{"id":598553,"date":"2026-07-29T20:31:20","date_gmt":"2026-07-30T00:31:20","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=598553"},"modified":"2026-07-29T20:31:20","modified_gmt":"2026-07-30T00:31:20","slug":"petismo-leva-estatais-a-deficit-recorde-com-aparelhamento-e-filosofia-do-nao-lucro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=598553","title":{"rendered":"Petismo leva estatais a d\u00e9ficit recorde com aparelhamento e \u201cfilosofia do n\u00e3o lucro\u201d"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody-module-scss-module__8_WGKG__postBodyContainer\">\n<p>As empresas estatais federais, <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/economia\/tcu-estatais-deficit-lula\/\">que voltaram a operar no vermelho no terceiro governo Luiz In\u00e1cio Lula da Silva (PT)<\/a>, t\u00eam registrado sucessivos recordes negativos.<\/p>\n<p>Entre janeiro e maio deste ano, o <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/economia\/deficit-de-estatais-federais-bate-recorde-e-supera-rombo-de-2025\/\">d\u00e9ficit somou R$ 5,9 bilh\u00f5es<\/a> \u2013 o pior para o per\u00edodo desde o in\u00edcio da s\u00e9rie hist\u00f3rica do Banco Central (BC) e superior ao registrado em todo o ano de 2025, quando o resultado negativo foi de R$ 3,6 bilh\u00f5es.<\/p>\n<p>Considerando tamb\u00e9m empresas estaduais e municipais, o rombo alcan\u00e7a R$ 7,4 bilh\u00f5es. No acumulado de 12 meses encerrados em maio, a soma chega a R$ 9,7 bilh\u00f5es.<\/p>\n<p>Os resultados n\u00e3o surpreendem analistas econ\u00f4micos ouvidos pela <strong>Gazeta do Povo<\/strong>, que identificam fatores como m\u00e1 gest\u00e3o, aparelhamento pol\u00edtico e uso das estatais para desvios de recursos p\u00fablicos, problemas j\u00e1 observados em governos anteriores.<\/p>\n<p>Foram esses fatores que levaram \u00e0 aprova\u00e7\u00e3o da Lei das Estatais, em 2016, que estabeleceu crit\u00e9rios t\u00e9cnicos para a indica\u00e7\u00e3o de gestores ap\u00f3s os preju\u00edzos hist\u00f3ricos registrados durante o governo Dilma Rousseff (PT) e os esc\u00e2ndalos revelados pela Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato.<\/p>\n<p>Com a mudan\u00e7a, a partir de 2018, ainda no governo Michel Temer (MDB), as empresas passaram a registrar super\u00e1vits anuais, movimento que atingiu o pico em 2019, com saldo positivo de R$ 10,29 bilh\u00f5es. O \u00faltimo resultado no azul foi registrado em 2022, no encerramento do governo Jair Bolsonaro (PL), quando as estatais fecharam o ano com super\u00e1vit de R$ 4,75 bilh\u00f5es.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<h2>Mudan\u00e7a de rumo ap\u00f3s flexibiliza\u00e7\u00e3o da Lei das Estatais<\/h2>\n<p>O cen\u00e1rio come\u00e7ou a mudar em 2023, primeiro ano do terceiro mandato de Lula, quando o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Ricardo Lewandowski suspendeu por liminar parte das restri\u00e7\u00f5es da Lei das Estatais, flexibilizando regras para indica\u00e7\u00f5es pol\u00edticas.<\/p>\n<p>A decis\u00e3o abriu caminho para que o Pal\u00e1cio do Planalto recompusesse o comando de empresas p\u00fablicas e do BNDES. Tamb\u00e9m permitiu a retomada de uma pr\u00e1tica tradicional em Bras\u00edlia: a indica\u00e7\u00e3o de ministros e auxiliares do primeiro escal\u00e3o para conselhos de administra\u00e7\u00e3o de estatais. Esses cargos costumam complementar a remunera\u00e7\u00e3o dos integrantes do governo.<\/p>\n<p>Naquele mesmo ano, as estatais voltaram ao vermelho e encerraram o exerc\u00edcio com d\u00e9ficit de R$ 656 milh\u00f5es.<\/p>\n<p>Em maio de 2024, o plen\u00e1rio do STF restabeleceu a validade dessas restri\u00e7\u00f5es, mas manteve as nomea\u00e7\u00f5es feitas durante a vig\u00eancia da liminar. Ainda assim, os resultados continuaram a se deteriorar, at\u00e9 atingir os recordes registrados em 2026.<\/p>\n<p>Para o economista Izak Carlos da Silva, do Instituto Millenium, a trajet\u00f3ria demonstra que o rombo recorde registrado em 2026 n\u00e3o aconteceu por acaso, mas tem a ver com um &#8220;projeto deliberado&#8221; que minimiza a gest\u00e3o t\u00e9cnica em favor da ocupa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica dos espa\u00e7os da administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica.<\/p>\n<p>&#8220;Foi pensado para ser assim&#8221;, afirma. &#8220;Quando a nomea\u00e7\u00e3o de diretorias e conselhos volta a obedecer crit\u00e9rios de barganha pol\u00edtica em vez de qualifica\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica, o resultado operacional \u00e9 consequ\u00eancia e previs\u00edvel, n\u00e3o \u00e9 coincid\u00eancia&#8221;, declara Silva.