{"id":589566,"date":"2026-07-27T14:59:34","date_gmt":"2026-07-27T18:59:34","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=589566"},"modified":"2026-07-27T14:59:34","modified_gmt":"2026-07-27T18:59:34","slug":"a-odisseia-acontece-neste-momento-em-nossas-vidas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=589566","title":{"rendered":"A Odisseia acontece neste momento, em nossas vidas"},"content":{"rendered":"<div class=\"postLayout-module-scss-module__08MJ-a__postContent\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/media.gazetadopovo.com.br\/2026\/07\/27155441\/WATERHOUSE_-_Ulises_y_las_Sirenas_National_Gallery_of_Victoria_Melbourne_1891._Oleo_sobre_lienzo_100.6_x_202_cm.jpg.webp\" \/><span>Um dos erros mais comuns da cr\u00edtica liter\u00e1ria \u00e9 tratar os cl\u00e1ssicos como hist\u00f3rias separadas da nossa vida. &#8221; &#8220;Ulisses e as Sereias&#8221; (1891), de John William Waterhouse. (Foto: National Gallery of Victoria\/Wikimedia Commons)<\/span>\n<p>Ou\u00e7a este conte\u00fado<\/p>\n<div class=\"postBody-module-scss-module__8_WGKG__postBodyContainer\">\n<p>Para meus alunos no meu Clube de Leitura, sempre alerto que literatura n\u00e3o \u00e9 nem fantasia inconsequente nem historicismo realista. \u00c9 algo muito superior: \u00e9 a grande imagina\u00e7\u00e3o humana lidando com os limites da exist\u00eancia, a grandiosidade da vida que nem sempre percebemos em nosso cotidiano, nas conversas comezinhas e na banalidade de nossas preocupa\u00e7\u00f5es apressadas. \u00c9 exatamente por isso que A Odisseia \u00e9 t\u00e3o importante \u2013 e, com seus ciclopes, bruxas e sereias, \u00e9 capaz de nos falar muito mais sobre nossas vidas em 2026 do que as not\u00edcias de hoje.<\/p>\n<p>Podemos fazer um breve exerc\u00edcio. Um dos problemas fundamentais do mundo atual circunda os jovens \u2013 principalmente os do sexo masculino. S\u00e3o eles que parecem perdidos, sem rumo, torrando seu tempo em passatempos sem futuro. Mesmo quando s\u00e3o talentosos, sentimos neles apenas um infinito desperd\u00edcio de suas faculdades.<\/p>\n<p>Observando a mesma ferida aberta pelo prisma da revolu\u00e7\u00e3o sexual, os jovens do sexo masculino demoram cada vez mais a assumir seus pap\u00e9is sociais de homens \u2013 provedores, protetores, capazes de compreender a alma e o corpo femininos. \u00c9 exatamente essa adolesc\u00eancia tardia, sem um c\u00f3digo de conduta como o da cavalaria medieval, que \u00e9 o combust\u00edvel de ideologias ruins, como o feminismo.<\/p>\n<p>Os jovens hoje demoram a trabalhar, est\u00e3o dispersos para o estudo; at\u00e9 sua divers\u00e3o \u00e9 infrut\u00edfera \u2013 dos joguinhos e redes sociais \u00e0s bets, nada do que fazem tem um car\u00e1ter formativo \u2013 no m\u00e1ximo informativo, geralmente performativo. Muitos, inclusive, vivem de bens que n\u00e3o s\u00e3o seus, desperdi\u00e7ando n\u00e3o apenas o dinheiro de seus pais, mas, n\u00e3o raro, o de pessoas alheias \u2013 ou vivendo aboletados em programas estatais, sem nenhum compromisso com a pr\u00f3pria civiliza\u00e7\u00e3o da qual s\u00e3o dependentes.