{"id":607434,"date":"2026-08-02T12:00:00","date_gmt":"2026-08-02T16:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=607434"},"modified":"2026-08-02T12:00:00","modified_gmt":"2026-08-02T16:00:00","slug":"por-que-viver-as-custas-do-governo-destroi-a-dignidade-pessoal-e-prejudica-a-familia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=607434","title":{"rendered":"Por que viver \u00e0s custas do governo destr\u00f3i a dignidade pessoal e prejudica a fam\u00edlia"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody-module-scss-module__8_WGKG__postBodyContainer\">\n<p>Eu n\u00e3o deveria ter dependido de assist\u00eancia social. Que direito eu tenho de dizer uma coisa dessas? Minha m\u00e3e me contou que, em um anivers\u00e1rio, tivemos dinheiro suficiente, gra\u00e7as ao aux\u00edlio social, para fazer um churrasco no parque. Estou dizendo que eu n\u00e3o deveria ter tido aquele churrasco? N\u00e3o. Eu deveria. Mas quem quer que seja o respons\u00e1vel por decidir se o seu filho ter\u00e1 carne assada na festa de anivers\u00e1rio?<\/p>\n<p>O aux\u00edlio social deveria existir para fam\u00edlias como a minha. Meu pai era alco\u00f3latra e representava um risco. Minha m\u00e3e tinha apenas 25 anos, n\u00e3o possu\u00eda documentos e cuidava de quatro meninos com cinco anos ou menos. Estava assustada, vulner\u00e1vel e sem saber o que fazer. S\u00f3 tinha uma certeza: n\u00e3o podia continuar vivendo com meu pai.<\/p>\n<p>Quem olha para uma situa\u00e7\u00e3o como a minha costuma fazer uma pergunta inevit\u00e1vel: quem vai cuidar de fam\u00edlias como a minha? \u00c9 uma pergunta nobre, que precisa ser feita. Como observou Adam Smith em sua <em>Teoria dos Sentimentos Morais<\/em>: &#8220;Por mais ego\u00edsta que se suponha o homem, h\u00e1 evidentemente alguns princ\u00edpios em sua natureza que o fazem interessar-se pela sorte dos outros.&#8221;<\/p>\n<p>N\u00e3o me lembro das turbul\u00eancias iniciais do casamento dos meus pais, que ocorreram principalmente quando eu tinha seis meses de idade. Para ser honesto, gostei da minha inf\u00e2ncia. Eu n\u00e3o sabia que deveria ter um pai, que o governo pagava pela nossa comida ou que n\u00e3o era comum ter o tio Rogelio, a tia Celia, o vov\u00f4, Maria, Juanito e tantas outras pessoas morando conosco.<\/p>\n<p>Tenho certeza de que minha m\u00e3e sente algum al\u00edvio ao saber que guardo boas lembran\u00e7as da inf\u00e2ncia. Mas isso n\u00e3o muda o fato de que ela n\u00e3o gostou daquela fase. E \u00e9 f\u00e1cil entender por qu\u00ea. Ningu\u00e9m deseja que o almo\u00e7o escolar, o material de volta \u00e0s aulas ou a faculdade dos filhos dependam do governo. Mesmo que todas essas despesas sejam cobertas, permanece a sensa\u00e7\u00e3o de impot\u00eancia, de falta de controle e de incapacidade de prover a pr\u00f3pria fam\u00edlia. Isso n\u00e3o \u00e9 digno. \u00c9 humilhante.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, o que quero dizer quando afirmo que eu n\u00e3o deveria ter dependido do aux\u00edlio social? Afinal, minha hist\u00f3ria parece gritar: &#8220;algu\u00e9m, por favor, nos ajude!!&#8221;<\/p>\n<p>N\u00e3o quero dizer que minha fam\u00edlia n\u00e3o se qualificava para receber ajuda. N\u00f3s nos qualific\u00e1vamos, sem d\u00favida alguma. O que quero dizer \u00e9 que o Estado jamais deveria ter assumido para si o papel de principal, ou mais competente, respons\u00e1vel por socorrer os pobres.