{"id":601877,"date":"2026-07-31T16:31:36","date_gmt":"2026-07-31T20:31:36","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=601877"},"modified":"2026-07-31T16:31:36","modified_gmt":"2026-07-31T20:31:36","slug":"filosofa-alerta-para-os-perigos-de-transformar-a-eutanasia-em-morte-digna","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=601877","title":{"rendered":"Fil\u00f3sofa alerta para os perigos de transformar a eutan\u00e1sia em \u201cmorte digna\u201d"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody-module-scss-module__8_WGKG__postBodyContainer\">\n<p>Kathleen Stock est\u00e1 acostumada a ser cancelada. Formada em Filosofia pelo Exeter College, em Oxford, com doutorado pela Universidade de Leeds, ocupou por 18 anos a cadeira de Filosofia na Universidade de Sussex, \u00e0 qual renunciou em outubro de 2021 \u2014 n\u00e3o exatamente por vontade pr\u00f3pria. Sua sa\u00edda se deu ap\u00f3s cerca de tr\u00eas semanas de protestos estudantis que exigiam sua demiss\u00e3o e de amea\u00e7as que motivaram investiga\u00e7\u00e3o policial.<\/p>\n<p>Seu crime: opor-se publicamente \u00e0 substitui\u00e7\u00e3o do sexo biol\u00f3gico pela identidade de g\u00eanero como crit\u00e9rio legal e social e, por consequ\u00eancia, \u00e0 presen\u00e7a de homens biol\u00f3gicos nos esportes e nos banheiros p\u00fablicos femininos, bem como ao uso de express\u00f5es como &#8220;corpos que menstruam&#8221; para se referir \u00e0s mulheres (\u00e0 \u00e9poca, <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/ideias\/pessoas-que-menstruam-pessoas-que-procriam-como-os-progressistas-estao-apagando-o-termo-mulher\/\">ela concedeu uma entrevista \u00e0 <strong>Gazeta do Povo<\/strong> sobre o tema<\/a>).<\/p>\n<p>Cinco anos depois de <em>Material Girls<\/em>, obra na qual disseca a centralidade da biologia feminina para a efic\u00e1cia de qualquer iniciativa em defesa das mulheres, a fil\u00f3sofa est\u00e1 de volta \u00e0 arena \u2014 mais uma vez, com um tema candente. No \u00faltimo dia 15 de julho, a Assembleia Nacional francesa aprovou em car\u00e1ter definitivo o direito \u00e0 &#8220;ajuda para morrer&#8221;, e o texto seguiu para exame do Conselho Constitucional; no Reino Unido, o projeto de morte assistida foi ressuscitado em junho por uma deputada do Partido Trabalhista, com nova vota\u00e7\u00e3o na C\u00e2mara dos Comuns marcada para setembro.<\/p>\n<p>Na Am\u00e9rica Latina, o Uruguai aprovou sua Lei de Morte Digna em outubro de 2025, regulamentou-a em abril e realizou o primeiro procedimento em maio deste ano. Enquanto isso, \u201cpioneiros\u201d como Holanda, B\u00e9lgica, Canad\u00e1 j\u00e1 encaram os resultados da descriminaliza\u00e7\u00e3o da eutan\u00e1sia, com aumento expressivo na procura pela pr\u00e1tica. \u00c9 nesse pano de fundo que Kathleen Stock lan\u00e7a <em>Do Not Go Gentle: The Case Against Assisted Death<\/em>, ainda sem tradu\u00e7\u00e3o para o portugu\u00eas.<\/p>\n<p>Sem em nada abdicar da eleg\u00e2ncia ou da profundidade em nome do didatismo, Stock faz jus tanto ao t\u00edtulo de fil\u00f3sofa quanto \u00e0 vasta experi\u00eancia acad\u00eamica: em pouco mais de 300 p\u00e1ginas, o livro esmi\u00fa\u00e7a todos os pressupostos que conduzem ao apoio \u00e0 morte assistida, bem como as suas nefastas consequ\u00eancias, vis\u00edveis e \u2014 por ora \u2014 invis\u00edveis. Vale dizer que, para a autora, ajudar algu\u00e9m a morrer n\u00e3o \u00e9 um ato intrinsecamente imoral: para Stock, pode haver situa\u00e7\u00f5es pontuais, rar\u00edssimas, em que tal decis\u00e3o seja aceit\u00e1vel.