<\/p>\n<p>O que lemos logo nas primeiras p\u00e1ginas da Odisseia? Os ditos \u201cpretendentes\u201d \u2013 ao contr\u00e1rio do que o filme de Christopher Nolan retrata, a maior parte deles t\u00e3o jovem quanto Tel\u00eamaco \u2013 est\u00e3o todos esbulhando os bens do pal\u00e1cio de \u00cdtaca. Tratam Tel\u00eamaco com desprezo e consideram-se os verdadeiros \u201cdonos\u201d, ou portadores do direito ao usufruto, de todos os bens do rei Odisseu. Est\u00e3o todos, inclusive, exigindo que Pen\u00e9lope, que ainda n\u00e3o tem certeza se \u00e9 vi\u00fava, escolha um deles para casamento, ansiando por sua cama. O que fazem o tempo todo \u00e9 viver em banquetes que tomam como obriga\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia real lhes prover (banquetes devem existir para os deuses, revelando um sacril\u00e9gio, al\u00e9m do esbulho e da tentativa de tomar o corpo da rainha).<\/p>\n<p>Nenhum oferece a mais remota voca\u00e7\u00e3o para ser rei, gastando seu tempo com o jogo de dados (s\u00f3 faltou o patroc\u00ednio de uma Bet) \u2013 nem ao menos se ocupam com uma divers\u00e3o mais importante para uma sociedade guerreira, como a luta ou a ca\u00e7a. Comem da comida da casa real, apenas exigindo ainda mais a cada dia. Pelo que observamos na assembleia convocada por Tel\u00eamaco no canto II (cena s\u00f3 aludida no filme), s\u00e3o, em sua maioria, jovens cujos pais pereceram na Guerra de Troia. O exato clich\u00ea de uma gera\u00e7\u00e3o de pais ausentes, sem figuras masculinas adultas para conduzir seus passos. H\u00e1 um parentesco perigosamente pr\u00f3ximo entre a gera\u00e7\u00e3o nem-nem e os \u201cpretendentes\u201d de Pen\u00e9lope.<\/p>\n<p>Devemos ainda lembrar que esses \u201cpretendentes\u201d est\u00e3o sendo aceitos em um pal\u00e1cio (um Estado) que n\u00e3o tinha nenhuma obriga\u00e7\u00e3o moral de atend\u00ea-los. Observando a Europa hoje e seus \u201crefugiados\u201d, que, em quest\u00e3o de menos de duas d\u00e9cadas, est\u00e3o querendo trocar as leis civis europeias pela sharia, podemos observar a diferen\u00e7a entre Pen\u00e9lope, sabendo que est\u00e1 a um passo de ser estuprada, e a ideologia moderna, com seus cartazes \u201cRefugees welcome!\u201d, sem ter consci\u00eancia do que est\u00e1 fazendo com o futuro das mulheres.<\/p>\n<p>Tel\u00eamaco precisa aprender a ser um homem (com ajuda divina), e Odisseu precisa aprender a ser um pai (com a mesma ajuda divina). A gera\u00e7\u00e3o de pais ausentes, no s\u00e9culo XXI, multiplica os \u201cpretendentes\u201d sem nunca voltar \u00e0 ordem e tamb\u00e9m comete a mesma <em>hybris<\/em>, a arrog\u00e2ncia tr\u00e1gica que cega a tantos: negar seu papel de criaturas necessitadas da divindade.<\/p>\n<p>Este mundo em desordem gera uma constante sensa\u00e7\u00e3o de nostalgia \u2013 mesmo de um passado desconhecido. <em>Nostos<\/em> \u00e9 justamente o tema da Odisseia: o retorno. Mas Odisseu volta como o mesmo homem? \u00cdtaca \u00e9 a mesma ilha? Sua esposa ainda \u00e9 a mesma (ainda mais depois de ouvir o que ouviu sobre Clitemnestra)? Odisseu tem uma escolha, no limite m\u00e1ximo da exist\u00eancia, em suas m\u00e3os. Pode viver com Calipso, uma ninfa com vol\u00fapia infinita, eternamente jovem, que o alimenta indefinidamente e ainda lhe d\u00e1 imortalidade \u2013 ou pode voltar para seu lar e sua esposa (j\u00e1 nessa \u00e9poca, ao menos uma quarentona) \u2013 e seu filho, que nem conhece.<\/p>\n<p>Escolha dif\u00edcil? Calipso n\u00e3o pode oferecer a Odisseu exatamente a \u00fanica coisa de que realmente sentimos falta em nosso mundo moderno, em que a escassez \u00e9 t\u00e3o disfar\u00e7ada artificialmente: sermos n\u00f3s mesmos. Chamarmos nossa casa de lar. Termos uma hist\u00f3ria. Deixarmos um legado. Viver uma miss\u00e3o e chegarmos ao fim de nossas vidas cheios de feridas \u2013 mas tendo vencido a n\u00f3s mesmos, ou morrer tentando. Uma escolha que o mundo moderno pode disfar\u00e7ar t\u00e3o bem quanto Calipso \u2013 mas cujo significado nenhum encanto pode esconder.