{"id":604229,"date":"2026-08-01T12:00:00","date_gmt":"2026-08-01T16:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=604229"},"modified":"2026-08-01T12:00:00","modified_gmt":"2026-08-01T16:00:00","slug":"odisseia-e-o-filho-prodigo-por-que-historias-de-retorno-ao-lar-nos-atraem-tanto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=604229","title":{"rendered":"Odisseia e o filho pr\u00f3digo: por que hist\u00f3rias de retorno ao lar nos atraem tanto"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody-module-scss-module__8_WGKG__postBodyContainer\">\n<p>Um homem leva dez anos para voltar \u00e0 sua casa, e milh\u00f5es de pessoas pagaram para ficar sentadas tr\u00eas horas no escuro vendo como ele tenta. O n\u00famero desconcerta um pouco: numa \u00e9poca que se orgulha de olhar para frente, a hist\u00f3ria de maior bilheteria \u00e9 a mais antiga de todas, um poema que j\u00e1 era antigo quando Roma ainda era jovem. J\u00e1 se disse que \u00e9 nostalgia, que voltamos aos cl\u00e1ssicos como quem se refugia em um \u00e1lbum de fotos em tom s\u00e9pia. Mas essa explica\u00e7\u00e3o n\u00e3o se sustenta, porque a nostalgia esvazia as salas em vez de ench\u00ea-las. Se tantos foram ver A Odisseia, \u00e9 porque algo nessa hist\u00f3ria \u2014 mais do que o fanatismo por Nolan e o prod\u00edgio t\u00e9cnico de uma filmagem em IMAX 70 mm \u2014 continua tocando um nervo que acredit\u00e1vamos anestesiado.<\/p>\n<p>Talvez haja alguma explica\u00e7\u00e3o na pr\u00f3pria palavra. Dizemos nostalgia com leveza, como sin\u00f4nimo de uma saudade adocicada; mas ela \u00e9 formada por duas vozes gregas: nostos, retorno, e algos, dor. Nostalgia \u00e9, literalmente, a dor do retorno. E a\u00ed fica diagnosticada a nossa \u00e9poca: conservamos o algos e perdemos o nostos. D\u00f3i a dist\u00e2ncia, mas j\u00e1 poucos acreditam que exista um lugar ao qual voltar. Fica a pontada, sem o caminho. Por isso um relato sobre um homem que de fato retorna mexe tanto: mostra realizado um desejo que carregamos sem nome\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Voltar, ao contr\u00e1rio do que parece, n\u00e3o \u00e9 apenas quest\u00e3o de vontade. N\u00e3o basta querer; \u00e9 preciso que algo tenha permanecido im\u00f3vel no outro extremo da viagem. O retorno n\u00e3o depende s\u00f3 de quem caminha, mas da fidelidade daquilo que espera. \u00cdtaca \u00e9 alcan\u00e7\u00e1vel porque continua ali; Pen\u00e9lope d\u00e1 sentido \u00e0 travessia porque ela espera. Se a casa tivesse sido vendida e a esposa tivesse se casado, Odisseu n\u00e3o seria um her\u00f3i que chega tarde, mas um desterrado sem destino, um vagabundo condenado \u00e0 aventura por falta de lar. O que transforma um errar em uma odisseia \u2014 isto \u00e9, em um retorno \u2014 \u00e9 que algu\u00e9m, do outro lado do mar, n\u00e3o partiu.<\/p>\n<p>Homero sabia disso, e por isso o cora\u00e7\u00e3o de seu poema n\u00e3o \u00e9 uma batalha, mas uma espera. E sabia mais: que a casa \u00e0 qual se retorna precisa ter ra\u00edzes. Quando Odisseu finalmente chega, disfar\u00e7ado e desconhecido, o que o comprova diante de Pen\u00e9lope n\u00e3o \u00e9 uma cicatriz nem a for\u00e7a de retesar seu velho arco, mas um segredo conjugal: o leito nupcial est\u00e1 talhado sobre o tronco de uma oliveira ainda enraizada na terra, e o quarto foi erguido ao redor daquela \u00e1rvore. Ningu\u00e9m pode mov\u00ea-lo sem derrubar a oliveira. A prova de identidade \u00e9 o conhecimento do que n\u00e3o pode ser deslocado.