{"id":582886,"date":"2026-07-25T07:00:00","date_gmt":"2026-07-25T11:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=582886"},"modified":"2026-07-25T07:00:00","modified_gmt":"2026-07-25T11:00:00","slug":"a-selecao-brasileira-os-evangelicos-e-a-teologia-do-placar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=582886","title":{"rendered":"A Sele\u00e7\u00e3o Brasileira, os evang\u00e9licos e a teologia do placar"},"content":{"rendered":"<div class=\"postLayout-module-scss-module__08MJ-a__postContent\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/media.gazetadopovo.com.br\/2026\/07\/24154249\/lucio-kaka-evangelicos-selecao-brasileira-960x540.jpg.webp\" \/><span>Os evang\u00e9licos L\u00facio (esq.) e Kak\u00e1 (dir.) (em foto de 2009) eram parte da sele\u00e7\u00e3o pentacampe\u00e3 de 2002. (Foto: Oliver Weiken\/EFE\/EPA)<\/span>\n<p>Ou\u00e7a este conte\u00fado<\/p>\n<div class=\"postBody-module-scss-module__8_WGKG__postBodyContainer\">\n<p>H\u00e1 derrotas que revelam as limita\u00e7\u00f5es de um time; outras revelam tamb\u00e9m os preconceitos da sociedade que o observa. A elimina\u00e7\u00e3o do Brasil para a Noruega, nas oitavas de final da <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/copa-do-mundo-2026\/\">Copa do Mundo<\/a>, deveria produzir a conhecida aut\u00f3psia do nosso futebol: o p\u00eanalti desperdi\u00e7ado, as oportunidades perdidas, os erros de marca\u00e7\u00e3o, a incapacidade de transformar dom\u00ednio em gol, a forma\u00e7\u00e3o cada vez mais europeizada dos jogadores brasileiros, as escolhas da CBF e tantos outros problemas que pertencem propriamente ao jogo. Havia, portanto, futebol de sobra para explicar a derrota. Ainda assim, nos dias seguintes \u00e0 elimina\u00e7\u00e3o, uma parcela da torcida, das redes sociais e da intelectualidade de ocasi\u00e3o preferiu procurar uma causa <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/religiao\/\">religiosa <\/a>para o fracasso, como se a bola chutada para fora pudesse ser explicada n\u00e3o pela t\u00e9cnica do jogador, mas pela igreja que ele frequenta aos domingos.<\/p>\n<p>A teoria, apresentada com a solenidade pr\u00f3pria das grandes descobertas sociol\u00f3gicas, afirma que o Brasil teria deixado de ganhar copas \u00e0 medida que seus jogadores se tornaram majoritariamente <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/evangelicos\/\">evang\u00e9licos<\/a>. O antigo futebol brasileiro, segundo essa narrativa, seria produto de uma cultura cat\u00f3lica, comunit\u00e1ria, festiva, bo\u00eamia e aberta ao improviso; o novo futebol, por sua vez, refletiria uma religiosidade protestante supostamente importada, r\u00edgida, individualista, moralista e incapaz de produzir a ginga nacional. Da\u00ed surgiram frases como \u201cse reza como gringo, joga como gringo\u201d, al\u00e9m de coment\u00e1rios que associavam o desaparecimento do futebol-arte a uma esp\u00e9cie de esteriliza\u00e7\u00e3o evang\u00e9lica da cultura brasileira. O argumento parece falar sobre t\u00e1tica, mas na verdade constr\u00f3i uma antropologia religiosa de botequim, na qual o cat\u00f3lico \u00e9 naturalmente alegre e criativo, enquanto o evang\u00e9lico seria austero, estrangeirado e emocionalmente incapaz de driblar.<\/p>\n<p>\u00c9 perfeitamente leg\u00edtimo estudar a presen\u00e7a da religi\u00e3o no futebol. Ali\u00e1s, seria dif\u00edcil ignor\u00e1-la. Ali\u00e1s, todo ano, em maio, codirigimos um curso de <a href=\"https:\/\/www.ibdr.org.br\/eventos\/voce-esta-pronto-para-viver-uma-experiencia-juridica-internacional-inesquecivel\/\">Direito e Religi\u00e3o<\/a> na Universidade Aut\u00f4noma de Madri, que tem uma disciplina exatamente sobre isso. Igrejas desenvolvem trabalhos de capelania, atletas participam de cultos, jogadores falam publicamente sobre convers\u00e3o, fam\u00edlias s\u00e3o alcan\u00e7adas por comunidades religiosas e manifesta\u00e7\u00f5es de f\u00e9 aparecem antes, durante e depois das partidas. Ent\u00e3o, este fen\u00f4meno existe e merece ser compreendido, antes de recha\u00e7ado.