<\/p>\n<p>Para muita gente, essa afirma\u00e7\u00e3o parece estranha. O racioc\u00ednio costuma ser simples: pessoas pobres precisam de ajuda; apenas o governo consegue ajudar todos os necessitados; logo, cabe ao governo ajud\u00e1-los. Parece l\u00f3gico. O problema \u00e9 que o governo n\u00e3o \u00e9 bom em ajudar os pobres e, na pr\u00e1tica, tamb\u00e9m n\u00e3o consegue alcan\u00e7ar todos aqueles que precisam.<\/p>\n<p>Cito como exemplo o funcionamento do aux\u00edlio social dos Estados Unidos. Para receb\u00ea-lo, \u00e9 preciso preencher crit\u00e9rios. Como o governo descobre quem precisa? Fazendo perguntas. Quanto voc\u00ea ganha? Quem mora com voc\u00ea? Quantos dependentes possui? O pai est\u00e1 presente? N\u00e3o s\u00e3o perguntas ruins. Mas elas jamais conseguem retratar a realidade como um vizinho consegue.<\/p>\n<p>Imagine descobrir que os quatro filhos de uma m\u00e3e solteira dormem na mesma cama ou que convivem diariamente com baratas dentro de casa. Voc\u00ea concluiria que essa fam\u00edlia precisa de ajuda. O governo n\u00e3o sabe disso, nem tem como saber. N\u00e3o existe um campo no formul\u00e1rio para informar esse tipo de situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E, mesmo que existisse, como isso funcionaria? O benef\u00edcio seria reduzido porque apareceram nove baratas perto do banheiro em vez de dez? Ou porque quatro crian\u00e7as passaram de uma cama de casal para uma cama king size? Se todas as manifesta\u00e7\u00f5es da pobreza precisassem ser comunicadas ao Estado, quantas vezes a m\u00e3e teria de caminhar at\u00e9 um ponto de \u00f4nibus, atravessar a cidade e enfrentar filas para atualizar seu cadastro? E, se n\u00e3o conseguisse comparecer, perderia o benef\u00edcio.<\/p>\n<p>Foi exatamente isso que aconteceu conosco. Apesar de toda a estrutura estatal, minha m\u00e3e acabou ficando de fora.<\/p>\n<p>Coisas assim acontecem. Pessoas que precisam de ajuda deixam de receb\u00ea-la. Quando algu\u00e9m escapa da rede de prote\u00e7\u00e3o, a responsabilidade deveria estar nas m\u00e3os do governo ou da comunidade?<\/p>\n<p>Um \u00f3rg\u00e3o p\u00fablico funciona das oito \u00e0s cinco, de segunda a sexta-feira, exceto nos feriados. Mas a fome n\u00e3o respeita hor\u00e1rio comercial. O que acontece se voc\u00ea precisar de ajuda num s\u00e1bado \u00e0 noite? Ou no Dia do Trabalho? O que acontece se algu\u00e9m clonar o cart\u00e3o de alimenta\u00e7\u00e3o da sua av\u00f3, ela n\u00e3o falar ingl\u00eas e, depois de horas de espera, ainda precisar aguardar dez dias \u00fateis para recuperar os benef\u00edcios? Durante esse per\u00edodo, ela continuar\u00e1 precisando comer.<\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica, quando algu\u00e9m fica desassistido, n\u00e3o procura primeiro o governo. Procura a comunidade.<\/p>\n<p>Pense nisso. Quando voc\u00ea pede ajuda ao vizinho, ele responde em dez dias \u00fateis? Quando procura sua igreja, ela reduz a ajuda porque sua renda aumentou um pouco? A comunidade celebra ou pune voc\u00ea por ter se casado?<\/p>\n<p>Meu argumento se resume a dois pontos. Primeiro, \u00e9 falsa a ideia de que o aux\u00edlio estatal seja o \u00fanico sistema compassivo e eficaz para ajudar os pobres. Segundo, a sociedade civil costuma ser um caminho mais humano, mais flex\u00edvel e mais eficiente. Sei disso porque vivi essa realidade.