{"id":611576,"date":"2026-08-03T16:05:14","date_gmt":"2026-08-03T20:05:14","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=611576"},"modified":"2026-08-03T16:05:14","modified_gmt":"2026-08-03T20:05:14","slug":"nova-portaria-do-tse-incentiva-remocao-preventiva-de-conteudos-eleitorais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=611576","title":{"rendered":"Nova portaria do TSE incentiva remo\u00e7\u00e3o preventiva de conte\u00fados eleitorais"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody-module-scss-module__8_WGKG__postBodyContainer\">\n<p>O Tribunal Superior Eleitoral (TSE)\u00a0publicou, na \u00faltima quinta-feira (30), uma portaria impondo uma s\u00e9rie de obriga\u00e7\u00f5es para que, durante o per\u00edodo de campanha, as\u00a0grandes empresas de tecnologia que operam redes sociais monitorem de forma ativa conte\u00fados que, no entendimento do tribunal, contenham &#8220;fatos notoriamente inver\u00eddicos ou gravemente descontextualizados capazes de afetar a integridade eleitoral&#8221;.<\/p>\n<p>A proibi\u00e7\u00e3o desse tipo de publica\u00e7\u00e3o nas redes, pelos pr\u00f3prios usu\u00e1rios, foi estabelecida em 2019 pelo TSE que, desde ent\u00e3o, tem ampliado a press\u00e3o e a fiscaliza\u00e7\u00e3o sobre as plataformas para conter a dissemina\u00e7\u00e3o de conte\u00fados assim classificados.<\/p>\n<p>A nova portaria se inspira no julgamento do Marco Civil da Internet (MCI), realizado no ano passado pelo Supremo Tribunal Federal (STF), que aumentou a responsabilidade jur\u00eddica das redes pelo conte\u00fado postado por usu\u00e1rios. A decis\u00e3o obriga as plataformas a implementar o chamado &#8220;dever de cuidado&#8221;: na pr\u00e1tica, dilig\u00eancia permanente para apagar conte\u00fados que, presumidamente, podem caracterizar crimes e ofensas.<\/p>\n<p>Nas elei\u00e7\u00f5es deste ano, o TSE passou a exigir delas planos abrangentes de conformidade, descrevendo as tecnologias e medidas que ser\u00e3o adotadas para remover textos, imagens e v\u00eddeos que se enquadrem em material proibido. Segundo a nova portaria, as empresas ter\u00e3o at\u00e9 16 de agosto (dia em que come\u00e7a a campanha oficial) para apresentar esse plano ao tribunal.<\/p>\n<p>Para analistas consultados pela <strong>Gazeta do Povo<\/strong>, o maior risco \u00e9 de remo\u00e7\u00e3o excessiva de conte\u00fados, a depender da forma como as regras ser\u00e3o aplicadas.\u00a0<\/p>\n<p>A Portaria n\u00ba 463\/2026 exige detalhes da opera\u00e7\u00e3o das redes, a estrutura de governan\u00e7a das empresas e os mecanismos utilizados para identificar conte\u00fados de risco, moderar publica\u00e7\u00f5es, combater redes de comportamento inaut\u00eantico, lidar com\u00a0conte\u00fados\u00a0produzidos por intelig\u00eancia artificial e atender \u00e0s determina\u00e7\u00f5es da Justi\u00e7a Eleitoral.\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>Embora o texto afirme que busca preservar a autonomia t\u00e9cnica das plataformas e que n\u00e3o estabelece metas obrigat\u00f3rias de remo\u00e7\u00e3o de conte\u00fado, alguns dispositivos passaram a ser alvo de questionamentos de especialistas em Direito Eleitoral. Entre eles, est\u00e3o a previs\u00e3o de modera\u00e7\u00e3o proativa de conte\u00fados e a exig\u00eancia de indicadores de desempenho para demonstrar a efetividade das medidas adotadas.