{"id":599042,"date":"2026-07-30T14:12:50","date_gmt":"2026-07-30T18:12:50","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=599042"},"modified":"2026-07-30T14:12:50","modified_gmt":"2026-07-30T18:12:50","slug":"o-lula-empurra-o-brasil-para-fora-da-nova-geografia-industrial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=599042","title":{"rendered":"O Lula empurra o Brasil para fora da nova geografia industrial"},"content":{"rendered":"<div class=\"postLayout-module-scss-module__08MJ-a__postContent\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/media.gazetadopovo.com.br\/2026\/07\/30150358\/Lula-1-1024x568-1-960x540.jpg.webp\" \/><span>O presidente Lula em entrevista coletiva em Pequim, na China, em 14 de maio de 2025. (Foto: Ricardo Stuckert\/PR)<\/span>\n<p>Ou\u00e7a este conte\u00fado<\/p>\n<div class=\"postBody-module-scss-module__8_WGKG__postBodyContainer\">\n<p class=\"postParagraph-module-scss-module__Tp8H3W__postParagraph postParagraph-module-scss-module__Tp8H3W__postParagraphInnerHtml\">A geografia da produ\u00e7\u00e3o mundial est\u00e1 mudando. Enquanto o Brasil trata a disputa entre Estados Unidos e China como palco para discursos sobre uma ordem \u201cmultipolar\u201d, empresas ao redor do mundo, sobretudo as americanas, redesenham suas cadeias com crit\u00e9rios concretos: dist\u00e2ncia, seguran\u00e7a, tempo de entrega, estabilidade regulat\u00f3ria e risco geopol\u00edtico. O <em>nearshoring<\/em>, portanto, vai al\u00e9m da economia. \u00c9 parte de uma nova arquitetura de seguran\u00e7a hemisf\u00e9rica.<\/p>\n<p class=\"postParagraph-module-scss-module__Tp8H3W__postParagraph postParagraph-module-scss-module__Tp8H3W__postParagraphInnerHtml\">Entre 2020 e 2025, o com\u00e9rcio americano de bens e servi\u00e7os com a Am\u00e9rica Latina e o Caribe saltou de US$ 983 bilh\u00f5es para quase US$ 1,7 trilh\u00e3o. No mesmo per\u00edodo, o interc\u00e2mbio dos Estados Unidos com a China caiu de US$ 615 bilh\u00f5es para US$ 496 bilh\u00f5es. No primeiro trimestre de 2026, foram US$ 450 bilh\u00f5es negociados com a regi\u00e3o, contra US$ 116 bilh\u00f5es com a China. Os n\u00fameros revelam que o <em>nearshoring<\/em> n\u00e3o \u00e9 mais um projeto abstrato, mas uma realidade mensur\u00e1vel.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o significa que as f\u00e1bricas estejam massivamente abandonando a \u00c1sia. A China continua inserida nas cadeias globais, mas a tend\u00eancia \u00e9 que seja cada vez menos. Mas a dire\u00e7\u00e3o \u00e9 clara: uma parcela crescente do com\u00e9rcio americano desloca-se para pa\u00edses pr\u00f3ximos. No mundo p\u00f3s-Covid, a estabilidade e a confiabilidade das cadeias de suprimentos se tornaram vari\u00e1veis que competem com o pre\u00e7o.<\/p>\n<p>Governos n\u00e3o ordenam que empresas abandonem fornecedores, mas alteram seus c\u00e1lculos. Regras de origem, incentivos, log\u00edstica, seguran\u00e7a e acesso ao mercado passaram a pesar tanto quanto a m\u00e3o de obra. Depois da pandemia, das guerras e do uso do com\u00e9rcio como instrumento de coer\u00e7\u00e3o, a cadeia mais barata deixou de ser, necessariamente, a mais segura.<\/p>\n<p>O M\u00e9xico entendeu isso. Entre 2020 e 2025, seu com\u00e9rcio com os Estados Unidos cresceu US$ 389 bilh\u00f5es, mais da metade da expans\u00e3o registrada entre os americanos e toda a regi\u00e3o. Sua vantagem combina proximidade, infraestrutura, integra\u00e7\u00e3o industrial e o acordo entre Estados Unidos, M\u00e9xico e Canad\u00e1. Componentes, servi\u00e7os, tecnologia e montagem circulam hoje por uma plataforma produtiva norte-americana. Nesse per\u00edodo, os presidentes esquerdistas do M\u00e9xico, Andr\u00e9s Manuel L\u00f3pez Obrador e, depois, Claudia Sheinbaum, n\u00e3o se declararam amigos da Am\u00e9rica, tampouco se portaram como inimigos.<\/p>\n<p>A Am\u00e9rica Central avan\u00e7a com zonas francas, ind\u00fastria farmac\u00eautica, agroind\u00fastria e servi\u00e7os. A Costa Rica mostra que pa\u00edses pequenos podem competir por qualifica\u00e7\u00e3o e previsibilidade. Na Am\u00e9rica do Sul, minerais cr\u00edticos, energia, alimentos, ind\u00fastria aeroespacial e infraestrutura digital poderiam formar um segundo anel de cadeias confi\u00e1veis.