<\/p>\n<p>Quando eu era crian\u00e7a, minha fam\u00edlia n\u00e3o dependia apenas dos programas p\u00fablicos. Receb\u00edamos enorme apoio da comunidade.<\/p>\n<p>Fizemos nossa primeira viagem de carro porque Paul, irm\u00e3o de um vizinho, decidiu usar parte do dinheiro recebido ap\u00f3s a morte do pr\u00f3prio filho para nos aben\u00e7oar. Meu primeiro contato com a natureza aconteceu em um acampamento do Ex\u00e9rcito da Salva\u00e7\u00e3o, quase totalmente financiado por doa\u00e7\u00f5es. Todos os anos, minha igreja organizava campanhas de material escolar, e eu recebia mochila, cadernos, canetas e fich\u00e1rios.<\/p>\n<p>Minha professora de banda, Deborah Carnahan, acreditou tanto em mim que consegui dezenas de milhares de d\u00f3lares em bolsas de estudo para a gradua\u00e7\u00e3o e a p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o. Grande parte das minhas roupas profissionais foi presente de amigos. Meu primeiro carro foi comprado com um desconto generoso concedido por um conhecido. A faculdade foi financiada por bolsas da empresa onde minha m\u00e3e trabalhava, pelo programa de honra da universidade e por in\u00fameros doadores.<\/p>\n<p>Poderia continuar listando exemplos. O ponto \u00e9 simples: o governo n\u00e3o sabe, nem pode saber, exatamente do que uma fam\u00edlia pobre precisa. O vizinho, muitas vezes, sabe.<\/p>\n<p>Sei que surgem v\u00e1rias obje\u00e7\u00f5es. &#8220;E se o vizinho tamb\u00e9m for pobre?&#8221; &#8220;E se a comunidade n\u00e3o tiver institui\u00e7\u00f5es fortes?&#8221; &#8220;Isso significa acabar com o aux\u00edlio estatal?&#8221; &#8220;Mas voc\u00ea teve talento; e os outros?&#8221; &#8220;Como voc\u00ea pode defender isso depois de ter recebido ajuda?&#8221;<\/p>\n<p>Minha resposta come\u00e7a com outra pergunta: de quem \u00e9 a responsabilidade por muitos desses problemas? Em boa medida, do pr\u00f3prio Estado. Ao longo do tempo, ele enfraqueceu a sociedade civil, desestimulou a gera\u00e7\u00e3o de riqueza e incentivou rela\u00e7\u00f5es de depend\u00eancia.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, mesmo quando t\u00ednhamos muito pouco, nossa fam\u00edlia ajudava outras pessoas. Se n\u00f3s consegu\u00edamos fazer isso, muitos outros tamb\u00e9m conseguem.<\/p>\n<p>Voc\u00ea acredita que um formul\u00e1rio padronizado consegue identificar quem possui mais capacidade ou mais potencial? Eu n\u00e3o. Professores conseguem. Pais conseguem. L\u00edderes comunit\u00e1rios conseguem. Voc\u00ea tamb\u00e9m consegue. Se realmente se importa com os pobres, por que n\u00e3o agir?<\/p>\n<p>Se o governo deseja fortalecer comunidades pobres, deveria come\u00e7ar deixando que elas flores\u00e7am. N\u00e3o deveria dificultar a atividade econ\u00f4mica, criar incentivos que prolonguem a depend\u00eancia nem presumir que conhece melhor do que cada comunidade aquilo de que ela precisa. Deveria compreender os limites do pr\u00f3prio papel. Muitas vezes, por\u00e9m, pol\u00edticos e burocratas sofrem de um complexo de salvador. Talvez ajudassem mais se simplesmente deixassem de atrapalhar quem j\u00e1 est\u00e1 tentando ajudar.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m vale lembrar que minha fam\u00edlia n\u00e3o saiu da pobreza por causa do aux\u00edlio social, mas apesar dele. Nossa situa\u00e7\u00e3o favorecia a perman\u00eancia no programa, sobretudo por causa das regras especiais destinadas \u00e0s v\u00edtimas de viol\u00eancia dom\u00e9stica. Sempre parecia haver um motivo para continuar recebendo o benef\u00edcio.