{"id":598746,"date":"2026-07-30T11:35:47","date_gmt":"2026-07-30T15:35:47","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=598746"},"modified":"2026-07-30T11:35:47","modified_gmt":"2026-07-30T15:35:47","slug":"o-brasil-contra-si-mesmo-a-contradicao-energetica-que-ninguem-quer-discutir","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=598746","title":{"rendered":"O Brasil contra si mesmo: a contradi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica que ningu\u00e9m quer discutir"},"content":{"rendered":"<div class=\"postLayout-module-scss-module__08MJ-a__postContent\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/media.gazetadopovo.com.br\/2026\/07\/30123243\/ChatGPT-Image-30-de-jul.-de-2026-12_32_14.jpg.webp\" \/><span>O Brasil entre o favorecimento eleitoreiro dos combust\u00edveis f\u00f3sseis e o apoio \u00e0 alternativa renov\u00e1vel nacional. (Foto: Imagem produzida por ChatGPT\/Gazeta do Povo)<\/span>\n<p>Ou\u00e7a este conte\u00fado<\/p>\n<div class=\"postBody-module-scss-module__8_WGKG__postBodyContainer\">\n<p>Nesta semana, duas not\u00edcias, lidas em conjunto, exp\u00f5em uma contradi\u00e7\u00e3o que deveria envergonhar qualquer respons\u00e1vel pela formula\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas no Brasil. O Brasil taxa o renov\u00e1vel, subsidia o f\u00f3ssil e importa petr\u00f3leo do vizinho.<\/p>\n<p>O <em>Financial Times<\/em> mostrou a recupera\u00e7\u00e3o da finlandesa Neste, uma das maiores produtoras mundiais de diesel renov\u00e1vel e combust\u00edvel sustent\u00e1vel de avia\u00e7\u00e3o. Em meio \u00e0 inseguran\u00e7a no Oriente M\u00e9dio, os combust\u00edveis renov\u00e1veis se valorizaram como instrumentos de independ\u00eancia e seguran\u00e7a energ\u00e9tica.<\/p>\n<p>No Brasil, a not\u00edcia era outra: o governo prorrogou o subs\u00eddio de R$ 0,44 por litro de gasolina. As medidas para baratear gasolina e diesel dever\u00e3o custar cerca de R$ 6,8 bilh\u00f5es por m\u00eas aos cofres p\u00fablicos. Enquanto outros pa\u00edses tornam os combust\u00edveis renov\u00e1veis mais competitivos, o Brasil usa dinheiro do contribuinte para baratear seus concorrentes f\u00f3sseis.<\/p>\n<p>Portugal concedeu isen\u00e7\u00e3o total do imposto sobre produtos petrol\u00edferos e energ\u00e9ticos a biocombust\u00edveis avan\u00e7ados certificados e gases renov\u00e1veis. Nos Estados Unidos, Illinois isenta do imposto estadual sobre vendas os combust\u00edveis com 51% a 83% de etanol, faixa na qual se enquadra o E85. A Col\u00f4mbia mant\u00e9m o \u00e1lcool carburante e o biodiesel nacional destinados \u00e0 mistura isentos do IVA e n\u00e3o sujeitos ao imposto nacional sobre gasolina e diesel. S\u00e3o pa\u00edses que utilizam a tributa\u00e7\u00e3o para estimular alternativas renov\u00e1veis, fortalecer a produ\u00e7\u00e3o dom\u00e9stica e reduzir a depend\u00eancia do petr\u00f3leo.<\/p>\n<p>E o Brasil, dono de uma das matrizes de biocombust\u00edveis mais eficientes do planeta? O pa\u00eds que construiu o maior programa de etanol de cana do mundo, criou o carro flex e possui enorme potencial em biodiesel, biometano, bioeletricidade e SAF continua tributando o combust\u00edvel renov\u00e1vel, enquanto subsidia gasolina e diesel.