{"id":598196,"date":"2026-07-30T07:00:00","date_gmt":"2026-07-30T11:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=598196"},"modified":"2026-07-30T07:00:00","modified_gmt":"2026-07-30T11:00:00","slug":"a-odisseia-entre-a-fidelidade-a-homero-e-o-espirito-do-nosso-tempo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=598196","title":{"rendered":"\u201cA Odisseia\u201d: entre a fidelidade a Homero e o esp\u00edrito do nosso tempo"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody-module-scss-module__8_WGKG__postBodyContainer\">\n<p>Poucas obras exerceram influ\u00eancia t\u00e3o profunda sobre a civiliza\u00e7\u00e3o ocidental quanto a <em>Odisseia<\/em>. Composta no s\u00e9culo 8.\u00ba a.C. e tradicionalmente atribu\u00edda a Homero, ela moldou, ao longo de quase 3 mil anos, a <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/literatura\/\">literatura<\/a>, a filosofia e o imagin\u00e1rio do Ocidente. Da <em>Eneida<\/em>, de Virg\u00edlio, \u00e0 <em>Divina Com\u00e9dia<\/em>, de Dante; de Shakespeare a Tolkien, gera\u00e7\u00f5es de escritores encontraram na jornada de Odisseu um modelo permanente para refletir sobre coragem, fam\u00edlia, dever e identidade.<\/p>\n<p>A sobreviv\u00eancia da <em>Odisseia<\/em> tamb\u00e9m se deve, em grande medida, ao trabalho de preserva\u00e7\u00e3o realizado pelos crist\u00e3os do Imp\u00e9rio Bizantino. Entre os s\u00e9culos 9.\u00ba e 15, monges e escribas de l\u00edngua grega copiaram os manuscritos de Homero e transmitiram a obra \u00e0s gera\u00e7\u00f5es seguintes. Embora a tradi\u00e7\u00e3o hom\u00e9rica remonte \u00e0 Antiguidade cl\u00e1ssica, foram esses copistas, em sua maioria vinculados ao mundo crist\u00e3o bizantino, que asseguraram sua transmiss\u00e3o cont\u00ednua at\u00e9 o Renascimento e, posteriormente, \u00e0s edi\u00e7\u00f5es modernas. Ao longo da Idade M\u00e9dia, diversos autores crist\u00e3os tamb\u00e9m reinterpretaram temas da <em>Odisseia<\/em>, frequentemente compreendendo a jornada de Odisseu como uma figura da peregrina\u00e7\u00e3o humana sob a provid\u00eancia de Deus.<\/p>\n<p>Gra\u00e7as a essa longa tradi\u00e7\u00e3o de preserva\u00e7\u00e3o, levar a <em>Odisseia<\/em> ao cinema significa dialogar com um dos textos fundadores da cultura ocidental. Como toda releitura de um cl\u00e1ssico, o resultado revela tanto sua compreens\u00e3o de Homero quanto sua vis\u00e3o do pr\u00f3prio tempo.<\/p>\n<p>Foi esse o desafio assumido por Christopher Nolan ap\u00f3s uma sequ\u00eancia impressionante de filmes como a trilogia <em>Batman<\/em>, <em>Interestelar<\/em>, <em>Dunkirk<\/em> e <em>Oppenheimer<\/em>. O resultado \u00e9 um \u00e9pico visualmente deslumbrante e intelectualmente ambicioso. Desde seu an\u00fancio, tornou-se alvo de intenso debate. Para alguns, revitaliza Homero para uma nova gera\u00e7\u00e3o; para outros, submete o poema \u00e0s agendas ideol\u00f3gicas contempor\u00e2neas. O debate, por\u00e9m, n\u00e3o diz respeito \u00e0 legitimidade de reinterpretar Homero, mas aos pressupostos e \u00e0s escolhas que orientam essa leitura.