{"id":598784,"date":"2026-07-30T11:08:56","date_gmt":"2026-07-30T15:08:56","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=598784"},"modified":"2026-07-30T11:08:56","modified_gmt":"2026-07-30T15:08:56","slug":"solo-encharcado-e-nao-o-vento-faz-araucarias-gigantes-tombarem-no-sul-do-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=598784","title":{"rendered":"Solo encharcado, e n\u00e3o o vento, faz arauc\u00e1rias gigantes tombarem no Sul do Brasil"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody-module-scss-module__8_WGKG__postBodyContainer\">\n<p>No alto da serra catarinense, a rotina da fam\u00edlia Souza come\u00e7a com barulho de quadriciclos cruzando o campo gelado em dire\u00e7\u00e3o a uma clareira de ch\u00e3o batido. O trajeto \u00e9 curto, mas termina diante do tronco de uma \u00e1rvore t\u00e3o largo que um adulto n\u00e3o consegue abra\u00e7\u00e1-lo: mais de tr\u00eas metros de di\u00e2metro na base e uma cavidade em que, no passado, tropeiros e lavradores se abrigavam da chuva.<\/p>\n<p>\u00c9 ali que est\u00e1 <strong>o \u201cPinheir\u00e3o\u201d de S\u00e3o Joaquim<\/strong>, hoje medido como a maior arauc\u00e1ria conhecida no Brasil, com 39,2 metros de altura e 106,6 metros c\u00fabicos de volume de madeira. \u201cMinha fam\u00edlia cuida dessa arauc\u00e1ria h\u00e1 aproximadamente 140 anos\u201d, conta Ant\u00f4nio Luciano de Souza, propriet\u00e1rio da fazenda batizada em homenagem \u00e0 \u00e1rvore.<\/p>\n<p>\u201cMeu av\u00f4 falava que ela era uma gigante da natureza. Que era uma arauc\u00e1ria da sorte porque venceu a gan\u00e2ncia do homem, eles n\u00e3o tinham serras grandes o suficiente para cort\u00e1-la.\u201d A descri\u00e7\u00e3o combina com o retrato cient\u00edfico feito anos depois por pesquisadores, que registraram o tronco com 3,25 metros de di\u00e2metro \u00e0 altura do peito e cavidades internas de v\u00e1rios metros quadrados.<\/p>\n<p>\u201cA visita\u00e7\u00e3o das pessoas come\u00e7ou em 2012. N\u00e3o podia limitar ela somente para minha fam\u00edlia, seria ego\u00edsmo da minha parte\u201d, diz o propriet\u00e1rio, revelando que o turismo chegou antes da certifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para ele, receber turistas virou uma forma de educa\u00e7\u00e3o ambiental. \u201cIsso gera um incentivo \u00e0s futuras gera\u00e7\u00f5es sobre a preserva\u00e7\u00e3o das arauc\u00e1rias.\u201d<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/media.gazetadopovo.com.br\/2026\/07\/30114233\/Design-sem-nome-8.jpg.webp\" \/><i>A Fazenda Pinheir\u00e3o, em S\u00e3o Joaquim (SC), abriga a maior arauc\u00e1ria conhecida do Brasil. (Foto: Divulga\u00e7\u00e3o\/Fazenda Pinheir\u00e3o)<\/i><\/p>\n<p>N\u00e3o existe um protocolo oficial de prote\u00e7\u00e3o ou manuten\u00e7\u00e3o para a \u00e1rvore. O propriet\u00e1rio conta que o cuidado principal \u00e9 controlar o acesso, com todas as visitas feitas sob a supervis\u00e3o de um guia da fazenda para que nenhum um dano seja feito ao exemplar.<\/p>\n<p>Mesmo assim, Souza admite um temor: \u201cMinha maior preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 a queda da arauc\u00e1ria, assim a gente se preocupa muito porque contra a natureza n\u00e3o existe defesa.