<\/p>\n<p>O governo renovou por mais 30 dias o subs\u00eddio de R$ 0,44 por litro da gasolina \u2014 mesmo depois de sinalizar que a retirada do benef\u00edcio estava pr\u00f3xima. O subs\u00eddio ao diesel, de R$ 1,12 por litro, continua em vigor, embora o governo tenha anunciado que pretende retir\u00e1-lo gradualmente. O pa\u00eds com a cana mais competitiva do mundo decidiu manter bilh\u00f5es de reais em subs\u00eddios aos combust\u00edveis f\u00f3sseis, ao mesmo tempo em que segue dependente da importa\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo e derivados, inclusive de pa\u00edses vizinhos, como a Guiana.<\/p>\n<p>\u00c9 uma medida de forte apelo eleitoral e que produz profundas distor\u00e7\u00f5es no agro. N\u00e3o \u00e9 falta de voca\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica. \u00c9 pol\u00edtica p\u00fablica trabalhando contra a pr\u00f3pria vantagem brasileira.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata de ignorar o peso dos combust\u00edveis sobre a infla\u00e7\u00e3o, os transportes e o pre\u00e7o dos alimentos. Em um pa\u00eds continental e dependente das rodovias, uma alta abrupta do diesel afeta toda a economia. Mas, justamente por isso, a resposta deveria ser estrutural.<\/p>\n<p>Enquanto o mundo prioriza o renov\u00e1vel com desonera\u00e7\u00e3o e incentivo, o etanol brasileiro \u2014 aperfei\u00e7oado aqui, produzido em escala aqui e competitivo aqui \u2014 enfrenta tributa\u00e7\u00e3o e concorr\u00eancia desleal do f\u00f3ssil bancado pelo pr\u00f3prio Tesouro Nacional.<\/p>\n<p>O Brasil deveria aproveitar as crises internacionais para ampliar a oferta de etanol, estimular o biometano, fortalecer o biodiesel e acelerar os investimentos em combust\u00edvel sustent\u00e1vel de avia\u00e7\u00e3o. Em vez disso, escolheu pagar parte da conta do combust\u00edvel f\u00f3ssil. O resultado \u00e9 uma guerra desigual.<\/p>\n<p>De um lado, as usinas enfrentam impostos, juros elevados, endividamento, riscos clim\u00e1ticos e inseguran\u00e7a regulat\u00f3ria. Do outro, a gasolina recebe subs\u00eddio direto do governo. Isso n\u00e3o \u00e9 neutralidade tecnol\u00f3gica.<\/p>\n<p>\u00c9 interven\u00e7\u00e3o estatal em favor do combust\u00edvel f\u00f3ssil.<\/p>\n<p>Onde est\u00e1 o Minist\u00e9rio do Meio Ambiente diante dessa decis\u00e3o? Onde est\u00e3o as organiza\u00e7\u00f5es que passam o ano inteiro acusando o produtor rural brasileiro de n\u00e3o fazer sua parte?<\/p>\n<p>Quando se trata de impor novas exig\u00eancias ao campo, contestar obras ou ampliar restri\u00e7\u00f5es, o discurso ambiental aparece imediatamente. Mas, quando o governo destina bilh\u00f5es para subsidiar gasolina e diesel, o sil\u00eancio \u00e9 constrangedor.<\/p>\n<p>A sustentabilidade brasileira parece funcionar apenas em uma dire\u00e7\u00e3o: cobra de quem produz, mas raramente cobra de quem governa.<\/p>\n<p>A contradi\u00e7\u00e3o fica ainda mais evidente na Margem Equatorial. O processo de licenciamento do bloco da Foz do Amazonas come\u00e7ou h\u00e1 mais de uma d\u00e9cada. Somente em 2025 o Ibama autorizou a perfura\u00e7\u00e3o de um po\u00e7o explorat\u00f3rio \u2014 uma pesquisa, n\u00e3o uma autoriza\u00e7\u00e3o para produzir petr\u00f3leo comercialmente.<\/p>\n<p>Enquanto o Brasil discutia durante anos se poderia sequer perfurar um po\u00e7o, a Guiana avan\u00e7ava rapidamente na explora\u00e7\u00e3o offshore, em uma regi\u00e3o com caracter\u00edsticas geol\u00f3gicas semelhantes \u00e0s da Margem Equatorial brasileira.