<\/p>\n<p>Tudo isso, no entanto, \u00e9 insuficiente, porque o retorno que realmente inquieta n\u00e3o \u00e9 geogr\u00e1fico. Nenhuma casa sacia essa sede. Santo Agostinho deu nome a essa inquieta\u00e7\u00e3o numa frase que resume toda a condi\u00e7\u00e3o humana: fizeste-nos, Senhor, para ti, e o nosso cora\u00e7\u00e3o permanecer\u00e1 inquieto at\u00e9 que descanse em ti. O homem \u00e9 um peregrino, e a p\u00e1tria que ele anseia \u00e9 Aquele de quem saiu. S\u00e3o Tom\u00e1s disse assim: o fim corresponde ao princ\u00edpio (S. Th. I-II, q. 2, a. 5, ad 3). O destino coincide com a origem; a saudade da sala escura era, sem saber, anseio por Deus.<\/p>\n<p>E \u00e9 aqui que a hist\u00f3ria de Odisseu se deixa iluminar por outra, que a cumpre invertendo-a pe\u00e7a por pe\u00e7a. O Evangelho tamb\u00e9m conta um retorno para casa \u2014 a par\u00e1bola do filho pr\u00f3digo \u2014, e quem colocar as duas hist\u00f3rias lado a lado ver\u00e1 que cada elemento aparece invertido. Em Homero, quem parte \u00e9 o pai e quem espera \u00e9 o filho, aquele Tel\u00eamaco que cresce sem nunca t\u00ea-lo visto. No Evangelho, os pap\u00e9is se invertem: parte o filho e espera o pai. Odisseu volta fiel e vitorioso: resistiu a Circe, ao Ciclopes e \u00e0s sereias, rejeitou at\u00e9 a imortalidade que Calipso lhe oferecia para recuperar sua pequena ilha e sua esposa mortal. Ele merece seu retorno, e precisa demonstr\u00e1-lo retesando o arco que ningu\u00e9m mais consegue retesar. O filho da par\u00e1bola, ao contr\u00e1rio, volta infiel, depois de ter dissipado tudo, arrastando a fome e um discurso ensaiado para pedir que o recebam como trabalhador. N\u00e3o traz nenhuma fa\u00e7anha. N\u00e3o h\u00e1 arco a retesar. Onde Odisseu conquista a casa, ao pr\u00f3digo a casa \u00e9 dada.<\/p>\n<p>E o modo como \u00e9 dada coroa a invers\u00e3o. Pen\u00e9lope espera im\u00f3vel no tear, tecendo e destece ndo, fiel mas est\u00e1tica, aguardando que o outro chegue. O pai da par\u00e1bola espera de outro modo: quando o filho ainda estava longe, seu pai o viu, comoveu-se e correu ao seu encontro. N\u00e3o fica \u00e0 porta esperando que o filho complete o caminho e recite sua confiss\u00e3o; ele o avista no horizonte e se lan\u00e7a ladeira abaixo, e lhe corta o discurso com um abra\u00e7o. A fidelidade que espera revela-se tamb\u00e9m uma fidelidade que se antecipa e vai ao encontro.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 a novidade que Homero ro\u00e7ou sem alcan\u00e7ar. A fidelidade de Pen\u00e9lope ainda era condicionada: esperava um marido que valia a espera, um her\u00f3i digno dela. A do Pai n\u00e3o est\u00e1 condicionada a nada, e menos ainda aos m\u00e9ritos de quem volta, porque quem volta \u00e9 justamente aquele que dissipou a heran\u00e7a. S\u00e3o Paulo o confirmou: se somos infi\u00e9is, Ele permanece fiel, porque n\u00e3o pode negar a si mesmo. N\u00e3o \u00e9 que Deus espere melhor; \u00e9 que Deus \u00e9 a fidelidade, e n\u00e3o pode deixar de s\u00ea-lo, assim como o fogo n\u00e3o pode deixar de aquecer.