{"id":618706,"date":"2026-08-05T13:50:44","date_gmt":"2026-08-05T17:50:44","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=618706"},"modified":"2026-08-05T13:50:44","modified_gmt":"2026-08-05T17:50:44","slug":"djamila-ribeiro-discorda-mas-nao-deixa-discordar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=618706","title":{"rendered":"Djamila Ribeiro discorda, mas n\u00e3o deixa discordar"},"content":{"rendered":"<div class=\"postLayout-module-scss-module__08MJ-a__postContent\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/media.gazetadopovo.com.br\/2026\/08\/05143444\/djamila-ribeiro-960x540.jpg.webp\" \/><span>A fil\u00f3sofa e escritora Djamila Ribeiro. (Foto: Ettore Chiereguini\/C\u00e2mara dos Deputados)<\/span>\n<p>Ou\u00e7a este conte\u00fado<\/p>\n<div class=\"postBody-module-scss-module__8_WGKG__postBodyContainer\">\n<p>Eu tinha um argumento pronto contra o conceito de lugar de fala. Ele durou 37 p\u00e1ginas. Djamila Ribeiro relan\u00e7a o conceito num curso novo, e a not\u00edcia me deu vontade de reler o livro de 2017 com ele aberto na mesa e a caneta na m\u00e3o.<\/p>\n<p>Meu argumento era o de sempre, o que se ouve em qualquer mesa de bar \u00e0 direita: que o conceito reduz a verdade \u00e0 viv\u00eancia e termina num essencialismo de balc\u00e3o. O livro responde antes de ser perguntado. Diz, com todas as letras, que a coisa n\u00e3o tem absolutamente nada a ver com a vis\u00e3o essencialista de que somente o negro pode falar sobre <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/racismo\/\">racismo<\/a>. Diz que o lugar social n\u00e3o determina a consci\u00eancia discursiva de quem o ocupa. Diz que todos t\u00eam lugar de fala e que um homem branco pode teorizar sobre a realidade de quem ele n\u00e3o \u00e9. Concedo tudo sem barganhar. Quem ataca o conceito por a\u00ed briga com um texto que n\u00e3o existe. Eu estava.<\/p>\n<p>O problema come\u00e7a depois. A certa altura do livro vem uma lista do que o sujeito branco alega ao ser confrontado com o que preferiria n\u00e3o saber: n\u00e3o saber, n\u00e3o conhecer, n\u00e3o lembrar, n\u00e3o acreditar ou n\u00e3o ter sido convencido. Tudo comparece como repress\u00e3o, no sentido freudiano.<\/p>\n<p>Leia devagar. Os quatro primeiros descrevem algu\u00e9m que se esquiva e se faz de morto. O quinto descreve outra pessoa: ficou na sala, ouviu at\u00e9 o fim e respondeu que n\u00e3o. Fez o que se pedia dela, e entrou na mesma lista, com o mesmo diagn\u00f3stico.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Sou contra o lugar de fala quando ele deixa de ser uma descri\u00e7\u00e3o das desigualdades da escuta e passa a funcionar como tribunal da legitimidade da fala<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>A diferen\u00e7a parece pequena. Ponha a cena numa sala de aula, que \u00e9 onde eu trabalho. Quando digo a um aluno que ele est\u00e1 errado, fa\u00e7o a ele um elogio disfar\u00e7ado: suponho que podia ter acertado, que estava tentando, que vale a pena me responder. A conversa continua e eu posso perder. Quando digo que ele est\u00e1 se defendendo de alguma coisa, acabou. Ele n\u00e3o tem jogada. Se concorda, provou que eu tinha raz\u00e3o; se discorda, provou duas vezes, porque a discord\u00e2ncia era o sintoma que anunciei.<\/p>\n<p>Dir\u00e3o que a lista apenas descreve um padr\u00e3o e n\u00e3o manda ningu\u00e9m calar a boca. Aceito. S\u00f3 que, lido como mera descri\u00e7\u00e3o, o quinto item n\u00e3o acrescenta nada aos quatro anteriores, que j\u00e1 d\u00e3o conta de quem se esquiva. Ele s\u00f3 trabalha se alcan\u00e7ar quem ouviu e respondeu.<\/p>\n<p>Agora o essencial, e n\u00e3o precisa de r\u00e9gua nenhuma trazida de fora. O livro objeta. Poucas p\u00e1ginas antes daquela lista, ele contesta Susan Hekman, professora americana que escrevera sobre a teoria do ponto de vista: mostra onde ela leu mal, d\u00e1 raz\u00f5es, oferece corre\u00e7\u00e3o. N\u00e3o disse que ela reprimia coisa alguma, o que teria sido fac\u00edlimo e encerraria o assunto. Tratou-a como quem erra, que \u00e9 o tratamento devido a quem participa de uma discuss\u00e3o. E logo em seguida estende a mesma avalia\u00e7\u00e3o aos cr\u00edticos brasileiros do conceito, gente sem cadeira em revista americana, igualmente tratada como quem erra e pode ser corrigido.