{"id":589633,"date":"2026-07-27T15:32:03","date_gmt":"2026-07-27T19:32:03","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=589633"},"modified":"2026-07-27T15:32:03","modified_gmt":"2026-07-27T19:32:03","slug":"como-a-militancia-transformou-o-aborto-de-mal-necessario-em-algo-positivo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=589633","title":{"rendered":"Como a milit\u00e2ncia transformou o aborto de \u201cmal necess\u00e1rio\u201d em algo positivo"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody-module-scss-module__8_WGKG__postBodyContainer\">\n<p>Na era p\u00f3s-<em>Dobbs<\/em>, o movimento pr\u00f3-vida parece j\u00e1 n\u00e3o ter um caminho claro a seguir. Com a amplia\u00e7\u00e3o da prote\u00e7\u00e3o legal ao <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/aborto\/\">aborto <\/a>em muitos estados norte-americanos e o aumento do acesso \u00e0 p\u00edlula abortiva, o n\u00famero de abortos continuou a crescer desde que <em>Roe v. Wade<\/em> foi derrubada. A maioria do p\u00fablico continuou votando a favor do acesso ao aborto, mesmo em um momento no qual os avan\u00e7os m\u00e9dicos tornaram a crian\u00e7a no ventre mais vis\u00edvel e vi\u00e1vel, mais cedo do que em qualquer outro momento da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Para onde vamos a partir daqui? O campo de batalha j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 principalmente pol\u00edtico, mas moral. A luta n\u00e3o \u00e9, em primeiro lugar, por leis, mas pelos cora\u00e7\u00f5es e mentes dos americanos bem-intencionados. Os eleitores do chamado \u201cmeio indeciso\u201d (<em>mushy middle<\/em>) \u2013 aqueles que talvez n\u00e3o escolhessem o aborto para si mesmos ou para algu\u00e9m que amam, mas se sentem desconfort\u00e1veis em retirar essa op\u00e7\u00e3o de outra mulher \u2013 precisam ser despertados da complac\u00eancia em que a ret\u00f3rica pr\u00f3-aborto os embalou.<\/p>\n<p>E como exatamente os ativistas do aborto conseguiram isso? Como convenceram a maioria da popula\u00e7\u00e3o de que o aborto \u2013 interromper um cora\u00e7\u00e3o que bate e desmembrar um ser humano vivo \u2013 faz parte dos cuidados de sa\u00fade? Como conseguiram fazer cidad\u00e3os comuns acreditarem que o assassinato \u00e9 essencial para a igualdade das mulheres?<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos anos, temos ouvido muitas <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/feminismo\/\">feministas <\/a>encorajarem as mulheres a tornarem p\u00fablicos os seus abortos e declararem com orgulho que \u201co aborto \u00e9 belo\u201d. Mas, se voltarmos a um passado n\u00e3o t\u00e3o distante, esse tipo de linguagem era encontrado apenas nos c\u00edrculos mais radicais do feminismo, e certamente n\u00e3o no discurso cultural e pol\u00edtico dominante.<\/p>\n<p>Nas d\u00e9cadas de 1980 e 1990 e no in\u00edcio dos anos 2000, os mantras \u201cseguro, legal e raro\u201d e \u201cpr\u00f3-escolha, <em>n\u00e3o<\/em> pr\u00f3-aborto\u201d eram considerados muito mais aceit\u00e1veis para o p\u00fablico americano e, portanto, politicamente mais eficazes. Os defensores do aborto concentravam-se fortemente nos casos-limite, nos quais o aborto talvez n\u00e3o fosse considerado ideal, mas seria \u201cnecess\u00e1rio\u201d devido a determinadas circunst\u00e2ncias tr\u00e1gicas. Um panfleto da d\u00e9cada de 1980 da Naral, o mais antigo grupo de defesa do direito ao aborto nos <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/estados-unidos\/\">Estados Unidos<\/a>, declarava: \u201cN\u00f3s, da Naral, n\u00e3o conhecemos ningu\u00e9m que seja \u2018pr\u00f3-aborto\u2019\u201d. Avancemos para 2022, quando o mesmo grupo declara: \u201cN\u00f3s encorajamos voc\u00ea a dizer \u2018aborto\u2019, e a diz\u00ea-lo com orgulho!\u201d<\/p>\n<blockquote>\n<p>Como os abortistas conseguiram fazer cidad\u00e3os comuns acreditarem que o assassinato \u00e9 essencial para a igualdade das mulheres?<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Como esses ativistas criaram espa\u00e7o para falar sobre o aborto \u2013 uma pr\u00e1tica que eles pr\u00f3prios admitiam ser um \u201cmal necess\u00e1rio\u201d \u2013 em termos abertamente positivos? Como conseguiram reformular a conversa sobre uma pr\u00e1tica moralmente t\u00e3o conden\u00e1vel e levar a opini\u00e3o p\u00fablica junto com eles?