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/media.gazetadopovo.com.br\/2026\/07\/24102754\/estatais-ricardo-lewandowski-960x540.jpg.webp\" \/><i>Ex-ministro do STF Ricardo Lewandowski, que futuramente se tornaria ministro de Lula, flexibilizou regras para indica\u00e7\u00f5es pol\u00edticas no in\u00edcio da atual gest\u00e3o petista (Foto: Antonio Cruz\/Ag\u00eancia Brasil)<\/i><\/p>\n<h2>Da &#8220;filosofia do n\u00e3o lucro&#8221; \u00e0 falta de responsabiliza\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<p>Elena Landau, economista e ex-secret\u00e1ria de Desestatiza\u00e7\u00e3o do BNDES, aponta outro fator para a deteriora\u00e7\u00e3o da governan\u00e7a das estatais: a chamada &#8220;filosofia do n\u00e3o lucro&#8221;. Para ela, os governos do PT partem da premissa de que, por serem estatais, essas empresas n\u00e3o precisam gerar lucro porque cumprem uma &#8220;fun\u00e7\u00e3o social&#8221; ou executam pol\u00edticas p\u00fablicas.<\/p>\n<p>&#8220;A vis\u00e3o do governo do PT \u00e9 de que, sendo estatal, a empresa n\u00e3o precisa dar lucro porque est\u00e1 cumprindo uma &#8216;fun\u00e7\u00e3o social&#8217; a qual a estatal teria que servir. Mas lucro \u00e9 obriga\u00e7\u00e3o&#8221;, diz a economista.<\/p>\n<p>Outro agravante, segundo ela, \u00e9 a interpreta\u00e7\u00e3o ampliada do conceito de &#8220;interesse p\u00fablico&#8221; previsto no regime jur\u00eddico das sociedades de economia mista. Na pr\u00e1tica, afirma, o governo passou a utilizar esse argumento para justificar interven\u00e7\u00f5es e investimentos que extrapolam o objeto social das empresas.<\/p>\n<p>Essa interpreta\u00e7\u00e3o, explica a economista, tamb\u00e9m permite ao governo utilizar estatais para realizar investimentos fora da meta or\u00e7ament\u00e1ria sob o argumento de atender ao interesse p\u00fablico. &#8220;\u00c9 uma tentativa de rotular preju\u00edzos como investimentos&#8221;, diz.<\/p>\n<p>A ministra da Gest\u00e3o e Inova\u00e7\u00e3o, Esther Dweck, tem afirmado recorrentemente que preju\u00edzos em estatais &#8220;n\u00e3o s\u00e3o rombo, que s\u00e3o um investimento a maturar&#8221;. Elena contesta: &#8220;Os investimentos nunca maturam, s\u00f3 aumentam o buraco.&#8221;<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<h2>Especialistas apontam lacuna na responsabiliza\u00e7\u00e3o dos gestores<\/h2>\n<p>Para os economistas ouvidos pela reportagem, essa vis\u00e3o inverte a l\u00f3gica que inspirou a cria\u00e7\u00e3o da Lei das Estatais, voltada ao fortalecimento da governan\u00e7a das empresas p\u00fablicas, e enfraquece a responsabiliza\u00e7\u00e3o dos administradores.<\/p>\n<p>&#8220;A distor\u00e7\u00e3o gera uma falta de accountability (presta\u00e7\u00e3o de contas), em que gestores n\u00e3o s\u00e3o cobrados por maus resultados&#8221;, aponta Elena.<\/p>\n<p>Na mesma linha, Rafael Barros Barbosa, pesquisador associado do Instituto Brasileiro de Economia da Funda\u00e7\u00e3o Getulio Vargas (FGV Ibre), avalia que a Lei das Estatais deixou uma lacuna com a aus\u00eancia de mecanismos eficazes para responsabilizar gestores e o pr\u00f3prio controlador quando decis\u00f5es pol\u00edticas prevalecem sobre os interesses econ\u00f4micos das companhias.<\/p>\n<p>&#8220;O d\u00e9ficit n\u00e3o surge por acaso. Ele \u00e9 consequ\u00eancia das escolhas feitas para administrar essas empresas&#8221;, destaca.<\/p>\n<p>O pesquisador pondera que, embora algumas estatais tenham uma voca\u00e7\u00e3o voltada ao interesse p\u00fablico \u2013 como uma escola p\u00fablica \u2013, essa justificativa n\u00e3o explica os resultados negativos de diversas empresas estatais.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 preciso analisar o bin\u00f4mio entre a import\u00e2ncia da empresa para o pa\u00eds e o custo que ela imp\u00f5e ao contribuinte&#8221;, afirma. Na avalia\u00e7\u00e3o dele, companhias que acumulam d\u00e9ficits sem prestar um servi\u00e7o compat\u00edvel deveriam ser repensadas.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<h2>Correios ilustram o problema<\/h2>\n<p>Para os economistas, os Correios representam um exemplo das dificuldades enfrentadas por parte das estatais brasileiras.