{"id":604064,"date":"2026-08-01T10:04:12","date_gmt":"2026-08-01T14:04:12","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=604064"},"modified":"2026-08-01T10:04:12","modified_gmt":"2026-08-01T14:04:12","slug":"governo-lula-defende-soberania-diante-dos-eua-e-perde-territorio-para-faccoes-dentro-de-casa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=604064","title":{"rendered":"Governo Lula defende soberania diante dos EUA e perde territ\u00f3rio para fac\u00e7\u00f5es dentro de casa"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody-module-scss-module__8_WGKG__postBodyContainer\">\n<p>O discurso de defesa da soberania adotado pelo governo de Luiz In\u00e1cio Lula da Silva (PT) embute um risco a ser explorado por advers\u00e1rios: a contradi\u00e7\u00e3o entre a firmeza diante de press\u00f5es externas e a dificuldade do Estado em exercer autoridade sobre partes do pr\u00f3prio territ\u00f3rio nacional. N\u00e3o \u00e9 de hoje que as fac\u00e7\u00f5es criminosas, o garimpo ilegal e outras atividades il\u00edcitas desafiam o poder p\u00fablico dominando territ\u00f3rios, bairros e at\u00e9 cidades pa\u00eds afora.<\/p>\n<p>A estrat\u00e9gia voltada ao tema soberania tem se consolidado como um dos principais eixos eleitorais de Lula desde o confronto com o tarifa\u00e7o imposto pelos Estados Unidos, em julho do ano passado. Embora o conceito seja associado a inger\u00eancias internacionais, para o professor de Rela\u00e7\u00f5es Internacionais da Funda\u00e7\u00e3o Armando Alvares Penteado (Faap) Vin\u00edcius Rodrigues, &#8220;um Estado soberano depende tanto da autonomia para definir suas pol\u00edticas quanto da capacidade de exercer autoridade sobre todo o territ\u00f3rio nacional&#8221;.<\/p>\n<p>Seguindo a mesma t\u00f4nica, o advogado Giuliano Miotto destaca que, quando organiza\u00e7\u00f5es criminosas passam a controlar comunidades, restringir a circula\u00e7\u00e3o de pessoas, impor regras pr\u00f3prias e desafiar o poder p\u00fablico, a soberania do Estado \u00e9 colocada em xeque.<\/p>\n<p>&#8220;Fac\u00e7\u00f5es criminosas exercem um enorme poder paralelo no Rio de Janeiro e em grandes centros urbanos, em especial no Nordeste, enquanto narcotraficantes e garimpeiros ilegais dominam <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/brasil\/rota-caipira-rota-amazonica-fronteiras-peca-chave-expansao-faccoes-criminosas\/\">rotas estrat\u00e9gicas na Amaz\u00f4nia e no Par\u00e1<\/a>, locais onde inexiste a tal soberania do Estado brasileiro&#8221;, diz.<\/p>\n<p>Numa an\u00e1lise semelhante, o cientista pol\u00edtico Leonardo Barreto, da consultoria <em>Think Policy<\/em>, aponta a vulnerabilidade no discurso governista que abre um flanco para a oposi\u00e7\u00e3o. &#8220;Existe uma incongru\u00eancia porque voc\u00ea n\u00e3o tem controle de boa parte do seu territ\u00f3rio j\u00e1 h\u00e1 bastante tempo.&#8221;<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<h2>\u00cdndices de seguran\u00e7a confirmam percep\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<p>Dados consolidados recentes corroboram essa avalia\u00e7\u00e3o. Levantamento do F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica (FBSP) divulgado em novembro de 2025 mostrou que fac\u00e7\u00f5es criminosas j\u00e1 atuavam em 344 dos 772 munic\u00edpios da Amaz\u00f4nia Legal, o equivalente a 45% da regi\u00e3o \u2014 um avan\u00e7o de 32% em rela\u00e7\u00e3o ao estudo anterior.<\/p>\n<p>No Rio de Janeiro, o Mapa Hist\u00f3rico dos Grupos Armados, publicado em dezembro de 2025 pelo Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos (Geni\/UFF) e pelo Instituto Fogo Cruzado, estimou que cerca de 4 milh\u00f5es de pessoas vivem em \u00e1reas sob controle ou influ\u00eancia de fac\u00e7\u00f5es criminosas e mil\u00edcias, com restri\u00e7\u00f5es ao direito de ir e vir.<\/p>\n<p>Na faixa de fronteira, auditoria conclu\u00edda pelo Tribunal de Contas da Uni\u00e3o (TCU) no final do ano passado apontou que o Brasil ainda n\u00e3o disp\u00f5e de uma pol\u00edtica nacional plenamente consolidada para enfrentar organiza\u00e7\u00f5es criminosas transnacionais e identificou falhas na execu\u00e7\u00e3o do Programa de Prote\u00e7\u00e3o Integrada de Fronteiras.