{"id":613521,"date":"2026-08-04T05:02:00","date_gmt":"2026-08-04T09:02:00","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=613521"},"modified":"2026-08-04T05:02:00","modified_gmt":"2026-08-04T09:02:00","slug":"a-licao-de-maquiavel-por-que-a-escolha-do-vice-nao-e-mero-detalhe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=613521","title":{"rendered":"A li\u00e7\u00e3o de Maquiavel: por que a escolha do vice n\u00e3o \u00e9 mero detalhe"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody-module-scss-module__8_WGKG__postBodyContainer\">\n<p>A l\u00f3gica desenvolvida por Nicolau Maquiavel em <em>O Pr\u00edncipe<\/em> parece dialogar com a tentativa de Valdemar da Costa Neto, desde 2022, de viabilizar Tereza Cristina como vice ideal \u00e0 Presid\u00eancia da Rep\u00fablica.<\/p>\n<p>Sob a \u00f3tica do pai da pol\u00edtica moderna, alian\u00e7as n\u00e3o existem para embelezar chapas, mas para alterar a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as, sobretudo quando conseguem furar a bolha dos pr\u00f3prios apoiadores. Nesse ponto, a escolha feita em 2022 falhou: n\u00e3o agregou votos em outros segmentos do eleitorado, n\u00e3o ampliou a prote\u00e7\u00e3o pol\u00edtica em um ambiente hostil e tampouco criou qualquer depend\u00eancia estrat\u00e9gica capaz de elevar o custo de eventuais investidas dos advers\u00e1rios. Em outras palavras, foi uma alian\u00e7a in\u00f3cua \u2013 e, para Maquiavel, alian\u00e7as in\u00f3cuas s\u00e3o erros. Esse \u00e9 precisamente o tipo de equ\u00edvoco que n\u00e3o poderia ser repetido em 2026.<\/p>\n<p>Desde que este texto foi concebido, os movimentos pol\u00edticos refor\u00e7aram ainda mais a centralidade dessa discuss\u00e3o. A defesa p\u00fablica da senadora Tereza Cristina (PP) pelo presidente do PL, o reposicionamento \u2013 ou a neutralidade \u2013 de partidos do centro e as dificuldades enfrentadas pela oposi\u00e7\u00e3o demonstram que a escolha do vice deixou de ser uma formalidade para se tornar um dos principais c\u00e1lculos estrat\u00e9gicos da sucess\u00e3o presidencial.<\/p>\n<p>Muito se fala sobre o tema sob diferentes enfoques \u2013 setor produtivo, recortes estat\u00edsticos, arranjos partid\u00e1rios e impactos eleitorais nos principais col\u00e9gios do pa\u00eds. Mas o ponto central \u00e9 outro. Em Maquiavel, n\u00e3o basta somar; \u00e9 preciso somar com utilidade estrat\u00e9gica, seja para ampliar apoio, seja para reduzir riscos.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Com o avan\u00e7o do calend\u00e1rio eleitoral, as margens para tentativa e erro diminuem. A escolha do vice deixa de ser um exerc\u00edcio de marketing pol\u00edtico para voltar a ser aquilo que Maquiavel provavelmente reconheceria de imediato: uma decis\u00e3o sobre sobreviv\u00eancia, estabilidade e arquitetura do poder<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Nesse contexto, a escolha do vice deixa de ser um detalhe protocolar e passa a ser um dos movimentos mais relevantes da disputa. N\u00e3o por acaso, a hist\u00f3ria pol\u00edtica brasileira \u00e9 pr\u00f3diga em exemplos de vice-presidentes que terminaram mandatos presidenciais, o que revela que o cargo, embora frequentemente subestimado, \u00e9 estrutural, sobretudo para o dia seguinte \u00e0 posse.<\/p>\n<p>Se o pr\u00f3ximo pleito ser\u00e1, como se diz, uma elei\u00e7\u00e3o marcada por elevados \u00edndices de rejei\u00e7\u00e3o, em um cen\u00e1rio de desgaste relevante do governo \u2013 ainda que sempre se possa contar com a for\u00e7a da m\u00e1quina p\u00fablica \u2013, a l\u00f3gica maquiaveliana imp\u00f5e \u00e0 oposi\u00e7\u00e3o um crit\u00e9rio simples: o vice ideal n\u00e3o \u00e9 o mais leal, nem o mais simb\u00f3lico, mas aquele que torna a vit\u00f3ria mais prov\u00e1vel, preserva melhores condi\u00e7\u00f5es de governabilidade e reduz os custos de uma eventual derrota.<\/p>\n<p>\u00c0 medida que as conven\u00e7\u00f5es partid\u00e1rias se aproximam, as conversas deixam de girar em torno de afinidades pessoais e passam a revelar preocupa\u00e7\u00f5es com governabilidade, amplia\u00e7\u00e3o da base pol\u00edtica, demonstra\u00e7\u00e3o de resili\u00eancia em meio \u00e0 crise e capacidade de sustenta\u00e7\u00e3o institucional.<\/p>\n<p>A experi\u00eancia recente da pol\u00edtica brasileira oferece exemplos eloquentes desse padr\u00e3o. Em 2022, a composi\u00e7\u00e3o vencedora demonstrou maior ader\u00eancia a essa l\u00f3gica: a escolha do vice n\u00e3o decorreu de afinidade simb\u00f3lica, mas de utilidade estrat\u00e9gica.