<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria oferece uma compara\u00e7\u00e3o marcante: a defesa da escravid\u00e3o no s\u00e9culo 19. Assim como os defensores do aborto mudaram sua ret\u00f3rica da forma descrita acima, os defensores sulistas da escravid\u00e3o passaram de admitir, em 1806, que \u201ca escravid\u00e3o \u00e9 um mal, lamentado por todos os homens do pa\u00eds\u201d, para declarar, em 1836, que \u201cela \u00e9 a maior de todas as b\u00ean\u00e7\u00e3os que uma Provid\u00eancia bondosa concedeu \u00e0 nossa gloriosa regi\u00e3o\u201d (<em>Anais do Congresso, <\/em>9.\u00ba Congresso, 2.\u00aa sess\u00e3o, 174 (1806); 24.\u00ba Congresso, 1.\u00aa sess\u00e3o, 2456 (1836)).<\/p>\n<p>Os defensores tanto do aborto quanto da escravid\u00e3o come\u00e7aram descrevendo a pr\u00e1tica em quest\u00e3o como um \u201cmal necess\u00e1rio\u201d, algo talvez indesej\u00e1vel, mas inevit\u00e1vel em um mundo imperfeito. Com o tempo, por\u00e9m, passaram a falar da escravid\u00e3o ou do aborto em termos orgulhosos, glorificadores e sem pedidos de desculpas, como um bem social e moral em si mesmo.<\/p>\n<p>A trajet\u00f3ria seguida por esses dois movimentos \u00e9 surpreendentemente semelhante. Um exame mais aprofundado desse fen\u00f4meno lan\u00e7a luz sobre o poder da ret\u00f3rica na percep\u00e7\u00e3o de quest\u00f5es moralmente controversas e sobre como poder\u00edamos libertar o p\u00fablico americano desse del\u00edrio para o qual os defensores do aborto o conduziram.<\/p>\n<h2>Primeira etapa: a defensiva contra as acusa\u00e7\u00f5es de imoralidade<\/h2>\n<p>Primeiramente, a transi\u00e7\u00e3o para falar tanto da escravid\u00e3o quanto do aborto em termos ousados e sem constrangimento foi uma estrat\u00e9gia empregada para responder \u00e0s acusa\u00e7\u00f5es de imoralidade feitas pelos opositores. Quando os advers\u00e1rios da escravid\u00e3o ou do aborto desenvolveram, pela primeira vez, movimentos organizados para tentar proibir essas pr\u00e1ticas, concentraram suas cr\u00edticas na quest\u00e3o moral, afirmando que tanto a escravid\u00e3o quanto o aborto eram pr\u00e1ticas m\u00e1s que violavam os direitos inerentes de outro ser humano.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>Em ambos os casos, quando o direito estabelecido passou a sofrer esse ataque coordenado, os defensores da escravid\u00e3o e do aborto inicialmente desviaram completamente a discuss\u00e3o da moralidade e recorreram a argumentos de necessidade para justificar as pr\u00e1ticas que desejavam preservar. O movimento pr\u00f3-vida ganhou for\u00e7a ap\u00f3s <em>Roe v. Wade<\/em>, e os defensores do aborto responderam, na d\u00e9cada de 1970, minimizando o aborto e enfatizando a no\u00e7\u00e3o mais ampla de \u201cescolha\u201d pessoal como o cerne da quest\u00e3o no debate sobre o aborto.<\/p>\n<p>Eles tendiam a recorrer mais a argumentos de necessidade, como a necessidade de evitar mortes decorrentes de abortos ilegais e de ajudar mulheres em circunst\u00e2ncias tr\u00e1gicas, bem como a apelos vagos aos direitos \u00e0 privacidade, \u00e0 igualdade e \u00e0 liberdade de consci\u00eancia. Muitos defensores do aborto enfatizavam que a lei deveria proteger o direito da mulher de escolher o aborto, mesmo que a maioria da popula\u00e7\u00e3o o considerasse imoral. Consequentemente, desejavam deslocar o foco da moralidade do aborto para a escolha pessoal e a liberdade em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 interfer\u00eancia do governo.No fim da d\u00e9cada de 1980, os principais ativistas pr\u00f3-aborto admitiam abertamente que ningu\u00e9m \u201cgostava\u201d do aborto. Um folheto da Naral de 1987 afirmava: \u201cNingu\u00e9m \u00e9 a favor do aborto, mas a verdadeira quest\u00e3o \u00e9&#8230; quem decide? Voc\u00ea ou os pol\u00edticos?