<\/p>\n<p>A empresa encerrou 2025 com preju\u00edzo de R$ 8,5 bilh\u00f5es e precisou contratar um empr\u00e9stimo de R$ 12 bilh\u00f5es, com garantia da Uni\u00e3o, para refor\u00e7ar seu caixa. O pr\u00f3prio governo admite, na proposta da Lei de Diretrizes Or\u00e7ament\u00e1rias (LDO) de 2027, que novos aportes p\u00fablicos poder\u00e3o ser necess\u00e1rios caso a situa\u00e7\u00e3o financeira da empresa n\u00e3o seja revertida.<\/p>\n<p>Segundo Barbosa, a estatal n\u00e3o conseguiu adaptar sua estrutura \u00e0 nova din\u00e2mica do mercado de log\u00edstica, hoje dominado por operadores privados altamente competitivos.<\/p>\n<p>Elena Landau tamb\u00e9m cita os Correios como exemplo. Mesmo diante da deteriora\u00e7\u00e3o dos resultados da empresa, o presidente indicado politicamente [Fabiano Silva, que renunciou ao cargo em julho de 2025] \u2013 que, em sua avalia\u00e7\u00e3o, &#8220;nunca tinha administrado uma empresa desse tamanho&#8221; \u2013 demorou a ser substitu\u00eddo.<\/p>\n<p>&#8220;Saiu de fininho e ningu\u00e9m sabe dele&#8221;, afirma. Para ela, o caso \u00e9 um exemplo de como a gest\u00e3o a partir de interesses pol\u00edticos produz impactos financeiros relevantes \u00e0s estatais.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/media.gazetadopovo.com.br\/2026\/07\/07125922\/tcu-estatais-deficit-correios-960x540.jpg.webp\" \/><i>Entre as estatais deficit\u00e1rias, o caso dos Correios \u00e9 considerado o mais grave de insolv\u00eancia e risco fiscal pelo TCU (Foto: Marcos Oliveira\/Ag\u00eancia Senado)<\/i><\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<h2>Governo contesta indicador do Banco Central sobre estatais<\/h2>\n<p>A deteriora\u00e7\u00e3o dos resultados, no entanto, vem sendo relativizada pelo governo. \u00c0 medida que os investimentos anunciados n\u00e3o se refletiram na melhora dos indicadores, a estrat\u00e9gia passou a ser questionar a pr\u00f3pria estat\u00edstica divulgada pelo Banco Central.<\/p>\n<p>Segundo o Minist\u00e9rio da Gest\u00e3o e da Inova\u00e7\u00e3o (MGI), o indicador do BC mede apenas a necessidade de financiamento das empresas e, por isso, n\u00e3o reflete sua real situa\u00e7\u00e3o financeira.<\/p>\n<p>Em balan\u00e7o divulgado no in\u00edcio de julho, o minist\u00e9rio informou que as estatais federais registraram lucro l\u00edquido de R$ 169,4 bilh\u00f5es em 2025. O governo tamb\u00e9m destacou patrim\u00f4nio l\u00edquido superior a R$ 1 trilh\u00e3o, ativos de R$ 7,2 trilh\u00f5es e investimentos de R$ 115,9 bilh\u00f5es.<\/p>\n<p>Landau ressalta, por\u00e9m, que os dois conjuntos de n\u00fameros n\u00e3o podem ser comparados diretamente, pois medem universos distintos. &#8220;\u00c9 uma quest\u00e3o de metodologia&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>O Banco Central acompanha apenas as empresas estatais n\u00e3o dependentes. J\u00e1 sociedades de economia mista, como Petrobras e Banco do Brasil, ficam fora da estat\u00edstica porque possuem acionistas privados e podem captar recursos no mercado, sem depender diretamente do Tesouro Nacional. As estatais dependentes tamb\u00e9m n\u00e3o entram nesse c\u00e1lculo, uma vez que suas despesas j\u00e1 est\u00e3o contempladas no Or\u00e7amento da Uni\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse grupo exclu\u00eddo do levantamento do Banco Central que se concentra a maior parte do lucro apresentado pelo governo. Petrobras, Banco do Brasil e BNDES responderam por 90,9% do lucro das estatais federais em 2025. Sozinha, a Petrobras lucrou R$ 110,6 bilh\u00f5es.<\/p>\n<p>&#8220;Governistas usam o lucro das sociedades de economia mista para dizer que as estatais d\u00e3o lucro, mas s\u00e3o medidas completamente diferentes&#8221;, afirma Elena.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<\/div>\n<p>\u00a0<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As empresas estatais federais, que voltaram a operar no vermelho no terceiro governo Luiz In\u00e1cio Lula da Silva (PT), t\u00eam&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":596745,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[190],"tags":[],"class_list":["post-598553","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-economia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/598553","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=598553"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/598553\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/596745"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=598553"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=598553"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=598553"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}