{"id":611503,"date":"2026-08-03T15:54:39","date_gmt":"2026-08-03T19:54:39","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=611503"},"modified":"2026-08-03T15:54:39","modified_gmt":"2026-08-03T19:54:39","slug":"a-vinganca-de-shakespeare","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=611503","title":{"rendered":"A vingan\u00e7a de Shakespeare"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody-module-scss-module__8_WGKG__postBodyContainer\">\n<p>Abusam de Shakespeare sem d\u00f3 nem piedade. Com demasiada frequ\u00eancia, o Bardo \u00e9 maltratado pelos propagandistas das ideologias modernas e pelos defensores dos modismos p\u00f3s-modernos. Ele \u00e9 fulminado pelo feminismo, \u201cexaminado\u201d pelas lentes da teoria queer e da loucura p\u00f3s-moderna, submetido \u00e0 desconstru\u00e7\u00e3o decadente, ao dogma marxista e aos arroubos p\u00f3s-coloniais. Agora, por\u00e9m, gra\u00e7as a um novo filme, <em><a href=\"https:\/\/vimeo.com\/380574860\/d850ca9a81\">The Bard Bites Back<\/a><\/em> (\u201cO Bardo revida\u201d, em tradu\u00e7\u00e3o livre), Shakespeare finalmente pode responder aos seus cr\u00edticos com a pr\u00f3pria voz e com sua presen\u00e7a fantasmag\u00f3rica. Depois de quatro s\u00e9culos revirando-se no t\u00famulo diante das leituras abusivas de sua obra, ele retorna do al\u00e9m para apontar um dedo acusador contra seus cr\u00edticos.<\/p>\n<p>O intr\u00e9pido produtor de <em>The Bard Bites Back<\/em>, David A. James, ressuscitou o Bardo de Avon para exorcizar os dem\u00f4nios que possuem o campo dos estudos e da cr\u00edtica shakespeariana. O exorcismo transforma-se numa impiedosa reprimenda, em que diversas escolas de cr\u00edtica s\u00e3o satirizadas com efeito devastador por meio de interpreta\u00e7\u00f5es hil\u00e1rias. O fantasma de Shakespeare, interpretado com grande seguran\u00e7a por John Flaus, observa com consterna\u00e7\u00e3o e desprezo enquanto uma sucess\u00e3o de \u201cacad\u00eamicos\u201d e \u201cespecialistas\u201d \u00e9 ridicularizada mediante a caricatura de seus pr\u00f3prios argumentos absurdos. Trata-se de uma s\u00e1tira que provoca gargalhadas, quase digna dos Monty Python, pelo uso magistral da <em>reductio ad absurdum<\/em> como instrumento de ridiculariza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>James, que tem doutorado sobre a dramaturgia de Shakespeare pela Universidade Monash, em Melbourne (Austr\u00e1lia), descreve <em>The Bard Bites Back<\/em>, lan\u00e7ado no in\u00edcio deste ano, como \u201cuma par\u00f3dia da academia shakespeariana\u201d. \u201cO filme foi muito bem em festivais\u201d, acrescenta, \u201ccom 16 indica\u00e7\u00f5es e quatro pr\u00eamios, ent\u00e3o as pessoas entenderam a piada\u201d.<\/p>\n<blockquote>\n<p>O intr\u00e9pido produtor de \u201c<em>The Bard Bites Back<\/em>\u201d, David A. James, ressuscitou o Bardo de Avon para exorcizar os dem\u00f4nios que possuem o campo dos estudos e da cr\u00edtica shakespeariana<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Outro aspecto do filme \u00e9 a adapta\u00e7\u00e3o musical de muitas das falas de Shakespeare, compostas pelo pr\u00f3prio James, que tamb\u00e9m \u00e9 m\u00fasico. Explicando que sempre foi \u201cencantado pela