{"id":620563,"date":"2026-08-06T05:01:00","date_gmt":"2026-08-06T09:01:00","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=620563"},"modified":"2026-08-06T05:01:00","modified_gmt":"2026-08-06T09:01:00","slug":"muito-alem-da-lei-rouanet-como-os-outros-paises-estao-investindo-bilhoes-em-cultura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=620563","title":{"rendered":"Muito al\u00e9m da Lei Rouanet: como os outros pa\u00edses est\u00e3o investindo bilh\u00f5es em cultura"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody-module-scss-module__8_WGKG__postBodyContainer\">\n<p>Quando a California Film Commission anunciou recentemente a destina\u00e7\u00e3o de US$ 193 milh\u00f5es em cr\u00e9ditos tribut\u00e1rios para 38 produ\u00e7\u00f5es audiovisuais, o objetivo ia muito al\u00e9m de incentivar novos filmes. A medida busca manter empregos, atrair investimentos, fortalecer a economia local e preservar a competitividade da ind\u00fastria cinematogr\u00e1fica do estado. O epis\u00f3dio \u00e9 mais um exemplo de uma estrat\u00e9gia adotada pelas principais economias do mundo: tratar a cultura como um ativo econ\u00f4mico e social.<\/p>\n<p>Essa vis\u00e3o est\u00e1 longe de ser uma exclusividade dos Estados Unidos. Segundo a UNESCO, as ind\u00fastrias culturais e criativas representam 3,1% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial, movimentam mais de US$ 2 trilh\u00f5es por ano e geram cerca de 50 milh\u00f5es de empregos, empregando, proporcionalmente, mais jovens entre 15 e 29 anos do que qualquer outro setor da economia. A criatividade deixou de ser apenas express\u00e3o art\u00edstica para se tornar um importante vetor de desenvolvimento, inova\u00e7\u00e3o e competitividade.<\/p>\n<p>No Brasil, entretanto, o debate sobre incentivos fiscais \u00e0 cultura ainda costuma ser cercado de desinforma\u00e7\u00e3o. A Lei Rouanet, criada em 1991, frequentemente \u00e9 apresentada como uma exce\u00e7\u00e3o ou um privil\u00e9gio brasileiro, quando, na realidade, faz parte de um modelo amplamente adotado em diversas economias desenvolvidas. Por meio do mecanismo, empresas e pessoas f\u00edsicas podem destinar parte do imposto devido ao financiamento de projetos culturais previamente aprovados, fortalecendo um setor que emprega milhares de profissionais e movimenta uma extensa cadeia produtiva.<\/p>\n<p>Ao longo de mais de tr\u00eas d\u00e9cadas, a Lei Rouanet viabilizou milhares de projetos em todas as regi\u00f5es do pa\u00eds, abrangendo produ\u00e7\u00f5es audiovisuais, exposi\u00e7\u00f5es, festivais, espet\u00e1culos, museus, a\u00e7\u00f5es de preserva\u00e7\u00e3o do patrim\u00f4nio hist\u00f3rico e iniciativas de forma\u00e7\u00e3o art\u00edstica. Mais do que financiar cultura, ela contribui para descentralizar investimentos, democratizar o acesso e impulsionar economias locais. Mas basta olhar para fora para perceber que esse modelo est\u00e1 longe de ser uma peculiaridade brasileira.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Quando governos criam mecanismos para estimular investimentos culturais, os benef\u00edcios ultrapassam o palco, as telas ou os museus. Cada projeto realizado mobiliza profissionais das mais diversas \u00e1reas<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Nos Estados Unidos, embora n\u00e3o exista uma legisla\u00e7\u00e3o federal equivalente, diversos estados utilizam programas de incentivos fiscais para atrair produ\u00e7\u00f5es audiovisuais, movimentando bilh\u00f5es de d\u00f3lares e disputando investimentos entre si. O pr\u00f3prio cr\u00e9dito tribut\u00e1rio da Calif\u00f3rnia busca evitar que est\u00fadios transfiram suas produ\u00e7\u00f5es para outros estados ou pa\u00edses que oferecem condi\u00e7\u00f5es mais competitivas.<\/p>\n<p>Na Fran\u00e7a, considerada uma das maiores refer\u00eancias mundiais em pol\u00edticas culturais, a Lei Aillagon permite que empresas deduzam at\u00e9 60% do valor investido em projetos culturais, respeitados os limites proporcionais ao faturamento. Pessoas f\u00edsicas tamb\u00e9m contam com incentivos fiscais para doa\u00e7\u00f5es, fortalecendo museus, institui\u00e7\u00f5es culturais e projetos de preserva\u00e7\u00e3o do patrim\u00f4nio hist\u00f3rico.