<\/p>\n<p>Especialistas alertam que a implementa\u00e7\u00e3o da portaria exigir\u00e1 cuidado para evitar que o refor\u00e7o dos deveres de modera\u00e7\u00e3o acabe produzindo um efeito colateral: a remo\u00e7\u00e3o preventiva de conte\u00fados potencialmente l\u00edcitos, com impactos sobre a liberdade de express\u00e3o.\u00a0<\/p>\n<p>&#8220;Ao decidir sozinha o que \u00e9 &#8216;notoriamente inver\u00eddico&#8217;, por exemplo, a plataforma exerce uma fun\u00e7\u00e3o historicamente reservada ao Judici\u00e1rio, sob incentivo de errar para um lado ou para outro, o que pode sufocar o debate pol\u00edtico leg\u00edtimo e a liberdade de express\u00e3o&#8221;, afirma\u00a0o advogado especialista em Direito Eleitoral Peterson Vivan.<\/p>\n<p>A\u00a0<strong>Gazeta do Povo<\/strong>\u00a0procurou as principais plataformas Meta (Facebook, Instagram e WhatsApp), Google,\u00a0Telegram, LinkedIn, X, TikTok e OpenAI para comentar a nova regulamenta\u00e7\u00e3o. At\u00e9 a publica\u00e7\u00e3o desta reportagem, apenas Meta e Google responderam, mas informaram que n\u00e3o comentar\u00e3o a resolu\u00e7\u00e3o. As demais empresas n\u00e3o responderam. Todas elas firmaram parcerias com o TSE para combater a desinforma\u00e7\u00e3o nas elei\u00e7\u00f5es deste ano.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<h2>Regras podem incentivar\u00a0remo\u00e7\u00e3o de conte\u00fado\u00a0antes de ordem judicial\u00a0<\/h2>\n<p>Um dos dispositivos\u00a0da portaria do TSE\u00a0determina que os planos de conformidade dever\u00e3o detalhar os mecanismos adotados pelas plataformas para realizar a indisponibiliza\u00e7\u00e3o ou modera\u00e7\u00e3o, &#8220;por iniciativa pr\u00f3pria e independentemente de ordem judicial pr\u00e9via&#8221;, de conte\u00fados classificados como notoriamente inver\u00eddicos ou gravemente descontextualizados capazes de comprometer a integridade do processo eleitoral.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m dever\u00e3o explicar como interrompem a monetiza\u00e7\u00e3o e o impulsionamento desse tipo de conte\u00fado.\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>Para o advogado Peterson Vivan, especialista em Direito Eleitoral, a combina\u00e7\u00e3o entre conceitos jur\u00eddicos abertos \u2014 como &#8220;conte\u00fado notoriamente inver\u00eddico&#8221; e &#8220;gravemente descontextualizado&#8221; \u2014 e o risco de responsabiliza\u00e7\u00e3o faz com que a op\u00e7\u00e3o mais segura para as empresas seja retirar o conte\u00fado antes mesmo de eventual manifesta\u00e7\u00e3o judicial.<\/p>\n<p>&#8220;Como os conceitos s\u00e3o abertos e a omiss\u00e3o gera risco de responsabilidade solid\u00e1ria, a decis\u00e3o mais segura para a plataforma tende a ser remover primeiro e discutir depois&#8221;, afirma.\u00a0<\/p>\n<p>Para\u00a0Antonio\u00a0Carlos de Freitas J\u00fanior, doutor em Direito Constitucional pela Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), a portaria\u00a0aumenta significativamente o grau de supervis\u00e3o exercido pelo TSE sobre as plataformas.<\/p>\n<p>&#8220;A Portaria n\u00e3o\u00a0cria novas\u00a0hip\u00f3teses de remo\u00e7\u00e3o de conte\u00fado. O que ela faz \u00e9 refor\u00e7ar um modelo de modera\u00e7\u00e3o proativa que j\u00e1 existia. A diferen\u00e7a est\u00e1 no n\u00edvel de exig\u00eancia: agora, n\u00e3o basta que as plataformas ajam, elas precisam mostrar como agem&#8221;, afirma.