade ao declarar que Lula foi condenado pela Justi\u00e7a brasileira. Conv\u00e9m destacar, ainda, que Lula apoiou abertamente o advers\u00e1rio de Milei na disputa pela Presid\u00eancia argentina, Sergio Massa, durante o processo eleitoral argentino de 2023.\u00a0<\/p>\n<p>Em retalia\u00e7\u00e3o \u00e0s verdades ditas por Milei, Lula escolheu a demoli\u00e7\u00e3o: dispensou o embaixador argentino, reteve o embaixador brasileiro em Bras\u00edlia, rebaixou a rela\u00e7\u00e3o inteira ao n\u00edvel de encarregados de neg\u00f3cios. Puniu, em nome do pr\u00f3prio orgulho ferido, o empres\u00e1rio brasileiro que exporta para Buenos Aires; o oper\u00e1rio cuja f\u00e1brica integra cadeias binacionais; o produtor que depende de previsibilidade no com\u00e9rcio regional; o investidor, que foge de instabilidade; o pr\u00f3prio Mercosul que seu partido jura defender. A vaidade presidencial virou pol\u00edtica de Estado, e a pol\u00edtica de Estado virou ref\u00e9m de uma elei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Na economia internacional, rela\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas deterioradas raramente permanecem confinadas \u00e0s chancelarias. Elas elevam custos de transa\u00e7\u00e3o, reduzem previsibilidade regulat\u00f3ria, inibem investimentos e comprometem decis\u00f5es empresariais que dependem de horizontes de longo prazo. Confian\u00e7a estrat\u00e9gica tamb\u00e9m possui valor econ\u00f4mico.<\/p>\n<p>Somados, os epis\u00f3dios de Washington e Buenos Aires revelam uma transforma\u00e7\u00e3o mais profunda do que simples atritos diplom\u00e1ticos. A pol\u00edtica externa brasileira deixou de operar segundo a l\u00f3gica cl\u00e1ssica do interesse nacional para incorporar a l\u00f3gica da polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica dom\u00e9stica. Em vez de reduzir tens\u00f5es externas para ampliar espa\u00e7o de manobra internacional, passou a produzi-las deliberadamente como instrumento de mobiliza\u00e7\u00e3o eleitoral.<\/p>\n<p>Essa talvez seja a ruptura mais grave. Desde Rio Branco, um dos princ\u00edpios mais permanentes da diplomacia brasileira consistia em preservar rela\u00e7\u00f5es construtivas com governos de diferentes orienta\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas, evitando que diverg\u00eancias partid\u00e1rias contaminassem interesses permanentes do Estado. O Brasil negociava com democratas e republicanos, conservadores e socialistas, peronistas e liberais, preservando sempre um princ\u00edpio fundamental: governos mudam; o Estado permanece. Essa tradi\u00e7\u00e3o parece ter sido abandonada<\/p>\n<p>Hoje, o Brasil encontra-se, simultaneamente, sem embaixador operante em Washington e sem embaixador em Buenos Aires. Conseguiu comprometer a rela\u00e7\u00e3o com a maior pot\u00eancia econ\u00f4mica e militar do planeta e com seu principal parceiro regional.<\/p>\n<p>Na Am\u00e9rica do Sul, o governo que prometia lideran\u00e7a regional colecionou atritos com a Argentina de Milei, com o Paraguai (grampeado pela intelig\u00eancia brasileira, como o pr\u00f3prio governo admitiu), com o Equador, com o Peru, com o Uruguai de Orsi na negocia\u00e7\u00e3o externa do Mercosul, e mant\u00e9m com o regime venezuelano, ora numa interinidade que j\u00e1 se estende por 7 meses, uma rela\u00e7\u00e3o que oscila entre o constrangimento e a cumplicidade.