<\/p>\n<h2>Homero ainda importa<\/h2>\n<p>Ambientada no s\u00e9culo 12 a.C., enquanto a <em>Il\u00edada<\/em> contempla a guerra, a <em>Odisseia<\/em> contempla o retorno ao lar. Odisseu, rei de \u00cdtaca, n\u00e3o busca novas vit\u00f3rias nem riquezas, mas reencontrar Pen\u00e9lope, recuperar seu reino e restaurar a ordem destru\u00edda pela guerra. Talvez seja justamente essa perspectiva que explique a influ\u00eancia duradoura do poema. Sua maior conquista n\u00e3o \u00e9 a vit\u00f3ria sobre os inimigos, mas a restaura\u00e7\u00e3o de sua casa, de sua fam\u00edlia e de seu reino. O destino de Agam\u00eamnon, rei de Micenas, assassinado ao regressar de Troia, refor\u00e7a esse contraste: vencer a guerra n\u00e3o basta; \u00e9 preciso conseguir voltar para casa.<\/p>\n<blockquote>\n<p>\u201c<em>A Odisseia<\/em>\u201d devolve a milh\u00f5es de espectadores um texto cl\u00e1ssico e recorda que nossa tradi\u00e7\u00e3o cultural possui ra\u00edzes muito mais antigas do que o entretenimento contempor\u00e2neo costuma sugerir<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Ao longo dos s\u00e9culos, a <em>Odisseia<\/em> ajudou a formar a compreens\u00e3o ocidental do hero\u00edsmo. Odisseu n\u00e3o vence apenas pela for\u00e7a, como Aquiles, mas sobretudo pela prud\u00eancia, intelig\u00eancia e capacidade de dominar os pr\u00f3prios impulsos. Sua grandeza n\u00e3o reside na perfei\u00e7\u00e3o moral, mas na perseveran\u00e7a diante da adversidade.<\/p>\n<p>Outros temas fundamentais atravessam toda a narrativa. Pen\u00e9lope tornou-se s\u00edmbolo da fidelidade conjugal; Tel\u00eamaco, do amadurecimento na aus\u00eancia do pai; a hospitalidade expressa a convic\u00e7\u00e3o de que a civiliza\u00e7\u00e3o depende do respeito m\u00fatuo entre anfitri\u00f5es e estrangeiros; o retorno ao lar simboliza o restabelecimento da vida civilizada depois da guerra e do caos.<\/p>\n<p>Esses temas permanecem universais porque pertencem \u00e0 pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o humana. Por isso a <em>Odisseia<\/em> continua sendo muito mais do que um documento da Gr\u00e9cia Antiga. Ela continua sendo um dos fundamentos da tradi\u00e7\u00e3o cultural do Ocidente.<\/p>\n<h2>Um grande \u00e9pico para o s\u00e9culo 21<\/h2>\n<p>Nolan compreende a import\u00e2ncia dessa obra. Em uma ind\u00fastria dominada por franquias previs\u00edveis e narrativas superficiais, sua decis\u00e3o de adaptar Homero j\u00e1 representa um gesto incomum. <em>A Odisseia<\/em> devolve a milh\u00f5es de espectadores um texto cl\u00e1ssico e recorda que nossa tradi\u00e7\u00e3o cultural possui ra\u00edzes muito mais antigas do que o entretenimento contempor\u00e2neo costuma sugerir.<\/p>\n<p>Como espet\u00e1culo cinematogr\u00e1fico, o <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/filmes\/\">filme <\/a>impressiona. A fotografia privilegia paisagens reais em Marrocos, It\u00e1lia, Gr\u00e9cia, Malta, Esc\u00f3cia e Isl\u00e2ndia, luz natural e cen\u00e1rios monumentais, evitando a artificialidade excessiva dos efeitos digitais. O Mar Mediterr\u00e2neo, Troia e \u00cdtaca adquirem uma presen\u00e7a f\u00edsica rara no cinema atual.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>Mais importante, Nolan tamb\u00e9m preserva algo essencial do poema: seu centro emocional continua sendo o desejo de voltar para casa. Em uma cultura frequentemente marcada pelo individualismo e pela busca incessante do prazer, a ideia de um homem disposto a enfrentar anos de sofrimento para reencontrar sua esposa, seu filho e seu povo conserva enorme for\u00e7a moral.