\u201d<\/p>\n<p>Em seu discurso principal na Confer\u00eancia Anual da Naral de 1987, a diretora-executiva da organiza\u00e7\u00e3o, Kate Michelman, afirmou que os defensores do aborto precisavam construir um consenso mais forte entre os americanos em favor dos direitos ao aborto, articulando \u201cuma vis\u00e3o pr\u00f3-escolha que fa\u00e7a da dignidade e da liberdade \u2013 e n\u00e3o do aborto \u2013 o centro do debate\u201d. Em seguida, reconheceu: \u201cSejamos sinceros: muitas pessoas nunca ser\u00e3o ativistas pelo aborto. Muitas nem sequer ser\u00e3o defensoras do aborto. Mas, se levantarmos quest\u00f5es suficientes e fizermos conex\u00f5es suficientes, poderemos garantir que muitas pessoas n\u00e3o se tornem advers\u00e1rias do aborto. [&#8230;] Provavelmente n\u00e3o conseguiremos faz\u00ea-las empunhar a bandeira pr\u00f3-escolha, mas poderemos lev\u00e1-las a votar de forma pr\u00f3-escolha\u201d.<\/p>\n<p>De maneira muito semelhante, os defensores da escravid\u00e3o inicialmente desviaram as acusa\u00e7\u00f5es de imoralidade feitas pelas sociedades abolicionistas, cada vez mais ativas nas d\u00e9cadas de 1790 e no in\u00edcio do s\u00e9culo 19. Em geral, recorriam a argumentos como a inviabilidade da emancipa\u00e7\u00e3o e a destrui\u00e7\u00e3o que ela causaria \u00e0 economia e \u00e0 sociedade do Sul dos Estados Unidos. Tamb\u00e9m apelavam aos direitos dos estados para afirmar que o governo federal n\u00e3o tinha autoridade para legislar sobre a escravid\u00e3o, independentemente de sua condi\u00e7\u00e3o moral.<\/p>\n<p>Muitas vezes, esses pr\u00f3prios atores admitiam que a escravid\u00e3o era moralmente errada \u2013 um \u201cmal necess\u00e1rio\u201d ou uma \u201cimpropriedade moral\u201d \u2013, mas desviavam a discuss\u00e3o afirmando que a moralidade da escravid\u00e3o n\u00e3o dizia respeito \u00e0 lei (<em>Anais do Congresso<\/em>, 15.\u00ba Congresso, 2.\u00aa sess\u00e3o, 1436 (1819)).<\/p>\n<blockquote>\n<p>Os defensores tanto do aborto quanto da escravid\u00e3o come\u00e7aram descrevendo a pr\u00e1tica em quest\u00e3o como um \u201cmal necess\u00e1rio\u201d, algo talvez indesej\u00e1vel, mas inevit\u00e1vel em um mundo imperfeito<\/p>\n<\/blockquote>\n<h2>Segunda etapa: perceber que a estrat\u00e9gia estava destinada ao fracasso<\/h2>\n<p>Em ambos os casos, os defensores passaram a proclamar abertamente que a pr\u00e1tica em quest\u00e3o era um bem moral, especialmente ap\u00f3s importantes conquistas dos movimentos contr\u00e1rios e diante do que percebiam como um perigo iminente para a legalidade da pr\u00e1tica. \u00c0 medida que as for\u00e7as antiescravagistas e antiaborto obtinham avan\u00e7os sociais e pol\u00edticos significativos, tanto os defensores da escravid\u00e3o quanto os do aborto fizeram uma escolha deliberada de abandonar a desconfort\u00e1vel e fr\u00e1gil defesa do \u201cmal necess\u00e1rio\u201d, buscando apaziguar a consci\u00eancia das pessoas e mobilizar o p\u00fablico em seu favor; afinal, quem quer lutar por algo considerado \u201cmau\u201d?<\/p>\n<p>J\u00e1 na d\u00e9cada de 1980, alguns defensores do aborto percebiam a inutilidade do argumento do \u201cmal necess\u00e1rio\u201d e conclamavam o movimento a adotar uma linguagem de \u201cbem positivo\u201d. Um artigo da National Organization for Women (NOW), publicado em 1989, declarava:<\/p>\n<p><em>\u201cO aborto n\u00e3o \u00e9 imoral. N\u00e3o \u00e9 mau. Nem sequer \u00e9 vergonhoso. Mas pode muito bem tornar-se ilegal. E, se, na nossa \u2018escolha\u2019 de linguagem, contribuirmos inadvertidamente para a ideia de que o aborto \u00e9 uma \u2018m\u00e1 escolha\u2019, poderemos estar ajudando, sem querer, a acelerar o dia em que ele se tornar\u00e1 ilegal. Afinal, por quanto tempo e com que intensidade acreditamos que as pessoas lutar\u00e3o por algo que consideram inerentemente mau?\u201d<\/em><\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 2010, os ativistas pr\u00f3-aborto decidiram, finalmente, que haviam \u201ccedido terreno moral\u201d por tempo demais e permitido que as for\u00e7as antiaborto moldassem a opini\u00e3o p\u00fablica sobre a imoralidade da pr\u00e1tica. Grupos focais realizados pela Naral revelaram que muitos <em>millennials<\/em> \u201cdesaprovavam abertamente o aborto de uma mulher\u201d e o consideravam \u201cimoral\u201d. A organiza\u00e7\u00e3o atribuiu essa percep\u00e7\u00e3o ao sucesso, durante d\u00e9cadas, dos ativistas antiaborto em \u201creformular o debate sobre o aborto em torno do feto, em vez da mulher gr\u00e1vida\u201d, especialmente por meio do uso da tecnologia de ultrassom para \u201cdefinir a forma como as pessoas pensam sobre o feto como um ser humano completo e respirando\u201d.