{"id":577048,"date":"2026-07-23T07:48:29","date_gmt":"2026-07-23T11:48:29","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=577048"},"modified":"2026-07-23T07:48:29","modified_gmt":"2026-07-23T11:48:29","slug":"christopher-nolan-traiu-homero","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=577048","title":{"rendered":"Christopher Nolan traiu Homero?"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody-module-scss-module__8_WGKG__postBodyContainer\">\n<p><em>\u201cA obra liter\u00e1ria s\u00f3 pode ser recebida atrav\u00e9s de s\u00edmbolos, de conceitos \u2013 pois \u00e9 isso que as palavras s\u00e3o; mas o cinema, como a m\u00fasica, permite uma percep\u00e7\u00e3o inteiramente imediata, emocional e sens\u00edvel da obra.\u201d<\/em> (Tarkovski)<\/p>\n<p>Um dos maiores (se n\u00e3o o maior) cineastas de todos os tempos, o epigrafado Andrei Tarkovski \u2013 sobre o qual j\u00e1 escrevi algumas vezes nesta <strong>Gazeta do Povo<\/strong>, a come\u00e7ar por <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/vozes\/paulo-cruz\/andrei-tarkovski-o-cinema-em-poesia-e-sacrificio\/\">aqui<\/a> \u2013, sonhou durante grande parte de sua vida em adaptar para o cinema uma obra-prima indiscut\u00edvel: <em>O Idiota<\/em>, de seu conterr\u00e2neo Fi\u00f3dor Dostoi\u00e9vski. O projeto era ambicioso, pois, segundo ele mesmo diz, em <em>Esculpir o Tempo<\/em>: \u201cnem toda a prosa pode ser transferida para a tela. Algumas obras possuem uma grande unidade no que diz respeito aos elementos que a constituem, e a imagem liter\u00e1ria que nelas se manifesta \u00e9 original e precisa\u201d. Esse era o caso de <em>O Idiota<\/em>. O projeto, no entanto, foi frustrado pela burocracia sovi\u00e9tica, costumeiro algoz de Tarkovski durante toda a sua carreira.<\/p>\n<p>Tarkovski adaptou outras obras liter\u00e1rias. Seu primeiro filme, <em>A Inf\u00e2ncia de Ivan<\/em>, \u00e9 baseado no conto <em>Ivan<\/em>, de Vladimir Bogomolov; <em>Solaris<\/em>, no romance de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica hom\u00f4nimo de Stanis\u0142aw Lem; e <em>Stalker<\/em>, baseado em <em>Piquenique na Estrada<\/em>, dos irm\u00e3os Arkady e Boris Strugatsky. Todos os <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/filmes\/\">filmes <\/a>s\u00e3o obras de qualidade indiscut\u00edvel, nos quais Tarkovski aplica suas ideias sobre adapta\u00e7\u00e3o. Ele divide as obras liter\u00e1rias em dois tipos: nas do primeiro tipo, citado acima, \u201cos personagens s\u00e3o de uma profundidade insond\u00e1vel, a composi\u00e7\u00e3o tem uma extraordin\u00e1ria capacidade de encantamento, e o livro \u00e9 indivis\u00edvel. Ao longo das suas p\u00e1ginas, delineia-se a personalidade \u00fanica e extraordin\u00e1ria do autor\u201d. Esses <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/livros\/\">livros <\/a>\u201cs\u00e3o obras-primas, e film\u00e1-los \u00e9 algo que s\u00f3 pode ocorrer a algu\u00e9m que, de fato, sinta um grande desprezo pelo cinema e pela prosa de boa qualidade\u201d.