\u201d<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<h2>Onde est\u00e3o as \u00e1rvores gigantes e quantas ainda existem<\/h2>\n<p>A \u00e1rvore que virou estrela da fazenda em S\u00e3o Joaquim tamb\u00e9m ganhou destaque dentro da categoria criada por pesquisadores para separar os exemplares fora de qualquer padr\u00e3o. Em 2019, Marcelo Scipioni, pesquisador da Universidade de Santa Catarina (UFSC), e sua equipe de engenheiros florestais, publicou um levantamento batizado de \u201c\u00e1rvores gigantes\u201d da esp\u00e9cie <em>Araucaria angustifolia<\/em>: troncos com di\u00e2metro \u00e0 altura do peito acima de 1,5 metro e alturas que passam dos 30 metros.<\/p>\n<p>Para montar esse retrato, o grupo percorreu mais de 6,8 mil quil\u00f4metros em estradas do Sul do Brasil, medindo 3.529 arauc\u00e1rias em invent\u00e1rios florestais do Paran\u00e1, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. No fim da viagem, o n\u00famero que sobrou para a classe dos gigantes foi pequeno: <strong>apenas 21 \u00e1rvores entraram na lista na \u00e9poca<\/strong>, espalhadas por fazendas, parques municipais, reservas particulares e \u00e1reas experimentais da Embrapa.<\/p>\n<p>A maior de todas era justamente o Pinheir\u00e3o da fam\u00edlia Souza. Na sequ\u00eancia v\u00eam o <strong>Pinheiro Grosso, em Canela (RS)<\/strong>, com 2,68 metros de di\u00e2metro e estrutura de visita\u00e7\u00e3o consolidada, e a <strong>antiga arauc\u00e1ria gigante de Cruz Machado (PR)<\/strong>, que alguns anos depois acabaria tombando.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o, o grupo mant\u00e9m uma <a href=\"https:\/\/www.arvoresgigantes.org\/\">plataforma que atualiza esse <em>ranking<\/em><\/a> com novas descobertas e medi\u00e7\u00f5es. Na lista mais recente, <strong>s\u00e3o pouco mais de 40 arauc\u00e1rias gigantes vivas no Sul<\/strong>, todas com di\u00e2metro acima de 1,5 metro, distribu\u00eddas em cidades como S\u00e3o Joaquim, Campos Novos, Fraiburgo, Ca\u00e7ador, Gramado Xavier, Nova Petr\u00f3polis, Guarapuava e Mandirituba.<\/p>\n<p>Em alguns casos, como o Pinheiro Grosso, a \u00e1rvore virou <strong>atra\u00e7\u00e3o tur\u00edstica<\/strong> visitada por mais de 13 mil pessoas por ano; em outros, est\u00e3o em fazendas particulares e seguem escondidas.\u00a0Dentro desse grupo j\u00e1 reduzido, a lista das \u00e1rvores com mais de 2 metros de di\u00e2metro \u00e9 ainda menor: pouco mais de uma dezena de exemplares:<\/p>\n<ul>\n<li>1\u00aa \u2014 S\u00e3o Joaquim (SC) \u2014 Pinheir\u00e3o: 3,25 m de DAP (di\u00e2metro \u00e0 altura do peito), 39,2 m de altura<\/li>\n<li>2\u00aa \u2014 Canela (RS) \u2014 Pinheiro Grosso: 2,68 m de DAP, 39 m de altura<\/li>\n<li>3\u00aa \u2014 Urupema (SC) \u2014 Bossoroca: 2,45 m de DAP, 33 m de altura<\/li>\n<li>4\u00aa \u2014 S\u00e3o Joaquim (SC) \u2014 Menina da Cust\u00f3dia: 2,25 m de DAP, 39,3 m de altura<\/li>\n<li>5\u00aa \u2014 Campos Novos (SC): 2,21 m de DAP, 44 m de altura<\/li>\n<li>6\u00aa \u2014 Alfredo Wagner (SC) \u2014 Santo Anjo 1: 2,20 m de DAP, 37 m de altura<\/li>\n<li>7\u00aa \u2014 Guarapuava (PR): 2,16 m de DAP, 35,5 m de altura<\/li>\n<li>8\u00aa \u2014 Gramado Xavier (RS) \u2014 Pinheir\u00e3o: 2,14 m de DAP, 42 