<\/p>\n<p>Em consequ\u00eancia, um n\u00famero cada vez maior de defensores do aborto passou a tentar recuperar a \u201csuperioridade moral\u201d no debate, proclamando o aborto como um bem moral e social, de modo a assumir uma postura ofensiva na luta pelos direitos ao aborto.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>Um artigo acad\u00eamico publicado em 2010 no <em>Journal of Women\u2019s History<\/em> declarou que o slogan \u201cseguro, legal e raro\u201d \u201ctanto produz quanto reproduz\u201d o estigma em torno do aborto e que os defensores deveriam, em vez disso, \u201ctrabalhar para articular o aborto como um bem social\u201d. A autora enfatizou de forma sucinta: \u201cO truque lingu\u00edstico de afirmar o direito ao aborto ao mesmo tempo em que ele \u00e9 desvalorizado \u00e9 prejudicial e ineficaz como estrat\u00e9gia para garantir direitos.\u201d Da mesma forma, um artigo publicado em 2013 na revista <em>The Nation<\/em> afirmava: \u201cAndar na ponta dos p\u00e9s em torno dessa quest\u00e3o \u00e9 exaustivo, e certamente n\u00e3o est\u00e1 fazendo nenhum favor \u00e0s mulheres. \u00c9 hora de ressuscitar o antigo grito de guerra: \u2018abortos gratuitos sob demanda, sem pedir desculpas\u2019. Talvez essa n\u00e3o seja uma mensagem popular, mas ela \u00e9 absolutamente necess\u00e1ria. [&#8230;] O movimento antiaborto n\u00e3o est\u00e1 economizando nos golpes \u2013 por que n\u00f3s dever\u00edamos?\u201d<\/p>\n<p>Assim, os defensores do aborto passaram, cada vez mais, a buscar a \u201cdesestigmatiza\u00e7\u00e3o\u201d do aborto e a mudar a opini\u00e3o p\u00fablica sobre ele de maneira muito semelhante \u00e0 forma como os defensores do casamento homoafetivo trabalharam para normalizar a homossexualidade. A partir da d\u00e9cada de 2010, os ativistas pr\u00f3-aborto passaram a declarar consistentemente que o aborto \u00e9 algo positivamente bom, que deve ser \u201cnormalizado\u201d e defendido \u201caberta e entusiasticamente\u201d. Os dias do lema \u201cseguro, legal e raro\u201d ficaram para tr\u00e1s.<\/p>\n<p>De maneira notavelmente semelhante, na d\u00e9cada de 1830 os principais defensores da escravid\u00e3o passaram a enfatizar que falar da escravid\u00e3o como um mal fortalecia os ataques da oposi\u00e7\u00e3o contra a institui\u00e7\u00e3o. Eles criticavam explicitamente outros defensores da escravid\u00e3o que continuavam sustentando a tese do \u201cmal necess\u00e1rio\u201d.<\/p>\n<p>Em 1837, John C. Calhoun acusou o tamb\u00e9m propriet\u00e1rio de escravos William Rives de contribuir diretamente para \u201ca fonte e nascente de onde flu\u00edram todas essas correntes abolicionistas\u201d ao descrever a escravid\u00e3o como uma iniquidade moral. Calhoun acrescentou que, como a escravid\u00e3o n\u00e3o era um mal, mas, na verdade, \u201cum grande bem\u201d, \u201cos propriet\u00e1rios de escravos do Sul nada tinham a lamentar nem a pesar na consci\u00eancia\u201d (<em>Register of Debates in Congress<\/em>, 24.\u00ba Congresso, 2.\u00aa sess\u00e3o, 719 (1837)).<\/p>\n<p>De modo semelhante, em 1853, William Gilmore Simms expressou gratid\u00e3o aos abolicionistas porque, apesar de todos os seus \u201cinc\u00f4modos e ofensas\u201d, eles haviam, na realidade, contribu\u00eddo para \u201cnossa tranquilidade moral \u2013 estabelecendo, para nossa plena convic\u00e7\u00e3o, nosso direito ao trabalho de nossos escravos. [&#8230;] Vinte anos atr\u00e1s, poucas pessoas no Sul procuravam justificar a escravid\u00e3o dos negros, exceto sob o argumento da necessidade. Agora, muito poucas pessoas nessa mesma regi\u00e3o questionam seu perfeito direito ao trabalho de seus escravos \u2013 e mais do que isso: sua obriga\u00e7\u00e3o moral de mant\u00ea-los sujeitos como escravos e de for\u00e7\u00e1-los ao trabalho\u201d.