{"id":579802,"date":"2026-07-24T08:06:23","date_gmt":"2026-07-24T12:06:23","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=579802"},"modified":"2026-07-24T08:06:23","modified_gmt":"2026-07-24T12:06:23","slug":"dois-intelectuais-franceses-se-rebelam-contra-a-eutanasia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=579802","title":{"rendered":"Dois intelectuais franceses se rebelam contra a eutan\u00e1sia"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody-module-scss-module__8_WGKG__postBodyContainer\">\n<p>Quando a lei que introduz a ajuda ativa para morrer estava prestes a ser aprovada na Fran\u00e7a, o escritor Michel Houellebecq e Laurent Fr\u00e9mont, professor da Sciences Po e cofundador do grupo \u201cDemocracia, \u00c9tica e Solidariedade\u201d, rebelaram-se em um artigo de opini\u00e3o publicado na revista <em>Le Point<\/em>.<\/p>\n<p>O texto da lei foi aprovado em tr\u00eas ocasi\u00f5es pela Assembleia Nacional e rejeitado em outras tantas pelo Senado. Em 15 de julho, os deputados deram a palavra final em uma vota\u00e7\u00e3o definitiva, sem possibilidade de emendas.<\/p>\n<p>Houellebecq e Fr\u00e9mont come\u00e7am lembrando a m\u00e1xima de Toynbee de que as civiliza\u00e7\u00f5es n\u00e3o morrem assassinadas: elas se suicidam. A met\u00e1fora se tornaria agora uma pol\u00edtica oficial. \u201cAntes que os deputados levantem a m\u00e3o, talvez n\u00e3o seja in\u00fatil perguntar-se o que \u00e9 uma civiliza\u00e7\u00e3o e como se reconhece que ela est\u00e1 chegando ao fim.\u201d<\/p>\n<p>Vico dedicou sua vida a investigar o que as na\u00e7\u00f5es t\u00eam em comum e destacou tr\u00eas elementos: religi\u00e3o, casamentos e sepulturas; e acresentou que <em>humanitas<\/em> procede de <em>humare<\/em>, sepultar: \u201cA humanidade recebe seu nome pelo cuidado com os seus mortos\u201d. Fustel de Coulanges comprovar\u00e1 isso na cidade antiga: antes da \u00e1gora, o t\u00famulo. A humanidade come\u00e7a a\u00ed: \u201cno momento em que ainda se d\u00e1 a quem j\u00e1 n\u00e3o devolver\u00e1 nada\u201d.<\/p>\n<p>A civiliza\u00e7\u00e3o criou um \u201csistema de exce\u00e7\u00f5es\u201d: o domingo, a noite, a inf\u00e2ncia, o leito de morte. \u201cA modernidade as eliminou uma a uma: o domingo caiu, a noite se desvaneceu, a inf\u00e2ncia se transformou em um mercado. Restava o leito do moribundo, \u00faltimo territ\u00f3rio onde a utilidade n\u00e3o tinha lugar. Chesterton s\u00f3 pedia uma coisa antes de retirar uma cerca: saber por que ela tinha sido colocada; esta tem a antiguidade da esp\u00e9cie humana, e vai ser retirada com um levantar de m\u00e3os.\u201d Os autores do artigo chamam de <em>desciviliza\u00e7\u00e3o<\/em> a rejei\u00e7\u00e3o da \u00faltima exce\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Norbert Elias dedicou uma de suas \u00faltimas obras \u00e0 solid\u00e3o dos moribundos, apontam Houellebecq e Fr\u00e9mont. \u201cNossas sociedades s\u00e3o as primeiras da hist\u00f3ria a ocultar a agonia, a tir\u00e1-la da vista, porque desmente com crudeza excessiva a promessa de autonomia perp\u00e9tua. A eutan\u00e1sia leva esse inc\u00f4modo \u00e0 sua conclus\u00e3o l\u00f3gica: j\u00e1 que n\u00e3o se pode eliminar a morte, elimina-se o moribundo; o problema n\u00e3o \u00e9 resolvido, \u00e9 arquivado.\u201d E \u00e9 descrita com a habitual linguagem edulcorada: n\u00e3o se mata, \u201cacompanha-se\u201d; n\u00e3o h\u00e1 agonia, mas sim \u201citiner\u00e1rios de fim de vida\u201d; a inje\u00e7\u00e3o letal \u00e9 chamada de \u201cajuda ativa para morrer\u201d. \u201cAs civiliza\u00e7\u00f5es nomeiam; as desciviliza\u00e7\u00f5es rebatizam.