<\/p>\n<p>Outro m\u00e9rito importante \u00e9 recuperar a figura do her\u00f3i sem transform\u00e1-lo em um personagem perfeito. Odisseu permanece vulner\u00e1vel, fal\u00edvel e profundamente humano, mas continua sendo algu\u00e9m chamado a assumir responsabilidades que ultrapassam seus interesses pessoais.<\/p>\n<p>Essa preocupa\u00e7\u00e3o aparece tamb\u00e9m na maneira como o filme trata a culpa e a lideran\u00e7a. As decis\u00f5es tomadas durante a Guerra de Troia continuam produzindo consequ\u00eancias muitos anos depois. A viol\u00eancia gera mais viol\u00eancia, o orgulho cobra seu pre\u00e7o e liderar significa responder moralmente pelos pr\u00f3prios atos.<\/p>\n<p>Nolan tamb\u00e9m evita glorificar a guerra. A viol\u00eancia aparece como uma realidade tr\u00e1gica, capaz de marcar indiv\u00edduos e civiliza\u00e7\u00f5es por gera\u00e7\u00f5es. Essa perspectiva encontra s\u00f3lido fundamento no pr\u00f3prio poema de Homero. Se a <em>Il\u00edada<\/em> revela o custo da guerra durante o conflito, a <em>Odisseia<\/em> mostra o pre\u00e7o da vit\u00f3ria. Odisseu retorna a uma p\u00e1tria desordenada; quase todos os seus companheiros perecem; Pen\u00e9lope espera durante 20 anos; Tel\u00eamaco cresce sem a presen\u00e7a do pai. A verdadeira vit\u00f3ria n\u00e3o consiste apenas em conquistar Troia, mas em restaurar o lar, a fam\u00edlia e a ordem depois da devasta\u00e7\u00e3o da guerra.<\/p>\n<p>Essa leitura orienta diversas escolhas visuais de Nolan. Uma escolha particularmente simb\u00f3lica \u00e9 a desfigura\u00e7\u00e3o de Helena. Embora essa caracteriza\u00e7\u00e3o n\u00e3o encontre respaldo na <em>Odisseia<\/em> de Homero, onde sua beleza permanece c\u00e9lebre e ela volta a viver ao lado de Menelau, rei de Esparta, a cicatriz criada por Nolan sintetiza visualmente uma das ideias centrais do filme: a guerra deixa marcas permanentes em todos os seus sobreviventes. A mesma inten\u00e7\u00e3o aparece na caracteriza\u00e7\u00e3o de Agam\u00eamnon. Sua armadura escurecida e monumental refor\u00e7a sua posi\u00e7\u00e3o como comandante supremo dos aqueus e o apresenta menos como um her\u00f3i individual do que como a personifica\u00e7\u00e3o do poder militar.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Nolan demonstra profundo respeito pelo poema, mas frequentemente prefere reinterpret\u00e1-lo segundo categorias contempor\u00e2neas em vez de permitir que Homero fale com sua pr\u00f3pria voz<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Outra qualidade do filme est\u00e1 em sua reflex\u00e3o sobre a fragilidade da ordem pol\u00edtica. \u00cdtaca representa uma civiliza\u00e7\u00e3o amea\u00e7ada pela corrup\u00e7\u00e3o interna. Os pretendentes exploram precisamente as normas de hospitalidade para corroer lentamente a autoridade leg\u00edtima. A observa\u00e7\u00e3o continua atual. Civiliza\u00e7\u00f5es raramente desaparecem apenas pela for\u00e7a de inimigos externos. Muitas come\u00e7am a ruir quando deixam de proteger as virtudes que tornaram poss\u00edvel sua pr\u00f3pria exist\u00eancia.<\/p>\n<p>Essas qualidades explicam por que o filme se destaca entre as grandes produ\u00e7\u00f5es recentes. Ao mesmo tempo, \u00e9 justamente quando Nolan procura atualizar Homero que surgem as principais limita\u00e7\u00f5es de sua adapta\u00e7\u00e3o. Sem abandonar o poema, o diretor o rel\u00ea \u00e0 luz das preocupa\u00e7\u00f5es culturais do s\u00e9culo 21, modificando alguns dos pilares morais que fizeram da <em>Odisseia<\/em> um cl\u00e1ssico permanente.