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Na d\u00e9cada de 1980, alguns defensores do aborto j\u00e1 percebiam a inutilidade do argumento do \u201cmal necess\u00e1rio\u201d e conclamavam o movimento a adotar uma linguagem de \u201cbem positivo\u201d<\/p>\n<\/blockquote>\n<h2>Terceira etapa: redefinir a moralidade<\/h2>\n<p>Como exatamente os defensores da escravid\u00e3o e do aborto deram esse salto da fr\u00e1gil defesa do \u201cmal necess\u00e1rio\u201d para a glorifica\u00e7\u00e3o aberta da pr\u00e1tica? Em primeiro lugar, ambos procuraram eliminar o status moral e jur\u00eddico da v\u00edtima, a fim de minimizar o mal inerente \u00e0s suas a\u00e7\u00f5es. Precisavam desacreditar a condi\u00e7\u00e3o de sujeito de direitos do outro \u201cser\u201d envolvido na pr\u00e1tica para fazer parecer evidente ao p\u00fablico que os propriet\u00e1rios de escravos eram mais importantes que os negros, e que as mulheres eram mais valiosas do que os fetos.<\/p>\n<p>Para isso, empregaram uma ret\u00f3rica que classificava o escravo ou o feto como menos que humano, ou menos do que uma \u201cpessoa\u201d plena perante a lei, enfraquecendo assim sua reivindica\u00e7\u00e3o de direitos iguais. Frequentemente, tamb\u00e9m desconsideravam completamente o escravo ou o feto, insinuando que era um fato incontest\u00e1vel que eles eram inferiores aos propriet\u00e1rios de escravos ou \u00e0s mulheres.<\/p>\n<p>Os defensores do aborto utilizaram uma linguagem que intencionalmente minimiza a humanidade da crian\u00e7a por nascer. Chamam a crian\u00e7a de \u201cmassa de tecido vivo\u201d, \u201calgo muito semelhante ao fluxo menstrual\u201d, \u201cconte\u00fado do \u00fatero\u201d e \u201cparasita\u201d que se alimenta do corpo da mulher. Muitos admitem que o feto \u00e9 humano e est\u00e1 vivo, mas afirmam que isso n\u00e3o tem relev\u00e2ncia porque ele n\u00e3o \u00e9 \u201cuma pessoa independente\u201d, \u00e9 apenas \u201cuma pessoa em potencial\u201d ou, ainda, que ele ainda n\u00e3o \u00e9 uma pessoa, da mesma forma que um cad\u00e1ver j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 uma pessoa.<\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 1980, \u00e0 medida que os avan\u00e7os m\u00e9dicos e tecnol\u00f3gicos tornavam o ser humano ainda n\u00e3o nascido visivelmente mais humano, os ativistas pr\u00f3-aborto passaram a ter de lidar de uma nova maneira com a humanidade da crian\u00e7a no ventre. Fizeram isso tentando deslocar completamente a aten\u00e7\u00e3o do feto e concentr\u00e1-la exclusivamente nas mulheres e em sua capacidade de tomar suas pr\u00f3prias decis\u00f5es \u201cmorais\u201d.<\/p>\n<p>J\u00e1 na d\u00e9cada de 1980, ativistas do aborto falavam da necessidade de uma nova \u201cmoralidade feminista\u201d para combater o sentimento de culpa que permeava at\u00e9 mesmo o movimento pr\u00f3-escolha em rela\u00e7\u00e3o ao status moral do nascituro. Um documento de trabalho da Naral de 1984 afirmava: \u201cConsiderar o feto como parte do corpo da mulher gr\u00e1vida \u00e9 a \u00fanica defini\u00e7\u00e3o que n\u00e3o enfraquece seu controle\u201d, e incentivava os ativistas a \u201cconcentrar o debate nas mulheres que fazem abortos, e n\u00e3o nos fetos que podem sobreviver\u201d.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Os defensores da escravid\u00e3o e do aborto procuraram eliminar o status moral e jur\u00eddico da v\u00edtima, a fim de minimizar o mal inerente \u00e0s suas a\u00e7\u00f5es<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Consequentemente, os defensores do aborto passaram a sustentar que a posi\u00e7\u00e3o moralmente correta \u00e9 a de permitir que as mulheres tomem suas pr\u00f3prias \u201cdecis\u00f5es morais\u201d. A autora de um livro de 2014 sobre a recupera\u00e7\u00e3o dos direitos ao aborto argumentou: \u201cPrecisamos enxergar o aborto como uma decis\u00e3o pr\u00e1tica urgente que \u00e9 t\u00e3o moral quanto a decis\u00e3o de ter um filho \u2013 e, em alguns casos, at\u00e9 mais moral\u201d. E, em 2016, a autora de <em>The Moral Case for Abortion<\/em> afirmou: \u201cQuando impedimos uma mulher de fazer suas pr\u00f3prias escolhas morais sobre sua gravidez, minamos sua humanidade ao retirar dela a capacidade de exercer sua autonomia\u201d.