{"id":599842,"date":"2026-07-30T22:47:36","date_gmt":"2026-07-31T02:47:36","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=599842"},"modified":"2026-07-30T22:47:36","modified_gmt":"2026-07-31T02:47:36","slug":"ernesto-araujo-eleicao-sera-escolha-entre-liberdade-e-totalitarismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=599842","title":{"rendered":"Ernesto Ara\u00fajo: \u201cElei\u00e7\u00e3o ser\u00e1 escolha entre liberdade e totalitarismo\u201d"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody-module-scss-module__8_WGKG__postBodyContainer\">\n<p>Poucos nomes sintetizam de forma t\u00e3o clara a vis\u00e3o conservadora da pol\u00edtica externa brasileira quanto <strong>Ernesto Ara\u00fajo<\/strong>. Ex-ministro das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores, ele enxerga o cen\u00e1rio internacional a partir de uma disputa de car\u00e1ter civilizacional, na qual democracias liberais e regimes autorit\u00e1rios travam uma nova Guerra Fria, agora marcada por influ\u00eancia pol\u00edtica, guerra informacional, espionagem e disputas econ\u00f4micas. Nesta entrevista \u00e0 coluna <strong>Entrelinhas<\/strong> e ao programa <strong>Sem Rodeios<\/strong>, Ara\u00fajo analisa os reflexos do protagonismo do Supremo Tribunal Federal (STF) nas rela\u00e7\u00f5es internacionais do Brasil, comenta os recentes casos de espionagem envolvendo China, R\u00fassia e Cuba, critica a condu\u00e7\u00e3o da pandemia, avalia a crescente influ\u00eancia chinesa sobre o pa\u00eds e afirma que a elei\u00e7\u00e3o brasileira ter\u00e1 um peso geopol\u00edtico in\u00e9dito. Ao longo da conversa, ele mant\u00e9m a convic\u00e7\u00e3o de que o Brasil est\u00e1 diante de uma escolha que ultrapassa a pol\u00edtica dom\u00e9stica e passa a definir seu lugar no mundo.<\/p>\n<p><strong>Entrelinhas<\/strong> \u2013 <strong>Nos \u00faltimos dias, especialmente ap\u00f3s as manifesta\u00e7\u00f5es do governo Donald Trump em rela\u00e7\u00e3o ao Brasil, temos discutido como fatores internos passaram a influenciar diretamente a pol\u00edtica externa brasileira. Na sua avalia\u00e7\u00e3o, at\u00e9 que ponto o protagonismo assumido pelo Supremo Tribunal Federal mudou a forma como o Brasil se relaciona com o mundo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ernesto Ara\u00fajo<\/strong> \u2013 O Supremo Tribunal Federal assumiu um poder imenso dentro do Brasil. Ele est\u00e1 praticamente no centro do sistema de poder que hoje governa o Brasil. N\u00f3s temos uma Constitui\u00e7\u00e3o escrita e temos uma Constitui\u00e7\u00e3o que \u00e9 o que realmente funciona. Nessa que realmente funciona, que \u00e9 diferente daquela que est\u00e1 escrita, o Supremo est\u00e1 ali no centro de tudo. Eu tenho usado a express\u00e3o &#8220;judici\u00e1rio de coaliz\u00e3o&#8221;. Mais do que o presidencialismo de coaliz\u00e3o, \u00e9 o que n\u00f3s temos no Brasil.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o \u00e9 natural que, ao assumir essa centralidade, o Supremo tenha um papel protag\u00f4nico n\u00e3o s\u00f3 na pol\u00edtica interna, mas tamb\u00e9m na pol\u00edtica externa. Porque, se est\u00e3o conduzindo as coisas, est\u00e3o conduzindo o Brasil diante do mundo tamb\u00e9m. A gente estava acostumado a um paradigma em que o Judici\u00e1rio nunca se relacionava diretamente com o exterior, porque estava restrito \u00e0s leis daquele pa\u00eds, e n\u00e3o a uma atividade pol\u00edtica. Agora assumiu uma atividade pol\u00edtica. Ent\u00e3o, sim, est\u00e1 tentando projetar um poder para o resto do mundo, e isso tem consequ\u00eancias.<\/p>\n<p>Na f\u00edsica, toda a\u00e7\u00e3o corresponde a uma rea\u00e7\u00e3o. Est\u00e3o vindo as rea\u00e7\u00f5es porque esse \u00e9 o mundo pol\u00edtico, n\u00e3o \u00e9 o mundo da lei. No mundo pol\u00edtico existe choque de poderes, choque de contrariedades. O Judici\u00e1rio brasileiro, sobretudo o STF, precisa se acostumar com as consequ\u00eancias da sua op\u00e7\u00e3o de se tornar um tribunal pol\u00edtico.