<\/p>\n<p>Hoje, o Brasil compra petr\u00f3leo bruto do pa\u00eds vizinho. Em 2025, a Guiana j\u00e1 figurava entre os principais fornecedores externos do produto ao mercado brasileiro. E, ao mesmo tempo, o governo subsidia a comercializa\u00e7\u00e3o de gasolina e diesel, inclusive por produtores e importadores. A ironia \u00e9 evidente.<\/p>\n<p>O petr\u00f3leo do lado brasileiro enfrenta anos de resist\u00eancia e incerteza. O petr\u00f3leo extra\u00eddo do outro lado da fronteira chega aos nossos portos. Depois, a gasolina e o diesel ainda recebem subs\u00eddios p\u00fablicos, inclusive por meio de programas que alcan\u00e7am importadores habilitados.<\/p>\n<p>O petr\u00f3leo n\u00e3o se torna ambientalmente correto porque foi extra\u00eddo na Guiana, nos Estados Unidos ou no Oriente M\u00e9dio. As emiss\u00f5es n\u00e3o desaparecem ao cruzar a fronteira. O que desaparece s\u00e3o os empregos, os investimentos, os royalties, a arrecada\u00e7\u00e3o e o conhecimento tecnol\u00f3gico que poderiam permanecer no Brasil.<\/p>\n<p>Licenciamento ambiental s\u00e9rio \u00e9 indispens\u00e1vel. Mas licenciamento n\u00e3o pode significar proibi\u00e7\u00e3o indefinida, aus\u00eancia de prazo ou resist\u00eancia ideol\u00f3gica disfar\u00e7ada de an\u00e1lise t\u00e9cnica.<\/p>\n<p>Onde estava o Minist\u00e9rio do Meio Ambiente nesta semana, quando o subs\u00eddio ao f\u00f3ssil foi renovado? Onde est\u00e3o as ONGs que investigam cada hectare de lavoura, mas silenciam diante da op\u00e7\u00e3o deliberada do governo por subsidiar combust\u00edveis f\u00f3sseis, inclusive os importados, em vez de acelerar o combust\u00edvel renov\u00e1vel que o Brasil j\u00e1 sabe produzir com compet\u00eancia e escala?<\/p>\n<p>O Minist\u00e9rio do Meio Ambiente precisa explicar a coer\u00eancia de dificultar a produ\u00e7\u00e3o nacional, aceitar a importa\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo do vizinho e permanecer em sil\u00eancio diante de bilh\u00f5es destinados a baratear combust\u00edveis f\u00f3sseis.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m precisa explicar por que cobra sustentabilidade do agro, mas n\u00e3o se manifesta quando etanol, biodiesel e outros combust\u00edveis renov\u00e1veis produzidos pelo campo s\u00e3o obrigados a competir com gasolina e diesel subsidiados pelo Tesouro.<\/p>\n<p>O Minist\u00e9rio n\u00e3o pode ser rigoroso com o barril que pode gerar riqueza no Brasil e indiferente ao barril importado. N\u00e3o pode discursar sobre transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica enquanto o governo taxa o renov\u00e1vel e subsidia o f\u00f3ssil.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o \u00e9 pol\u00edtica ambiental. \u00c9 exportar empregos, importar petr\u00f3leo e emiss\u00f5es, prejudicar os biocombust\u00edveis brasileiros e mandar a conta para o contribuinte. \u00c9 autossabotagem econ\u00f4mica embrulhada em discurso verde.<\/p>\n<\/div>\n<p>Encontrou algo errado na mat\u00e9ria?<\/p>\n<p>Comunique erros<\/p>\n<p>Use este espa\u00e7o apenas para a comunica\u00e7\u00e3o de erros<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Brasil entre o favorecimento eleitoreiro dos combust\u00edveis f\u00f3sseis e o apoio \u00e0 alternativa renov\u00e1vel nacional. 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