\u00a0<\/p>\n<p>Segundo ele, o tribunal deixa de observar apenas o cumprimento das decis\u00f5es judiciais para avaliar tamb\u00e9m a estrutura interna criada pelas empresas para detectar e responder rapidamente a conte\u00fados considerados de risco.\u00a0<\/p>\n<p>&#8220;Na pr\u00e1tica, isso tende a antecipar a atua\u00e7\u00e3o das plataformas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 interven\u00e7\u00e3o judicial&#8221;, aponta Freitas J\u00fanior.\u00a0<\/p>\n<p>Na avalia\u00e7\u00e3o do constitucionalista, trata-se de um modelo baseado na gest\u00e3o de riscos, em que a demonstra\u00e7\u00e3o da capacidade institucional das plataformas passa a ter papel central na fiscaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O advogado de Direito Digital e professor do Ibmec Bras\u00edlia Rodolfo Tamanaha acrescenta que a base constitucional para a remo\u00e7\u00e3o por iniciativa pr\u00f3pria decorre da tese fixada pelo STF no julgamento em 2025 do Marco Civil da Internet (Temas 987 e 533), que dispensou ordem judicial pr\u00e9via para responsabiliza\u00e7\u00e3o de plataformas em mat\u00e9ria eleitoral. Sendo assim, para ele, a portaria &#8220;formaliza um dever de transpar\u00eancia sobre como essa modera\u00e7\u00e3o j\u00e1 existente \u00e9 exercida&#8221;.<\/p>\n<h2>Indicadores de desempenho\u00a0podem gerar\u00a0risco de\u00a0bloqueio excessivo\u00a0<\/h2>\n<p>Outro ponto que tem despertado aten\u00e7\u00e3o \u00e9\u00a0a\u00a0determina\u00e7\u00e3o para\u00a0que os planos de conformidade apresentem resultados esperados, trajet\u00f3ria de alcance e indicadores intermedi\u00e1rios capazes de medir a efetividade das medidas adotadas pelas plataformas.\u00a0Tais par\u00e2metros, na avalia\u00e7\u00e3o de analistas, podem resultar no chamado\u00a0<em>overblocking\u00a0<\/em>(do ingl\u00eas, bloqueio\u00a0excessivo), apesar de o texto tentar evit\u00e1-lo ao\u00a0apontar que eles\u00a0&#8220;n\u00e3o configuram meta quantitativa fixa de remo\u00e7\u00e3o de conte\u00fado nem garantia de resultado&#8221;.<\/p>\n<p>\u201cNa pr\u00e1tica, quem precisa demonstrar efetividade sob auditoria tende a remover mais, n\u00e3o menos. O incentivo \u00e9 indireto, mas real\u201d, observa Vivan.\u00a0<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, as empresas dever\u00e3o apresentar metodologias para medir a qualidade da modera\u00e7\u00e3o, incluindo indicadores como taxa de falsos positivos, recorr\u00eancia de conte\u00fados id\u00eanticos ap\u00f3s remo\u00e7\u00e3o e efici\u00eancia dos mecanismos utilizados. A portaria tamb\u00e9m autoriza o TSE a solicitar esclarecimentos, exigir complementa\u00e7\u00f5es e realizar auditorias t\u00e9cnicas sobre as informa\u00e7\u00f5es apresentadas.\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>Para Freitas J\u00fanior, o desenho regulat\u00f3rio privilegia a qualidade da modera\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o simplesmente o volume de conte\u00fados removidos.\u00a0<\/p>\n<p>Ainda assim, ele observa que sistemas baseados em indicadores de desempenho costumam alterar o comportamento dos agentes regulados.\u00a0<\/p>\n<p>&#8220;Dependendo de como esses indicadores forem interpretados e fiscalizados na pr\u00e1tica, as plataformas podem adotar uma postura mais conservadora para reduzir riscos regulat\u00f3rios, o que aumenta a preocupa\u00e7\u00e3o com epis\u00f3dios de\u00a0<em>overblocking<\/em>, ou seja, a remo\u00e7\u00e3o excessiva de conte\u00fados l\u00edcitos por excesso de cautela.