<\/p>\n<blockquote>\n<p>A fidelidade de uma adapta\u00e7\u00e3o n\u00e3o se mede pela reprodu\u00e7\u00e3o da letra da obra, mas pela cria\u00e7\u00e3o de uma nova obra, a ser reproduzida em outro meio, mas que, de alguma maneira, dialogue com a original<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>As obras do outro tipo \u201cdistinguem-se pelas suas ideias, pela clareza e solidez da sua estrutura e pela originalidade do tema; esse g\u00eanero de literatura n\u00e3o parece preocupar-se com a elabora\u00e7\u00e3o est\u00e9tica das ideias que cont\u00e9m\u201d. E afirma que o conto de Bogomolov pertence a esse segundo tipo. Ap\u00f3s algumas reflex\u00f5es sobre o desenvolvimento da trama e dos personagens no livro, ele tira algumas conclus\u00f5es muito interessantes:<\/p>\n<p><em>\u201cPara mim, os personagens mais interessantes s\u00e3o aqueles exteriormente est\u00e1ticos, mas interiormente cheios da energia de uma paix\u00e3o avassaladora. Ivan revelou-se um personagem desse tipo, e esta particularidade do conto de Bogomolov tomou conta da minha imagina\u00e7\u00e3o. No entanto, eu n\u00e3o podia acompanhar o autor para al\u00e9m de tais limites. A textura emocional do conto era-me estranha. Os acontecimentos eram expostos num estilo deliberadamente impass\u00edvel, quase no tom protocolar de um relat\u00f3rio. Eu n\u00e3o poderia transpor tal estilo para o cinema, uma vez que isso teria ido contra os meus princ\u00edpios. <strong>Quando um escritor e um diretor partem de diferentes pressupostos est\u00e9ticos, o imposs\u00edvel chega a um acordo. Trata-se de algo que destr\u00f3i a pr\u00f3pria concep\u00e7\u00e3o do filme. O filme n\u00e3o acontecer\u00e1<\/strong>. Quando se verifica um tal conflito, s\u00f3 existe uma solu\u00e7\u00e3o: <strong>transformar o roteiro liter\u00e1rio em uma nova trama que, numa certa etapa da realiza\u00e7\u00e3o do filme, passa a chamar-se decupagem t\u00e9cnica<\/strong>. E, ao longo do trabalho sobre este roteiro, o autor do filme (n\u00e3o do roteiro, mas do filme) tem o direito de introduzir no enredo as modifica\u00e7\u00f5es que julgar necess\u00e1rias. <strong>Tudo o que importa \u00e9 que a sua vis\u00e3o seja coerente e integral, e que cada palavra do roteiro lhe seja cara e venha filtrada pela sua experi\u00eancia criativa pessoal<\/strong>.\u201d<\/em> (grifos meus)<\/p>\n<p>Creio que, diante do exposto, seja poss\u00edvel perguntar: Tarkovski foi fiel \u00e0 obra de Bogomolov? A resposta pode vir com outras perguntas: Fiel ao qu\u00ea? \u00c0 sequ\u00eancia dos fatos? \u00c0 psicologia das personagens? Ao estilo? \u00c0 linguagem? Ao ritmo? \u00c0 estrutura? \u00c0 cosmovis\u00e3o do autor? Lendo as reflex\u00f5es de Tarkovski, parece-me que tais questionamentos fazem pouco sentido, pois a fidelidade de uma adapta\u00e7\u00e3o n\u00e3o se mede pela reprodu\u00e7\u00e3o da letra da obra, mas pela cria\u00e7\u00e3o de uma nova obra, a ser reproduzida em outro meio, mas que, de alguma maneira, dialogue com a original. A obra liter\u00e1ria deixa de ser um modelo a ser reproduzido e passa a ser apenas o ponto de partida para uma cria\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica aut\u00f4noma.<\/p>\n<p>Do mesmo modo que, no seu projeto de adapta\u00e7\u00e3o de <em>O Idiota<\/em>, ele disse, eu seu <em>Di\u00e1rio<\/em>, que \u201co tratamento passo a passo do romance est\u00e1 fora de cogita\u00e7\u00e3o; isso contrariaria o esp\u00edrito da obra\u201d. E vai al\u00e9m, ao afirmar: \u201cpode ser que material de outros romances do escritor tenha de ser inclu\u00eddo no roteiro, a fim de esclarecer a posi\u00e7\u00e3o de Dostoi\u00e9vski\u201d.