<\/p>\n<p>\u00a0No Hemisf\u00e9rio, o Brasil de Lula fala sozinho e n\u00e3o \u00e9 ouvido por ningu\u00e9m. E enquanto se isola dos vizinhos e dos aliados naturais, o governo estreita la\u00e7os com Pequim, recebe navios de guerra iranianos no Rio de Janeiro, perdoa d\u00edvidas de Havana e reserva seus sil\u00eancios mais respeitosos para Moscou. A pol\u00edtica externa que se autodenomina altiva e ativa produziu o feito geom\u00e9trico de afastar o Brasil de todas as democracias do seu entorno e aproxim\u00e1-lo de todas as autocracias fora dele.<\/p>\n<p>Nada disso \u00e9 acidente de percurso ou inabilidade epis\u00f3dica. \u00c9 m\u00e9todo, e o m\u00e9todo tem certid\u00e3o de nascimento: o Foro de S\u00e3o Paulo, fundado em 1990 por Lula e Fidel Castro para reorganizar a esquerda latino-americana \u00f3rf\u00e3 do muro de Berlim. Desde 2003, a diplomacia lulopetista tratou a regi\u00e3o n\u00e3o como espa\u00e7o de interesses nacionais, mas como tabuleiro de solidariedades ideol\u00f3gicas.<\/p>\n<blockquote>\n<p>A vaidade presidencial virou pol\u00edtica de Estado, e a pol\u00edtica de Estado virou ref\u00e9m de uma elei\u00e7\u00e3o<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>\u00a0O caso venezuelano \u00e9 o monumento dessa escolha, e a palavra criminoso, aqui, n\u00e3o \u00e9 figura de ret\u00f3rica, \u00e9 quase tipifica\u00e7\u00e3o. Foi com aval pol\u00edtico, financiamento do BNDES e empreiteiras brasileiras que o chavismo consolidou seu projeto de poder; foi Lula quem apresentou Hugo Ch\u00e1vez ao mundo como o melhor presidente da Venezuela em um s\u00e9culo; foi o Brasil petista que emprestou legitimidade a cada elei\u00e7\u00e3o fraudada, que abafou cada den\u00fancia de repress\u00e3o, que chamou de narrativa, na palavra tristemente c\u00e9lebre do pr\u00f3prio presidente, a fraude escancarada de 2024.\u00a0<\/p>\n<p>O resultado est\u00e1 \u00e0 vista: uma ditadura consolidada na fronteira norte, oito milh\u00f5es de refugiados espalhados pelo continente, Roraima transformada em v\u00e1lvula de escape da trag\u00e9dia alheia, e o crime organizado transnacional, do Trem de Aragua \u00e0s fac\u00e7\u00f5es brasileiras, prosperando no v\u00e1cuo que a coniv\u00eancia criou. Quem semeia ditadura na vizinhan\u00e7a colhe caos em casa. O Brasil colheu, e segue semeando.<\/p>\n<p>A pergunta que o brasileiro deveria fazer agora n\u00e3o \u00e9 se a crise pode piorar, mas o que acontecer\u00e1 se ela continuar seguindo sua trajet\u00f3ria atual. A resposta exige menos indigna\u00e7\u00e3o do que realismo. Nas Rela\u00e7\u00f5es Internacionais, Estados raramente recorrem \u00e0s medidas mais severas logo no in\u00edcio de uma crise. A l\u00f3gica predominante \u00e9 a da escalada gradual. Cada resposta procura aumentar o custo da conduta do outro lado, preservando espa\u00e7o para negocia\u00e7\u00e3o sem abrir m\u00e3o da capacidade de elevar sucessivamente o n\u00edvel de press\u00e3o, desde que possua recursos de poder para tanto.<\/p>\n<p>O arsenal americano \u00e9 conhecido, testado e escalon\u00e1vel, e parte dele j\u00e1 foi usada contra o Brasil. O pa\u00eds j\u00e1 amarga tarifas punitivas de 50% sobre parcela expressiva de suas exporta\u00e7\u00f5es. Ministros do Supremo Tribunal Federal j\u00e1 tiveram vistos revogados, e um deles j\u00e1 foi alcan\u00e7ado pela Lei Magnitsky, instrumento que congela ativos e bane do sistema financeiro americano os sancionados. O degrau seguinte da escada \u00e9 vis\u00edvel a olho nu. No plano diplom\u00e1tico, expuls\u00f5es rec\u00edprocas e fechamento de consulados, com filas de vistos se arrastando por anos e a comunidade brasileira nos Estados Unidos, quase dois milh\u00f5es de pessoas, pagando a conta.