<\/p>\n<p><strong>Entrelinhas<\/strong> \u2013 <strong>O secret\u00e1rio de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, tem adotado um discurso mais contundente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Am\u00e9rica Latina, ao comunismo e ao papel de Cuba na articula\u00e7\u00e3o da esquerda continental. Como o senhor avalia essa atua\u00e7\u00e3o e os reflexos para o Brasil?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ernesto Ara\u00fajo<\/strong> \u2013 Marco Rubio vem tendo uma atua\u00e7\u00e3o muito consistente. Pela primeira vez em muitos anos, os Estados Unidos decidiram enfrentar aquilo que considero o projeto totalit\u00e1rio internacional.<\/p>\n<p>Ele compreendeu que esse combate inclui a Am\u00e9rica Latina, passa por Cuba, pelo Foro de S\u00e3o Paulo e pelas estruturas revolucion\u00e1rias constru\u00eddas ao longo das \u00faltimas d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>O presidente Trump tamb\u00e9m deixou isso claro ao afirmar que o principal advers\u00e1rio dos Estados Unidos \u00e9 o comunismo. N\u00e3o \u00e9 uma disputa contra um pa\u00eds espec\u00edfico, mas contra uma ideologia.<\/p>\n<p>Na minha avalia\u00e7\u00e3o, as m\u00e1scaras est\u00e3o caindo. Os Estados Unidos passaram a reconhecer esse cen\u00e1rio de maneira mais expl\u00edcita, e isso fortalece aqueles que defendem o enfrentamento desse projeto tamb\u00e9m no Brasil.<\/p>\n<p><strong>Entrelinhas<\/strong> \u2013 <strong>Nas \u00faltimas semanas vieram \u00e0 tona diversos epis\u00f3dios envolvendo espionagem internacional: uma suposta rede de espi\u00f5es utilizando documentos brasileiros, uma cidad\u00e3 chinesa presa como estagi\u00e1ria da OTAN e investiga\u00e7\u00f5es envolvendo agentes ligados ao Partido Comunista Chin\u00eas. O senhor costuma afirmar que vivemos uma &#8220;Guerra Fria 2.0&#8221;. Como interpreta esse cen\u00e1rio?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ernesto Ara\u00fajo<\/strong> \u2013 Estamos numa Guerra Fria 2.0 e toda guerra tem a espionagem como um dos seus carros-chefes. Intelig\u00eancia, informa\u00e7\u00e3o, desinforma\u00e7\u00e3o, contra-informa\u00e7\u00e3o, tudo isso est\u00e1 presente e hoje de maneira muito mais disseminada do que nas \u00e9pocas anteriores. Hoje os &#8220;James Bond&#8221; est\u00e3o por a\u00ed. S\u00e3o os rob\u00f4s na internet criando desinforma\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m continuam existindo os agentes humanos.<\/p>\n<p>O bloco totalit\u00e1rio, que na Guerra Fria anterior era comandado pela Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, hoje \u00e9 comandado pela China, mas continua tendo a R\u00fassia como parceira. Esses poderes herdaram um imenso capital de experi\u00eancia, redes de contatos e mecanismos de atua\u00e7\u00e3o. N\u00e3o houve uma ruptura. Tudo isso continua existindo. Inclusive, n\u00f3s temos no poder na R\u00fassia um ex-agente da KGB.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 um confronto que n\u00e3o \u00e9 apenas militar. \u00c9 uma guerra h\u00edbrida. China, R\u00fassia e Ir\u00e3 est\u00e3o tentando destruir o mundo livre, o Ocidente e a democracia em diversos lugares, inclusive no Brasil. O pa\u00eds \u00e9 alvo pela import\u00e2ncia que possui, mas infelizmente tamb\u00e9m est\u00e1 se prestando a ser uma estufa para cria\u00e7\u00e3o de espi\u00f5es e agentes.<\/p>\n<p>Precisamos perder a inoc\u00eancia. Existe esse mundo da intelig\u00eancia e da espionagem. O Brasil n\u00e3o deveria ser um lugar de forma\u00e7\u00e3o de agentes nem favorecer, nesse terreno, o projeto do bloco totalit\u00e1rio.<\/p>\n<p><strong>Entrelinhas<\/strong> \u2013 <strong>O senhor tem defendido que a pandemia representou um ponto de inflex\u00e3o para o avan\u00e7o de estruturas de poder em diversos pa\u00edses. Na sua leitura, aquele per\u00edodo abriu caminho para mudan\u00e7as institucionais que hoje ainda repercutem no Brasil?