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Por que uma explica\u00e7\u00e3o t\u00e3o fr\u00e1gil, associando o fracasso da Sele\u00e7\u00e3o Brasileira \u00e0 quantidade de evang\u00e9licos no time, encontrou tamanha receptividade?<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>O que n\u00e3o existe \u00e9 qualquer demonstra\u00e7\u00e3o s\u00e9ria de que a confiss\u00e3o religiosa de um atleta determine sua capacidade de finalizar, marcar, organizar o meio-campo ou interpretar um sistema t\u00e1tico. A pr\u00f3pria hist\u00f3ria da sele\u00e7\u00e3o desmente a caricatura: o time campe\u00e3o de 1994 tinha um grupo expressivo de jogadores evang\u00e9licos, entre eles Taffarel e Jorginho, e o pentacampeonato de 2002 tamb\u00e9m contou com atletas publicamente identificados com a f\u00e9 evang\u00e9lica, como Kak\u00e1 e L\u00facio. O confrade de IBDR e fil\u00f3sofo cat\u00f3lico Francisco Razzo <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/vozes\/francisco-razzo\/evangelicos-decadencia-futebol-brasileiro\/\">j\u00e1 mostrou, aqui na <strong>Gazeta<\/strong>, a inconsist\u00eancia da ponte imagin\u00e1ria entre a expans\u00e3o evang\u00e9lica e o placar<\/a>. Nosso interesse, portanto, \u00e9 avan\u00e7ar uma casa: por que uma explica\u00e7\u00e3o t\u00e3o fr\u00e1gil encontrou tamanha receptividade?<\/p>\n<p>A resposta parece estar menos no futebol e mais na profunda transforma\u00e7\u00e3o religiosa do Brasil. O Censo de 2022 registrou que os evang\u00e9licos j\u00e1 representam 26,9% da popula\u00e7\u00e3o com 10 anos ou mais (agora j\u00e1 passa dos 30%, com certeza), depois de corresponderem a 21,6% em 2010, enquanto levantamentos jornal\u00edsticos apontaram que mais de tr\u00eas quartos dos convocados para a Copa professavam alguma forma de f\u00e9 evang\u00e9lica. Esses n\u00fameros n\u00e3o provam qualquer rela\u00e7\u00e3o entre religi\u00e3o e desempenho esportivo, mas demonstram algo muito mais importante: o evang\u00e9lico brasileiro deixou de ser uma presen\u00e7a marginal, quase invis\u00edvel, distante dos centros de visibilidade e facilmente ignorada pela elite cultural. Ele agora aparece nas telas, nos est\u00e1dios, nas universidades, nas empresas, nas artes, nas institui\u00e7\u00f5es, no parlamento e em praticamente todos os lugares nos quais a sociedade brasileira pensa, trabalha, decide e se representa.<\/p>\n<p>Durante muito tempo, para parte das elites nacionais, o evang\u00e9lico era aceit\u00e1vel enquanto permanecesse em tr\u00eas lugares: no templo, na periferia e na nota de rodap\u00e9 de alguma tese universit\u00e1ria. Podia ser objeto de pesquisa, destinat\u00e1rio de assist\u00eancia social, n\u00famero em planilha eleitoral ou personagem pitoresco de uma reportagem sobre costumes populares; o que n\u00e3o podia era tornar-se sujeito, produzir sua pr\u00f3pria interpreta\u00e7\u00e3o da realidade, formar institui\u00e7\u00f5es, influenciar debates e disputar legitimamente os rumos da vida comum. Quando servia sopa, recuperava dependentes qu\u00edmicos, visitava pres\u00eddios ou acolhia fam\u00edlias destru\u00eddas, sua presen\u00e7a era tolerada e at\u00e9 elogiada. Quando passou a falar sobre educa\u00e7\u00e3o, fam\u00edlia, bio\u00e9tica, cultura, economia, elei\u00e7\u00f5es e pol\u00edticas p\u00fablicas, tornou-se imediatamente uma amea\u00e7a ao \u201cEstado laico\u201d. Em outras palavras, o problema nunca foi apenas que o evang\u00e9lico existisse, mas que deixasse de aceitar o papel socialmente conveniente de objeto observado e passasse a agir como cidad\u00e3o.