<\/p>\n<p>Em outras palavras, independentemente do fato de que a crian\u00e7a por nascer seja humana e esteja viva, a \u00fanica escolha moral seria permitir que as mulheres decidam por si mesmas \u201cqual significado sua gravidez tem\u201d \u2013 um argumento sem sentido, mas que parece irrefut\u00e1vel em uma cultura marcada pelo relativismo moral.<\/p>\n<p>De maneira semelhante, os defensores da escravid\u00e3o desacreditaram os negros retirando-lhes a condi\u00e7\u00e3o de pessoa e reescrevendo as leis da natureza. Referiam-se aos negros como \u201cpropriedade negra\u201d e \u201cuma ra\u00e7a inferior de seres\u201d (<em>Anais do Congresso<\/em>, 1.\u00ba Congresso, 2.\u00aa sess\u00e3o, 1244 (1790); 6.\u00ba Congresso, 1.\u00aa sess\u00e3o, 242 (1800); 1.\u00ba Congresso, 2.\u00aa sess\u00e3o, 1505 (1790)). Um escritor pr\u00f3-escravid\u00e3o afirmou que era correto escravizar \u201cesses zang\u00f5es imprudentes, miser\u00e1veis e peso para a Terra, compelindo-os assim aos h\u00e1bitos do trabalho [&#8230;] e elevando-os, juntamente com sua descend\u00eancia, na escala da humanidade\u201d.<\/p>\n<p>Em seguida, passaram a repudiar o princ\u00edpio da Declara\u00e7\u00e3o de Independ\u00eancia de que \u201ctodos os homens s\u00e3o criados iguais\u201d, abandonando a teoria tradicional dos direitos naturais e sustentando que esse princ\u00edpio de igualdade deveria ser entendido apenas como uma abstra\u00e7\u00e3o e \u201ccom grandes qualifica\u00e7\u00f5es\u201d (<em>Anais do Congresso<\/em>, 9.\u00ba Congresso, 2.\u00aa sess\u00e3o, 227 (1806)). Um defensor da escravid\u00e3o proclamou: \u201cTalvez n\u00e3o exista frase que tenha sido mais deturpada para servir aos prop\u00f3sitos dos inimigos da escravid\u00e3o do que esta: todos os homens nascem livres. Em sua aplica\u00e7\u00e3o deturpada, os fatos a negam, as Escrituras a negam, a Constitui\u00e7\u00e3o a nega e o bom senso a nega\u201d.<\/p>\n<p>Os defensores da escravid\u00e3o \u201cconstru\u00edram outros conceitos da lei natural sobre os quais fundamentaram a justifica\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o\u201d. Fizeram isso proclamando que as leis da natureza tornavam os negros inferiores e aptos para a escravid\u00e3o, de modo que os brancos tinham uma \u201cobriga\u00e7\u00e3o moral\u201d de escraviz\u00e1-los tanto para seu pr\u00f3prio bem quanto para o bem da sociedade. Essa ideia foi defendida por um congressista da Virg\u00ednia em 1849, que declarou:<\/p>\n<p><em>\u201cSe [a escravid\u00e3o] \u00e9 errada ou imoral, ent\u00e3o as pr\u00f3prias leis da natureza s\u00e3o erradas e tendem \u00e0 imoralidade; [&#8230;] ent\u00e3o \u00e9 imoral transformar em um ser moral, religioso e relativamente intelectual algu\u00e9m que, de outra forma, teria permanecido um selvagem ignorante e completamente degradado.\u201d<\/em> (<em>Congressional Globe<\/em>, 30.\u00ba Congresso, 2.\u00aa sess\u00e3o, 173 (1849))<\/p>\n<blockquote>\n<p>Assim como os abortistas, os defensores da escravid\u00e3o desacreditaram os negros retirando-lhes a condi\u00e7\u00e3o de pessoa e reescrevendo as leis da natureza<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Depois de remover a v\u00edtima das considera\u00e7\u00f5es morais relativas \u00e0 pr\u00e1tica, os defensores da escravid\u00e3o e do aborto deram o passo definitivo: redefinir completamente o bem e o mal. Formularam estrategicamente uma defesa abrangente das pr\u00e1ticas que buscavam proteger como parte de uma batalha sociopol\u00edtica mais ampla, redefinindo a verdadeira \u201cquest\u00e3o moral\u201d em jogo como a preven\u00e7\u00e3o de que determinado conjunto de valores \u2013 considerados fanaticamente de esquerda pelos defensores da escravid\u00e3o ou radicalmente de direita pelos defensores do aborto \u2013 prevalecesse na sociedade americana. Ao fazer isso, ambos conseguiram deslocar o foco do debate para longe da v\u00edtima e criar espa\u00e7o para reivindicar para si mesmos a superioridade moral.