{"id":596100,"date":"2026-07-29T15:00:35","date_gmt":"2026-07-29T19:00:35","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=596100"},"modified":"2026-07-29T15:00:35","modified_gmt":"2026-07-29T19:00:35","slug":"the-bear-e-a-antiga-virtude-da-hospitalidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=596100","title":{"rendered":"\u201cThe Bear\u201d e a antiga virtude da hospitalidade"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody-module-scss-module__8_WGKG__postBodyContainer\">\n<p><em>The Bear<\/em> terminou em junho, depois de cinco temporadas. Desde o primeiro epis\u00f3dio, tornei-me f\u00e3 da s\u00e9rie. Vale a maratona. A premissa era a de um chef premiado \u2013 g\u00eanio, pra ser preciso \u2013 que larga a alta gastronomia de Nova York e volta a Chicago para transformar em restaurante a lanchonete de sandu\u00edches do irm\u00e3o que se matou. O chef se chama Carmy Berzatto, e a s\u00e9rie leva o apelido dele. Gostei muito desta \u00faltima temporada, que confirmou o que eu j\u00e1 suspeitava desde o come\u00e7o: no fundo, a s\u00e9rie \u00e9 sobre outro homem. Aviso que daqui em diante entrego tudo. Por isso, se voc\u00ea ainda n\u00e3o viu, pode guardar a coluna, que ela espera.<\/p>\n<p>Richie Jerimovich era o melhor amigo do irm\u00e3o morto, e isso lhe dava um lugar na lanchonete sem lhe dar fun\u00e7\u00e3o nenhuma. Todos os outros personagens t\u00eam um nome t\u00e9cnico \u2013 chef, <em>sous<\/em>, confeiteiro, expedidor \u2013, e a Richie chamavam de \u201cprimo\u201d, sem que fosse primo de ningu\u00e9m. Gritava, atrapalhava, vendia coisas no estacionamento. A s\u00e9rie o tratava como custo fixo herdado. Um homem que ocupa espa\u00e7o numa casa produtiva sem produzir nada \u00e9 uma figura moral antes de ser um problema administrativo.<\/p>\n<p>A virada acontece na segunda temporada, num epis\u00f3dio chamado \u201cForks\u201d. Carmy o manda estagiar em um restaurante de estrelas Michelin, e Richie passa dias polindo garfos, tarefa em que l\u00ea a confirma\u00e7\u00e3o de que \u00e9 dispens\u00e1vel. Sai de l\u00e1 com uma voca\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<blockquote>\n<p>A hospitalidade \u00e9 a mais antiga das virtudes c\u00edvicas do Ocidente. \u00c9 a virtude que n\u00e3o exige comunidade pr\u00e9via, porque vale para quem chega, sem exigir que perten\u00e7a<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>O que se ensina naquela casa \u00e9 uma disposi\u00e7\u00e3o para com quem chega. A chef lhe diz que todas as noites se faz o dia de algu\u00e9m, e a cozinha quebra a pr\u00f3pria r\u00e9gua para servir uma pizza de Chicago a h\u00f3spedes que n\u00e3o teriam tempo de conhecer a cidade: a excel\u00eancia da casa consiste em ceder quando o h\u00f3spede pede outra coisa. Jessica canta os pedidos da passagem entre a cozinha e o sal\u00e3o e controla o tempo de cada prato. \u00c9 a veterana que n\u00e3o se abala enquanto a casa se descontrola, porque j\u00e1 viu pior, e nisso \u00e9 o oposto do homem que gritava atr\u00e1s do balc\u00e3o. Trata a aten\u00e7\u00e3o ao h\u00f3spede como procedimento, e n\u00e3o como simpatia: no <em>briefing<\/em> da noite, laranja \u00e9 restri\u00e7\u00e3o alimentar, amarelo \u00e9 quem veio de fora, verde \u00e9 figura importante. \u00c9 dela a f\u00f3rmula que Richie repetir\u00e1 pelo resto da s\u00e9rie, cada segundo conta. Richie volta do est\u00e1gio de terno, e o terno assinala um homem que agora serve algu\u00e9m.<\/p>\n<p>O que ele aprendeu ali tem nome na tradi\u00e7\u00e3o, e o nome \u00e9 virtude. Arist\u00f3teles chamava de <em>h\u00e9xis<\/em> a disposi\u00e7\u00e3o adquirida por repeti\u00e7\u00e3o, que se instala no car\u00e1ter e passa a produzir os atos por conta pr\u00f3pria. A s\u00e9rie encena a defini\u00e7\u00e3o de modo quase did\u00e1tico, porque o h\u00e1bito aparece na tela como trabalho manual repetido garfo ap\u00f3s garfo, dias a fio, at\u00e9 que o gesto n\u00e3o dependa mais da ordem de ningu\u00e9m. A virtude aperfei\u00e7oa quem a pratica; a t\u00e9cnica se esgota no que produz. O que voltou do est\u00e1gio foi outro homem.