<\/p>\n<p>\u00c9 exatamente a\u00ed que o Brasil deveria estar. O pa\u00eds re\u00fane escala, base industrial, energia, agricultura, minerais, tecnologia e posi\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Poucas economias possuem tantas condi\u00e7\u00f5es para se tornarem indispens\u00e1veis na reorganiza\u00e7\u00e3o produtiva do hemisf\u00e9rio. Lula, entretanto, empurra o Brasil na dire\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Em vez de reduzir atritos, recuperar a confian\u00e7a e negociar pragmaticamente com os Estados Unidos, o governo transforma diverg\u00eancias comerciais em combust\u00edvel para sua ret\u00f3rica ideol\u00f3gica. Washington est\u00e1 reorganizando sua pol\u00edtica econ\u00f4mica em torno de reciprocidade, seguran\u00e7a das cadeias produtivas e prote\u00e7\u00e3o de setores estrat\u00e9gicos. O Brasil pode contestar medidas espec\u00edficas, defender seus interesses e negociar melhores condi\u00e7\u00f5es. O que n\u00e3o pode fazer \u00e9 utilizar cada diverg\u00eancia como justificativa para afastar-se da maior economia do planeta e aprofundar sua vincula\u00e7\u00e3o com Pequim.<\/p>\n<p>N\u00e3o cabe ao Brasil esperar indulg\u00eancia de Washington. Cabe demonstrar que pode ser um parceiro confi\u00e1vel, economicamente relevante e estrategicamente compat\u00edvel com a reconstru\u00e7\u00e3o industrial do hemisf\u00e9rio. Responder aos atritos com os Estados Unidos aproximando-se ainda mais da China n\u00e3o \u00e9 autonomia. \u00c9 permitir que uma dificuldade conjuntural acelere uma depend\u00eancia estrutural.<\/p>\n<p>A China \u00e9 essencial ao com\u00e9rcio brasileiro, e romper essa rela\u00e7\u00e3o seria irracional. O erro est\u00e1 em confundir um comprador importante com uma alternativa estrat\u00e9gica. Pequim compra, sobretudo, soja, min\u00e9rio, petr\u00f3leo e outros produtos prim\u00e1rios, enquanto vende m\u00e1quinas, eletr\u00f4nicos e bens de maior valor agregado. O arranjo gera super\u00e1vits, mas refor\u00e7a uma divis\u00e3o conhecida: o Brasil fornece recursos naturais; a China concentra ind\u00fastria, tecnologia, financiamento, log\u00edstica e processamento.<\/p>\n<p class=\"postParagraph-module-scss-module__Tp8H3W__postParagraph postParagraph-module-scss-module__Tp8H3W__postParagraphInnerHtml\">Os n\u00fameros tornam essa assimetria ainda mais evidente. Em 2025, a China absorveu 51,5% das exporta\u00e7\u00f5es brasileiras da ind\u00fastria extrativa e 47% das vendas da agropecu\u00e1ria. Os Estados Unidos, por sua vez, foram o principal destino da ind\u00fastria brasileira de transforma\u00e7\u00e3o, com 16%, diante de 11,7% destinados ao mercado chin\u00eas. A escolha n\u00e3o \u00e9 apenas entre dois parceiros comerciais. \u00c9 entre aprofundar a depend\u00eancia de <em>commodities<\/em> ou recuperar densidade industrial.<\/p>\n<p>A depend\u00eancia surge quando o mesmo parceiro se torna comprador dominante, fornecedor industrial, financiador de infraestrutura e operador de setores estrat\u00e9gicos. Portos, telecomunica\u00e7\u00f5es, energia, centros de dados e minerais cr\u00edticos n\u00e3o s\u00e3o ativos comuns. Em uma crise, podem tornar-se instrumentos de press\u00e3o e controle log\u00edstico.<\/p>\n<p>Lula apresenta a aproxima\u00e7\u00e3o com a China como prova de soberania, enquanto afasta o Brasil do mercado capaz de impulsionar sua reinser\u00e7\u00e3o industrial. Os Estados Unidos n\u00e3o s\u00e3o apenas um comprador. S\u00e3o o centro do maior ecossistema mundial de capital, tecnologia, inova\u00e7\u00e3o, defesa e consumo de alto valor.<\/p>\n<blockquote class=\"postQuote-module-scss-module__jALRda__postQuoteContainer\">\n<p>O Brasil n\u00e3o precisa escolher entre chineses e americanos. Precisa evitar que a rela\u00e7\u00e3o com Pequim limite suas op\u00e7\u00f5es e aproveitar a transfer\u00eancia das cadeias produtivas para as Am\u00e9ricas<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Uma diplomacia adulta diversifica mercados, atrai investimentos concorrentes e impede depend\u00eancia excessiva. A pol\u00edtica externa de Lula faz o oposto: chama o alinhamento ideol\u00f3gico de multipolaridade e transforma o antiamericanismo em estrat\u00e9gia econ\u00f4mica.<\/p>\n<p class=\"postParagraph-module-scss-module__Tp8H3W__postParagraph postParagraph-module-scss-module__Tp8H3W__postParagraphInnerHtml\">A janela do <em>nearshoring<\/em> n\u00e3o ficar\u00e1 aberta para sempre. M\u00e9xico, Am\u00e9rica Central e parceiros asi\u00e1ticos j\u00e1 disputam f\u00e1bricas e contratos. Se o Brasil continuar exportando <em>commodities<\/em> para a China, importando produtos de maior valor e tratando os Estados Unidos como advers\u00e1rio pol\u00edtico, ficar\u00e1 fora da nova geografia industrial.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<\/div>\n<p>Encontrou algo errado na mat\u00e9ria?<\/p>\n<p>Comunique erros<\/p>\n<p>Use este espa\u00e7o apenas para a comunica\u00e7\u00e3o de erros<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O presidente Lula em entrevista coletiva em Pequim, na China, em 14 de maio de 2025. 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