&#8221;\u00a0<\/p>\n<p>Tamanaha indica que a aus\u00eancia de metas quantitativas de remo\u00e7\u00e3o n\u00e3o elimina a press\u00e3o por indicadores de efetividade. &#8220;Sob escrut\u00ednio p\u00fablico, a resposta institucional mais prov\u00e1vel de uma plataforma \u00e9 moderar com margem de seguran\u00e7a, retirando tamb\u00e9m conte\u00fado lim\u00edtrofe para n\u00e3o ser taxada de ineficiente ou morosa pelo TSE&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>Ele acrescenta que uma remo\u00e7\u00e3o precipitada tamb\u00e9m pode dificultar a responsabiliza\u00e7\u00e3o posterior dos autores das publica\u00e7\u00f5es irregulares, j\u00e1 que o conte\u00fado deixa de estar dispon\u00edvel como elemento probat\u00f3rio.<\/p>\n<h2>Regras do TSE ampliam\u00a0papel das plataformas\u00a0<\/h2>\n<p>Na avalia\u00e7\u00e3o do\u00a0constitucionalista\u00a0Antonio\u00a0Carlos de Freitas J\u00fanior, a portaria busca ampliar a capacidade do TSE de verificar se as plataformas est\u00e3o cumprindo os deveres j\u00e1 previstos na Resolu\u00e7\u00e3o n\u00ba 23.610\/2019, sem determinar quais tecnologias ou m\u00e9todos espec\u00edficos devem ser utilizados.\u00a0<\/p>\n<p>&#8220;A norma afirma que os provedores permanecem livres para definir os meios t\u00e9cnicos de implementa\u00e7\u00e3o, ao mesmo tempo em que exige informa\u00e7\u00f5es suficientes para permitir fiscaliza\u00e7\u00e3o independente. O modelo procura equilibrar autonomia privada e supervis\u00e3o regulat\u00f3ria.&#8221;\u00a0<\/p>\n<p>Apesar disso, Freitas J\u00fanior entende que a regulamenta\u00e7\u00e3o amplia o papel das empresas na preven\u00e7\u00e3o da desinforma\u00e7\u00e3o eleitoral.\u00a0<\/p>\n<p>&#8220;Ainda assim, \u00e9 ineg\u00e1vel que a\u00a0portaria amplia o papel das plataformas na preven\u00e7\u00e3o da desinforma\u00e7\u00e3o eleitoral, especialmente ao exigir mecanismos permanentes de monitoramento, classifica\u00e7\u00e3o de risco e modera\u00e7\u00e3o proativa.&#8221;\u00a0<\/p>\n<p>Neste contexto, o advogado Peterson Vivan explica que, na pr\u00e1tica, a plataforma deixa de atuar apenas como cumpridora de decis\u00f5es judiciais e passa a exercer um ju\u00edzo pr\u00e9vio sobre determinados conte\u00fados, o que levanta questionamentos sobre os limites entre modera\u00e7\u00e3o privada e controle judicial.\u00a0<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Tribunal Superior Eleitoral (TSE)\u00a0publicou, na \u00faltima quinta-feira (30), uma portaria impondo uma s\u00e9rie de obriga\u00e7\u00f5es para que, durante o&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":611557,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[204],"tags":[],"class_list":["post-611576","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ultimas-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/611576","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=611576"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/611576\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/611557"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=611576"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=611576"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=611576"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}