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>\u00c9 nesse ponto que uma parcela do progressismo cultural revela os limites de seu pr\u00f3prio discurso sobre diversidade. A diversidade costuma ser celebrada enquanto permanece est\u00e9tica, decorativa e politicamente d\u00f3cil; aceitam com entusiasmo a identidade que acrescenta cor \u00e0 fotografia, desde que ela n\u00e3o traga consigo convic\u00e7\u00f5es capazes de contrariar o roteiro progressista previamente aprovado. O evang\u00e9lico produz desconforto justamente porque sua identidade religiosa, quando levada a s\u00e9rio, n\u00e3o se reduz a um adere\u00e7o privado: ela organiza a compreens\u00e3o da vida, da dignidade humana, da fam\u00edlia, da justi\u00e7a, do corpo, da liberdade, do certo e do errado. Naturalmente, essas convic\u00e7\u00f5es podem ser debatidas, contestadas e criticadas, como acontece com qualquer outra vis\u00e3o de mundo. O que n\u00e3o \u00e9 democr\u00e1tico \u00e9 exigir que apenas o cidad\u00e3o religioso abandone suas premissas mais profundas antes de ingressar na esfera p\u00fablica, enquanto o progressista, o liberal, o marxista ou o secularista podem participar dela carregando integralmente suas pr\u00f3prias cren\u00e7as.<\/p>\n<p>A laicidade constitucional brasileira nunca significou a seculariza\u00e7\u00e3o compuls\u00f3ria dos cidad\u00e3os. O Estado \u00e9 laico, mas o jogador, o eleitor, o professor, o m\u00e9dico, o jornalista e o parlamentar n\u00e3o s\u00e3o obrigados a s\u00ea-lo (ali\u00e1s, isso \u00e9 crime!). Um atleta n\u00e3o deixa sua consci\u00eancia no vesti\u00e1rio quando entra em campo, assim como um deputado n\u00e3o precisa abandonar sua f\u00e9 na porta do Congresso ou um professor, na entrada da universidade. A ora\u00e7\u00e3o realizada antes de uma partida n\u00e3o transforma a CBF em igreja; o jogador ajoelhado depois do apito final n\u00e3o estabelece uma teocracia no gramado; uma declara\u00e7\u00e3o p\u00fablica de f\u00e9 n\u00e3o obriga o torcedor a compartilh\u00e1-la. A laicidade colaborativa brasileira pressup\u00f5e separa\u00e7\u00e3o entre as ordens pol\u00edtica e religiosa, mas tamb\u00e9m liberdade, benevol\u00eancia, colabora\u00e7\u00e3o e igual considera\u00e7\u00e3o com todas as cren\u00e7as, precisamente porque a finalidade da separa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 tornar a religi\u00e3o invis\u00edvel, e sim impedir que o Estado a capture, favore\u00e7a uma confiss\u00e3o ou impe\u00e7a o livre florescimento das demais.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio equiparar hist\u00f3rias distintas de sofrimento e discrimina\u00e7\u00e3o para perceber o v\u00edcio contido no argumento. Basta realizar um teste elementar: substituir a palavra \u201cevang\u00e9licos\u201d por qualquer outro grupo religioso, racial ou regional e observar o resultado. O Brasil joga pior porque h\u00e1 muitos judeus, mu\u00e7ulmanos, negros ou nordestinos na Sele\u00e7\u00e3o? A simples formula\u00e7\u00e3o j\u00e1 revelaria preconceito porque atribuir a uma identidade coletiva caracter\u00edsticas como falta de criatividade, incapacidade art\u00edstica, rigidez emocional ou inferioridade cultural \u00e9 uma forma cl\u00e1ssica de essencializa\u00e7\u00e3o. Quando o alvo \u00e9 o evang\u00e9lico, por\u00e9m, a mesma opera\u00e7\u00e3o recebe um verniz acad\u00eamico e passa a circular como interpreta\u00e7\u00e3o sofisticada da cultura nacional; alguns acham at\u00e9 \u201cbonita\u201d a tal descoberta. O preconceito n\u00e3o adquire m\u00e9todo apenas porque aprendeu algumas palavras da sociologia, nem se torna mais inteligente porque foi publicado por algu\u00e9m que sabe citar Gilberto Freyre.