<\/p>\n<p>O Reino Unido segue caminho semelhante por meio de incentivos espec\u00edficos para cinema, televis\u00e3o, teatro, <em>videogames<\/em> e orquestras, enquanto o Canad\u00e1 mant\u00e9m fundos nacionais voltados ao fortalecimento da produ\u00e7\u00e3o audiovisual. J\u00e1 a Coreia do Sul tornou-se um dos exemplos mais emblem\u00e1ticos do impacto econ\u00f4mico da cultura. Ao longo de d\u00e9cadas, o pa\u00eds estruturou pol\u00edticas p\u00fablicas de incentivo \u00e0s ind\u00fastrias criativas que ajudaram a transformar o chamado <em>Hallyu<\/em>, a onda cultural coreana, em um dos maiores fen\u00f4menos de exporta\u00e7\u00e3o de conte\u00fado do planeta. Hoje, m\u00fasica, cinema, s\u00e9ries e entretenimento representam importantes ativos econ\u00f4micos e de influ\u00eancia internacional.<\/p>\n<p>Apesar das diferen\u00e7as entre os modelos, existe um consenso entre essas na\u00e7\u00f5es: cultura n\u00e3o \u00e9 apenas express\u00e3o art\u00edstica; \u00e9 tamb\u00e9m pol\u00edtica de desenvolvimento.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>Quando governos criam mecanismos para estimular investimentos culturais, os benef\u00edcios ultrapassam o palco, as telas ou os museus. Cada projeto realizado mobiliza profissionais das mais diversas \u00e1reas, como t\u00e9cnicos, produtores, cen\u00f3grafos, figurinistas, <em>designers<\/em>, empresas de tecnologia, gr\u00e1ficas, hot\u00e9is, restaurantes, transportadoras e prestadores de servi\u00e7os. Trata-se de uma cadeia econ\u00f4mica extensa, capaz de gerar emprego, renda, arrecada\u00e7\u00e3o tribut\u00e1ria e dinamizar o com\u00e9rcio local.<\/p>\n<p>Al\u00e9m dos impactos econ\u00f4micos diretos, h\u00e1 ganhos intang\u00edveis igualmente relevantes. A produ\u00e7\u00e3o cultural fortalece a identidade nacional, preserva a mem\u00f3ria coletiva, estimula o turismo, amplia a proje\u00e7\u00e3o internacional dos pa\u00edses e contribui para aquilo que especialistas chamam de <em>soft power<\/em>, que \u00e9 a capacidade de influenciar o mundo por meio da cultura, da criatividade e da inova\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nesse contexto, reduzir os incentivos culturais a uma simples ren\u00fancia fiscal significa ignorar seu potencial como instrumento de desenvolvimento. Pa\u00edses que disputam protagonismo global compreenderam que investir em cultura \u00e9 investir tamb\u00e9m em educa\u00e7\u00e3o, economia, inova\u00e7\u00e3o e reputa\u00e7\u00e3o internacional.<\/p>\n<p>O Brasil integra esse movimento. Al\u00e9m da Lei Rouanet, iniciativas como a Lei Paulo Gustavo, a Pol\u00edtica Nacional Aldir Blanc e diversos programas estaduais e municipais demonstram que o pa\u00eds disp\u00f5e de instrumentos importantes para fortalecer sua economia criativa. O desafio n\u00e3o est\u00e1 em questionar a exist\u00eancia desses mecanismos, mas em aperfei\u00e7o\u00e1-los continuamente, ampliando transpar\u00eancia, efici\u00eancia e acesso.<\/p>\n<p>Enquanto algumas na\u00e7\u00f5es ainda discutem quanto investir em cultura, outras j\u00e1 entenderam que a verdadeira pergunta \u00e9 quanto custa deixar de investir. Em uma economia cada vez mais baseada em conhecimento, criatividade e propriedade intelectual, fomentar a cultura deixou de ser apenas uma pol\u00edtica cultural. Tornou-se uma estrat\u00e9gia de desenvolvimento econ\u00f4mico, gera\u00e7\u00e3o de oportunidades e constru\u00e7\u00e3o de futuro.<\/p>\n<p><em><strong>Vanessa Pires <\/strong>\u00e9 CEO da Brada.<\/em><\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando a California Film Commission anunciou recentemente a destina\u00e7\u00e3o de US$ 193 milh\u00f5es em cr\u00e9ditos tribut\u00e1rios para 38 produ\u00e7\u00f5es audiovisuais,&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":620564,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[204],"tags":[],"class_list":["post-620563","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ultimas-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/620563","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=620563"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/620563\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/620564"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=620563"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=620563"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=620563"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}