<\/p>\n<p>Resta uma \u00faltima pe\u00e7a, e \u00e9 a mais dif\u00edcil de admitir, porque desmonta a velha ideia de que se volta para casa por m\u00e9rito pr\u00f3prio. Se o retorno dependesse do valor de cada um, n\u00e3o haveria retorno poss\u00edvel: ningu\u00e9m \u00e9 Odisseu; todos somos, antes, o filho mais novo. E ent\u00e3o, como se volta? N\u00e3o retesando o arco, mas deixando-se conduzir. \u00c9 curioso que o filme intua isso melhor que o poema original: na tela, Odisseu s\u00f3 pode partir quando renuncia a confiar em si mesmo, entrega-se a uma balsa fr\u00e1gil e se abandona ao mar confiando nos deuses. Em Homero, o her\u00f3i desconfia, exige juramentos e governa sozinho o leme sem dormir; mas at\u00e9 ele acaba alcan\u00e7ado, ao fim, pela verdade que n\u00e3o soube formular: o \u00faltimo trecho, aquele que finalmente o deposita em \u00cdtaca, n\u00e3o \u00e9 remado por ele. Os fe\u00e1cios o levam adormecido, em um sono \u201csemelhante \u00e0 morte\u201d, e o deixam na areia de sua ilha sem que perceba, ao p\u00e9 de uma oliveira. O mais astuto e autossuficiente dos homens chega em casa, enfim, dormindo e nos bra\u00e7os de outros.<\/p>\n<p>Isso \u00e9 o que uma carmelita de vinte e quatro anos compreendeu melhor que muitos te\u00f3logos, e chamou de seu \u201ccaminhozinho\u201d: pequena demais para subir a dura escada da perfei\u00e7\u00e3o, n\u00e3o aspira a escal\u00e1-la, mas a ser elevada por um elevador; e o elevador s\u00e3o os bra\u00e7os de Jesus. N\u00e3o \u00e9 o arco que abre a casa, mas o abandono; n\u00e3o o m\u00e9rito, mas a confian\u00e7a numa miseric\u00f3rdia que j\u00e1 vinha correndo antes mesmo que a desculpa fosse ensaiada. A palavra mais profunda do cristianismo n\u00e3o \u00e9 uma ordem nem uma fa\u00e7anha: \u00e9 um par de bra\u00e7os abertos e crucificados. E se o filme desperta, na escurid\u00e3o, uma emo\u00e7\u00e3o que ningu\u00e9m esperava, talvez seja porque nele se reconhece \u2014 sem saber \u2014 a forma de toda nostalgia humana: a de voltar \u00e0 casa do Pai que, mesmo quando nos perdemos longe, nos espera e sai ao nosso encontro.<\/p>\n<p><em><strong>\u00c1lvaro Ferrer del Valle<\/strong>, editor da Revista Suroeste e diretor executivo de Comunidad y Justicia, uma organiza\u00e7\u00e3o chilena de inspira\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica que promove forma\u00e7\u00e3o, a\u00e7\u00e3o social e defesa da dignidade humana.<\/em><\/p>\n<p><em><strong>\u00a92026 Revista Suroeste. Publicado com permiss\u00e3o. Original em espanhol:<\/strong> <a href=\"https:\/\/revistasuroeste.cl\/2026\/07\/29\/la-odisea\/\"><strong>La Odisea<\/strong><\/a><\/em><\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um homem leva dez anos para voltar \u00e0 sua casa, e milh\u00f5es de pessoas pagaram para ficar sentadas tr\u00eas horas&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":604230,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[204],"tags":[],"class_list":["post-604229","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ultimas-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/604229","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=604229"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/604229\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/604230"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=604229"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=604229"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=604229"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}