<\/p>\n<h2>Reinterpretando Homero<\/h2>\n<p>Os m\u00e9ritos de <em>A Odisseia<\/em> n\u00e3o impedem que sua adapta\u00e7\u00e3o revele tamb\u00e9m as tens\u00f5es culturais caracter\u00edsticas do nosso tempo. Nolan demonstra profundo respeito pelo poema, mas frequentemente prefere reinterpret\u00e1-lo segundo categorias contempor\u00e2neas em vez de permitir que Homero fale com sua pr\u00f3pria voz.<\/p>\n<p>O exemplo mais evidente est\u00e1 na caracteriza\u00e7\u00e3o de Odisseu. No poema, ele est\u00e1 longe de ser perfeito. Seu orgulho, sua curiosidade e sua imprud\u00eancia contribuem para prolongar o sofrimento de seus companheiros. Ainda assim, Homero o apresenta como um personagem digno de admira\u00e7\u00e3o. Sua intelig\u00eancia, prud\u00eancia e coragem justificam seu lugar entre os grandes her\u00f3is da tradi\u00e7\u00e3o grega.<\/p>\n<p>No filme, por\u00e9m, Odisseu aparece menos como um her\u00f3i admir\u00e1vel do que como um homem permanentemente atormentado pela culpa. A estrat\u00e9gia do Cavalo de Troia, celebrada durante s\u00e9culos como a suprema demonstra\u00e7\u00e3o de engenho militar, torna-se sobretudo o ponto de partida de uma espiral de viol\u00eancia da qual jamais consegue se desvencilhar.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>Uma omiss\u00e3o relevante \u00e9 o epis\u00f3dio de \u00cdsmaro, a cidade dos C\u00edcones. Em Homero, esse primeiro saque ap\u00f3s a queda de Troia mostra que muitas das perdas sofridas pelos gregos decorrem da indisciplina e da gan\u00e2ncia dos pr\u00f3prios companheiros de Odisseu, antecipando um dos temas centrais do poema: frequentemente, o homem \u00e9 respons\u00e1vel por seus pr\u00f3prios infort\u00fanios. O epis\u00f3dio tamb\u00e9m apresenta Odisseu ainda inserido na l\u00f3gica da guerra, bem distante do protagonista marcado pelas consequ\u00eancias morais da guerra retratado por Nolan.<\/p>\n<p>A mesma perspectiva se manifesta no epis\u00f3dio de Polifemo. Embora o Ciclope permane\u00e7a na narrativa, Nolan elimina o c\u00e9lebre estratagema em que Odisseu se apresenta como \u201cNingu\u00e9m\u201d e suaviza o momento em que o her\u00f3i, movido pelo orgulho, revela seu verdadeiro nome ao escapar, atraindo sobre si a maldi\u00e7\u00e3o de Poseidon. Com isso, a cena deixa de destacar a combina\u00e7\u00e3o de ast\u00facia e orgulho (<em>hybris<\/em>) que caracteriza Odisseu para enfatizar sobretudo a viol\u00eancia do confronto e seus efeitos sobre o protagonista.<\/p>\n<p>Essa leitura dialoga com uma tend\u00eancia recorrente do cinema contempor\u00e2neo: a desconstru\u00e7\u00e3o do her\u00f3i. Em vez de apresentar homens extraordin\u00e1rios cujas <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/virtude\/\">virtudes <\/a>convivem com limita\u00e7\u00f5es reais, prefere personagens definidos sobretudo por seus conflitos interiores. Em Homero, por\u00e9m, Odisseu \u00e9 moldado tanto por suas virtudes quanto por seus defeitos. Se sua intelig\u00eancia o salva, seu orgulho prolonga seu sofrimento. Sua grandeza nunca elimina sua humanidade.