\u201d<\/p>\n<p>L\u00e9vinas dizia que o rosto do outro, antes de qualquer palavra, pronuncia um \u00fanico mandamento: n\u00e3o matar\u00e1s; e \u201cnenhum rosto est\u00e1 mais indefeso do que o de um moribundo\u201d. A proibi\u00e7\u00e3o da eutan\u00e1sia protegia aqueles que j\u00e1 n\u00e3o podem fazer nada: \u201cnisso se distingue uma proibi\u00e7\u00e3o de um c\u00e1lculo\u201d.<\/p>\n<p>Liberdade, autonomia, cada um dono do seu pr\u00f3prio fim: o discurso n\u00e3o carece de for\u00e7a, reconhecem os autores. \u201cIllich tinha descrito, nos anos setenta, a expropria\u00e7\u00e3o da morte pela medicina moderna; a eutan\u00e1sia pretende devolv\u00ea-la a n\u00f3s.\u201d Assim, a morte, concedida ap\u00f3s a tramita\u00e7\u00e3o de um processo, nos \u00e9 vendida como o triunfo da autonomia. Na realidade, a eutan\u00e1sia n\u00e3o nos restitui a morte, mas sim muda o seu dono. \u201cEstranho direito que anula o seu titular, \u00fanica liberdade que se consuma ao consumir o seu sujeito.\u201d O novo direito ser\u00e1 concedido mediante \u201cuma pergunta que, sussurrada ao lado do leito de um idoso que sabe que \u00e9 um fardo, cont\u00e9m sua pr\u00f3pria resposta. Os doentes n\u00e3o ler\u00e3o os regulamentos de aplica\u00e7\u00e3o; ler\u00e3o os olhares.\u201d<\/p>\n<p>De dinheiro n\u00e3o se falar\u00e1. \u201cAs cifras, no entanto, s\u00e3o simples: um moribundo custa dinheiro, um morto n\u00e3o custa nada.\u201d O civilizado \u00e9 construir asilos; a nova lei opta pelo mais r\u00e1pido e praticamente gratuito. \u201cO que come\u00e7ou como compaix\u00e3o termina em contabilidade.\u201d<\/p>\n<p>\u201cA liberdade de morrer \u00e9 uma liberdade interior; quando se transforma em um servi\u00e7o p\u00fablico, muda de natureza e de campo. Rilke suplicava que a cada um fosse concedida a sua pr\u00f3pria morte, aquela que amadurece no interior de uma vida como o seu fruto; um s\u00e9culo mais tarde, responde-se a ele com uma morte sob medida: programada, dosada, homologada.\u201d<\/p>\n<p><em>Humanitas<\/em> proviria de <em>humare<\/em>: devemos o nome ao cuidado dos nossos mortos e, com maior raz\u00e3o, dos moribundos. Se a lei for aprovada, nada de vis\u00edvel acontecer\u00e1. \u201cSimplesmente, a \u00faltima exce\u00e7\u00e3o ter\u00e1 se extinto.\u201d<\/p>\n<p><strong>\u00a92026 Aceprensa. Publicado com permiss\u00e3o. Original em espanhol: <a href=\"https:\/\/www.aceprensa.com\/el-observatorio\/dos-intelectuales-franceses-se-rebelan-contra-la-eutanasia\/\">Dos intelectuales franceses se rebelan contra la eutanasia<\/a>.<\/strong><\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando a lei que introduz a ajuda ativa para morrer estava prestes a ser aprovada na Fran\u00e7a, o escritor Michel&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":579803,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[204],"tags":[],"class_list":["post-579802","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ultimas-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/579802","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=579802"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/579802\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/579803"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=579802"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=579802"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=579802"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}