musicalidade de Shakespeare\u201d, ele prossegue:<\/p>\n<p><em>\u201cEste projeto come\u00e7ou como uma ideia musical. Sou m\u00fasico de jazz e passei anos examinando atentamente os textos de Shakespeare, at\u00e9 perceber algo. As t\u00e9cnicas de \u00eanfase e de ritmo utilizadas para executar uma melodia no jazz s\u00e3o as mesmas empregadas na interpreta\u00e7\u00e3o de Shakespeare. Decidi compor uma m\u00fasica que realmente correspondesse \u00e0 beleza da linguagem de Shakespeare, em vez de lhe impor algo artificial, e explorar a intera\u00e7\u00e3o entre m\u00fasicos improvisadores e atores. Gravei dois CDs, mas percebi que o mundo do jazz n\u00e3o demonstrou muito interesse. Ent\u00e3o resolvi escrever uma pe\u00e7a, que chegou a ser encenada, mas tamb\u00e9m foi dif\u00edcil lev\u00e1-la adiante. Foi ent\u00e3o que percebi que poderia fazer um filme. Eu j\u00e1 tinha a m\u00fasica, os v\u00eddeos e os atores. Foi assim que tudo surgiu.\u201d<\/em><\/p>\n<p>Quanto \u00e0 dimens\u00e3o sat\u00edrica, James havia se familiarizado com muitos dos grandes debates acad\u00eamicos durante seu doutorado, descrevendo alguns deles como \u201cextremamente divertidos\u201d. Tendo experi\u00eancia na escrita de s\u00e1tiras, elaborou um roteiro \u201cque zombasse um pouco de algumas das tolices que, tenho certeza, Shakespeare teria adorado\u201d.<\/p>\n<p>O passo seguinte, um verdadeiro golpe de genialidade, foi ressuscitar o pr\u00f3prio Bardo para que ele pudesse divertir-se \u00e0 custa de seus cr\u00edticos. \u201cMuitas vezes me pergunto como Shakespeare teria reagido \u00e0 fama que alcan\u00e7ou depois da morte\u201d, explica James. \u201cMeu palpite \u00e9 que o mundo afluiu a Shakespeare de tal maneira que ele passou a alegrar-se com a pr\u00f3pria vida, com o Ser. \u00c9 isso que o filme procura expressar e \u00e9 por isso que Shakespeare fala continuamente sobre a respira\u00e7\u00e3o, sobre o ato de estar vivo\u201d.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>Shakespeare certamente est\u00e1 mais vivo, na vida duradoura que insuflou em sua obra, do que as ideias mortas ou agonizantes de seus cr\u00edticos. Por isso, \u00e9 uma ideia deliciosamente apropriada de James traz\u00ea-lo de volta \u00e0 vida para que se sente, bem-humorado, como juiz de seus detratores.<\/p>\n<p>Aqueles que apreciaram <em>The Bard Bites Back<\/em> ficar\u00e3o satisfeitos em saber que James espera ampliar o projeto para al\u00e9m de seus atuais 60 minutos. Ele considera estend\u00ea-lo para um longa-metragem ou talvez transform\u00e1-lo em uma s\u00e9rie de duas partes. J\u00e1 tem mais m\u00fasicas gravadas e gosta da ideia de introduzir outros fantasmas, como o de Anne Hathaway, esposa de Shakespeare. No momento, est\u00e1 \u00e0 procura de atores famosos apaixonados por Shakespeare para assumir pap\u00e9is principais na continua\u00e7\u00e3o do projeto.<\/p>\n<p>Tendo admirado profundamente <em>The Bard Bites Back<\/em>, sinto-me um pouco culpado por dizer qualquer coisa que n\u00e3o seja elogiosa a seu respeito. Ainda assim, tenho duas pequenas ressalvas. A representa\u00e7\u00e3o do casamento de Shakespeare como infeliz \u00e9 certamente convencional, mas n\u00e3o encontra respaldo nas evid\u00eancias documentais efetivamente existentes sobre sua vida. Analisei a evid\u00eancia documental em outro artigo, <em><a href=\"https:\/\/theimaginativeconservative.org\/2025\/05\/shakespeare-saint-sinner-joseph-pearce.html\">Shakespeare: Saint or Sinner?