<\/p>\n<p>Algo semelhante ocorre na representa\u00e7\u00e3o das personagens femininas. Homero constr\u00f3i figuras claramente distintas: Pen\u00e9lope encarna a fidelidade; Circe, a sedu\u00e7\u00e3o; Calipso, a tenta\u00e7\u00e3o; Atena, a sabedoria; Clitemnestra, a trai\u00e7\u00e3o. Nolan preserva boa parte dessa riqueza, mas tende a reinterpret\u00e1-las \u00e0 luz de categorias mais familiares ao s\u00e9culo 21. Clitemnestra deixa de ser apresentada sobretudo como esposa infiel e assassina para assumir contornos de uma mulher que reage \u00e0s viol\u00eancias sofridas. Helena passa a ser definida menos por sua complexidade moral do que por sua condi\u00e7\u00e3o de mulher aprisionada em estruturas de poder masculinas, enquanto Pen\u00e9lope recebe um protagonismo pol\u00edtico pouco enfatizado no poema. Assim, o eixo moral da narrativa desloca-se sutilmente do car\u00e1ter para as circunst\u00e2ncias.<\/p>\n<p>Mais controversas foram algumas escolhas de elenco. N\u00e3o se trata de exigir uma reconstru\u00e7\u00e3o etnogr\u00e1fica absoluta da Gr\u00e9cia mic\u00eanica, mas de reconhecer que toda obra hist\u00f3rica depende de verossimilhan\u00e7a. Quando figurinos, arquitetura, armas e cen\u00e1rios procuram reconstruir cuidadosamente um determinado mundo, op\u00e7\u00f5es de elenco que rompem essa coer\u00eancia tendem a atrair mais aten\u00e7\u00e3o para o presente do que para o passado. Em \u00faltima an\u00e1lise, por\u00e9m, tais escolhas s\u00e3o mais irritantes do que realmente prejudiciais e n\u00e3o diminuem de maneira significativa a for\u00e7a dram\u00e1tica nem o impacto art\u00edstico do filme.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Nolan resiste \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o de reduzir toda a experi\u00eancia humana a categorias pol\u00edticas. No centro do filme permanecem temas universais: fam\u00edlia, culpa, lideran\u00e7a, perda, esperan\u00e7a e o desejo de voltar para casa<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Mais importante, por\u00e9m, \u00e9 a mudan\u00e7a de perspectiva que permeia toda a adapta\u00e7\u00e3o. Durante muito tempo, adaptar um cl\u00e1ssico significava procurar compreender seu autor. Hoje, muitas adapta\u00e7\u00f5es parecem partir da pergunta inversa: como esse cl\u00e1ssico pode expressar nossas preocupa\u00e7\u00f5es atuais? Os textos antigos deixam de ser mestres para se tornarem mat\u00e9ria-prima.<\/p>\n<p>A op\u00e7\u00e3o de Nolan por utilizar a tradu\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea de <em>A<\/em> <em>Odisseia<\/em> de Emily Wilson ilustra essa mudan\u00e7a de perspectiva. O filme privilegia uma leitura em que o trauma, a culpa e as consequ\u00eancias da guerra recebem mais destaque do que a ast\u00facia e a gl\u00f3ria heroica. Nolan evita os excessos mais comuns dessa tend\u00eancia, mas n\u00e3o escapa completamente dela. Em alguns momentos, sua adapta\u00e7\u00e3o parece menos interessada em ouvir Homero do que em dialogar com ele \u2013 e, por vezes, corrigi-lo.<\/p>\n<h2>Entre a fidelidade e a releitura<\/h2>\n<p>Seria injusto reduzir <em>A<\/em> <em>Odisseia<\/em> a essas limita\u00e7\u00f5es. O filme \u00e9 uma realiza\u00e7\u00e3o art\u00edstica de enorme qualidade e uma das adapta\u00e7\u00f5es mais ambiciosas do cinema recente. Sua maior virtude talvez seja recordar ao p\u00fablico que a civiliza\u00e7\u00e3o depende de certas virtudes permanentes. Coragem, responsabilidade, fidelidade, prud\u00eancia, honra e esp\u00edrito de sacrif\u00edcio n\u00e3o aparecem como valores antiquados, mas como condi\u00e7\u00f5es para preservar a ordem diante do caos.