<\/p>\n<p>H\u00e1, ainda, um dado curioso \u2013 e pouco explorado \u2013 na trajet\u00f3ria eleitoral de Luiz In\u00e1cio Lula da Silva: em todas as disputas presidenciais que protagonizou, jamais escolheu uma mulher como candidata a vice. \u00c9 verdade que foi respons\u00e1vel por conduzir Dilma Rousseff \u00e0 Presid\u00eancia da Rep\u00fablica, o que est\u00e1 longe de ser um movimento trivial. Ainda assim, esse gesto tamb\u00e9m pode ser lido, sob uma perspectiva maquiaveliana, como uma decis\u00e3o voltada \u00e0 preserva\u00e7\u00e3o do controle pol\u00edtico: uma sucessora constru\u00edda internamente, sem base aut\u00f4noma consolidada, favorecendo maior continuidade e menor risco de dissid\u00eancia.<\/p>\n<p>Em outras palavras, quando o poder est\u00e1 em jogo, a pol\u00edtica tende a abandonar s\u00edmbolos e a operar por crit\u00e9rios mais duros, como previsibilidade e controle. A manuten\u00e7\u00e3o de Geraldo Alckmin como vice demonstra precisamente esse racioc\u00ednio: mais do que afinidade, trata-se de preservar uma composi\u00e7\u00e3o que j\u00e1 produziu resultados pol\u00edticos relevantes.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>Por isso, a escolha do vice em 2026, no campo da direita, n\u00e3o pode repetir o erro de 2022. Precisa ser uma alian\u00e7a real, pragm\u00e1tica e funcional, capaz de produzir efeitos concretos na disputa. Caso contr\u00e1rio, n\u00e3o ser\u00e1 uma alian\u00e7a \u2013 ser\u00e1 apenas companhia.<\/p>\n<p>Sob essa perspectiva, ganha sentido a insist\u00eancia de Valdemar da Costa Neto em torno do nome de Tereza Cristina. Independentemente de a composi\u00e7\u00e3o vir ou n\u00e3o a se concretizar \u2013 e mesmo diante das negativas p\u00fablicas da senadora \u2013, a hip\u00f3tese revela um racioc\u00ednio estrat\u00e9gico consistente: ampliar a interlocu\u00e7\u00e3o com o agroneg\u00f3cio, reduzir resist\u00eancias no eleitorado feminino, fortalecer pontes com partidos de centro e aumentar as chances de forma\u00e7\u00e3o de uma coaliz\u00e3o de governo e de uma maioria parlamentar, ainda que inicial e naturalmente vol\u00e1til.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que a defini\u00e7\u00e3o da chapa ainda n\u00e3o se consolidou e que outros nomes continuam sendo cogitados. Mas os principais articuladores pol\u00edticos sabem que nem todas as composi\u00e7\u00f5es produzem o mesmo efeito: algumas agregam apenas no curto prazo, enquanto outras estruturam a disputa desde o primeiro turno at\u00e9 o exerc\u00edcio do poder.<\/p>\n<p>Com o avan\u00e7o do calend\u00e1rio eleitoral, as margens para tentativa e erro diminuem. A escolha do vice deixa de ser um exerc\u00edcio de marketing pol\u00edtico para voltar a ser aquilo que Maquiavel provavelmente reconheceria de imediato: uma decis\u00e3o sobre sobreviv\u00eancia, estabilidade e arquitetura do poder. \u00c9 justamente por isso que algumas alian\u00e7as entram para a hist\u00f3ria, enquanto outras permanecem apenas como companhia.<\/p>\n<p>Se h\u00e1 uma li\u00e7\u00e3o que a leitura de <em>O Pr\u00edncipe<\/em> parece oferecer ao debate atual, \u00e9 que a boa pol\u00edtica n\u00e3o consiste em surpreender por surpreender, mas em estruturar o poder de modo que os riscos assumidos sejam estrat\u00e9gicos, e n\u00e3o fruto do improviso.<\/p>\n<p><em><strong>Hudson Alves da Silva Lima<\/strong>, advogado, \u00e9 p\u00f3s-graduado em Processo Civil.<\/em><\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A l\u00f3gica desenvolvida por Nicolau Maquiavel em O Pr\u00edncipe parece dialogar com a tentativa de Valdemar da Costa Neto, desde&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":613522,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[204],"tags":[],"class_list":["post-613521","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ultimas-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/613521","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=613521"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/613521\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/613522"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=613521"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=613521"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=613521"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}