<\/p>\n<p>Anos depois, perguntei \u00e0 minha m\u00e3e por que decidiu sair. Ela respondeu: &#8220;A av\u00f3 do seu av\u00f4 ficou doente, e ele queria mandar dinheiro para ajud\u00e1-la. Eu precisava ganhar mais para compensar. Al\u00e9m disso, senti que precisava come\u00e7ar a trabalhar e adquirir experi\u00eancia, porque meu curr\u00edculo era muito fraco.&#8221;<\/p>\n<p>Ela queria aumentar a renda e j\u00e1 percebia o peso que a depend\u00eancia prolongada exercia sobre sua vida.<\/p>\n<p>Muitas pessoas sinceramente desejam ajudar os pobres, mas acabam adotando uma postura paternalista. Passam a enxerg\u00e1-los como incapazes de decidir por si mesmos. Os pobres deixam de ser protagonistas da pr\u00f3pria hist\u00f3ria e se transformam em objetos de piedade, nos quais a boa inten\u00e7\u00e3o importa mais do que os resultados concretos.<\/p>\n<p>Escrevo estas linhas porque minha fam\u00edlia foi ajudada de verdade por pessoas da comunidade. Sa\u00edmos da pobreza. Todos os irm\u00e3os conclu\u00edram a faculdade: dois engenheiros, um matem\u00e1tico e um te\u00f3logo em forma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Minha m\u00e3e tornou-se investidora, empreendedora, educadora e uma hero\u00edna. Mesmo quando n\u00e3o t\u00ednhamos praticamente nada, ela sempre abria nossa casa para quem precisava. Nunca nos disse que havia sonhos imposs\u00edveis. Sempre acreditou em n\u00f3s.<\/p>\n<p>Hoje ela trabalha em uma empresa da Fortune 500. Comprou uma casa no sul da Calif\u00f3rnia, em 2017, sem precisar de fiador. N\u00e3o precisou pagar minha p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o porque um doador tornou isso poss\u00edvel. Ainda assim, sei que, se tivesse sido necess\u00e1rio, ela sentiria que recuperou parte da dignidade perdida nos anos em que precisou depender do governo.<\/p>\n<p>Este texto n\u00e3o apresenta uma ideia inteiramente nova. O que talvez seja novo \u00e9 a minha hist\u00f3ria. Provavelmente voc\u00ea n\u00e3o esperava que algu\u00e9m cuja festa de anivers\u00e1rio, alimenta\u00e7\u00e3o escolar e faculdade foram financiadas pelo governo defendesse que o futuro mais compassivo \u00e9 aquele em que o Estado abre espa\u00e7o para que fam\u00edlias e comunidades encontrem seus pr\u00f3prios caminhos.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 exatamente essa a conclus\u00e3o a que cheguei.<\/p>\n<p><em><strong>Arthur Montoya<\/strong> \u00e9 um jovem l\u00edder (Emerging Leader) vinculado ao Acton Institute, dos Estados Unidos, selecionado para um programa intensivo de desenvolvimento intelectual, profissional e \u00e9tico. Ele pesquisa teologia e pobreza, faz mestrado em Divindade, na Calif\u00f3rnia, e colabora com livros acad\u00eamicos de v\u00e1rios professores.<\/em><\/p>\n<p><em><strong>\u00a92026 Acton Institute. Publicado com permiss\u00e3o. Original em ingl\u00eas:<\/strong> <a href=\"https:\/\/blog.acton.org\/archives\/128621-i-should-not-have-been-on-welfare.html\">I <strong>Should Not Have Been on Welfare \u2013 Religion &amp; Liberty Online<\/strong><\/a><\/em><\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eu n\u00e3o deveria ter dependido de assist\u00eancia social. Que direito eu tenho de dizer uma coisa dessas? 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