m de altura<\/li>\n<li>9\u00aa \u2014 Fraiburgo (SC) \u2014 Floresta Ren\u00e9 Frey: 2,13 m de DAP, 40 m de altura<\/li>\n<li>10\u00aa \u2014 Santa Cec\u00edlia (SC): 2,10 m de DAP, 35,5 m de altura<\/li>\n<\/ul>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<h2>As quedas que acenderam um alerta\u00a0<\/h2>\n<p>Nos \u00faltimos anos, preocupa\u00e7\u00f5es como a de Souza deixaram de ser apenas medo intuitivo de produtor rural e passaram a fazer parte de um mapa de perdas concretas. Em 2023, uma das arauc\u00e1rias mais emblem\u00e1ticas do Paran\u00e1, conhecida como <strong>\u201cArauc\u00e1ria Gigante\u201d e localizada na regi\u00e3o de Cruz Machado<\/strong>, tombou depois de d\u00e9cadas servindo como refer\u00eancia local e alvo de estudos cient\u00edficos.<\/p>\n<p>Esta queda foi registrada pela mesma equipe que monitora o Pinheir\u00e3o de S\u00e3o Joaquim. O impacto foi t\u00e3o grande que a Embrapa Florestas decidiu produzir mudas clonadas a partir do material gen\u00e9tico do exemplar perdido.<\/p>\n<p>Em 2025, uma dessas mudas foi plantada nos jardins do Pal\u00e1cio Igua\u00e7u, sede do governo do Paran\u00e1, em uma cerim\u00f4nia que tratou a nova arauc\u00e1ria como herdeira simb\u00f3lica da que se foi.\u00a0Santa Catarina tamb\u00e9m entrou nesse mapa.<\/p>\n<p>Em Ca\u00e7ador, na esta\u00e7\u00e3o experimental da Embrapa, <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/santa-catarina\/cientistas-tentam-salvar-material-genetico-de-uma-das-maiores-araucarias-do-pais-para-clonagem\/\">uma das maiores arauc\u00e1rias do campo de pesquisa caiu<\/a> neste ano, depois de anos sendo usada como refer\u00eancia em medi\u00e7\u00f5es e ensaios. O local abriga outras \u00e1rvores gigantes, ainda em p\u00e9, mas a queda desse exemplar refor\u00e7ou a sensa\u00e7\u00e3o de que nem mesmo \u00e1reas t\u00e9cnicas, com monitoramento mais frequente, est\u00e3o imunes.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/media.gazetadopovo.com.br\/2026\/07\/30114329\/Design-sem-nome-9.jpg.webp\" \/><i>Na esta\u00e7\u00e3o experimental da Embrapa em Ca\u00e7ador (SC), a queda de uma arauc\u00e1ria gigante mobilizou pesquisadores em uma corrida para preservar o DNA centen\u00e1rio. (Foto: Katia Pichelli\/Divulga\u00e7\u00e3o Embrapa)<\/i><\/p>\n<p>O caso mais estudado, por\u00e9m, aconteceu em Fraiburgo, tamb\u00e9m no meio-oeste catarinense. No Parque Ren\u00e9 Frey, uma \u00e1rea urbana cercada por bairros residenciais, quatro arauc\u00e1rias monumentais ca\u00edram durante eventos de chuva intensa entre outubro e novembro de 2023.<\/p>\n<p>Ali, a queda deixou de ser apenas mais um caso e virou preocupa\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a: \u00e1rvores gigantes tombando ao lado de trilhas e ruas, em um parque que recebe visitantes diariamente. Esse conjunto de epis\u00f3dios acendeu um alerta aos pesquisadores: por que \u00e1rvores t\u00e3o grandes, que pareciam capazes de resistir a tudo, est\u00e3o caindo agora?