<\/p>\n<p>O que ela combate veementemente, por\u00e9m, \u00e9 a institucionaliza\u00e7\u00e3o da morte: os &#8220;servi\u00e7os de morte assistida&#8221;, estruturas formais gestadas dentro dos sistemas de sa\u00fade e sustentadas por pol\u00edticos, advogados, m\u00e9dicos, enfermeiros e farmac\u00eauticos.<\/p>\n<h2><strong>O que os intelectuais esquecem<\/strong><\/h2>\n<p>Para ilustrar seus argumentos, Stock vale-se de dois &#8220;arqu\u00e9tipos&#8221;, representantes de duas posturas distintas por tr\u00e1s do apoio \u00e0 morte assistida: o &#8220;Amante da Liberdade&#8221; e o &#8220;Auxiliador Misericordioso&#8221;. Enquanto o primeiro defende a exist\u00eancia de um &#8220;direito de morrer&#8221; com base no princ\u00edpio da n\u00e3o interfer\u00eancia, o segundo acredita que h\u00e1 situa\u00e7\u00f5es em que a \u00fanica forma de aliviar o sofrimento alheio \u00e9 acelerar a morte<\/p>\n<p>Aos libert\u00e1rios, Stock oferece a distin\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica segundo a qual da liberdade negativa \u2014 o impedimento \u00e0 interfer\u00eancia alheia \u2014 n\u00e3o se extrai a liberdade positiva de exigir que m\u00e9dicos, hospitais e o Estado organizem o ato. Lembra-nos tamb\u00e9m da dificuldade de se avaliar a autonomia individual em cen\u00e1rios que podem incluir dist\u00farbios severos, aus\u00eancia de recursos ou mesmo a press\u00e3o \u2014 efetiva ou percebida \u2014 de terceiros; e de que morremos como vivemos: cercados de gente a quem estamos ligados por v\u00ednculos de obriga\u00e7\u00e3o e afeto, e que invariavelmente sofrer\u00e1 as consequ\u00eancias desse exerc\u00edcio de &#8220;liberdade&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Esposos, pais, filhos e irm\u00e3os t\u00eam interesses morais significativos. N\u00e3o sendo especialmente conhecidos por sua empatia, intelectuais \u00e0s vezes parecem se esquecer disso&#8221;, ironiza.<\/p>\n<p>Com rela\u00e7\u00e3o aos &#8220;misericordiosos&#8221;, mais numerosos e mais simp\u00e1ticos ao senso comum, a fil\u00f3sofa examina os argumentos recorrentes e seus gargalos: a disponibilidade real de tratamentos, o ritmo dos avan\u00e7os da ci\u00eancia, a dificuldade de estabelecer com precis\u00e3o o que \u00e9 sofrimento ps\u00edquico irremedi\u00e1vel e tudo o que ainda pode ser feito por esses pacientes que est\u00e3o, ou creem estar, \u00e0 beira da morte.<\/p>\n<p>Faz o minucioso exerc\u00edcio de percorrer as severas lacunas dos servi\u00e7os de cuidados paliativos existentes no mundo, mostrando como os pr\u00f3prios termos do debate s\u00e3o irremediavelmente imprecisos, sempre baseados em &#8220;progn\u00f3sticos de seis meses&#8221;, &#8220;sofrimento insuport\u00e1vel&#8221;, &#8220;decis\u00e3o livre e esclarecida&#8221;: categorias tratadas como r\u00e9guas claras pelos legisladores, mas que abarcam uma mir\u00edade de variedades para a medicina e para a psicologia.