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Se dissessem que o Brasil joga pior porque h\u00e1 muitos judeus, mu\u00e7ulmanos, negros ou nordestinos na Sele\u00e7\u00e3o, falariam em preconceito. Quando o alvo \u00e9 o evang\u00e9lico, a mesma opera\u00e7\u00e3o vira interpreta\u00e7\u00e3o sofisticada da cultura nacional<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>A caricatura, ali\u00e1s, n\u00e3o ofende somente os evang\u00e9licos; ela tamb\u00e9m rebaixa os cat\u00f3licos, transformando uma tradi\u00e7\u00e3o religiosa riqu\u00edssima em sin\u00f4nimo de permissividade, boemia e pecado socialmente charmoso. Em algumas vers\u00f5es da tese, chega-se a romantizar o antigo jogador beberr\u00e3o, mulherengo e indisciplinado, como se o v\u00edcio fosse fonte da criatividade brasileira e a sobriedade representasse uma esp\u00e9cie de coloniza\u00e7\u00e3o protestante do corpo nacional. Trata-se de uma invers\u00e3o moral bastante curiosa: pessoas que normalmente discursam sobre sa\u00fade, responsabilidade afetiva e respeito \u00e0s mulheres passam a tratar o alcoolismo, a promiscuidade e a irresponsabilidade como componentes quase indispens\u00e1veis do futebol-arte, desde que isso sirva para ridicularizar o crente. O catolicismo n\u00e3o \u00e9 uma autoriza\u00e7\u00e3o religiosa para o desregramento, assim como o evangelicalismo n\u00e3o \u00e9 uma m\u00e1quina de produzir pessoas sem alegria, cultura ou imagina\u00e7\u00e3o. Ambas as tradi\u00e7\u00f5es s\u00e3o muito maiores, mais plurais e mais profundas do que as fantasias de seus cr\u00edticos.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o significa que os jogadores evang\u00e9licos devam receber alguma imunidade religiosa contra cr\u00edticas. N\u00e3o devem. A f\u00e9 n\u00e3o substitui treinamento, ora\u00e7\u00e3o n\u00e3o corrige posicionamento defensivo e nenhum vers\u00edculo faz a bola entrar depois de um chute mal executado. Tamb\u00e9m \u00e9 leg\u00edtimo questionar declara\u00e7\u00f5es teologicamente pobres, especialmente quando a express\u00e3o \u201cplano de Deus\u201d \u00e9 utilizada como resposta autom\u00e1tica, incapaz de distinguir a soberania divina da responsabilidade humana. Um atleta pode confiar em Deus e, ao mesmo tempo, reconhecer que jogou mal; pode agradecer pelo dom recebido e admitir que n\u00e3o se preparou adequadamente; pode orar antes da partida sem converter a Provid\u00eancia em explica\u00e7\u00e3o simplista para cada lance. Igrejas e l\u00edderes tamb\u00e9m precisam resistir \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o de transformar jogadores famosos em trof\u00e9us e plataformas de propaganda religiosa. Defender os evang\u00e9licos contra o preconceito n\u00e3o exige santificar seus erros, mas apenas conservar uma distin\u00e7\u00e3o moral e intelectual elementar: uma coisa \u00e9 criticar o comportamento, a declara\u00e7\u00e3o ou a teologia de determinada pessoa; outra \u00e9 transformar sua identidade religiosa em causa coletiva da decad\u00eancia nacional.