<\/p>\n<h2>Quarta etapa: associar a posi\u00e7\u00e3o pr\u00f3-vida ou o abolicionismo ao extremismo<\/h2>\n<p>A partir da d\u00e9cada de 2010, os defensores do aborto passaram a relacionar cada vez mais a luta pelos direitos ao aborto \u00e0 luta mais ampla contra uma ideologia \u201cextremista de direita\u201d. Em 2017, por exemplo, a Naral declarou: \u201cComo sempre dissemos, isto n\u00e3o \u00e9 e nunca foi apenas sobre aborto. [&#8230;] Nossa miss\u00e3o agora \u00e9 lutar pela Am\u00e9rica em que acreditamos: uma na qual [&#8230;] a liberdade \u2013 de escolher o aborto, de tomar nossas pr\u00f3prias decis\u00f5es sobre nossas fam\u00edlias, de viver livres do medo \u2013 seja inabal\u00e1vel\u201d. E, em 2021, afirmou: \u201c2020 foi a culmina\u00e7\u00e3o de um esfor\u00e7o de d\u00e9cadas da Direita Radical, atuando em perfeita sintonia com o movimento antiaborto, para destruir nossa democracia e manter o poder patriarcal branco\u201d.<\/p>\n<p>Um artigo de 2021 da Planned Parenthood, intitulado \u201c<em>Just Say Abortion<\/em>\u201d (\u201cSimplesmente diga \u2018aborto\u2019\u201d), relaciona o aborto \u00e0 ideologia de g\u00eanero ao argumentar que o termo \u201cpr\u00f3-escolha\u201d tanto perpetua o estigma em torno do aborto quanto \u201capaga as pessoas trans e n\u00e3o bin\u00e1rias que fazem abortos\u201d, o que seria \u201ctransf\u00f3bico\u201d. O artigo prossegue oferecendo uma s\u00edntese reveladora do fen\u00f4meno cultural mais amplo: \u201cO estigma do aborto, a atitude social e estrutural compartilhada de que o aborto \u00e9 errado ou indesej\u00e1vel, est\u00e1 enraizado em ideias patriarcais sobre g\u00eanero. [&#8230;] Podemos combater o estigma do aborto e a transfobia ao mesmo tempo\u201d.<\/p>\n<p>De maneira semelhante, quando passaram a defender a escravid\u00e3o de forma mais enf\u00e1tica, seus partid\u00e1rios tornaram a glorifica\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o cada vez mais insepar\u00e1vel da identidade coletiva do Sul, associando o movimento pr\u00f3-escravid\u00e3o a uma batalha sociopol\u00edtica mais ampla contra o capitalismo e o socialismo.<\/p>\n<p>O legislador pr\u00f3-escravid\u00e3o John Henry Hammond afirmou, em 1836, que os abolicionistas haviam iniciado uma \u201cguerra\u201d contra a sociedade sulista, \u201cproclamando como sua palavra de ordem aquele sentimento imortal, mas agora prostitu\u00eddo, de que \u2018todos os homens nascem livres e iguais\u2019\u201d (<em>Register of Debates in Congress<\/em>, 24.\u00ba Congresso, 1.\u00aa sess\u00e3o, 2448\u201362 (1829)). Outros sustentavam que a escravid\u00e3o era indispens\u00e1vel para preservar \u201ca heran\u00e7a de seus pais\u201d e \u201ca seguran\u00e7a de seu estado e de seus amigos\u201d, e que qualquer pessoa \u201cque recue diante da defesa mais elevada e mais ousada [da escravid\u00e3o] \u00e9 um traidor\u201d (<em>Register of Debates in Congress<\/em>, 24.\u00ba Congresso, 1.\u00aa sess\u00e3o, 2448\u201362 (1829); <em>Congressional Globe<\/em>, 29.\u00ba Congresso, 2.\u00aa sess\u00e3o, 77 (1847)).<\/p>\n<blockquote>\n<p>Sustentar que aqueles que rejeitam a escravid\u00e3o ou o aborto o fazem porque desejam promover algum tipo de fanatismo em nossa cultura \u00e9 uma forma de apagar a v\u00edtima do debate<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Essa estrat\u00e9gia ret\u00f3rica da chamada \u201cguerra cultural\u201d representa o \u00e1pice da tentativa de inverter o bem e o mal. Colocar a escravid\u00e3o ou o aborto no centro de uma batalha maior pela promo\u00e7\u00e3o de determinados valores e pela erradica\u00e7\u00e3o de valores considerados extremistas ou indesej\u00e1veis \u00e9 uma poderosa t\u00e1tica para redirecionar a discuss\u00e3o moral para algo diferente do dano causado \u00e0 v\u00edtima.<\/p>\n<p>Sustentar que aqueles que rejeitam a escravid\u00e3o ou o aborto o fazem porque desejam promover algum tipo de fanatismo em nossa cultura \u2013 e n\u00e3o porque est\u00e3o preocupados com o escravo ou com a crian\u00e7a ainda n\u00e3o nascida \u2013 \u00e9 uma forma de apagar a v\u00edtima do debate.<\/p>\n<h2>O que fazer daqui em diante?