<\/p>\n<p>Diante desse cen\u00e1rio, Barreto explica que, para o eleitor, a ideia de soberania \u00e9 muito mais amea\u00e7ada &#8220;pelo crime e pelo terrorismo interno do que pelo debate tarif\u00e1rio&#8221;. Nas tr\u00eas \u00faltimas rodadas nacionais da pesquisa eleitoral da BTG\/Nexus, a viol\u00eancia e a criminalidade apareceram como a principal preocupa\u00e7\u00e3o do eleitorado: foram citadas por 29% dos entrevistados no levantamento realizado entre 26 e 28 de junho, repetiram os mesmos 29% na rodada de 10 a 12 de julho e chegaram a 30% na pesquisa de 24 a 26 de julho, superando preocupa\u00e7\u00f5es com a \u00e1rea da sa\u00fade p\u00fablica (25%) e o problema da corrup\u00e7\u00e3o no pa\u00eds (22%).<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<h2>Soberania &#8220;tirou governo das cordas&#8221;<\/h2>\n<p>Apesar da contradi\u00e7\u00e3o latente, a estrat\u00e9gia do governo Lula rendeu, ao menos num primeiro momento, dividendos pol\u00edticos ao Planalto. &#8220;Esse discurso resgatou o governo das cordas no pior momento&#8221;, afirma o cientista pol\u00edtico Leonardo Barreto.<\/p>\n<p>A f\u00f3rmula interrompeu o desgaste que vinha se acumulando desde o in\u00edcio de 2025, quando a avalia\u00e7\u00e3o positiva de Lula chegou \u00e0 casa dos 25% em diferentes pesquisas, e contribuiu para a recupera\u00e7\u00e3o da popularidade ao longo desses \u00faltimos meses. Na s\u00e9rie da Genial\/Quaest, por exemplo, a avalia\u00e7\u00e3o positiva (com os coceitos &#8220;\u00f3timo&#8221; e &#8220;bom&#8221;) passou de 31% em abril para 36% no levantamento realizado entre 10 e 13 de julho, ap\u00f3s o in\u00edcio da mais recente crise diplom\u00e1tica.<\/p>\n<p>Ao transformar o confronto com os Estados Unidos em um embate entre um governo estrangeiro e o Brasil, Lula conseguiu deslocar o debate p\u00fablico para uma agenda mais favor\u00e1vel ao governo e reduzir, ainda que temporariamente, o desgaste interno com a criminalidade e a economia. &#8220;Voc\u00ea cria um inimigo externo numa estrat\u00e9gia muit\u00edssimo manjada&#8221;, diz Barreto.<\/p>\n<p>&#8220;E come\u00e7a a usar essa quest\u00e3o da soberania para ocultar o pr\u00f3prio fracasso&#8221;, acrescenta ele.\u00a0A efic\u00e1cia, por\u00e9m, pode ter chegado ao limite. Mesmo ap\u00f3s sucessivas declara\u00e7\u00f5es de Lula sobre soberania em eventos p\u00fablicos nos upltimos dias, o primeiro levantamento realizado integralmente ap\u00f3s o an\u00fancio da sobretaxa americana \u2014 o da BTG\/Nexus, com entrevistas entre 24 e 26 de julho \u2014 mostrou Lula com 47% e Fl\u00e1vio Bolsonaro com 43% em um eventual segundo turno, praticamente o mesmo cen\u00e1rio observado nos levantamentos anteriores, o que significa um empate t\u00e9cnico dentro da margem de erro.<\/p>\n<h2>Em quem o discurso da soberania &#8220;cola&#8221; <\/h2>\n<p>Para Barreto, o discurso da soberania encontra maior resson\u00e2ncia entre o eleitorado tradicionalmente de esquerda, por dialogar com um hist\u00f3rico sentimento antiamericano e nacionalista. J\u00e1 entre os eleitores de centro, o efeito tende a ser mais limitado.<\/p>\n<p>&#8220;A ideia de um discurso nacionalista de prote\u00e7\u00e3o cria uma cortina de fuma\u00e7a para uma s\u00e9rie de outros problemas que voc\u00ea est\u00e1 enfrentando, como infla\u00e7\u00e3o, corrup\u00e7\u00e3o e criminalidade&#8221;, afirma. Segundo ele, <strong>caber\u00e1 \u00e0 oposi\u00e7\u00e3o recolocar esses temas no centro da campanha<\/strong> para alcan\u00e7ar o chamado <em>swing voter<\/em> \u2014 o pequeno contingente de eleitores indecisos ou suscet\u00edveis a mudar de voto, estimado em cerca de 2% a 3% do eleitorado.<\/p>\n<p>Vin\u00edcius Rodrigues acredita que o impacto eleitoral desse debate depender\u00e1 menos do conceito abstrato de soberania e mais da capacidade das campanhas de traduzi-lo para quest\u00f5es concretas do dia a dia. Na avalia\u00e7\u00e3o dele, a direita tem a oportunidade de explorar o principal &#8220;calcanhar de Aquiles&#8221; do governo ao associar soberania \u00e0 seguran\u00e7a p\u00fablica e \u00e0 perda de controle do Estado sobre \u00e1reas dominadas pelo crime organizado.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 a l\u00f3gica do &#8216;seguran\u00e7a, est\u00fapido&#8217;, numa refer\u00eancia ao famoso <strong>slogan<\/strong> da campanha de Bill Clinton (&#8216;\u00e9 a economia, est\u00fapido&#8217;)&#8221;, diz. Segundo o professor da Faap, quanto mais a oposi\u00e7\u00e3o conseguir convencer o eleitor de que a maior amea\u00e7a \u00e0 soberania est\u00e1 dentro do pr\u00f3prio pa\u00eds, menor tende a ser o impacto do discurso nacionalista do governo.