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>Pois bem. Essa semana fui assistir \u00e0 adapta\u00e7\u00e3o de Christopher Nolan de uma das obras fundacionais do Ocidente, a <em>Odisseia<\/em>. N\u00e3o me aterei \u00e0 descri\u00e7\u00e3o da obra original e nem \u00e0 import\u00e2ncia de sua estrutura para a <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/literatura\/\">literatura<\/a>, seu impacto cultural e os valores morais que, somados \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o judaico-crist\u00e3, formaram quem somos e como pensamos. O leitor, creio, j\u00e1 sabe isso muito bem. O fato de estarmos discutindo, em 2026, uma obra oriunda de uma tradi\u00e7\u00e3o oral de quase 3 mil anos j\u00e1 \u00e9, em si, um fato a se comemorar.<\/p>\n<p>Entretanto, desde que o filme come\u00e7ou a ser divulgado, a expectativa dos f\u00e3s (e dos <em>haters<\/em>) n\u00e3o parou de aumentar. A cada coment\u00e1rio, entrevista, <em>trailer<\/em>, o <em>frisson<\/em> era enorme. At\u00e9 que o elenco foi divulgado. Mais uma vez a pol\u00edtica entrou em cena e os cansativos <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/identitarismo\/\">identitarismo <\/a>e anti-identitarismo ganharam a dianteira nas discuss\u00f5es sobre o filme que nem sequer havia sido lan\u00e7ado. A suspeita de que Lupita Nyong\u02bco seria Helena de Troia causou mais discuss\u00f5es acaloradas do que a escala\u00e7\u00e3o de Halle Bailey para ser a Pequena Sereia, na mais recente adapta\u00e7\u00e3o da Disney (tratei disso <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/vozes\/paulo-cruz\/como-nao-ser-um-conservador-ou-o-caso-da-pequena-sereia-negra\/\">aqui<\/a>). Compara\u00e7\u00f5es de car\u00e1ter racista, apresentando uma imagem de Diane Kruger (a Helena de <em>Troia<\/em>, filme de 2004), toda produzida, ao lado de uma Lupita Nyong\u02bco numa cena como escrava em <em>12 Anos de Escravid\u00e3o<\/em>, circularam por meses nas redes sociais e uma indigna\u00e7\u00e3o irracional tomou conta do ambiente virtual. Para completar, Zendaya como Atena e at\u00e9 o rapper Travis Scott, como o bardo Dem\u00f3doco, tornaram a grita ainda maior.<\/p>\n<p>Curiosamente, antes mesmo de o filme chegar aos cinemas, a discuss\u00e3o p\u00fablica quase n\u00e3o dizia respeito \u00e0 adapta\u00e7\u00e3o em si. O debate foi capturado por outra quest\u00e3o: a escala\u00e7\u00e3o do elenco.<\/p>\n<p>A primeira quest\u00e3o \u00e9: qual a import\u00e2ncia da etnia dos atores na representa\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica de um poema \u00e9pico antiqu\u00edssimo? E nem \u00e9 preciso ir t\u00e3o longe: quando Akira Kurosawa fez as suas brilhantes, geniais adapta\u00e7\u00f5es de <em>O Idiota<\/em>, de <em>Macbeth<\/em> e de <em>Rei Lear<\/em>, transportando todo o contexto para o Jap\u00e3o, as hist\u00f3rias perderam seu substrato original? N\u00e3o. E quando Orson Welles representou, ele pr\u00f3prio, o general mouro Otelo, em sua adapta\u00e7\u00e3o, o substrato da hist\u00f3ria se perdeu? Tamb\u00e9m n\u00e3o. Ser\u00e1 que quando, nas montagens das trag\u00e9dias na Gr\u00e9cia Antiga, em que homens faziam o papel de mulheres, isso diminu\u00eda o impacto das obras? Arist\u00f3teles dir\u00e1 que n\u00e3o, que elas cumprem o papel cat\u00e1rtico a que se prop\u00f5em. Ent\u00e3o, qual o problema de uma Helena negra? Porque algu\u00e9m achou um verso de Homero dizendo que ela tinha a pele branca, isso se torna um problema? \u00c9 uma cr\u00edtica muito suspeita, para dizer o m\u00ednimo.