<\/p>\n<p>No plano individual, a extens\u00e3o das san\u00e7\u00f5es Magnitsky e das restri\u00e7\u00f5es de visto a autoridades do governo, a operadores financeiros do partido e a seus familiares. No plano comercial, novas san\u00e7\u00f5es tarif\u00e1rias, barreiras regulat\u00f3rias e o estrangulamento de setores que dependem de certifica\u00e7\u00f5es americanas, a come\u00e7ar pela avia\u00e7\u00e3o: a Embraer, joia da engenharia nacional, vive do mercado e da certifica\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos, e seria a primeira v\u00edtima de qualquer regime de controles de exporta\u00e7\u00e3o de tecnologia de uso dual.<\/p>\n<p>E a escada sobe. No plano financeiro, designa\u00e7\u00f5es da OFAC contra entidades estatais, restri\u00e7\u00f5es a bancos brasileiros no acesso a d\u00f3lares e a bancos correspondentes, o encarecimento brutal do cr\u00e9dito externo num pa\u00eds que rola d\u00edvida p\u00fablica ao ritmo de trilh\u00f5es.<\/p>\n<p>\u00a0No plano estrat\u00e9gico, a suspens\u00e3o do estatuto de aliado preferencial extra-OTAN, concedido ao Brasil em 2019 e hoje reduzido a pe\u00e7a de museu, o congelamento da coopera\u00e7\u00e3o militar e espacial, o veto informal \u00e0 candidatura brasileira \u00e0 OCDE e a oposi\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica nos organismos financeiros multilaterais.<\/p>\n<p>\u00a0Nada disso \u00e9 profecia; \u00e9 aritm\u00e9tica. Cada um desses instrumentos foi aplicado, nos \u00faltimos anos, contra pa\u00edses que escolheram a rota de colis\u00e3o com Washington, e n\u00e3o h\u00e1 cl\u00e1usula de exce\u00e7\u00e3o para governos que se julgam persuasores. O Brasil de lula, para todos os efeitos, j\u00e1 \u00e9 considerado um pa\u00eds hostil aos interesses americanos, como declarou publicamente o Secret\u00e1rio de Estado Marco Rubio.<\/p>\n<p>\u00a0O risco-pa\u00eds precifica tudo isso silenciosamente, o c\u00e2mbio tamb\u00e9m, e quem paga n\u00e3o \u00e9 o presidente que provoca, \u00e9 o agricultor que exporta, o industrial que importa insumo, a fam\u00edlia que financia a casa a juros que j\u00e1 s\u00e3o os mais altos do mundo real. Colocar o Brasil em rota de colis\u00e3o com a maior economia e a maior pot\u00eancia militar da Terra, sem um \u00fanico ganho concreto em troca, n\u00e3o \u00e9 pol\u00edtica externa. \u00c9 sabotagem com passaporte diplom\u00e1tico, parte de um plano muito eficiente de destrui\u00e7\u00e3o do Brasil e de suas institui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Cada um desses instrumentos foi aplicado, nos \u00faltimos anos, contra pa\u00edses que escolheram a rota de colis\u00e3o com Washington<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>E aqui se chega ao ponto que d\u00f3i, porque revela a natureza do projeto. Lula n\u00e3o est\u00e1 cometendo erros; est\u00e1 executando um c\u00e1lculo. A crise com Trump \u00e9 o \u00fanico palanque que lhe restou. Sem economia para exibir, com a seguran\u00e7a p\u00fablica em colapso e a popularidade em queda, o lulopetismo recorre ao expediente mais velho do populismo: fabricar o inimigo externo, embrulhar-se na bandeira que passou d\u00e9cadas chamando de s\u00edmbolo do atraso e converter a palavra soberania em jingle de campanha.