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ernesto Ara\u00fajo<\/strong> \u2013 Certamente. O Brasil pode ser considerado um laborat\u00f3rio. Assim como houve o laborat\u00f3rio de Wuhan, o Brasil tamb\u00e9m se tornou um laborat\u00f3rio de expans\u00e3o de v\u00e1rios v\u00edrus ideol\u00f3gicos e totalit\u00e1rios. Um deles \u00e9 esse v\u00edrus da juristocracia.<\/p>\n<p>A pandemia teve tudo a ver com isso porque foi um momento de fortalecimento de uma m\u00e1quina de poder. Estamos falando de uma guerra em que o bloco totalit\u00e1rio encontrou aliados dentro do pr\u00f3prio Ocidente. Houve uma combina\u00e7\u00e3o entre a China e elites pol\u00edticas, econ\u00f4micas e institucionais ocidentais.<\/p>\n<p>O que me chamou aten\u00e7\u00e3o na \u00e9poca foi como, em poucos dias, j\u00e1 estava pronto um conjunto de dogmas: lockdown, inexist\u00eancia de tratamento, espera obrigat\u00f3ria pela vacina. Tudo isso passou a ser apresentado como ci\u00eancia.<\/p>\n<p>Naquele momento, eu dizia que o Ocidente estava cometendo um suic\u00eddio. Um suic\u00eddio cient\u00edfico, ao aceitar que outros definissem o que era ci\u00eancia, e tamb\u00e9m um suic\u00eddio institucional, ao aceitar censura, restri\u00e7\u00f5es \u00e0s liberdades e um modelo de sociedade de controle. Felizmente, hoje h\u00e1 mais pessoas dispostas a investigar o que realmente aconteceu.<\/p>\n<p><strong>Entrelinhas<\/strong> \u2013 <strong>Muito se discute hoje a disputa entre Estados Unidos e China. No caso brasileiro, como o senhor interpreta a atual rela\u00e7\u00e3o entre Bras\u00edlia e Pequim, especialmente em um momento em que temas como tarifas comerciais e depend\u00eancia econ\u00f4mica voltaram ao centro do debate?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ernesto Ara\u00fajo<\/strong> \u2013 A China tem um plano para o Brasil. Ela reservou ao Brasil um papel dentro do seu projeto hegem\u00f4nico mundial: ser fornecedor de alimentos e consumidor dos seus produtos.<\/p>\n<p>Na minha avalia\u00e7\u00e3o, Pequim acredita que j\u00e1 tem boa parte das elites pol\u00edticas brasileiras no bolso, e at\u00e9 parcelas importantes da elite empresarial.<\/p>\n<p>Quando o governo Lula tentou uma aproxima\u00e7\u00e3o com os Estados Unidos, a China deu um sinal ao manter tarifas que poderiam ter sido revistas. Foi uma demonstra\u00e7\u00e3o de for\u00e7a. A mensagem era: quem controla esse mercado somos n\u00f3s.<\/p>\n<p>Tentamos mudar isso durante o governo Bolsonaro, buscando diversificar mercados e reduzir essa depend\u00eancia. Hoje, por\u00e9m, a China acredita que tem o jogo na m\u00e3o e pretende utilizar essa influ\u00eancia para favorecer o seu projeto pol\u00edtico no Brasil.<\/p>\n<p><strong>Entrelinhas<\/strong> \u2013 <strong>O senhor afirma que a pr\u00f3xima elei\u00e7\u00e3o brasileira ter\u00e1 um componente internacional muito mais evidente do que em pleitos anteriores. De que maneira essa disputa entre Washington e Pequim deve influenciar o debate pol\u00edtico interno?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ernesto Ara\u00fajo<\/strong> \u2013 Essa ser\u00e1 uma elei\u00e7\u00e3o profundamente geopol\u00edtica. N\u00e3o estaremos decidindo apenas entre candidatos, mas entre modelos de sociedade.<\/p>\n<p>Na minha vis\u00e3o, haver\u00e1 um projeto alinhado aos Estados Unidos, baseado na liberdade, e outro alinhado \u00e0 China, baseado no totalitarismo.<\/p>\n<p>A China quer manter o Brasil na sua \u00f3rbita e vai trabalhar para isso. As pessoas precisam entender que essa escolha ter\u00e1 consequ\u00eancias muito al\u00e9m da pol\u00edtica dom\u00e9stica.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Poucos nomes sintetizam de forma t\u00e3o clara a vis\u00e3o conservadora da pol\u00edtica externa brasileira quanto Ernesto Ara\u00fajo. 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