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Nenhuma adapta\u00e7\u00e3o ser\u00e1 como a obra original; e arrisco dizer que qualquer diretor que tente fazer uma adapta\u00e7\u00e3o literal de uma obra liter\u00e1ria ter\u00e1 muitos problemas<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 hist\u00f3ria em si, muitos est\u00e3o dizendo: \u201cn\u00e3o \u00e9 <em>Odisseia<\/em>\u201d. Pois \u00e9, n\u00e3o \u00e9 mesmo. \u00c9 uma adapta\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica realizada em 2026. Nenhuma adapta\u00e7\u00e3o ser\u00e1 como a obra original; e arrisco dizer que qualquer diretor que tente fazer uma adapta\u00e7\u00e3o literal de uma obra liter\u00e1ria ter\u00e1 muitos problemas. Uma adapta\u00e7\u00e3o est\u00e1 sujeita \u00e0 vis\u00e3o do diretor, que pode ou n\u00e3o corroborar com a vis\u00e3o literal do autor, mas n\u00e3o poder\u00e1 reproduzi-la integralmente. Uma reprodu\u00e7\u00e3o integral da <em>Odisseia<\/em> daria um filme imenso, ou uma s\u00e9rie; mas, ainda assim, seria irreproduz\u00edvel em sua literalidade, pois trata-se de meios diferentes.<\/p>\n<p>Nolan alterou muitas coisas da hist\u00f3ria original, mas o fez de maneira coerente com a sua pr\u00f3pria vis\u00e3o de mundo. Vis\u00e3o essa que quem acompanha o seu trabalho j\u00e1 conhece. N\u00e3o \u00e0 toa, o final de <em>Odisseia<\/em> se assemelha, na mensagem que quer transmitir, ao final de <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/vozes\/paulo-cruz\/oppenheimer-epico-wagneriano\/\"><em>Oppenheimer<\/em><\/a> e outros de seus filmes. Ele seleciona o que quer transportar para a tela, muda cen\u00e1rios e at\u00e9 cenas. Mas o substrato principal da obra hom\u00e9rica est\u00e1 l\u00e1: o <em>nostos<\/em>, retorno para casa; e tamb\u00e9m a viola\u00e7\u00e3o da <em>xenia<\/em>, da hospitalidade, que era algo sagrado.<\/p>\n<p>O fato de Nolan ter abordado Odisseu como um homem fraturado pela guerra (desculpem o pequeno <em>spoiler<\/em>, mas serve at\u00e9 como um aviso sobre a quebra de expectativa) n\u00e3o \u00e9 de todo estranho ao pr\u00f3prio olhar da Antiguidade e \u00e0 recep\u00e7\u00e3o da obra posteriormente. Na pr\u00f3pria <em>Odisseia<\/em>, o choro de Odisseu, no Canto VIII, ap\u00f3s Dem\u00f3doco cantar sobre a guerra e o estratagema do Cavalo de Troia, \u00e9 sinal de que ele estava abalado com tudo o que passou. Ele \u00e9 um homem, ao mesmo tempo, orgulhoso de seus feitos, mas ferido pelas consequ\u00eancias. Eur\u00edpides, em <em>As Troianas<\/em>, refletiu sobre a devasta\u00e7\u00e3o humana provocada pela Guerra de Troia, sobretudo na vida das mulheres. E os escritores latinos s\u00e3o ainda mais severos: Virg\u00edlio, em sua <em>Eneida<\/em>, trata Odisseu (Ulisses) como um enganador ardiloso; j\u00e1 Dante Alighieri, na <em>Divina Com\u00e9dia<\/em>, coloca Ulisses no inferno.<\/p>\n<p>Se dois dos maiores escritores da tradi\u00e7\u00e3o ocidental sentiram-se livres para reinterpretar Odisseu segundo os valores de suas \u00e9pocas, por que exigir de um cineasta contempor\u00e2neo uma literalidade que jamais existiu na pr\u00f3pria tradi\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>Numa entrevista ao <em>LA Times<\/em>, Nolan diz: \u201ctenho contado essa hist\u00f3ria em todos os meus filmes h\u00e1 anos. \u00c9 uma hist\u00f3ria de fam\u00edlia, uma hist\u00f3ria de amor, uma hist\u00f3ria de vingan\u00e7a, uma hist\u00f3ria de guerra, uma hist\u00f3ria de amadurecimento. \u00c9 um texto fundamental muito forte para mim\u201d. E sobre os di\u00e1logos em linguagem contempor\u00e2nea, coloquial \u2013 alvo de muitas cr\u00edticas tamb\u00e9m \u2013, ele disse: \u201cTalvez eu estivesse sendo ing\u00eanuo, isso pode me prejudicar, mas eu queria uma narrativa realista. Para mim, foi uma escolha \u00f3bvia\u201d.