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m merece elogio o fato de Nolan resistir \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o de reduzir toda a experi\u00eancia humana a categorias pol\u00edticas. No centro do filme permanecem temas universais: fam\u00edlia, culpa, lideran\u00e7a, perda, esperan\u00e7a e o desejo de voltar para casa. Por isso, sua adapta\u00e7\u00e3o procura equilibrar fidelidade e releitura.<\/p>\n<p>Essa diferen\u00e7a aparece com clareza quando lembramos outra grande adapta\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria recente: <em>O senhor dos an\u00e9is<\/em>, de Peter Jackson. Embora tenha alterado epis\u00f3dios importantes da obra de Tolkien, Jackson procurou preservar seu esp\u00edrito. Em <em>A Odisseia<\/em>, Nolan estabelece uma rela\u00e7\u00e3o diferente. Seu filme n\u00e3o apenas adapta Homero, mas dialoga com ele, desloca a \u00eanfase de alguns de seus temas e prop\u00f5e uma leitura pr\u00f3pria.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Homero n\u00e3o responde a todas as perguntas do s\u00e9culo 21, mas continua formulando algumas das perguntas mais importantes<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>O resultado \u00e9 um filme intelectualmente provocativo, capaz de suscitar reflex\u00f5es relevantes sobre guerra, poder e civiliza\u00e7\u00e3o. O pre\u00e7o dessa op\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, \u00e9 a perda de parte da simplicidade moral que tornou a <em>Odisseia<\/em> uma das narrativas mais duradouras da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Ainda assim, talvez o maior m\u00e9rito de <em>A Odisseia<\/em> seja lembrar que os cl\u00e1ssicos continuam relevantes precisamente porque ultrapassam seu pr\u00f3prio tempo. Muito antes da internet, da imprensa ou do cinema, homens e mulheres j\u00e1 refletiam sobre coragem, fidelidade, hospitalidade, responsabilidade e poder. Homero n\u00e3o responde a todas as perguntas do s\u00e9culo 21, mas continua formulando algumas das perguntas mais importantes.<\/p>\n<p>Os grandes cl\u00e1ssicos sobrevivem porque conseguem julgar cada gera\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o apenas ser julgados por ela. Se o filme de Christopher Nolan levar novos leitores de volta ao poema de Homero, ter\u00e1 realizado algo que poucas adapta\u00e7\u00f5es alcan\u00e7am: servir de ponte para a obra original. Talvez esse seja o maior elogio que se possa fazer a uma adapta\u00e7\u00e3o de um cl\u00e1ssico. Afinal, \u00e9 ali, nas primeiras palavras da <em>Odisseia<\/em>, que essa jornada verdadeiramente come\u00e7a:<\/p>\n<p>\u201cCanta, \u00f3 Musa, o var\u00e3o que, astucioso,<\/p>\n<p>depois de destruir a sagrada Troia,<\/p>\n<p>errou de clima em clima.<\/p>\n<p>Viu cidades de muitos povos e conheceu seus costumes;<\/p>\n<p>e no mar sofreu incont\u00e1veis dores no cora\u00e7\u00e3o,<\/p>\n<p>lutando por salvar a pr\u00f3pria vida e o regresso dos companheiros.\u201d<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Poucas obras exerceram influ\u00eancia t\u00e3o profunda sobre a civiliza\u00e7\u00e3o ocidental quanto a Odisseia. 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