<\/p>\n<p>Gra\u00e7as \u00e0 terminologia vaga, no Canad\u00e1, por exemplo, o diagn\u00f3stico terminal sequer \u00e9 exigido, e deficientes f\u00edsicos com longa vida pela frente podem optar pela morte com apoio do Estado: s\u00f3 em 2023, 4,7% de todas as mortes canadenses foram por &#8220;assist\u00eancia m\u00e9dica em morrer&#8221;, com relatos de aprova\u00e7\u00f5es por sensibilidade qu\u00edmica, sequelas de Covid longa ou cegueira \u2014 muitas vezes em casos marcados por pobreza, falta de moradia e aus\u00eancia de apoio di\u00e1rio. Stock aponta ainda a evid\u00eancia inc\u00f4moda de que, nos pa\u00edses que implantaram a morte assistida, os cuidados paliativos melhoraram tr\u00eas vezes menos do que naqueles que n\u00e3o o fizeram.<\/p>\n<h2><strong>A distopia que nos espreita<\/strong><\/h2>\n<p>\u00c9, por\u00e9m, na an\u00e1lise cultural que Stock demonstra suas percep\u00e7\u00f5es mais agudas, levando o leitor a questionar em que medida o dom\u00ednio inquestion\u00e1vel da cultura <em>wellness<\/em> \u2014 a obsess\u00e3o contempor\u00e2nea pela sa\u00fade e pelo controle do pr\u00f3prio corpo \u2014 n\u00e3o seria mais uma face do eterno esfor\u00e7o humano de esquecer-se da pr\u00f3pria mortalidade, contribuindo para que a morte pare\u00e7a prefer\u00edvel a qualquer limita\u00e7\u00e3o f\u00edsica ou a um cen\u00e1rio de depend\u00eancia parcial ou total, que todos estamos fadados a enfrentar, cedo ou tarde<\/p>\n<p>Aponta tamb\u00e9m para o que a mera exist\u00eancia de um servi\u00e7o de morte assistida comunica: a ideia de que h\u00e1 condi\u00e7\u00f5es humanas desprovidas de dignidade, a despeito de ser exatamente essa a palavra invocada pelos defensores da &#8220;morte digna&#8221;.<\/p>\n<p>O destaque dado ao grupo brit\u00e2nico Not Dead Yet, fundado por deficientes e doentes terminais contr\u00e1rios \u00e0 morte assistida, ilustra o problema: as condi\u00e7\u00f5es usualmente alegadas para oferecer a morte a um doente terminal \u2014 dor cr\u00f4nica, perda de controle das fun\u00e7\u00f5es, incapacidade de realizar tarefas sem ajuda \u2014 s\u00e3o as mesmas com que muitas pessoas convivem por d\u00e9cadas, lutando por visibilidade e cuidados.<\/p>\n<p>Se, por\u00e9m, a vida com certas limita\u00e7\u00f5es, por mais duras que sejam, \u00e9 oficialmente reconhecida como &#8220;insuport\u00e1vel&#8221;, quem convive com elas e quer continuar vivendo passa a existir sob suspeita, tendo a &#8220;sa\u00edda honrosa&#8221; do suic\u00eddio mais \u00e0 m\u00e3o do que melhores tratamentos ou cuidados paliativos. \u201c\u00c9 muito mais f\u00e1cil matar uma pessoa doente do que ajud\u00e1-la a viver bem a vida\u201d, resume a autora.<\/p>\n<p>Mais do que isso, Stock demonstra como as &#8220;melhores&#8221; inten\u00e7\u00f5es dos Amantes da Liberdade e dos Auxiliadores Misericordiosos h\u00e3o de contribuir, ao fim, para o triunfo do pior dos arqu\u00e9tipos: o utilitarista. Uma vez estabelecido que a morte assistida \u00e9 razo\u00e1vel, sobretudo quando associada a um servi\u00e7o de sa\u00fade, sempre haver\u00e1 quem queira estender esse bem a novos grupos que tamb\u00e9m o &#8220;mereceriam&#8221;, e grupos de press\u00e3o dispostos a lutar por isso.<\/p>\n<p>Em um mundo que envelhece rapidamente, morrer cedo e r\u00e1pido, a custos certamente inferiores aos de oferecer a todos os devidos cuidados, ser\u00e1 mais desej\u00e1vel e lucrativo do que lutar pela vida. Uma distopia que, embora pare\u00e7a distante, j\u00e1 espreita o Ocidente.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Kathleen Stock est\u00e1 acostumada a ser cancelada. 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