<\/p>\n<p>O c\u00e9lebre cr\u00edtico de cinema da Andr\u00e9 Bazin, em seu artigo \u201cPor um cinema impuro: defesa da adapta\u00e7\u00e3o\u201d, publicado na obra <em>O que \u00e9 Cinema?<\/em>, diz coisas preciosas a respeito das adapta\u00e7\u00f5es cinematogr\u00e1ficas. Ele diz, por exemplo, que \u201co drama da adapta\u00e7\u00e3o \u00e9 o da vulgariza\u00e7\u00e3o\u201d, e exemplifica de maneira excepcional:<\/p>\n<p><em>\u201cPudemos ler num artigo publicit\u00e1rio do interior esta defini\u00e7\u00e3o do filme <\/em>Amantes eternos<em> [<\/em>La Chartreuse de Parme<em>, de Christian-Jaque, 1948]: \u02bbBaseado no c\u00e9lebre romance de capa e espada\u02bc. A verdade sai por vezes da boca dos comerciantes de filme que nunca leram Stendhal. Devemos condenar por isso o filme de Christian-Jaque? Sim, na medida em que traiu o essencial da obra, e em que acreditamos que tal trai\u00e7\u00e3o n\u00e3o era fatal. N\u00e3o, se consideramos, em primeiro lugar, que essa adapta\u00e7\u00e3o \u00e9 de qualidade superior ao n\u00edvel m\u00e9dio dos filmes, e que ela constitui ainda, afinal de contas, uma sedutora introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 obra de Stendhal, \u00e0 qual ela certamente rendeu novos leitores. <strong>\u00c9 absurdo indignar-se com as degrada\u00e7\u00f5es sofridas pelas obras-primas liter\u00e1rias na tela, pelo menos em nome da literatura. Pois, por mais aproximativas que sejam as adapta\u00e7\u00f5es, elas n\u00e3o podem causar danos ao original junto \u00e0 minoria que o conhece e aprecia; quanto aos ignorantes, das duas uma: ou se contentar\u00e3o com o filme, que certamente vale qualquer outro, ou ter\u00e3o vontade de conhecer o modelo, o que \u00e9 um ganho para a literatura<\/strong>.\u201d <\/em>(Grifo meu)<\/p>\n<p>E mais \u00e0 frente dir\u00e1 que \u201ca boa adapta\u00e7\u00e3o deve conseguir restituir o essencial da letra e do esp\u00edrito\u201d. E creio, de verdade, que Nolan faz isso em seu <em>Odisseia<\/em>. Ele traduz um personagem complexo como Odisseu para um p\u00fablico contempor\u00e2neo, saturado de guerras. O seu hero\u00edsmo \u00e9 acrescido de uma reflex\u00e3o importante \u2013 e conservadora: n\u00e3o h\u00e1, de fato, her\u00f3is; h\u00e1 acordos e prud\u00eancia.<\/p>\n<p>Procure a maior tela de cinema que puder, com o melhor som, e assista ao filme de Christopher Nolan de cora\u00e7\u00e3o aberto. Quer ter a fidelidade da obra de Homero, leia Homero.<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cA obra liter\u00e1ria s\u00f3 pode ser recebida atrav\u00e9s de s\u00edmbolos, de conceitos \u2013 pois \u00e9 isso que as palavras s\u00e3o;&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":577049,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[204],"tags":[],"class_list":["post-577048","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ultimas-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/577048","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=577048"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/577048\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/577049"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=577048"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=577048"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=577048"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}