<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<h2>O que est\u00e1 derrubando as \u00e1rvores\u00a0<\/h2>\n<p>A sequ\u00eancia de quedas levou o engenheiro florestal Scipioni a tratar o epis\u00f3dio como <strong>caso de estudo forense<\/strong>. \u201cAquelas \u00e1rvores eram monumentais, com dezenas de toneladas, e ca\u00edram em um per\u00edodo muito curto. Precis\u00e1vamos entender se isso era coincid\u00eancia ou um sinal de mudan\u00e7a nas condi\u00e7\u00f5es de estabilidade\u201d, resume o pesquisador.<\/p>\n<p>O trabalho, publicado em abril deste ano na revista cient\u00edfica <em>Agricultural and Forest Meteorology<\/em>, analisou em detalhe quatro arauc\u00e1rias que tombaram e uma quinta que sobreviveu no Parque Ren\u00e9 Frey, durante os eventos de chuva extrema do fim de 2023. Ele explica que a equipe mediu di\u00e2metro, altura, volume de madeira, resist\u00eancia da madeira, caracter\u00edsticas do solo e dados clim\u00e1ticos, cruzando tudo com registros de precipita\u00e7\u00e3o e vento no per\u00edodo.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/media.gazetadopovo.com.br\/2026\/07\/24122938\/20231106_122155-e1784907113486.jpg.webp\" \/><i>Quedas recentes de arauc\u00e1rias gigantes acenderam o alerta e motivaram pesquisas que ligam a instabilidade dessas \u00e1rvores a solos argilosos encharcados e longos per\u00edodos de chuva. (Foto: Katia Pichelli\/Divulga\u00e7\u00e3o Embrapa)<\/i><\/p>\n<p>Logo de in\u00edcio, os pesquisadores afastaram a hip\u00f3tese mais intuitiva. \u201cMuitos pensam que \u00e9 o vento que derruba essas \u00e1rvores, mas no nosso estudo o esfor\u00e7o do vento nunca chegou perto do limite de ruptura da madeira\u201d, conta Scipioni.<\/p>\n<p>Os c\u00e1lculos mostraram que, mesmo em dias com rajadas fortes, a tens\u00e3o de flex\u00e3o no tronco ficou abaixo do m\u00f3dulo de ruptura da madeira, estimado em cerca de 71,59 megapascais. Amostras de solo coletadas ao redor das arauc\u00e1rias mostraram que se tratava de solos muito argilosos, com alta capacidade de reter \u00e1gua.<\/p>\n<p>O pesquisador explica que, em condi\u00e7\u00f5es normais, esse tipo de solo tem resist\u00eancia ao cisalhamento em torno de 50 quilopascais, valor suficiente para manter ra\u00edzes ancoradas. Mas a chuva prolongada, por\u00e9m, derrubou essa resist\u00eancia para cerca de 36 quilopascais, patamar em que o solo se aproxima do chamado \u201climite de liquidez\u201d e come\u00e7a a perder coes\u00e3o, ressalta Scipioni.<\/p>\n<p>\u201cCom o solo saturado, as ra\u00edzes perdem sustenta\u00e7\u00e3o. <strong>\u00c9 como tentar segurar uma \u00e1rvore em cima de lama<\/strong>\u201d.\u00a0O problema \u00e9 descrito por ele em etapas: chuvas intensas encharcam o solo, reduzem sua resist\u00eancia, e isso leva ao tombamento de \u00e1rvores gigantes mesmo sem ventos extremos.<\/p>\n<p>Uma compara\u00e7\u00e3o entre as cinco \u00e1rvores analisadas ajuda a entender o mecanismo:<\/p>\n<ul>\n<li><span><strong>As duas \u00e1rvores que ca\u00edram<\/strong> estavam em posi\u00e7\u00f5es de sop\u00e9, com declividade muito baixa (entre 0% e 3%), \u00e1reas onde a \u00e1gua tende a se acumular e o solo satura mais r\u00e1pido.<\/span><\/li>\n<\/ul>\n<ul>\n<li><span><strong>A \u00e1rvore que sobreviveu<\/strong>, mesmo com maior volume de madeira e a maior biomassa do grupo, estava em um terreno com leve inclina\u00e7\u00e3o (entre 3% e 8%), o que favorecia a drenagem da \u00e1gua.