<\/p>\n<p>\u00a0Cada escalada, cada provoca\u00e7\u00e3o, cada gesto de rompimento \u00e9 friamente dosado para render manchete e inflamar milit\u00e2ncia, na aposta de que o eleitor n\u00e3o perceber\u00e1 que a conta da bravata ser\u00e1 paga por ele, em tarifa, em juro, em emprego, em oportunidade perdida. Um estadista protege seu povo das tempestades; um demagogo invoca a tempestade para posar de timoneiro.<\/p>\n<p>\u00a0Essa instrumentaliza\u00e7\u00e3o eleitoral da pol\u00edtica externa, feita com o patrim\u00f4nio diplom\u00e1tico de dois s\u00e9culos, \u00e9 a confiss\u00e3o definitiva do desprezo que Lula e seu partido nutrem pelo Brasil e pelos brasileiros: o Pa\u00eds, para eles, nunca foi um fim, sempre foi um meio.<\/p>\n<p>O Itamaraty, que j\u00e1 foi sin\u00f4nimo mundial de excel\u00eancia, assiste a tudo na condi\u00e7\u00e3o de ref\u00e9m. A institui\u00e7\u00e3o que j\u00e1 contou com homens da estatura do Bar\u00e3o do Rio Branco, de Joaquim Nabuco, de Oswaldo Aranha e de Roberto Campos, que arbitrou fronteiras sem disparar um tiro e negociou com as maiores pot\u00eancias de igual para igual, foi convertida em despachante ideol\u00f3gico de um projeto partid\u00e1rio, obrigada a defender o indefens\u00e1vel em Caracas, a silenciar sobre Teer\u00e3, a fabricar eufemismos para Pequim e agora a administrar, em uma indignidade sem precedentes, a humilha\u00e7\u00e3o de ver sua embaixadora em Washington privada de visto como turista irregular.<\/p>\n<p>\u00a0N\u00e3o \u00e9 preciso ser diplomata para medir o vexame; basta ser brasileiro. Um servi\u00e7o exterior profissional n\u00e3o se recupera por decreto depois de ser usado como escudo humano de aventuras ideol\u00f3gicas. Recupera-se com anos de trabalho, com credibilidade reconstru\u00edda aperto de m\u00e3o por aperto de m\u00e3o, relat\u00f3rio por relat\u00f3rio, posto por posto, com uma muito necess\u00e1ria reforma funcional, administrativa e estrutural que jamais acontecer\u00e1 em uma gest\u00e3o lulopetista, porque a esquerda n\u00e3o gosta de valorizar quem trabalha. Gosta de constranger, deixar submissa, humilhar e manipular.<\/p>\n<p>A trajet\u00f3ria para o Brasil, se nada a interromper, tem nome t\u00e9cnico e destino conhecido: Estado-p\u00e1ria. P\u00e1ria n\u00e3o \u00e9 o pa\u00eds pobre nem o pa\u00eds fraco; \u00e9 o pa\u00eds imprevis\u00edvel, aquele com quem n\u00e3o se assina contrato longo, em quem n\u00e3o se investe capital paciente, a quem n\u00e3o se confia cadeia de suprimento nem segredo tecnol\u00f3gico. A Argentina peronista levou d\u00e9cadas para construir essa reputa\u00e7\u00e3o e levar\u00e1 d\u00e9cadas para desfaz\u00ea-la; a Venezuela a converteu em ru\u00edna terminal.\u00a0<\/p>\n<p>O Brasil, que sempre teve como maior ativo diplom\u00e1tico justamente a previsibilidade, a modera\u00e7\u00e3o e a aus\u00eancia de antagonistas estruturais, est\u00e1 dilapidando em meses o capital pol\u00edtico-estrat\u00e9gico que construiu em s\u00e9culos. E o faz n\u00e3o por imposi\u00e7\u00e3o de circunst\u00e2ncias, n\u00e3o por trag\u00e9dia geopol\u00edtica, mas por decis\u00e3o deliberada de um cons\u00f3rcio de poder que j\u00e1 demonstrou, em cada \u00e1rea que tocou, que prefere reinar sobre escombros a servir sobre alicerces.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que outubro de 2026 n\u00e3o ser\u00e1 uma elei\u00e7\u00e3o como as outras. N\u00e3o se trata de escolher entre programas tribut\u00e1rios ou estilos de gest\u00e3o; Trata-se da escolha entre duas concep\u00e7\u00f5es profundamente distintas de inser\u00e7\u00e3o internacional.