<\/p>\n<p>A crescente influ\u00eancia evang\u00e9lica na esfera p\u00fablica brasileira produzir\u00e1 tens\u00f5es, acertos e erros, como acontece com todo grupo que participa ativamente da democracia. Evang\u00e9licos n\u00e3o s\u00e3o donos do Brasil, n\u00e3o constituem um bloco homog\u00eaneo, n\u00e3o est\u00e3o sempre certos e n\u00e3o possuem direito especial de impor suas convic\u00e7\u00f5es aos demais; entretanto, tamb\u00e9m n\u00e3o precisam pedir autoriza\u00e7\u00e3o \u00e0s antigas elites culturais para existir publicamente. Participar n\u00e3o \u00e9 dominar, influenciar n\u00e3o \u00e9 estabelecer uma teocracia e votar de acordo com a pr\u00f3pria consci\u00eancia n\u00e3o viola a laicidade. O verdadeiro pluralismo come\u00e7a quando reconhecemos ao outro n\u00e3o apenas o direito de ocupar a pra\u00e7a p\u00fablica como figura decorativa, mas a liberdade de falar a partir de convic\u00e7\u00f5es das quais discordamos profundamente. Uma democracia que aceita o religioso apenas quando ele silencia sua religi\u00e3o n\u00e3o \u00e9 pluralista; \u00e9 apenas um secularismo hegem\u00f4nico que aprendeu a falar a linguagem da toler\u00e2ncia.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>O Brasil voltar\u00e1 a ganhar uma Copa quando organizar melhor seu futebol, formar melhores jogadores, recuperar uma identidade esportiva, administrar competentemente suas institui\u00e7\u00f5es e superar seus advers\u00e1rios dentro das quatro linhas. A futura sele\u00e7\u00e3o campe\u00e3 poder\u00e1 ter evang\u00e9licos, cat\u00f3licos, esp\u00edritas, adeptos de religi\u00f5es de matriz africana, pessoas sem religi\u00e3o ou, como \u00e9 pr\u00f3prio da realidade brasileira, uma mistura de tudo isso. A bola n\u00e3o pede certificado de batismo antes de entrar no gol. O epis\u00f3dio, contudo, deixou uma li\u00e7\u00e3o que ultrapassa o esporte: o evang\u00e9lico brasileiro saiu da periferia estat\u00edstica, deixou a nota de rodap\u00e9 e entrou no centro do campo, e o verdadeiro teste de pluralismo consiste em aceitar que ele permane\u00e7a ali como cidad\u00e3o pleno, com o mesmo direito de crer, falar, discordar, influenciar e, naturalmente, tamb\u00e9m errar. A bola n\u00e3o exige certificado religioso; a democracia tampouco deveria exigir certificado de seculariza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por fim, quem realmente quiser compreender esse fen\u00f4meno, em vez de repetir bobagens nas redes sociais e projetar sobre milh\u00f5es de brasileiros as pr\u00f3prias neuroses ideol\u00f3gicas, encontrar\u00e1 uma boa oportunidade no document\u00e1rio <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=8tt4RViqg8M&amp;t=3594s\"><em>O Brasil Evang\u00e9lico<\/em><\/a>, produzido pela Brasil Paralelo, no qual tivemos a honra de atuar como consultores e tamb\u00e9m como entrevistados. Sem a pretens\u00e3o de canonizar os evang\u00e9licos ou esconder os problemas existentes em seu meio, a produ\u00e7\u00e3o faz aquilo que muitos cr\u00edticos se recusam a fazer: escuta pessoas reais, percorre diferentes tradi\u00e7\u00f5es, recupera a hist\u00f3ria do protestantismo brasileiro e apresenta a extraordin\u00e1ria capilaridade social, cultural e pol\u00edtica de um movimento que n\u00e3o pode mais ser explicado por meia d\u00fazia de estere\u00f3tipos.<\/p>\n<p>Antes de culpar a f\u00e9 dos jogadores pela derrota da Sele\u00e7\u00e3o ou reduzir o evang\u00e9lico a uma caricatura de internet, talvez seja recomend\u00e1vel dedicar algumas horas a conhec\u00ea-lo; afinal, discordar depois de conhecer \u00e9 pr\u00f3prio do debate democr\u00e1tico, mas condenar sem conhecer \u00e9 apenas preconceito com vocabul\u00e1rio pretensamente sofisticado.<\/p>\n<\/div>\n<p>Conte\u00fado editado por: <a title=\"Link para o perfil de Marcio Antonio Campos\" href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/autor\/marcio-antonio-campos\/\">Marcio Antonio Campos<\/a><\/p>\n<p>Encontrou algo errado na mat\u00e9ria?<\/p>\n<p>Comunique erros<\/p>\n<p>Use este espa\u00e7o apenas para a comunica\u00e7\u00e3o de erros<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os evang\u00e9licos L\u00facio (esq.) e Kak\u00e1 (dir.) 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