<\/a><\/em><\/p>\n<p>Tamb\u00e9m me incomodou um pouco a forma como o Dr. James apresenta o c\u00e9lebre Soneto 129 de Shakespeare: \u201cO desgaste do esp\u00edrito quando se envergonha \/ \u00c9 obra da lux\u00faria\u201d <em>[tradu\u00e7\u00e3o para o portugu\u00eas de Ivan Junqueira]<\/em>. Colocar essas palavras \u2013 uma condena\u00e7\u00e3o t\u00e3o v\u00edvida da lux\u00faria, de suas ilus\u00f5es e de suas consequ\u00eancias \u2013 nos l\u00e1bios sedutores da m\u00edtica \u201cDama Sombria\u201d, a quem muitos cr\u00edticos acreditam que o soneto tenha sido dirigido, produz um efeito dram\u00e1tico envolvente. Contudo, isso acaba obscurecendo a exposi\u00e7\u00e3o clar\u00edssima que Shakespeare faz do pecado em quest\u00e3o. Se esses versos fossem pronunciados pelo ator que interpreta o Bardo, seu significado seria inequ\u00edvoco. Quando s\u00e3o ditos de maneira sedutora e insinuante pela mulher que muitos acreditam ser o objeto da lux\u00faria de Shakespeare, deixam de evocar a lux\u00faria para provoc\u00e1-la.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Shakespeare certamente est\u00e1 mais vivo, na vida duradoura que insuflou em sua obra, do que as ideias mortas ou agonizantes de seus cr\u00edticos<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Quanto \u00e0 pr\u00f3pria Dama Sombria, que James traz \u00e0 vida como se fizesse parte da confiss\u00e3o biogr\u00e1fica do Bardo, \u00e9 poss\u00edvel que ela n\u00e3o passe de um recurso liter\u00e1rio \u2013 como Laura, de Petrarca \u2013, um fruto da imagina\u00e7\u00e3o l\u00facida de Shakespeare. Pressupor que ela seja uma pessoa real, quando talvez seja apenas uma elabora\u00e7\u00e3o metaf\u00edsica, equivale a evocar um fantasma imagin\u00e1rio, e n\u00e3o um verdadeiro esp\u00edrito.<\/p>\n<p>Feitas essas observa\u00e7\u00f5es e postas de lado tais pequenas reservas, <em>The Bard Bites Back<\/em> merece ser celebrado por trazer o fantasma de Shakespeare de volta \u00e0 vida dram\u00e1tica. Assim como o \u201cfantasma honesto\u201d do pai de Hamlet, o nobre esp\u00edrito de Shakespeare retorna para expor um crime \u2013 aquilo que h\u00e1 de podre no estado dos estudos shakespearianos \u2013, transformando a caricatura e a trag\u00e9dia produzidas por seus cr\u00edticos em uma com\u00e9dia de seus pr\u00f3prios erros.<\/p>\n<p><strong><em>Joseph Pearce <\/em><\/strong><em>\u00e9 escritor, professor visitante de Literatura na Ave Maria University e pesquisador visitante no Thomas More College of Liberal Arts (Merrimack, New Hampshire).<\/em><\/p>\n<p><strong><em>\u00a92026 The Imaginative Conservative. Publicado com permiss\u00e3o. Original em ingl\u00eas: <a href=\"https:\/\/theimaginativeconservative.org\/2026\/07\/bard-bites-back-david-a-james-joseph-pearce.html\">The Bard Bites Back<\/a><\/em><\/strong><\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Abusam de Shakespeare sem d\u00f3 nem piedade. 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