<\/span><\/li>\n<\/ul>\n<p>\u201cN\u00e3o foi a maior \u00e1rvore que caiu, foi a que estava no pior lugar em termos de drenagem e satura\u00e7\u00e3o do solo\u201d, resume Scipioni.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<h2><em>El Ni\u00f1o<\/em>, chuva extrema e o novo cen\u00e1rio para as arauc\u00e1rias<\/h2>\n<p>O pesquisador faz quest\u00e3o de frisar que o problema n\u00e3o s\u00e3o apenas \u201ctempestades isoladas\u201d, mas o novo padr\u00e3o de chuva em anos do fen\u00f4meno <em>El Ni\u00f1o<\/em>. \u201cO que temos observado \u00e9 que, em anos de <em>El Ni\u00f1o<\/em>, a chuva deixa de ser um evento pontual e passa a ser uma sequ\u00eancia, que mant\u00e9m o solo encharcado por muito mais tempo\u201d, explica.<\/p>\n<p>Ele lembra que, em 2023, quando as quatro arauc\u00e1rias monumentais ca\u00edram no parque Ren\u00e9 Frey, em Fraiburgo, a regi\u00e3o viveu um per\u00edodo prolongado de chuvas fortes. \u201cN\u00e3o foi s\u00f3 um dia de temporal. Foram v\u00e1rios dias com precipita\u00e7\u00f5es altas, acumulando mais de 400 mil\u00edmetros em poucas semanas. Isso <strong>\u00e9 muita \u00e1gua entrando em um solo que j\u00e1 \u00e9 naturalmente argiloso<\/strong>\u201d, aponta.<\/p>\n<p>Para o pesquisador, isso muda a forma como o pa\u00eds deveria olhar para anos de <em>El Ni\u00f1o<\/em> em \u00e1reas onde ainda existem arauc\u00e1rias monumentais. \u201cN\u00e3o \u00e9 s\u00f3 mais chuva. \u00c9 mais dias com o solo encharcado, especialmente em solos argilosos. Se sabemos onde est\u00e3o as \u00e1rvores gigantes e como \u00e9 o solo ali, conseguimos antecipar cen\u00e1rios de risco\u201d, afirma.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<h2>O que pode ser feito para evitar novas quedas<\/h2>\n<p>O pesquisador insiste que a conclus\u00e3o do estudo n\u00e3o se resume a um diagn\u00f3stico pessimista, e sim \u00e9 <strong>um roteiro de a\u00e7\u00f5es poss\u00edveis<\/strong>. \u201cA boa not\u00edcia \u00e9 que parte desse risco pode ser manejada. Se conhecemos o tipo de solo, o relevo e a posi\u00e7\u00e3o das arauc\u00e1rias gigantes, conseguimos atuar antes que a satura\u00e7\u00e3o chegue a n\u00edveis cr\u00edticos\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Uma das principais recomenda\u00e7\u00f5es apontadas por ele \u00e9 monitorar de forma cont\u00ednua a umidade do solo em torno das \u00e1rvores monumentais, principalmente em \u00e1reas com solos argilosos e relevo de sop\u00e9. Em anos de <em>El Ni\u00f1o<\/em>, quando a sequ\u00eancia de chuvas \u00e9 mais longa, esse tipo de medi\u00e7\u00e3o permitiria acionar planos de emerg\u00eancia \u2014 como restri\u00e7\u00e3o de acesso em dias de maior risco e avalia\u00e7\u00e3o de drenagem \u2014 em vez de descobrir o problema s\u00f3 depois que uma \u00e1rvore cai.<\/p>\n<p>Outra frente apontada pelo pesquisador \u00e9 a melhoria da drenagem em locais planos e muito visitados. Parques urbanos, \u00e1reas experimentais e fazendas com grande fluxo tur\u00edstico poderiam, segundo ele, investir em canais de escoamento, manejo de encostas e revis\u00e3o de trilhas, para evitar que a \u00e1gua se acumule exatamente onde est\u00e3o as ra\u00edzes das gigantes.