<\/p>\n<p>De um lado, a continuidade de uma pol\u00edtica externa crescentemente orientada por afinidades ideol\u00f3gicas improdutivas, confronta\u00e7\u00f5es desnecess\u00e1rias e objetivos eleitorais dom\u00e9sticos. De outro, a possibilidade de reconstruir uma diplomacia baseada no interesse nacional, na credibilidade estrat\u00e9gica e no resgate do protagonismo internacional do Brasil.<\/p>\n<p>Trata-se de decidir se o Brasil permanece no mundo livre e democr\u00e1tico, ou se completa sua convers\u00e3o em s\u00f3cio menor do clube das autocracias, isolado dos vizinhos, hostilizado pelos aliados naturais e tutelado por credores que n\u00e3o conhecem a palavra liberdade.<\/p>\n<p>\u00a0Impedir a consuma\u00e7\u00e3o desse projeto \u00e9 o primeiro dever de todo brasileiro que ainda distingue p\u00e1tria de partido. E o instrumento dessa interdi\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 a rua, n\u00e3o \u00e9 o atalho, n\u00e3o \u00e9 o improviso: \u00e9 o voto, dado com a serenidade de quem sabe exatamente o que est\u00e1 em jogo, e a fiscaliza\u00e7\u00e3o e cobran\u00e7a da seriedade e da imparcialidade das institui\u00e7\u00f5es.\u00a0<\/p>\n<p>Ao presidente conservador de direita, de sobrenome conhecido e reverenciado, o \u00fanico em reais condi\u00e7\u00f5es de enfrentar o rolo compressor do autoritarismo Planalto-STF, que, assim o queiram Deus e os brasileiros, sair das urnas de outubro e tomar posse em janeiro de 2027, caber\u00e1 um trabalho de reconstru\u00e7\u00e3o que n\u00e3o encontra paralelo na hist\u00f3ria republicana.\u00a0<\/p>\n<p>Ser\u00e1 preciso reatar com Washington sem servilismo e com Buenos Aires sem rancor; devolver o <em>agr\u00e9ment<\/em> \u00e0 sua natureza de cortesia e a embaixada em Washington \u00e0 sua condi\u00e7\u00e3o de posto maior da diplomacia nacional; reancorar o Brasil no Hemisf\u00e9rio que \u00e9 o seu, resgatar o Mercosul do coma induzido, desmontar pe\u00e7a por pe\u00e7a a arquitetura de cumplicidades que atrela o pa\u00eds \u00e0s ditaduras do continente e devolver ao Itamaraty a espinha, a t\u00e9cnica e a honra.\u00a0<\/p>\n<p>Ser\u00e1 uma obra de anos, talvez de uma gera\u00e7\u00e3o inteira, erguida sobre o terreno arrasado que o lulopetismo deixar\u00e1 como heran\u00e7a. Mas h\u00e1 uma verdade que nenhuma demoli\u00e7\u00e3o alcan\u00e7a: destruir \u00e9 r\u00e1pido, reconstruir \u00e9 lento, e ainda assim as na\u00e7\u00f5es, como as catedrais, sempre foram erguidas por quem veio depois do inc\u00eandio. E toda reconstru\u00e7\u00e3o come\u00e7a quando uma sociedade decide voltar a tratar suas institui\u00e7\u00f5es como patrim\u00f4nio nacional, e n\u00e3o como instrumentos de um projeto de poder pernicioso e autorit\u00e1rio.<\/p>\n<p><em><strong>Marcos Degaut<\/strong> \u00e9 ex-Secret\u00e1rio Especial Adjunto de Assuntos Estrat\u00e9gicos da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica, ex-Secret\u00e1rio de Produtos de Defesa do Minist\u00e9rio da Defesa, ex-Secret\u00e1rio-Executivo da C\u00e2mara de Com\u00e9rcio Exterior do Brasil (CAMEX) e doutor em Seguran\u00e7a Internacional.<\/em><\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 datas que os historiadores demoram d\u00e9cadas para reconhecer como pontos de inflex\u00e3o. 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