<\/p>\n<p>Meia d\u00fazia de p\u00e1ginas depois, quem discorda aparece na lista dos sintomas.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>O livro reivindicou para si o direito de discordar de uma professora que n\u00e3o estava ali para responder. Ao reivindic\u00e1-lo, reconheceu que discordar \u00e9 movimento leg\u00edtimo. Depois, retirou esse direito de quem discorda dele. A jogada \u00e9 a mesma nas duas pontas e funciona numa dire\u00e7\u00e3o s\u00f3. N\u00e3o imputo inten\u00e7\u00e3o a ningu\u00e9m: o dispositivo dispensa a inten\u00e7\u00e3o para funcionar. Ele classifica a obje\u00e7\u00e3o antes de l\u00ea-la.<\/p>\n<p>Da\u00ed vem a minha posi\u00e7\u00e3o sobre o conceito, e ela \u00e9 contr\u00e1ria. O que o lugar de fala acerta j\u00e1 tinha nome. A distribui\u00e7\u00e3o desigual do benef\u00edcio da d\u00favida \u00e9 a injusti\u00e7a testemunhal que Miranda Fricker descreveu em 2007, e o nome dela n\u00e3o cobra ped\u00e1gio: dizer que algu\u00e9m recebe menos cr\u00e9dito do que merece n\u00e3o classifica quem discorda. O que o lugar de fala acrescenta \u00e9 a ancoragem, a legitimidade da fala decidida pela posi\u00e7\u00e3o de quem fala. \u00c9 essa parte, a parte pr\u00f3pria, que produz a lista. O conceito \u00e9 dispens\u00e1vel onde acerta, e o que tem de seu \u00e9 o que faz o estrago.<\/p>\n<p>Sou contra o lugar de fala quando ele deixa de ser uma descri\u00e7\u00e3o das desigualdades da escuta e passa a funcionar como tribunal da legitimidade da fala.<\/p>\n<p>Aplico a r\u00e9gua na minha casa antes que me acusem de poup\u00e1-la. Sou cat\u00f3lico, e a autoridade em que assento a minha f\u00e9 n\u00e3o se submete ao exame de qualquer interlocutor: pela conta que acabei de fazer, ela est\u00e1 devendo tamb\u00e9m. O que me resta \u00e9 dizer por que creio, encaixar a obje\u00e7\u00e3o de quem n\u00e3o cr\u00ea e resistir \u00e0 sa\u00edda de trat\u00e1-lo como paciente. A f\u00e9 que responde \u201cvoc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 em posi\u00e7\u00e3o de entender\u201d recebe defer\u00eancia e perde cr\u00e9dito, como o resto.<\/p>\n<blockquote>\n<p>N\u00e3o creio que a posi\u00e7\u00e3o social constitua o sujeito, e creio que h\u00e1 em cada pessoa alguma coisa que n\u00e3o \u00e9 produto do lugar onde ela nasceu<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Sobra um custo, e ele recai sobre quem o conceito pretendia proteger. Quem n\u00e3o pode ser desafiado tamb\u00e9m n\u00e3o pode ser levado a s\u00e9rio. Assentimento que eu n\u00e3o tinha permiss\u00e3o para negar \u00e9 a cara que se faz para o chefe. Ganha-se imunidade e perde-se cr\u00e9dito.<\/p>\n<p>Devo dizer de onde falo, j\u00e1 que o assunto \u00e9 esse. Meu desacordo com o livro \u00e9 mais antigo e mais fundo do que qualquer p\u00e1gina dele: n\u00e3o creio que a posi\u00e7\u00e3o social constitua o sujeito, e creio que h\u00e1 em cada pessoa alguma coisa que n\u00e3o \u00e9 produto do lugar onde ela nasceu. Isso \u00e9 fundamento antropol\u00f3gico, e n\u00e3o foi o que discuti aqui. Discuti se o livro obedece \u00e0s regras que ele mesmo estabelece \u2013 porque, antes de saber quem tem a antropologia certa, \u00e9 preciso saber se a conversa entre n\u00f3s continua poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Fechei o livro sem mudar de ideia sobre quase nada. Mudei sobre o argumento com que comecei: morreu na p\u00e1gina 37 e n\u00e3o voltou. \u00c9 pouco, e \u00e9 tudo o que esse livro pode fazer comigo.<\/p>\n<\/div>\n<p>Conte\u00fado editado por: <a title=\"Link para o perfil de Marcio Antonio Campos\" href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/autor\/marcio-antonio-campos\/\">Marcio Antonio Campos<\/a><\/p>\n<p>Encontrou algo errado na mat\u00e9ria?<\/p>\n<p>Comunique erros<\/p>\n<p>Use este espa\u00e7o apenas para a comunica\u00e7\u00e3o de erros<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A fil\u00f3sofa e escritora Djamila Ribeiro. 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