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o adianta pensar s\u00f3 em cortar galhos que parecem perigosos. O ponto fr\u00e1gil est\u00e1 no contato entre raiz e solo, e \u00e9 ali que a gest\u00e3o precisa entrar\u201d, ressalta.<\/p>\n<p>Scipioni tamb\u00e9m defende o uso de t\u00e9cnicas n\u00e3o destrutivas para acompanhar a sa\u00fade estrutural das \u00e1rvores, especialmente aquelas com grandes cavidades na base, como o pr\u00f3prio Pinheir\u00e3o. Ferramentas como tomografia s\u00f4nica de tronco e medi\u00e7\u00e3o din\u00e2mica de deforma\u00e7\u00e3o permitem avaliar o interior da madeira e a presen\u00e7a de vazios sem precisar derrubar o exemplar.<\/p>\n<p>\u201cS\u00e3o \u00e1rvores com valor ecol\u00f3gico e cultural muito alto. Se tratamos pontes e pr\u00e9dios com monitoramento estrutural, faz sentido aplicar a mesma l\u00f3gica a \u00e1rvores monumentais em \u00e1reas de uso p\u00fablico\u201d, argumenta ele.<\/p>\n<p>O pesquisador reconhece, por\u00e9m, que h\u00e1 lacunas importantes. Nem todos os estados t\u00eam invent\u00e1rios t\u00e3o detalhados quanto o Sul do pa\u00eds, o que dificulta saber exatamente onde est\u00e3o todas as \u00e1rvores em risco. E boa parte dos exemplares monumentais est\u00e1 em propriedades privadas, dependendo da vontade dos donos para adotar protocolos de monitoramento e controle de visita\u00e7\u00e3o mais r\u00edgidos.<\/p>\n<p>\u201cSem saber onde est\u00e3o as \u00e1rvores e sem uma rede m\u00ednima de monitoramento, ficamos ref\u00e9ns da sorte e da estat\u00edstica\u201d, resume Scipioni. Para Souza, da Fazendo Pinheir\u00e3o, o que est\u00e1 em jogo vai al\u00e9m de n\u00fameros de di\u00e2metro e gr\u00e1ficos de solo.<\/p>\n<p>\u201cVejo esta arauc\u00e1ria como um legado dos meus antepassados. Continuarei honrando e preservando tudo o que nos foi deixado. Meu desejo \u00e9 que as futuras gera\u00e7\u00f5es continuem preservando, cuidando e amando a natureza, que este patrim\u00f4nio seja visto e vivenciado todos os dias.\u201d<\/p>\n<p>Do lado da ci\u00eancia, Scipioni enxerga o mesmo legado em escala maior. \u201cEssas \u00e1rvores s\u00e3o ao mesmo tempo laborat\u00f3rio vivo, patrim\u00f4nio ecol\u00f3gico e mem\u00f3ria cultural. Se deixarmos que caiam uma a uma, perdemos dados, perdemos hist\u00f3ria e perdemos um s\u00edmbolo de floresta que j\u00e1 foi muito maior\u201d, conclui.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No alto da serra catarinense, a rotina da fam\u00edlia Souza come\u00e7a com barulho de quadriciclos cruzando o campo gelado em&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":598714,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[189],"tags":[],"class_list":["post-598784","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-brasil"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/598784","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=598784"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/598784\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/598714"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=598784"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=598784"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=598784"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}