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>A hospitalidade \u00e9 a mais antiga das <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/virtude\/\">virtudes <\/a>c\u00edvicas do Ocidente. Os gregos a chamavam de <em>xen\u00eda<\/em> e a punham sob a prote\u00e7\u00e3o de Zeus, e o mundo da <em>Odisseia<\/em> se mede inteiro por ela: o Ciclope devora os h\u00f3spedes e zomba do deus que os protege, os fe\u00e1cios recebem um n\u00e1ufrago sem nome e o levam de volta para casa. \u00c9 a virtude que n\u00e3o exige comunidade pr\u00e9via, porque vale para quem chega, sem exigir que perten\u00e7a.<\/p>\n<p>No s\u00e9culo 6.\u00ba, S\u00e3o Bento a inscreve no cap\u00edtulo 53 da <em>Regra<\/em> que organiza a vida mon\u00e1stica: <em>omnes supervenientes hospites tamquam Christus suscipiantur<\/em>, recebam-se todos os h\u00f3spedes que chegam como se fossem Cristo. Bento escreve isso para uma casa de trabalho, regida pelo of\u00edcio e pela disciplina do hor\u00e1rio. Numa comunidade organizada em torno da obra bem-feita, a hospitalidade \u00e9 o que impede o of\u00edcio de se fechar sobre si mesmo.<\/p>\n<p>A excel\u00eancia t\u00e9cnica n\u00e3o precisa de ningu\u00e9m. Um prato perfeito continua perfeito se voltar intacto da mesa; a perfei\u00e7\u00e3o est\u00e1 no prato, e o comensal \u00e9 acidente. Carmy passa cinco temporadas provando isso: quanto melhor cozinha, menos suporta viver, e a s\u00e9rie n\u00e3o finge que a maestria lhe devolva alguma coisa. Ela n\u00e3o devolve porque n\u00e3o pode: uma atividade que se completa sem o outro nunca fornece aquilo que s\u00f3 o outro fornece. A hospitalidade n\u00e3o tem essa sa\u00edda, porque n\u00e3o sobrevive \u00e0 aus\u00eancia de quem chega. Quem serve depende de algu\u00e9m para servir, e \u00e9 essa depend\u00eancia, que na t\u00e9cnica seria defeito, que produz sentido \u2013 <em>\u201c<\/em><em>Life is so unnerving for a servant who\u2019s not serving\u201d<\/em>, canta o Lumi\u00e8re de <em>A Bela e a Fera<\/em>. Richie tira da hospitalidade o que Carmy n\u00e3o tirou de uma vida inteira de cozinha, e a diferen\u00e7a est\u00e1 na natureza do objeto, n\u00e3o no m\u00e9rito de cada um.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Quem serve depende de algu\u00e9m para servir, e \u00e9 essa depend\u00eancia, que na t\u00e9cnica seria defeito, que produz sentido<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>No fim, Carmy deixa o restaurante e a profiss\u00e3o; Sydney, a chef que ele contratou no come\u00e7o, herda a cozinha; e a s\u00e9rie termina num homem que nunca cozinhou. Richie est\u00e1 num avi\u00e3o, a caminho de um semin\u00e1rio de hospitalidade no Jap\u00e3o, com Jessica ao lado. O convite veio de um casal que jantou no restaurante e ficou noivo ali, de modo que o reconhecimento nasceu de uma noite de servi\u00e7o que ele prestou sem saber que estava sendo avaliado, como prestou todas as outras. Quem lhe deu a f\u00f3rmula no est\u00e1gio foi Jessica, e \u00e9 Jessica quem segura a m\u00e3o dele no avi\u00e3o: a pessoa chegou depois da disposi\u00e7\u00e3o. Ele n\u00e3o se tornou hospitaleiro por ter ganhado alguma coisa: ganhou porque j\u00e1 era.<\/p>\n<p>O \u00faltimo epis\u00f3dio leva o nome da lanchonete de onde tudo partiu, e a s\u00e9rie intercala o voo com uma festa surpresa para a filha de Richie no restaurante, de modo que lhe entrega a casa e a partida no mesmo bloco. Nada disso \u00e9 pr\u00eamio: se o convite n\u00e3o tivesse chegado, a virtude estaria igualmente instalada e a vida igualmente refeita. O \u00faltimo plano para no voo, com o homem no meio do caminho, ainda indo. O que vem depois do pouso a s\u00e9rie n\u00e3o mostra.<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>The Bear terminou em junho, depois de cinco temporadas. Desde o primeiro epis\u00f3dio, tornei-me f\u00e3 da s\u00e9rie. 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