<\/p>\n<p>\u201cJ\u00e1 a esquerda busca converter o tema em um apelo de nacionalismo econ\u00f4mico, mobilizando sua base e parte do eleitorado de centro em torno da defesa do Brasil diante de inger\u00eancias e amea\u00e7as externas&#8221;, analisa ele.\u00a0<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<h2>Leni\u00eancia com o crime \u00e9 troca pol\u00edtica<\/h2>\n<p>Na avalia\u00e7\u00e3o do advogado Giuliano Miotto, essa estrat\u00e9gia ganha for\u00e7a porque dialoga com uma percep\u00e7\u00e3o concreta do eleitor e tamb\u00e9m com a sensa\u00e7\u00e3o de leni\u00eancia do governo diante do avan\u00e7o do crime organizado. O debate foi potencializado pela rea\u00e7\u00e3o do Planalto \u00e0 classifica\u00e7\u00e3o do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organiza\u00e7\u00f5es terroristas pelos Estados Unidos.<\/p>\n<p>A medida, assinada pelo secret\u00e1rio de Estado Marco Rubio, entrou oficialmente em vigor em 5 de junho, ap\u00f3s publica\u00e7\u00e3o no <em>Federal Register<\/em>. Lula reagiu afirmando que o combate \u00e0s fac\u00e7\u00f5es \u00e9 atribui\u00e7\u00e3o exclusiva do Estado brasileiro e que a decis\u00e3o norte-americana abre espa\u00e7o para inger\u00eancia em assuntos internos do pa\u00eds. Sustentou ainda que as organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o se enquadram no conceito de terrorismo internacional adotado pelos Estados Unidos, por terem finalidade essencialmente criminosa, e n\u00e3o motiva\u00e7\u00f5es pol\u00edticas ou ideol\u00f3gicas.<\/p>\n<p>&#8220;O atual governo se recusa a enfrentar adequadamente o dom\u00ednio do crime organizado&#8221;, afirma Miotto. &#8220;E se esconde sob o escudo desse discurso barato soberanista por mera conveni\u00eancia argumentativa&#8221;, complementa.\u00a0<\/p>\n<p>Leonardo Barreto v\u00ea justamente nesse epis\u00f3dio uma das principais fragilidades do discurso governista. &#8220;Quando o Lula fala da quest\u00e3o da soberania, o que mais incomoda ele \u00e9 PCC e Comando Vermelho como entidade terrorista, mas \u00e9 o que ele menos fala&#8221;, diz.<\/p>\n<p>Na avalia\u00e7\u00e3o do cientista pol\u00edtico, o governo evita explorar esse tema porque &#8220;\u00e9 a\u00ed que a incongru\u00eancia aparece de uma maneira mais clara&#8221;. Segundo ele, essa postura decorre de uma &#8220;estrat\u00e9gia de sobreviv\u00eancia pol\u00edtica&#8221; mais ampla. &#8220;Grupos criminosos, como mil\u00edcias e fac\u00e7\u00f5es do tr\u00e1fico, exercem influ\u00eancia n\u00e3o apenas sobre o territ\u00f3rio, como tamb\u00e9m sobre o voto nas \u00e1reas sob seu dom\u00ednio&#8221;, afirma.<\/p>\n<ul>\n<li><span><strong>Metodologia da pesquisa citada (Genial\/Quaest):<\/strong> 2.004 entrevistados pela Quaest entre os dias 10 e 13 de julho de 2026. A pesquisa foi contratada pela Genial Investimentos. N\u00edvel de confian\u00e7a: 95%. Margem de erro: 2 pontos percentuais. Registro no TSE sob o n\u00ba BR-07181\/2026.<\/span><\/li>\n<li><span><strong>Metodologia da pesquisa citada (BTG Pactual\/Nexus):<\/strong> 2.004 entrevistados pela Nexus entre os dias 24 e 26 de julho de 2026, por meio de entrevistas telef\u00f4nicas em todo o pa\u00eds. A pesquisa foi contratada pelo Banco BTG Pactual S.A.. N\u00edvel de confian\u00e7a: 95%. Margem de erro: 2 pontos percentuais. Registro no TSE sob o n\u00ba BR-01489\/2026.<\/span><\/li>\n<\/ul>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O discurso de defesa da soberania adotado pelo governo de Luiz In\u00e1cio Lula da Silva (PT) embute um risco a&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":603988,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[204],"tags":[],"class_list":["post-604064","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ultimas-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/604064","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=604064"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/604064\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/603988"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=604064"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=604064"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=604064"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}