<\/h2>\n<p>Essas escolhas estrat\u00e9gicas feitas tanto pelos defensores da escravid\u00e3o quanto pelos defensores do aborto ajudaram-nos a construir movimentos que, em conjunto com transforma\u00e7\u00f5es socioculturais, tornaram poss\u00edvel falar da escravid\u00e3o ou do aborto \u2013 pr\u00e1ticas que historicamente eram vistas, na melhor das hip\u00f3teses, como moralmente amb\u00edguas e, na pior, como repulsivas \u2013 em termos de glorifica\u00e7\u00e3o aberta e sem constrangimentos.<\/p>\n<p>\u00c9 evidente que a posi\u00e7\u00e3o do \u201cmal necess\u00e1rio\u201d \u00e9 desconfort\u00e1vel e politicamente fr\u00e1gil porque, apesar da influ\u00eancia do relativismo moral na cultura, muitas pessoas ainda vivem e votam a partir de uma perspectiva moral. As pessoas continuam tendendo a pensar em termos de \u201ccerto\u201d e \u201cerrado\u201d quando se trata de pol\u00edtica e desejam sentir que est\u00e3o lutando pelo que \u00e9 \u201cbom\u201d.<\/p>\n<p>Como resultado, os defensores do aborto v\u00eam empregando t\u00e1ticas extraordinariamente semelhantes \u00e0s utilizadas pelos defensores da escravid\u00e3o no s\u00e9culo 19 para \u201cdesestigmatizar\u201d o aborto, transformar a morte de um ser humano no ventre em um \u201cbem\u201d e levar o p\u00fablico a sentir que tem uma obriga\u00e7\u00e3o moral de votar em seu favor. Isso acontece porque tais t\u00e1ticas funcionam.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Assim como os abolicionistas procuraram revelar a humanidade do escravo, tamb\u00e9m n\u00f3s devemos resgatar a dignidade do nascituro, contra a desumaniza\u00e7\u00e3o produzida pelos eufemismos pr\u00f3-aborto<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>O mal prospera nas sombras, revestido de ret\u00f3rica e ignorado por aqueles que preferem n\u00e3o reconhecer sua exist\u00eancia para que ela n\u00e3o perturbe suas consci\u00eancias. Mas cabe a n\u00f3s arrast\u00e1-lo para fora da escurid\u00e3o e traz\u00ea-lo \u00e0 luz, para que todos possam ver sua feiura.<\/p>\n<p>Tudo isso importa neste momento porque o movimento pr\u00f3-vida precisa concentrar seus esfor\u00e7os em transformar a opini\u00e3o p\u00fablica, caso as leis venham a mudar. E uma maneira de fazer isso \u00e9 destacar esse paralelo impressionante entre a forma como os propriet\u00e1rios de escravos lutaram para justificar a escraviza\u00e7\u00e3o de outros seres humanos e a forma como os defensores do aborto lutam atualmente para justificar o fim de vidas humanas.<\/p>\n<p>Assim como os propriet\u00e1rios de escravos do Sul anterior \u00e0 Guerra Civil procuraram desviar as cr\u00edticas dirigidas a uma pr\u00e1tica que sabiam ser objetivamente imoral alterando a pr\u00f3pria natureza do conceito de \u201cmoralidade\u201d, tamb\u00e9m os defensores do aborto procuram conquistar a superioridade moral convencendo os americanos de que o aborto \u2013 que eles pr\u00f3prios admitem ser o t\u00e9rmino de uma vida humana \u2013 \u00e9 simplesmente parte de uma batalha mais ampla pela igualdade e pela liberdade.<\/p>\n<p>Mas, assim como os abolicionistas procuraram revelar a humanidade do escravo por tr\u00e1s do v\u00e9u da ret\u00f3rica pr\u00f3-escravid\u00e3o, tamb\u00e9m n\u00f3s devemos, de forma persistente, resgatar a dignidade da crian\u00e7a no ventre da escurid\u00e3o e da desumaniza\u00e7\u00e3o produzidas pelos eufemismos pr\u00f3-aborto.<\/p>\n<p>Exponhamos corajosamente esse mal disfar\u00e7ado de \u201cbem\u201d e fa\u00e7amos as pessoas recuperarem o bom senso \u2013 porque, como os pr\u00f3prios ativistas do aborto disseram, quem realmente quer lutar pelo mal?<\/p>\n<p><strong><em>Eliza Kelly<\/em><\/strong><em> \u00e9 professora do Providence College, com bacharelado em Governo e mestrado em Ci\u00eancia Pol\u00edtica. Ela \u00e9 pesquisadora nas \u00e1reas de pol\u00edticas de direitos humanos na China, evolu\u00e7\u00e3o da ret\u00f3rica pol\u00edtica, e ensino social cat\u00f3lico.<\/em><\/p>\n<p><strong>\u00a92026 Public Discourse. Publicado com permiss\u00e3o. Original em ingl\u00eas: <a href=\"https:\/\/www.thepublicdiscourse.com\/2026\/07\/101483\/\">Who Will Fight for \u201cEvil\u201d?<\/a><\/strong><\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na era p\u00f3s-Dobbs, o movimento pr\u00f3-vida parece j\u00e1 n\u00e3o ter um caminho claro a seguir. 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