<\/p>\n<p>E quantos cantos de sereias ouvimos todos os dias? Quantas promessas de um futuro glorioso e f\u00e1cil, quantas gl\u00f3rias externas e inorg\u00e2nicas, que sabemos serem mentiras, mas continuamos ouvindo mesmo assim? Mesmo da perspectiva crist\u00e3, \u00e9 dif\u00edcil imaginar cena mais forte sobre tenta\u00e7\u00e3o \u2013 e sempre sabemos que a tenta\u00e7\u00e3o \u00e9 errada.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Novamente, o canto das sereias sempre nos promete fugir de n\u00f3s mesmos<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Devemos pensar ainda que Odisseu encontra os lot\u00f3fagos (no filme, infelizmente, Hollywood preferiu misturar a cena dos comedores de l\u00f3tus com a de Calipso, com o pr\u00f3prio Odisseu querendo \u201cse esquecer\u201d, criando uma mensagem bagun\u00e7ada e completamente alheia ao poema).<\/p>\n<p>Talvez seja a l\u00f3tus uma das marcas modernas mais reconhec\u00edveis. A tenta\u00e7\u00e3o de esquecer. Pode parecer po\u00e9tico, mas \u00e9 muito social e factual: as redes sociais e seus algoritmos infinitos, sem um ontem (quem hoje l\u00ea um livro, se \u00e9 t\u00e3o urgente \u201cler\u201d o Instagram e o X?), as divers\u00f5es fr\u00edvolas, os ansiol\u00edticos, a fuga ideol\u00f3gica e qu\u00edmica da ansiedade da vida, as drogas, o celular na m\u00e3o o dia inteiro, os relacionamentos descart\u00e1veis, a realidade filtrada por um algoritmo. Quantas l\u00f3tus n\u00f3s temos ao nosso redor \u2013 e das quais nunca nos livramos?<\/p>\n<p>Existe um ensinamento em literatura que sempre friso aos meus alunos para nunca, ora, se esquecerem: a grande literatura n\u00e3o \u00e9 apenas sobre hist\u00f3rias de grandes homens em um passado fantasioso, do qual n\u00e3o temos nada a aprender. A hist\u00f3ria de Odisseu, afinal, \u00e9 a nossa hist\u00f3ria. Por isso \u00e9 t\u00e3o grandiosa \u2013 e t\u00e3o dolorosa. E nenhuma l\u00f3tus e nenhuma ninfa podem nos permitir esquecer de que \u00cdtaca \u00e9 uma miss\u00e3o nossa.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<\/div>\n<p>Encontrou algo errado na mat\u00e9ria?<\/p>\n<p>Comunique erros<\/p>\n<p>Use este espa\u00e7o apenas para a comunica\u00e7\u00e3o de erros<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um dos erros mais comuns da cr\u00edtica liter\u00e1ria \u00e9 tratar os cl\u00e1ssicos como hist\u00f3rias separadas da nossa vida. &#8221; &#8220;Ulisses&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":589567,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[204],"tags":[],"class_list":["post-589566","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ultimas-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/589566","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=589566"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/589566\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/589567"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=589566"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=589566"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=589566"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}